sábado, 9 de abril de 2011

Dossiê Espírito de Verdade

(In: O Espírito das Revelações, Lachâtre, 2001.)

Por Sérgio Fernandes Aleixo

“(...) discutiremos, mas não disputaremos. (...) há polêmica e polêmica; e há uma diante da qual não recuaremos jamais, que é a discussão séria dos princípios que professamos”. Allan Kardec (Revista espírita. Janeiro de 1858. Introdução. Novembro de 1858. Polêmica espírita.)

Observação: Esta matéria, publicada no livro, de nossa autoria, O ESPÍRITO DAS REVELAÇÕES (Lachâtre, 2001), constitui uma resposta a um artigo que na imprensa espírita foi certa vez publicado. Pela extensão deste nosso material, aquele órgão de comunicação julgou por bem publicá-lo apenas em parte. Como nosso objetivo é sempre tão-só esclarecer, e convicto de que respondemos aqui a muitas indagações acerca do assunto, entregamo-lo ao leitor. Não identificamos o articulista a que nos referimos, bem como o periódico. Nosso intuito é apenas a produção de conhecimento espírita, e nada mais.


Qualquer estudo reclama perseverança, máxime no âmbito da doutrina espírita. Não há razões para hesitarmos no que respeita à individualidade e à identidade do Espírito de Verdade. A obra de Kardec é a fonte impoluta a que devemos recorrer para dirimir quaisquer dúvidas em matéria de espiritismo. Assim também deve ser neste caso.

Necessário considerarmos primeiramente que o Espírito de Verdade não é uma falange. Esse conceito, aliás, não é da codificação. Para Kardec, em definitiva, o Espírito de Verdade é “inspirador” e “presidente” do “ensino” de uma “doutrina soberanamente consoladora”, personificada no Evangelho segundo João sob o nome de “Consolador”. (Cf. A gênese, XVII:39 e 40. O evangelho segundo o espiritismo, VI:4.)

Portanto, trata-se de um espírito, não de vários. A tal respeito, o mestre de Lyon assim se exprimiu: “A qualificação de Espírito de Verdade não pertence senão a um e pode ser considerada como nome próprio; ela é especificada no Evangelho. De resto, esse espírito se comunica raramente, e somente em circunstâncias especiais; deve-se manter em guarda contra aqueles que se apoderam indevidamente desse título”. (Revista espírita. Julho de 1866. Qualificação de santo aplicada a certos espíritos. IDE, Tomo IX, p. 222.)

O Espírito de Verdade, ao demais, assina O livro dos espíritos juntamente com outras individualidades espirituais; fosse ele o nome de uma coletividade de espíritos e tornaria inúteis as demais assinaturas. (Cf. Exposição Preliminar, ou Prolegômenos.)

Superada esta questão da individualidade do Espírito de Verdade, elucidemos o problema crucial de sua identidade.

Em 25 de março de 1856, o guia espiritual do mestre lionês disse-lhe: “Para ti chamar-me-ei a Verdade”. (Cf. Obras póstumas.) Evidente, para nós, que é Jesus, o único espírito que se pode declarar dessa forma sem prejuízo à sua honestidade. (Cf. João 14:6.) Mas, a fim de confirmarmos isso em termos rigorosamente kardecianos, basta uma consulta ao item 48 de O livro dos médiuns, no qual, ao refutar o sistema unispírita, o codificador trata Jesus por “o Espírito da Verdade”, “o Espírito do bem por excelência”, “santo entre todos”. Este texto não permite ambigüidades. É inapelável. Não podemos desmenti-lo sem desmentir o próprio Allan Kardec. Poderíamos encerrar aqui este assunto. O Espírito de Verdade é Jesus!

Porém, na mesma obra, devemos perscrutar ainda a nota do mestre lionês à dissertação IX do capítulo XXXI. Tal dissertação, que em O livro dos médiuns aparece assinada por “Jesus de Nazaré”, figura em O evangelho segundo o espiritismo (VI:5) como de autoria de “o Espírito de Verdade”, o que constitui prova inconcussa de que ambos são a mesma individualidade.

Diz Kardec que o espiritismo “é obra do Cristo, que preside, conforme também o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra”. (O evangelho segundo o espiritismo, I:7.) Ao mesmo tempo, afirma também o codificador, indistintamente, que “o Espírito de Verdade preside ao grande movimento da regeneração”, e que esse espírito “é o verdadeiro Consolador” (A gênese, I:42), decerto, o mesmo “Cristo Consolador” do capítulo VI de O evangelho segundo espiritismo.

Se ainda hesitarmos, é só conferirmos o que é dito ao mestre quando escreve, em Ségur, O evangelho segundo o espiritismo: “Acaba a tua obra e conta com a proteção do teu guia, guia de todos nós (...) Conta conosco e conta sobretudo com a grande alma do mestre de todos nós, que te protege de modo muito particular”. (Obras póstumas, 9 de agosto de 1863.)

Além destas provas, há outras ainda.

Na Revista espírita de outubro de 1861, o prudentíssimo Erasto revela em sua epístola aos espíritas lioneses: “(...) o Espírito de Verdade, nosso mestre bem-amado (...)”. (IDE, Tomo IV, p. 303.) Já na Revista espírita de janeiro de 1864, o sábio Hahnemann afirma: “(...) o Espírito de Verdade, que dirige este Globo (...)”. (Um caso de possessão. Senhorita Julie. IDE, Tomo VII, p. 16.)

Em maio de 1864, o Espírito de Verdade comunicou-se em termos reveladores, dizendo, entre outras coisas, o seguinte: “Há dezoito séculos eu vim, por ordem de meu Pai (...). Hoje, por ordem do Eterno, os bons espíritos, seus mensageiros, vêm sobre todos os pontos do globo fazer ouvir a trombeta retumbante. Escutai as suas vozes; são aquelas destinadas a vos mostrar o caminho que conduz aos pés do Pai celeste. Sede dóceis aos seus ensinos; os tempos preditos são chegados; todas as profecias serão cumpridas (...)”. (Revista espírita. Dezembro de 1864. Comunicação espírita. A propósito de A Imitação do Evangelho. IDE, Tomo VII, p. 399.)

Em sua nota à citada comunicação, Kardec mostra a circunspecção, a cautela e a modéstia que sempre o caracterizaram, ressaltando, porém, que, descartadas as evidentemente apócrifas, em muitas comunicações que trazem o nome Espírito de Verdade, ou o nome Jesus, “(...) embora obtidas por médiuns diferentes e em épocas diferentes, nota-se entre elas uma analogia evidente de tom, de estilo e de pensamentos que acusa uma fonte única.” (Ibidem, p. 400.)

Numa comunicação de 9 de abril de 1856, o guia espiritual de Kardec dizia ao então futuro codificador do espiritismo, entre outras coisas: “Nesse mundo, a vida material é muito de ter-se em conta; não te ajudar a viver seria não te amar”. Em nota que bem mais tarde apôs a essa comunicação, o próprio mestre lionês demonstra ter vindo a saber quem era esse guia, e demonstra ainda ter-se surpreendido bastante com isso: “A proteção desse espírito, cuja superioridade eu então estava longe de imaginar, jamais, de fato, me faltou”. (Obras póstumas. 25 de março de 1856.)

Ora! Em termos rigorosamente kardecianos está dirimida esta dúvida quanto à individualidade e à identidade do Espírito de Verdade. Ele é único! Ele é Jesus! A menos que não confiemos em Kardec e nos espíritos da codificação.

Resta então apenas o problema da exegese escriturística, e esse é outro departamento, mas que também pode ser elucidado pela aplicação adequada do conhecimento espírita.

Quando Jesus disse que enviaria o Consolador, o Espírito de Verdade, se referiu simbolicamente à doutrina, nada obstante a, por outro lado, afirmar: “A vós convém que eu vá, porque, se eu não for, não virá a vós o paráclito (...) Não vos deixarei órfãos, voltarei a vós outros (...) Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora (...) Estas cousas vos tenho dito por meio de figuras; vem a hora em que não vos falarei por meio de comparações, mas vos falarei claramente a respeito do Pai”. (João 14:18; 16:7,12 e 25.) Isto já nos convida ao entendimento de que o próprio Jesus se encarregaria, mais tarde, de ensinar espiritualmente aquilo que não pudera quando encarnado.

Não há contradição. Há simbologia. Não nos informou João Evangelista que, pela compreensão do espiritismo, explicados, os “erros” se tornariam verdades? (Cf. O evangelho segundo o espiritismo, VIII:18.)

Por ser o Espírito de Verdade o próprio Jesus e por esse fato constituir o cumprimento das profecias acima citadas é que o mestre lionês assegurou, convicto: “Jesus reservou para si a completação ulterior de seus ensinamentos”. (A gênese, XVII:37.) Claro que o Cristo não estava sozinho, fez-se acompanhar de numerosa coletividade superior, a qual, por ter o seu comando direto, foi chamada “falange do Espírito de Verdade”, ou “do Consolador”. O Espírito de Verdade (segundo Kardec, “o verdadeiro Consolador”) não é, portanto, a falange em si, mas o comandante dela, o que é muito diferente.

Se o Espírito de Verdade fosse uma coletividade de espíritos, razão não haveria para que a promessa de sua vinda não houvesse sido cumprida no dia de pentecostes, como afirmam as igrejas ter acontecido, pois o que ocorreu naquele dia foi justamente um encontro mediúnico entre o apostolado cristão primitivo e uma excelsa coletividade de espíritos. (Cf. Atos, 2.)

Allan Kardec, porém, diz em A gênese (cf. XVII:42) que, no pentecostes, não se cumpriu o que Jesus profetizara do Consolador. E por quê? Porque as características declinadas pelo Cristo não se referiam propriamente a uma coletividade de espíritos, mas a uma doutrina; a chefia dessa coletividade e a responsabilidade maior pelo advento de tal doutrina é do Espírito de Verdade: inapelavelmente, Jesus. Kardec e os espíritos superiores é que o asseguram.

Ora! Se a codificação a define tão claramente, não podemos considerar esta verdade como simples conjectura. Ou será que estamos nos esforçando em cumprir aquela profecia do Espírito de Verdade, a qual adverte para o fato de que as melhores instruções de Kardec seriam desprezadas e falseadas? (Cf. Obras póstumas, 12 de junho de 1856.)

Ouçamos, por fim, o que nos diz o instrutor espiritual Alexandre, em Missionários da luz, obra ditada por André Luiz ao médium Francisco Cândido Xavier: “Por que audácia incompreensível imaginais a realização sublime sem vos afeiçoardes ao Espírito de Verdade, que é o próprio Senhor?”. (Cf. 21ª ed., FEB, 1988, p. 99). Alguma dúvida, leitor amigo?

No que tange às objeções ao fato de ser Jesus o Espírito de Verdade, nós as respeitamos enquanto expressão das possibilidades de estudo e compreensão daqueles que as utilizam... Entretanto, repetimos a frase com que iniciamos este artigo: Qualquer estudo reclama perseverança, máxime no âmbito da doutrina espírita.

Fonte: Revista Internacional de - Março/2000

domingo, 3 de abril de 2011

As Advertências de Kardec a Roustaing e a Profecia de Erasto

Por Sérgio Aleixo

Na Revista Espírita de junho de 1863 há um artigo kardeciano sobre a não retrogradação dos Espíritos. Este texto foi citado pelo advogado de Bordéus e submetido ao exame dos autores espirituais de Os Quatro Evangelhos no número 59 da obra. Os guias da pretendida Revelação da Revelação concluíram que os que pensam ser a encarnação uma necessidade geral “não foram esclarecidos, ou não refletiram bastante”.

Kardec diz em seu artigo de junho de 1863 que a ideia rustenista de que “os Espíritos não teriam sido criados para encarnarem”, que “a encarnação seria tão somente o resultado de sua falta”, constitui um sistema “especioso à primeira vista”, e que “tal sistema cai pela mera consideração de que, se nenhum Espírito tivesse falido, não haveria homens na Terra, nem em outros mundos”.

Segundo o Codificador, o homem “é uma das engrenagens essenciais da criação” e, por esta razão, “Deus não podia subordinar a realização desta parte de sua obra à queda eventual de suas criaturas, a menos que contasse para tanto com um número sempre suficiente de culpados para fornecer operários aos mundos criados e por criar”. Para Kardec: “O bom-senso repele tal ideia”.

Mas a isto responderam os guias de Roustaing: “A última frase deve ser riscada”. E mesmo confessando que era “cedo” para resolver a “origem do Espírito” — em relação ao quê, aliás, Kardec já recomendara máxima cautela[1] —, os guias rustenistas exortaram a vaidade da sensitiva e do próprio jurisconsulto assim:

Utilizai-vos do que vos dizemos [sobre a origem das coisas], porquanto, ao tempo em que este vosso trabalho aparecer aos olhos de todos, os Espíritos encarnados já se acharão mais dispostos a receber o que então [quando, em O Livro dos Espíritos, foi dito que o Espírito era criado simples e ignorante], e mesmo hoje [abril de 1863], tomariam por uma monstruosidade, ou por uma tolice ridícula.[2]

Kardec reafirmou em seu artigo de junho de 1863 a doutrina de O Livro dos Espíritos e negou a tese rustenista que assegura que a reencarnação é ocasionada por castigo a Espíritos faltosos. Isto prova irrefutavelmente que não é verdadeira a propaganda centenária da F.E.B., a qual sempre deu conta de que Kardec e Roustaing só divergiam quanto à natureza do corpo de Jesus, concordando em tudo mais.

O Codificador disse em alto e bom som que o estado primitivo do Espírito não é o de “inocência inteligente e raciocinada”. Estes termos utilizados pelo mestre lionês em junho de 1863 resumem com precisão as teses “especiosas” da Revelação da Revelação que, no entanto, somente seria publicada três anos depois. Se não, vejamos:

Atingindo o ponto de preparação para entrarem no reino humano, os Espíritos se preparam, de fato, em mundos ad-hoc, para a vida espiritual consciente, independente e livre. É nesse momento que entram naquele estado de inocência e de ignorância. A vontade do soberano Senhor lhes dá a consciência de suas inocência e faculdades e, por conseguinte, de seus atos, consciência que produz o livre-arbítrio, a vida moral, a inteligência independente e capaz de raciocínio, a responsabilidade. Chegado deste modo à condição de Espírito formado, de Espírito pronto para ser humanizado se vier a falir, o Espírito se encontra num estado de inocência completa, tendo abandonado, com os seus últimos invólucros animais, os instintos oriundos das exigências da animalidade. [...] Os que se conservam puros também desenvolvem atividades e inteligência, a fim de progredirem, no estado fluídico, por meio dos esforços espirituais que necessitam fazer para, da fase de inocência e de ignorância, de infância e de instrução, chegarem, sem falir, à perfeição![3]

Esta flagrante coincidência de vocábulos e a citação, no número 59 de Os Quatro Evangelhos, da absoluta negativa de Kardec à tese da “queda” evidenciam que, de alguma sorte, já em 1863, o Codificador havia tomado ciência do material que estava sendo compilado por Roustaing desde dezembro de 1861. Ponderava o saudoso confrade Gélio Lacerda da Silva, ex-presidente da Federação Espírita do Estado do Espírito Santo:

Para entender como Kardec contestou, em 1863, um assunto que Roustaing veiculou no seu livro, publicado em 1866, tudo leva a crer que Roustaing, antes do seu livro vir a público, já divulgava o seu conteúdo. Foi em abril de 1863 que os Espíritos mistificadores ditaram a Roustaing, através de Mme. Collignon, o ensino antidoutrinário de que o Espírito só será humanizado se vier a falir, conforme nota de rodapé da pág. 295, 1.º volume, 5.ª ed. de Os Quatro Evangelhos; portanto, não há dúvida de que Kardec, em junho de 1863, no seu referido artigo, se louvou na mensagem ditada a Roustaing em abril de 1863.[4]

E aduzo a isto um fato relevante. O Codificador, certa vez, publicou carta da médium Émilie Collignon encaminhando a si ditados espirituais. Acreditara a sensitiva que um desses comunicados era de um espírito que, antes, se apresentara a Kardec em substituição ao de Gérard de Codemberg. Rebatidos os argumentos da médium, o gênio lionês diz-lhe que o texto “apresenta todos os caracteres de uma comunicação apócrifa.”[5]

A seguir, Kardec publica mensagem do Espírito Bernardin à mesma sensitiva, na qual se apregoa na conta de “pensamento filosófico”, “cheio de sabedoria”, o suposto fato de que “somos uma essência criada pura, mas decaída; pertencemos a uma pátria onde tudo é pureza; culpados, fomos exilados por algum tempo, mas só por algum tempo”. Já era a doutrina rustenista da queda do espírito!

Em clara reparação, o mestre recomenda, entre parênteses, a leitura de seu aclamado artigo de janeiro de 1862, sobre a doutrina dos anjos decaídos, bem como, em sua observação final, adverte para o perigo de, em certas comunicações, espíritos não muito elevados emitirem opiniões pessoais, que refletem apenas sistemas e ideias nem sempre justos acerca dos homens e das coisas. Segundo Kardec:

Publicadas sem corretivo, essas ideias falsas apenas lançarão descrédito sobre o Espiritismo, fornecerão armas aos seus inimigos e semearão a dúvida e a incerteza entre os neófitos. Com os comentários e as explicações dados a propósito, o próprio mal por vezes se torna instrutivo. Sem isto poderiam responsabilizar a doutrina por todas as utopias enunciadas por certos Espíritos mais orgulhosos que lógicos. Se o Espiritismo pudesse ser retardado em sua marcha, não seria pelos ataques abertos de seus inimigos declarados, mas pelo zelo irrefletido dos amigos imprudentes. Não se trata, pois, de fazer coletâneas indigestas, onde tudo se acha amontoado confusamente e cujo menor inconveniente seria aborrecer o leitor; é preciso evitar com cuidado tudo quanto possa falsear a opinião sobre o Espiritismo. Ora, tudo isto exige um trabalho que justifica a demora de tais publicações.[6]

A situação não era de todo boa para a médium, que já estava recebendo a pretensa Revelação da Revelação desde de dezembro de 1861, o que se estenderia até maio de 1865,[7] e em clima, agora, quem sabe, de provável melindre, em função destes pareceres desfavoráveis de Kardec. Anote o estudioso que o mestre lionês fala, em sua observação, sobre “Espíritos mais orgulhosos que lógicos”, “zelo irrefletido dos amigos imprudentes” e “coletâneas indigestas, onde tudo se acha amontoado confusamente e cujo menor inconveniente seria aborrecer o leitor”. Não resta dúvida! O material rustenista foi enviado a Kardec já em 1862, mas o mestre logo lhe percebeu as inconsistências e perigos.

Roustaing, portanto, pôde contar com a prévia advertência do Codificador, que se dignou até poupá-lo do ridículo, dada sua distinção social, não lhe mencionando o nome naquele artigo de junho de 1863, sobre a não retrogradação dos Espíritos. Elegante, mas firme, Kardec definiu a tese rustenista da queda como “um sistema que tem algo de especioso à primeira vista”, argumentado da forma que já destaquei de início.

O jurisconsulto bordelês, portanto, deveria ter acatado o entendimento do seu “muito honrado chefe Espírita”. Foi dada a Roustaing a oportunidade de desistir daquele trabalho, todavia não o interrompeu; na certa, por orgulho ferido. Um ex-presidente da Ordem dos Advogados, membro do Tribunal Imperial de Bordéus, a ser “desacatado” por um professor lionês radicado em Paris. Não, isto não podia ser, ainda mesmo que se tratasse de um autor pedagógico aclamado.

A médium Collignon e o advogado Roustaing. Ambos em situação de evidente mágoa por não haverem obtido de Kardec o respaldo que ambicionavam para seus trabalhos mediúnicos. Combinação explosiva que gerou o primeiro cisma no movimento espírita, cujos ecos, infelizmente, se podem ouvir ainda.

Não bastassem estas advertências de Kardec, Espíritos orientadores haviam expedido alertas a respeito de um ataque de entidades mistificadoras na cidade de Bordéus. Durante a sessão geral lá ocorrida a 14 de outubro de 1861, Kardec leu, após o seu discurso, uma epístola de Erasto aos espíritas daquela localidade. [8]

Em voz um tanto mais severa, o amigo espiritual da codificação kardeciana assegurou ser necessário premunir os espíritas bordeleses contra um perigo que era seu dever lhes assinalar. Erasto avisou-os, então, do iminente assalto de uma turba de Espíritos enganadores, cuja finalidade seria fomentar a cisão, a divisão, e levar a uma ruptura por todos os títulos lamentável. Repetindo o que os próprios guias espirituais do movimento em Bordéus disseram aos espíritas daquela cidade, Erasto esclareceu que haveria dois tipos de mistificadores no ataque. Um tipo viria com combinações abertamente hostis aos ensinos dos legítimos missionários do Espírito de Verdade, este, o presidente da regeneração planetária e guia pessoal de Kardec e do Espiritismo. Outro tipo de mistificadores, porém, apresentar-se-ia com dissertações sabiamente combinadas, nas quais, graças a tiradas piedosas, insinuariam a heresia ou algum princípio dissolvente.

Roustaing tomou conhecimento da epístola por terceiros? Ou, como adeptos seus afirmam hoje sem provas, esteve presente à sessão geral? De qualquer forma, não foi por falta de mais este aviso que cometeu o erro de publicar sua pretensa Revelação da Revelação, cujos ditados começariam a aparecer já em dezembro daquele ano, dois meses depois da sessão geral, insinuando exatamente a heresia gnóstico-docetista do Jesus fluídico e o princípio dissolvente da reencarnação como resultado de uma suposta queda, espécie de falência, verdadeira retrogradação que, segundo os guias rustenistas, seria aplicável até a Espíritos com responsabilidades planetárias.[9]

Tudo se deu tal qual a predição. Foi um vaticínio de Erasto; na ocasião, mensageiro do Espírito de Verdade; este último, aliás, alguns Espíritos ligados à Igreja dos primeiros tempos já haviam identificado como Jesus, em casa do Sr. Roustaing e do Sr. Sabo, a quem Kardec recomendou o primeiro, para que se iniciasse no Espiritismo. Ao lado do mal, vê-se que Deus pusera o remédio, mas não foi usado.[10]

A nomenclatura criada por Kardec — a palavra Espiritismo, inclusive — estava em toda a suposta Revelação da Revelação, mesmo no título: “Espiritismo cristão”. Como se nunca fora dito por Kardec: “O ponto essencial é que o ensinamento dos Espíritos é eminentemente cristão: ele se apoia na imortalidade da alma, nas penas e recompensas futuras, no livre-arbítrio do homem, na moral do Cristo, e portanto não é antirreligioso”.[11]

O fato é que Roustaing, infelizmente, se apoderou do nome e dos termos de uma doutrina cuja codificação nunca lhe coube. Além disto, nem ele nem seus discípulos jamais demonstraram em quê, afinal de contas, a tese basilar de sua “escola” se distingue da antiga tese dos gnósticos docetistas. No dizer autorizado de E. Pagels, a antiga seita postulava que “Jesus não era um ser humano, e sim um ser espiritual que se adaptara à percepção humana”,[12] ou seja, conforme no Espiritismo se diz: um agênere.

Não se trata, claro, de o agênere desenvolver percepção física, mas, isto sim, de adaptar-se à percepção humana, isto é, de terceiros, a fim de que o possam notar, mesmo desencarnado; tanto assim, que os rustenistas apregoavam que Jesus não tinha “corpo material humano, sujeito à morte”, que “não podia sofrer segundo o nosso modo de entender material” e que — pasmem — “não morreu efetivamente no Gólgota”.[13] Oras! Diz o Espiritismo mui contundentemente:

[...] o Espírito que não tem corpo material não pode experimentar os sofrimentos que são o resultado da alteração da matéria, de onde também é forçoso concluir que, se Jesus sofreu materialmente, do que não se pode duvidar, é porque tinha um corpo material de natureza semelhante à dos corpos de toda a gente.[14]

Acresça-se a isso o flagrante de que, para o rustenismo, na prática, a carne humana é mesmo um efeito “do mal”; apenas a assumem os Espíritos que são punidos por faltas cometidas no “estado fluídico”. E o docetismo, segundo Pastorino, entendia exatamente isto: “[...] tudo o que é material é imperfeito e impuro, pois é obra do Princípio do Mal; como Jesus apresentara o Princípio do Bem, o Pai, não podia ter-se submetido ao Princípio do Mal e, portanto, não poderia ter tido corpo físico carnal”.[15]

De fato, neste texto de Os Quatro Evangelhos, dentre outros, pode-se constatar o horror dos guias docetistas ao corpo humano, vinculando-o à “lama”, ao “sofrimento”, à “falibilidade”; tornando-o efeito inerente à condição de “culpado”:

Maior ainda era a diferença entre esse corpo de Jesus e os vossos corpos de lama. [...] não o esqueçais: todo aquele que reveste a carne e sofre, como vós, a encarnação material humana é falível. Jesus era demasiadamente puro para vestir a libré do culpado. Sua natureza espiritual era incompatível com a encarnação material, tal como a sofreis. (Vol. I, n. 14.)

Possível seria concluir então, com os guias rustenistas, que Jesus não cometeu imperfeições morais quando esteve na Terra não só porque nunca as praticara nos planos do Espírito, mas também porque não estava revestido da carne humana. A instrução 625 de O Livro dos Espíritos caducaria.

Sim, pois que valor possuiria para nós o guia e o modelo de uma perfeição que lhe foi conferida por processo evolutivo diferente daquele em que nos encontramos? Seria um guia errado, um modelo errado para uma humanidade errada, porque nada saberia de nossa vida terrestre, com a qual sua pureza sempre teria sido incompatível.

E mais: Jesus teria mentido quando disse a Nicodemos: “Falo do que sei; dou testemunho do que vi”, porquanto nada conheceria nem nada teria visto acerca da nossa experiência humana. O rustenismo, por estas e outras, é um insulto à autoridade moral e espiritual do Mestre de Nazaré, a despeito de supor exaltá-la.

[1] “São essas opiniões pessoais que os Espíritos orgulhosos nos dão como verdades absolutas. É sobretudo a respeito do que deve permanecer oculto, como o futuro e o princípio das coisas, que eles mais insistem, a fim de darem a impressão de que conhecem os segredos de Deus. E é também sobre esses pontos que há mais contradições.” (O Livro dos Médiuns, 300.)
[2] Os Quatro Evangelhos. Vol. I, n. 56. F.E.B, 5.ª ed., 1971, p. 295. Entre colchetes, palavras minhas.
[3] Os Quatro Evangelhos. Vol. I, ns. 56 e 59.
[4] Conscientização Espírita. Do Princípio da Não Retrogradação dos Espíritos.
[5] Revista Espírita. Jun/1862. Princípio Vital das Sociedades Espíritas.
[6] Revista Espírita. Jun/1862. Ensinos e Dissertações Espíritas. O Espiritismo Filosófico. Bordeaux, 4 de abril de 1862. Médium: Sra. Collignon. Observação [de Kardec].
[7] Cf. Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 5.ª ed., 1971, pp. 64 e 66.
[8] Revista Espírita. Nov/1861. Primeira Epístola de Erasto aos Espíritas de Bordéus.
[9] Os Quatro Evangelhos. Vol. I, n. 59. F.E.B, 5.ª ed., 1971, p. 325-326. Cf. Cap. 14: Estranhezas do Ensino Rustenista.
[10] Cf. Revista Espírita. Jun/1861. Correspondência.
[11] O Livro dos Espíritos, 222.
[12] Os Evangelhos Gnósticos, IV.
[13] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 59.
[14] KARDEC, Allan. A Gênese, XV, 65.
[15] Sabedoria do Evangelho. Vol. 3. Jesus Anda Sobre a Água.

Retirado do blog "O Primado de Kardec" - http://oprimadodekardec.blogspot.com/2011/02/capitulo-4-as-advertencias-de-kardec.html

quinta-feira, 24 de março de 2011

Os Criptógamos Carnudos de J.B.Roustaing

Por José Herculano Pires

Essa é a revelação da revelação. Roustaing copia e desfigura Kardec acrescentando aos seus ensinos os maiores absurdos. Note-se que essas criaturas estanhas, em forma de larvas e lesmas, são encarnações de espíritos humanos que haviam atingido alta evolução sem passar pela encarnação humana. Depois de desenvolverem a razão em alto grau e de haverem colaborado com Deus nos processos da Criação, chegando mesmo a orientar criaturas humanas, voltam à condição de criptógamos carnudos.

Mas por que falam os reveladores em substâncias humanas? Por que não simplificam as coisas dizendo simplesmente que esses espíritos decaídos vão encarnar-se em lesmas? Porque é preciso enganar os espiritistas que aceitam Kardec e sabem que a evolução espiritual é irreversível, que o espírito humanizado não pode regredir ao plano animal. É o mesmo processo de sofisma, de tapeação, usado na questãodo corpo aparente de Jesus, quando falam em encarnação fluídica para escaparem ao anátema de João contra os que dizem que o Cristo não veio em carne. As substâncias humanas dos criptógamos carnudos são uma invenção absurda e tola. E tanta gente a defender essas bobagens dentro do Espiritismo!

Mas o que são criptógamos carnudos? Por que esse nome estranho? Tudo tem a sua razão na máquina infernal do ilogismo roustainguista, embora seja sempre a anti-razão que entra em cena. Apreciemos o assunto à luz da razão para tentar esclarecê-lo.

A palavra criptógamos é empregada cientificamente para designar certas plantas cujos órgãos reprodutores não aparecem, são ocultos. A origem do termo é grega: kryptos, que quer dizer oculto, e gamos, que quer dizer casamento, união. Assim, criptógamo é um exemplar de espécie vegetal que tem os seus órgãos reprodutores escondidos. Os "reveladores" roustainguistas acrescentaram a palavra carnudo para adaptar a designação ao reino animal. Assim, criptógamo carnudo seria uma espécie de animal (mas não animal porque formado de substâncias humanas) em que se encarnam espíritos humanos que regrediram ao plano vegetal e animal.

Atenção para isto: quando dizemos que eles regrediram ao plano vegetal e animal não estamos forçando a interpretação. Cientificamente os animais semelhantes a plantas estão localizados na linha divisória dos reinos vegetal e animal, são desenvolvimento de plantas. Se existissem esses criptógamos carnudos a Ciência os catalogaria como formas de passagem dos criptógamos vegetais para o reino animal.

Temos assim a teoria da Metempsicose, tão seguramente refutada pela lógica de Kardec, devolvida ao meio espírita pelo ilogismo roustainguista. Bastaria esse triste episódio, colhido no caldeirão diabólico dos absurdos de ‘Os Quatro Evangelhos’, para nos provar, sem a menor sombra de dúvida, que essa obra é de autoria das trevas e que a sua finalidade é confundir os espiritistas pouco habituados a passar as coisas pelo crivo da razão.

Mais do que isto, porém, o objetivo evidente é o de ridicularizar o Espiritismo para dele afastar as pessoas de bom senso.

(O Verbo e a Carne, Júlio Abreu Filho e J. Herculano Pires, edições Cairbar, SP, 1ª ed., 1973, págs. 43/45)

Retirado do livro "Conscientização Espírita", de Gélio Lacerda da Silva.

Sai a edição de Abril de "Pensador"

Redação

"O Blog dos Espíritas" lança, em primeira mão, a edição de Abril da gazeta eletrônica "Pensador", da ANESPB Press (Agência de Notícias Espíritas da Paraíba).

Os destaques da edição são:
  • O Livro dos Espíritos: 154 anos de ensinamentos legitimados pela Ciência e Filosofia da sociedade contemporânea
  • Chico Xavier na Sapucaí...Olhai por nós
  • Carnaval e Doutrina Espírita
  • Cirurgias Espirituais
  • Quando o escritor espírita é colocado no ostracismo
  • Entrevista com Ricardo Rubim
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terça-feira, 22 de março de 2011

Apariencias, Reencarnaciones Suntuosos Y Pases

Por José Herculano Pires

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Podemos ir aun más lejos y preguntar: ¿quien se conoce a sí mismo y puede evaluarse con seguridad? Si nuestros estudios y nuestras prácticas espiritas aun no nos dieron siquiera la comprensión de la inferioridad de nuestro planeta, de la precariedad de los juicios humanos, de nuestra incapacidad para dominar los problemas de orden superior del plano espiritual, es evidente que precisamos de una revisión inmediata y profunda de nuestra posición doctrinaria.

En esa misma línea de pensamiento debemos encarar los problemas del conocimiento de nuestras encarnaciones anteriores. Esa cuestión viene también sirviendo como posible criterio evolutivo a médiums y predicadores. Estos, a su vez, encuentran apoyo para su posible autoridad en la doctrina en sus posibles recuerdos de vidas anteriores. Más de que recursos disponemos para penetrar con seguridad en ese problema, investigando nuestras vidas pasadas y hasta aun mismo las vidas pasadas de los otros? El único criterio de que disponemos nos fue dado sabiamente por Kardec: que examináramos las condiciones actuales para que supiéramos en qué condiciones vivimos en el remoto pasado.

Ese criterio se basaría en el principio de la evolución y en el imperativo de conócete a ti mismo. Más nuestra ignorancia en relación a la posición del Espiritismo en el mundo, es tanta que nos olvidamos de la inutilidad de los títulos y posiciones del pasado para querer saber quien fuimos y no lo que fuimos. Queremos tener la certeza, aun mismo por la auto- sugestión, de que fuimos esta o aquella figuras histórica importante – un príncipe, un cardenal o por lo menos un asistente, una reina o un gran guerrero – porque así nos sentimos mejores y hacemos que los hombres actuales nos consideren con más respeto. Eso quiere decir simplemente que cambiamos los valores espirituales por los valores materiales preventivos.

No preguntamos por nuestra humildad, moralidad, espiritualidad, bondad y pureza del pasado, preguntamos por la vanidad, arrogancia, criminalidad e inmoralidad. Sabemos muy bien que los grandes de entonces, en la trágica historia humana, fueron feroces dominadores, y queremos presentarnos aun hoy mismo con las insignias de la grandeza brutal de otros tiempos. Como decía Aristides Lo bo, el gran periodista paulistano, materialista y traductor de obras filosóficas, que acabo aceptando el Espiritismo y profiriendo en la Biblioteca Municipal una memorable palestra sobre su conversión; “Lo que extraño en el medio espirita es que he encontrado a muchos sinvergüenzas reencarnados, más a ningún campesino honesto o basurero”.

Si nos fuese necesario recordar las encarnaciones anteriores, es evidente que las recordaríamos. Esos recuerdos están en nosotros mismos, gravadas en nuestra profunda conciencia. Más para nuestro beneficio las recordaciones del pasado son filtradas al pasar de la conciencia subliminar a la conciencia supra liminal.

El filtro protector solo permite que pasen por la línea divisoria del umbral los resultados de nuestras experiencias anteriores en forma de aspiraciones, aptitudes, tendencias, vocaciones, y sobre todo los propósitos de no regresar jamás aquellas condiciones negativas que debemos olvidar. Este problema de las reencarnaciones anteriores es siempre disfrazado por la declaración de que el recuerdo sirve para probar el principio de la reencarnación. En realidad, lo que en general se busca no es eso, más si una base mayor y tanta más impresionante como aureolada por lo maravilloso, para nuestro prestigio actual en el medio espirita

Nos olvidamos, sin embargo de que la revelación de esas supuestas recordaciones sirve para ridicularizarnos también para ante los espiritas de buen sentido y la gran mayoría no espirita. Y lo que es peor: sirven para ridicularizar la teoría de la reencarnación y al propio Espiritismo ante los medios culturales. Acontece lo mismo en la cuestión de los pases. Es natural nuestra tendencia para la simulación, el disfraz.

Ingeniero dedico abundante estudio sobre esa cuestión. En las competiciones de la vida tienen mucha importancia la apariencia. Somos siempre tentados por el prestigio de las apariencias. El funcionario subalterno de una repartición publica aturde al público con exigencias de toda especie, enteramente innecesarias, para hacer valer la importancia de su cargo, lo que vale decir su importancia. Se forman numerosas órdenes honorificas para conceder comendas y laterías variadas a los compradores de importancia.

Personas de pocos recursos gastan lo que no pueden para hablar grosso en el medio social. Es conocida la preferencia de los hombres de pequeña estatura por los automóviles cola de pez. Las Universidades se llenan de alumnos para la conquista de un titulo que les de prestigio, poco interesados en el conocimiento para adquirir, su desenvolvimiento cultural. Los fardones académicos transforman a muchos escritores de valor en momias comedoras de galletas.

Es tan natural esa tendencia que generalmente no se percibe el ridículo de todas esas cosas. es también natural que esa tendencia exista en el medio espirita, a pesar de todas las advertencias doctrinarias sobre la efemeridad de las glorias mundanas. El ejemplo de Jesús, el rabí popular que no procuró las vestiduras del Templo, fue soterrado por los honores otorgados después de la muerte que le confirieron, transformándolo hasta incluso en un tercio de Dios. Sin embargo, una tercera parte de Dios proyectada en la Tierra podía darse el lujo de no ligar para las cosas del mundo. Más nosotros los hombres, no podemos hacer eso.

Toda la suntuosidad del Templo y de las prerrogativas, que Jesús rechazo, fue transformada en la suntuosidad de las iglesias cristianas y en las ordenaciones sacerdotales con su jerarquía y su ritualismo complicado.

En el Espiritismo los hombres irían a perder de un momento para otro esa tendencia de la especie. Como la doctrina no permite los beneficios del sistema eclesiástico, era necesario arrojar algunos sustitutivos. Uno de ellos, es el de las graduaciones mediúmnicos y el de las reencarnaciones suntuosas. Surgieron y surgen constantemente las complicaciones en la práctica.

El pase se tornó popular por su eficacia. Más es tan simple un pase que no se puede más que darlo. Se crearon entonces las complicaciones. Son necesarios cursos especiales, con lecciones de anatomía y fisiología, para que una criatura de buena voluntad extienda las manos sobre una cabeza sufridora. Más como imponer las manos es cosa muy simple, se crearon también las técnicas del pase, con palabrería fantasiosa y gesticulaciones de gimnástica sueca, que los humildes pasistas han de aprender con especialistas en educación física.

Véase la mezcla que se consiguió hacer, en una especie de liga metálica en que entran diversos refuerzos. El resultado fue la transformación del pase en una exhibición de habilidades en ritmo de bale. Nadie se acuerda que el pase no es una técnica, más si una donación fluídica de amor. El pase espirita es apena la imposición de las manos enseñada y practicada por Jesús. No es pase magnético, es pase mediúmnico.

La palabra mediúmnica ya dice que no es el pesista quien da el pase, son los espíritus a través de los médiums. Un pesista es un médium y pide asistencia de su guía al dar el pase. Más cuando el guía encuentra el pase estilizado, estandarizado, transformado en un ritual de vudú, desiste y espera que el sufridor procure un local de simplicidad cristiana, en el que el pueda actuar con eficacia.

Los círculos mediúmnicos con el paciente en el medio presuponen una concentración de fuerzas. Los médiums ya no son más médiums, son pilas eléctricas ofreciendo energías. No son los espíritus quienes saben lo que el enfermo necesita. Son los estudiantes sin experiencia de la anatomía y la fisiología del magnetismo y la gimnasia con la participación de rituales bailados de los templos egipcios.

Las personas que desean realmente iniciarse en el Espiritismo deben comprender, ante todo, que Espiritismo es simplicidad y buen sentido. Fuera de eso lo que tenemos son escenarios que desvirtúan la doctrina. Son esas invigilância las que amenazan la practica espirita. Nadie desea que los espiritas sean ignorantes, más es evidente que deben ser imples y sencillos, comprendiendo que ni Salomón se vistió con la belleza de las flores sencillas del campo. Hemos de superar el fermento de los fariseos, si queremos realmente hacernos dignos del Espiritismo.

Questão de vida ou morte para o Espiritismo

Por Manuel S. Porteiro

O que somos? Seres incapazes de autodeterminação, arrastados pela fatalidade ou totalmente comandados por fatores externos? Seres completamente livres, donos absolutos do nosso destino? Ou criaturas humanas dotadas de livre-arbítrio e responsabilidade, segundo nosso grau de evolução espiritual, e subordinadas às leis naturais e ao meio social em que vivemos?

Ao abordar o tema que me proponho desenvolver, não abrigo a pretensão de responder satisfatoriamente às exigências filosóficas às quais, sem dúvida, tem direito o culto leitor. Não pretendo, tampouco, em um simples trabalho, abarcar em todos os seus aspectos um ponto de doutrina tão vasto e complexo, tão difícil e, sobretudo, tão superior às minhas forças intelectuais como é o livre-arbítrio e sua antítese, o determinismo, quando ilustres psicólogos, esclarecidos espiritistas têm escrito muito a respeito sem haver esgotado o tema. E creio que a solução satisfatória de problema tão escabroso corresponde à psicologia do porvir, refletida nas luzes do Espiritismo.

Esta afirmação parecerá estranha, evidentemente, aos partidários do espiritualismo clássico, que crêem que o livre-arbítrio é um ponto de doutrina perfeitamente esclarecido, que não pode nem deve ser posto em dúvida, porque tem sido considerado por filósofos e teólogos como um dogma indiscutível, fundado na consciência universal. Também parecerá estranho aos deterministas, que crêem haver resolvido o problema da liberdade humana, negando-a e afirmando o determinismo com as elaborações da fisiopsicologia, com o materialismo histórico ou com a lei de causalidade universal.

O Espiritismo, ainda que sustente como fundamento de sua moral o livre-arbítrio, não faz dele um dogma infalível nem põe travas à inteligência de seus adeptos, impedindo-os de refletirem, analisarem e esclarecerem esta questão, do mesmo modo que não exclui da análise os seus fenômenos, embora aceitos em grande parte como produzidos por entidades espirituais que viveram na Terra. Pelo contrário, a experiência, o livre exame, o raciocínio são, para o Espiritismo, a base de sua filosofia, e para o espiritista o fundamento de suas convicções, ainda que, como em toda doutrina racionalista, se diferencie em detalhes na apreciação dos fatos e dos postulados que deles se depreendem.

Nós, espiritistas, não queremos vencer sustentando um “preconceito”, como mais de um sábio mal-intencionado já disse. Buscamos a verdade e, crendo estar na posse de uma partícula desta, desejamos ilustrar com ela, na medida de nossos conhecimentos. Sabemos muito bem que não há verdades absolutas, que todas são relativas ao grau de capacidade e instrução de cada indivíduo, ao desenvolvimento científico de cada época e ao limite traçado à inteligência humana.

Deste ponto de vista abordaremos o tema, não sem antes entrarmos em algumas considerações preliminares sobre a relativa importância que, a nosso ver, tem para o Espiritismo a solução de tão árduo problema.

O materialismo tem pretendido tornar o livre-arbítrio uma questão de vida ou de morte para o Espiritismo, e é por isso que sobre ele foram dirigidos seus melhores ataques, opondo-se-lhes o determinismo em suas diversas formas, inclusive o fanatismo. E não poucos espiritistas, fazendo desta uma questão fundamental, têm respondido às impugnações, acreditando sem dúvida que, se não somos livres nem responsáveis por nossos atos, a causa do Espiritismo está perdida e seu conceito moral aniquilado.

Longe de nós pretender debilitar a tese da liberdade, tal como se a depreende da filosofia espírita. Cremos que, com o livre-arbítrio ou sem ele, com a responsabilidade ou sem ela, o Espiritismo não sofre nenhum enfraquecimento e que o ser humano, tanto hoje como ontem e amanhã, seguirá igualmente o curso de sua evolução ascendente até seu destino superior, acredite ou não em sua liberdade moral e no mérito ou demérito de suas ações. Isso porque o que ele não fizer por sua livre vontade o fará apesar dela e, sem dúvida, com mais acerto, já que o Ser onisciente, que rege os destinos do Universo e de suas criaturas, sabe melhor do que estas o que convém a seus fins. E, ainda que o homem filosoficamente não o queira, lhe dará eternamente a satisfação pelas boas ações e o remorso pelas más; e onde e quando queira que este faça bem, tal bem será, tarde ou cedo, meritório à sua consciência e à de seus semelhantes, recebendo a justa e natural sanção por todas as suas ações, seja libertista, determinista ou fatalista.

É curioso observar a divergência e o ilogismo que existem no campo da filosofia e das religiões. Sócrates e Platão, as maiores figuras do espiritualismo clássico, cuja sublime moral se identifica com a moral espírita, sequer mencionam a vontade e o livre-arbítrio. Epicuro, filósofo sensualista e de certo modo materialista, posto que nega a imortalidade da alma, é partidário do livre-arbítrio: “Ainda que o acaso o persiga com as coisas mais molestas, as enfermidades e os padecimentos – disse –, o homem reto e bom permanece livre, independente, feliz, pois pode evitar tudo isso com um movimento para diante ou para trás, escapando assim à dor e à perturbação, como o átomo ao seu destino.”

Trecho de Conferência proferida na Sociedade Constância, no dia 5 de junho de 1929, e publicada pela revista “La Idea”, em 1936. Tradução de Ciro Pirondi.

Edição Digital
PENSE – Pensamento Social Espírita
www.viasantos.com/pense

Fonte:
Caderno Cultural Espírita - nº 1
Santos - Licespe – 1987

Saiba mais sobre Manuel S. Porteiro clicando aqui.

segunda-feira, 21 de março de 2011

[VÍDEO] Allan Kardec: O Educador

Allan Kardec o Educador é um dos mais belos documentários sobre a vida e a obra de Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), mais conhecido como Allan Kardec. Veja imagens filmadas nos locais onde ele se instruiu e viveu: Lyon, Yverdon e Paris. E acompanhe os caminhos trilhados por um dos filósofos mais importantes da humanidade, que se tornou o principal estudioso das mensagens dos espíritos, tendo realizado a Codificação do Espiritismo.

O filme traz ainda uma elucidativa entrevista com Dora Incontri, pesquisadora e Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo. Desfrute de momentos de sabedoria e beleza audiovisual, assistindo a este documentário.


Vídeo 01:


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Vídeo 06:

quinta-feira, 17 de março de 2011

Aparências, Reencarnações Suntuosas e Passes

Por José Herculano Pires

Podemos ir ainda mais longe e perguntar: quem se conhece a si mesmo e pode avaliar-se com segurança? Se os nossos estudos e as nossas práticas espíritas ainda não nos deram sequer a compreensão da inferioridade do nosso planeta, da precariedade dos juízos humanos, da nossa incapacidade para dominar os problemas de ordem superior do plano espiritual, é evidente que precisamos de uma revisão imediata e profunda da nossa posição doutrinária.

Nessa mesma linha de pensamento devemos encarar os problemas do conhecimento de nossas encarnações anteriores. Essa questão vem também servindo como possível critério avaliativo de médiuns e pregadores. Estes, por sua vez, encontram apoio para a sua possível autoridade na doutrina em suas possíveis lembranças de vidas anteriores. Mas de que recursos dispomos para penetrar com segurança nesse problema, investigando as nossas vidas passadas e até mesmo as vidas passadas dos outros? O único critério de que dispomos nos foi dado sabiamente por Kardec: examinarmos as nossas condições atuais para sabermos em que condições vivemos no passado remoto.

Esse critério se baseia no princípio da evolução e no imperativo do conhece-te a ti mesmo. Mas a nossa ignorância em relação à posição do Espiritismo no mundo, é tanta que nos esquecemos da inutilidade dos títulos e posições do passado para querer saber quem fomos e não o que fomos. Queremos ter a certeza, mesmo através de uma autosugestão, de que fomos esta ou aquela figura histórica importante — uni príncipe, um cardeal ou pelo menos o seu assistente, uma rainha ou um grande guerreiro — porque assim nos sentimos maiores e fazemos que os homens atuais nos considerem com mais respeito. Isso quer dizer simplesmente que trocamos os valores espirituais por valores materiais peremptos.

Não perguntamos pela nossa humildade, moralidade, espiritualidade, bondade e pureza no passado. perguntamos pela vaidade, arrogância, criminalidade e imoralidade. Sabemos muito bem que os grandes de ontem, na trágica história humana, foram ferozes dominadores, e queremos nos apresentar ainda hoje com as insígnias da grandeza brutal de outros tempos. Como dizia Aristides Lobo, o grande jornalista paulistano, materialista e tradutor de obras filosóficas, que acabou aceitando o Espiritismo e proferindo na Biblioteca Municipal uma memorável palestra sobre a sua conversão: "O que estranho no meio espírita é que tenho encontrado muitos patifes reencarnados, mas nenhum camponês ou lixeiro honesto".

Se nos fosse benéfico lembrar as encarnações anteriores, é evidente que as lembraríamos. Essas lembranças estão em nós mesmos, gravadas em nossa consciência profunda. Mas em nosso benefício as lembranças do passado são filtradas ao passar da consciência subliminar à consciência supraliminar.

O filtro protetor só permite que passem pela linha divisória de limiar os resultados de nossas experiências anteriores em forma de aspirações, aptidões, tendências, vocações, e sobretudo os propósitos de não regredirmos jamais àquelas condições negativas que devemos esquecer. Este problema das reencarnações anteriores é sempre disfarçado pela declaração de que a lembrança serve para provar o princípio da reencarnação. Na realidade, o que em geral se busca não é isso, mas uma base maior e tanto mais impressionante quanto aureolada pelo maravilhoso, para o nosso prestígio atual no meio espírita.

Esquecemo-nos, porém de que a revelação dessas supostas lembranças serve também para nos ridicularizar ante os espíritas de bom-senso e a grande maioria não-espírita. E o que é pior: servem para ridicularizar a teoria da reencarnação e o próprio Espiritismo perante os meios culturais. Acontece o mesmo na questão dos passes. É natural a nossa tendência para a simulação, o disfarce.

Ingeniero dedicou volumoso estudo a essa questão. Nas competições da vida tem muita importância a aparência. Somos sempre tentados pelo prestígio das aparências. O funcionário subalterno de uma repartição pública aturde o público com exigências de toda espécie, inteiramente desnecessárias, para fazer valer a importância do seu cargo, o que vale dizer a sua importância. Formam-se ordens honoríficas numerosas para conceder comendas e latarias variadas aos compradores de importância.

Pessoas de poucos recursos gastam o que não podem para falar grosso no meio social. É conhecida a preferência dos homens de pequena estatura pelos automóveis rabo-de-peixe. As Universidades se enchem de alunos que lutam para a conquista de um título que lhes dê prestígio, pouco interessados no conhecimento a adquirir, no seu desenvolvimento cultural. Os fardões acadêmicos transformam muitos escritores de valor em múmias comedoras de bolacha.

É tão natural essa tendência que geralmente não se percebe o ridículo de todas essas coisas. É também natural que essa tendência exista no meio espírita, apesar de todas as advertências doutrinárias sobre a efemeridade das glórias mundanas. O exemplo de Jesus, o rabi popular que não procurou as investiduras do Templo, foi soterrado pelas honrarias de após morte que lhe conferiram, transformando-o até mesmo num terço de Deus. Ora, uma terceira parte de Deus projetada na Terra podia dar-se ao luxo de não ligar para as coisas do mundo. Mas nós os homens, não podemos fazer isso.

Toda a suntuosidade do Templo e das suas prerrogativas, que Jesus rejeitou, foi transformada na suntuosidade das igrejas cristãs e nas ordenações sacerdotais, com sua hierarquia e seu ritualismo complicado.

No Espiritismo os homens não iriam perder de um momento para outro essa tendência da espécie. Como a doutrina não permite as regalias do sistema igrejeiro, era necessário arranjar alguns substitutivos. Um deles, é o das graduações mediúnicas e das reencarnações suntuosas. Surgiram e surgem constantemente as complicações da prática.

O passe tornou-se popular por sua eficácia. Mas é tão simples um passe que não se pode fazer mais do que dá-lo. Criaram-se então as complicações. São necessários cursos especiais, com lições de anatomia e fisiologia, para que uma criatura de boa vontade estenda as mãos sobre uma cabeça sofredora. Mas como impor as mãos é coisa muito simples, criaram-se também as técnicas do passe, com palavrórios fantasiosos e gesticulação de ginástica sueca, que os humildes passistas têm de aprender com especialistas em educação física.

Veja-se a mistura que se conseguiu fazer, numa espécie de liga metálica em que entram diversos reforços. O resultado foi a transformação do passe numa exibição de habilidades em ritmo de balé. Ninguém se lembra de que o passe não é uma técnica, mas uma doação fluídica de amor. O passe espírita é apenas a imposição das mãos ensinada e praticada por Jesus. Não é passe magnético, é passe mediúnico.

A palavra mediúnico já diz que não é o passista quem dá o passe, são os espíritos através dos médiuns. Um passista é um médium e pede a assistência do seu guia ao dar o passe. Mas quando o guia encontra o passe estilizado, padronizado, transformado num ritual de candomblé, desiste e espera que o sofredor procure um local de simplicidade cristã, em que ele possa agir com eficácia.

Os círculos mediúnicos com o paciente no meio pressupõem uma concentração de forças. Os médiuns já não são mais médiuns, são pilhas elétricas fornecedoras de energias. Não são os espíritos que sabem o que o doente precisa. São os bisonhos aprendizes de anatomia e fisiologia, de magnetismo e ginástica com subsídios de bailados rituais dos templos egípcios.

As pessoas que desejam realmente iniciar-se no Espiritismo devem compreender, antes de tudo, que Espiritismo é simplicidade e bom-senso. Fora disso o que temos são encenações que desvirtuam a doutrina. São essas invigilâncias que ameaçam a prática espírita. Ninguém deseja que os espíritas sejam ignorantes, mas é evidente que devem ser simples e humildes, compreendendo que nem Salomão se vestia com a beleza das flores simples do campo. Temos de superar o fermento dos fariseus, se quisermos realmente fazer-nos dignos do Espiritismo.”

quarta-feira, 9 de março de 2011

Centros Espíritas - Identificação, Estrutura e Funcionamento

Por Nícia Cunha

Centradas no entendimento religioso da Doutrina Espírita, sofrendo influências de diversas religiões, especialmente as cristãs, africanas e indígenas, as casas espíritas tradicionalmente ostentam nomes que remetem ao conceito de lugar sagrado.

Assim, acompanhando a adjetivação espírita, não é incomum encontrar termos como: templo, congregação, sinagoga, tenda, casa de pai fulano, centro de irmão beltrano, etc. Existem ainda instituições que reverenciam ícones católicos, homenageiam pessoas já mortas ou ainda vivas, que se destacaram no meio espírita e que são consideradas quase “santas”.

Incorrem em erro, pois essa nomenclatura nega, altera ou reduz a identidade espírita e suas propostas originais. É contraproducente também em termos de comunicação social, pois utilizam signos e linguagem que não a especificam ideologicamente, não esclarecem qual seja sua visão, suas metas, ou como atuam.

Deveria haver no âmbito espírita, um movimento de conscientização sobre essas impropriedades, visando eliminar essas denominações, substituindo-as por outras que melhor definissem a atividade, o caráter e o propósito da doutrina.

A estrutura funcional e as práticas da maioria dos centros espíritas são tão inadequadas quanto os nomes. A rigor, inexistem instituições nos moldes do Instituto Parisiense de Estudos Espíritas, fundado por Kardec, que atuava sob enfoque filosófico e com metodologia científica de pesquisa.

A descoberta (e não uma revelação, no sentido místico) da realidade do espírito e do intercâmbio entre encarnados e desencarnados, impôs um conceito ético e moral, que, entretanto não justifica o desenvolvimento de uma religião. Não é necessário seguir um credo, para se viver com moralidade e ética.

A maioria dos espíritas brasileiros, e conseqüentemente, a sociedade em geral, acha que Kardec recomendava práticas evangelizadoras por haver escrito o livro "O Evangelho Segundo o Espiritismo". Kardec não escreveu ou compilou obras de pregação religiosa, não visava fazer apologia e proselitismo cristão. Seu objetivo era o de explicar o pensamento de Jesus sob o enfoque espírita. Por isso, naquela obra, endossou apenas o aspecto moral de seus ensinamentos, não sancionou sua biografia divinizada e seus milagres, alertando para a falta de comprovação histórica desses relatos dos evangelhos canônicos.

Nem mesmo a máxima espírita mais conhecida – “Fora da caridade não há salvação”, escapou de desvirtuamento, pois não é uma recomendação explícita, mas uma paráfrase. O movimento espírita fixou-se em atividades de consolo espiritual e distribuição de bens materiais, distanciando-se do cerne da proposta doutrinária, que privilegia a educação individual e coletiva, única saída para a elevação qualitativa da sociedade. Seria o caso de se perguntar a que se dedicarão os espíritas, quando não mais houver pobres no planeta. Ou de que se ocupam as criaturas que habitam orbes mais avançados do Universo, que não tenham tais desníveis sociais.

Há casas espíritas cujos nomes enfatizam essa distorcida noção de caridade: Pão dos Pobres, Socorristas de Maria, Amantes da Pobreza, etc. Inclusive, nestes dois últimos exemplos, além de incorrerem no erro conceitual, o fazem também no semântico, pois as denominações podem ter dupla significação: pessoas que socorrem a santa católica; amor à pobreza, propriamente dita.

Discriminam os carentes já a partir dos nomes, mantêm atividades assistencialistas sem desenvolver trabalhos educativos que despertem potencialidades e firmem noções de cidadania, para conscientizá-los sobre seus direitos e deveres, tanto individuais como coletivos.

Dessas e de outras interpretações incorretas derivam-se os problemas de caracterização e funcionamento de um centro espírita. A obra kardequiana afirma que a Doutrina Espírita não possui dogmas, hierarquias e cultos. Causa espanto, o fato de os espíritas repetirem essa definição, mas não assumirem que, na prática, há hierarquização e ritualização.

De fato, a federativa nacional é vaticanista, as estaduais funcionam como arcebispados e os centros como paróquias. Em todos os níveis, a quase totalidade dos dirigentes é vitalícia, ou promovem alternâncias periódicas entre os integrantes de grupos fechados e inamovíveis.

No Brasil, o Centro Espírita já virou igreja. É um fato sociologicamente definido. A sua estrutura funcional repete rituais de outras religiões cristãs. As missas católicas adotam módulos entremeados de cânticos e responsórios: Introdução, Ofertório, Leitura do Evangelho, Consagração da Hóstia, Comunhão, Bênção Final, com água benta aspergida sobre a assistência ou individualmente colhida à saída do recinto.

Na casa espírita, sempre de maneira solene e mística, acontecem: prece de abertura, pequena leitura ou preleção religiosa, palestra/sermão de caráter evangélico, oração final, passes e ingestão de "água fluidificada". Algumas instituições até adotam coros e cantorias. A coincidência não é fortuita. É atavismo e desconhecimento do que realmente seja a filosofia espírita.

Para os espíritas religiosos, está tudo correto, embora a divergência com o que Kardec ensinou e praticou. Segundo esse segmento, o espírita deve mesmo ser um pregador do Evangelho, ainda que em nítida desvantagem em relação aos católicos e protestantes que estudam teologia para bem desempenhar seu trabalho, que além do mais, é profissão.

Excetuando algumas pessoas que usam seus conhecimentos gerais e acadêmicos para embasar suas prédicas, a grande maioria é composta por pessoas comunicativas, imbuídas de espírito missioneiro, não raro vaidosas e/ou fanáticas, que embora bem intencionadas, não possuem preparo intelectual ou doutrinário.

Disso, resulta empirismo, interpretações pessoais ou de grupos. Não há estudos, mas sim, catequese. Paradoxalmente, onde deveria haver livre exame de conteúdos, só ocorre veiculação de conceitos repetidos. Os líderes das instituições não se questionam e nem permitem questionamentos sobre a correção do teor daquilo que divulgam. Ficam ofendidos quando isso ocorre, procuram afastar, disfarçada ou ostensivamente, a pessoa que provoca o debate ou diverge. Com poucas exceções, o ensino doutrinário é uma balbúrdia sem metodologia aplicada, tem caráter limitado e reducionista, é feito por tradição oral, tem apenas enfoque evangelizador. Quando muito, os monitores usam apostilas mal compiladas, com pouca base na Codificação, mas que reproduzem idéias de autores encarnados e desencarnados de obras denominadas “literatura complementar”.

O espírita se jacta, afirmando que a doutrina, além de ser religião, é filosofia e ciência. Mas não se faz ciência nos centros espíritas. Não há pesquisas ou experiências metodologicamente estruturadas, ou efetiva comprovação de fenômenos. É só crença, visão estratificada, dedução empírica ou simplesmente, vôos da imaginação. Onde a ciência, então?

Na França, depois de Kardec, o Espiritismo morreu. Muitas razões são apontadas, sendo a mais consistente, os entraves decorrentes das duas grandes guerras do Século XX, que assolaram a Europa. Curiosamente, elas não mataram outras idéias vigentes ou introduzidas à época, que ainda hoje honram e destacam os franceses, ciosos da racionalidade aprendida com seus proeminentes pensadores (René Descartes à frente) e magistralmente utilizada por Kardec.

É muito provável que o aniquilamento da doutrina Kardecista na França tenha ocorrido devido às influências místicas, pois impulsionada por Roustaing, caiu na vala comum da religiosidade crédula. Há uma real possibilidade de ali ter sido esquecida porque deixou de ter o apelo da razão e da lógica, sob as quais nasceu.

No Brasil, firmou-se o avesso dessa gênese: a liderança mística adotou, expandiu e sedimentou a visão religiosa, sem raciocinar que, se Deus é perfeito, portanto despido de prepotência e vaidade, não impõe e nem precisa de nossas súplicas, reverências e bajulações, dispensando dogmas, ritos e crendices no trajeto de sua criatura em direção à perfeição relativa que pode alcançar.

Retirado do site http://assepe.org.br/txt_nicia_centros.html

A Destinação do Espiritismo

Por Carlos Antonio de Barros

Quando entregou as obras básicas da codificação para o mundo, Allan Kardec imaginava que o Espiritismo se tornaria uma crença comum e que a aceitação dos seus princípios científico, filosófico e moral transformassem em um tempo relativamente curto as concepções de vida material da sociedade terrena.

E não foi bem isso que ocorreu ao longo de mais de 150 anos de existência da Doutrina dos Espíritos.

A assimilação do Espiritismo por parte da coletividade parece lenta e vem criando uma situação de indiferença para muitas pessoas envolvidas com a doutrina, até mesmo entre espíritas que consideram a imortalidade da alma "uma ficção para se ver no cinema".

Ocorre que se a filosofia espírita fosse integralmente aceita e se tornasse uma questão de sobrevivência, a sociedade terrena iria mudar positivamente em diversos aspectos.

No entanto, essa aceitação se torna uma utopia na medida em que ainda não se percebe sincero interesse dentro do movimento para fazer uma divulgação educativa abrangente, capaz de renovar hábitos e atitudes dessa sociedade ainda muito materialista.

Além disso, o Espiritismo é tido e visto como uma religião que vem sendo manipulada por lideranças, "espiritualmente ligadas à Igreja Católica", que querem a todo custo negar a sua identidade com o conjunto de princípios baseados em leis naturais.

A Doutrina dos Espíritos poderá efetivamente contribuir para promover profundas transformações na sociedade, mas isso levará ainda muito tempo já que carece de uma sensata avaliação, uma definição de caminhos e estratégias que se identifiquem com a atual realidade social e espiritual do nosso conturbado mundo.

Entre os mais de dois milhões de adeptos do Espiritismo existentes no Brasil, é bem provável que um terço ainda permaneça psquicamente atrelado a outras seitas espiritualistas, acendendo velas, incensos, cantando mantras e fazendo "promessas" aos "santos espíritas e católicos" para resolverem seus mesquinhos problemas existenciais.

Muitos cansaram de buscar "consultas espirituais" em suas próprias instituições. Agora recorrem aos "guias" de outros terreiros...

Fonte: Blog Carmem & Carlos Barros - http://carmemcabarros.blogspot.com/2011/03/destinacao-do-espiritismo.html

domingo, 6 de março de 2011

O Verbete Vazio

Por Eugenio Lara

Em “Instruções Práticas Sobre as Manifestações Espíritas”, opúsculo lançado em 1858, Allan Kardec inseriu um glossário espírita, vocabulário com termos, com palavras e verbetes concernentes ao entendimento da Doutrina Espírita. Foi a primeira tentativa de elaboração de um dicionário, de uma enciclopédia espírita. Publicado posteriormente, de modo bastante resumido, em “O Livro dos Médiuns”, podemos observar o cuidado que ele teve para com a nova terminologia que criou, a fim de orientar a ciência espírita nascente, complementada por palavras e termos esclarecedores, correlacionados ao Espiritismo.

Nesse pequeno léxico espírita, elucidário interessante, instrutivo para os iniciantes e estudiosos do Espiritismo, salta aos olhos o famoso verbete Religião sem nenhuma definição. Ora, por que Kardec deixou este verbete vazio? Por que saiu assim na única edição, somente reimpressa 65 anos depois, por Jean Meyer, seu sucessor na direção da “Revista Espírita” e de todo seu legado?

Em 1923, Jean Meyer, percebendo a importância dessa obra, relançou-a, mas suprimindo o verbete, sem nenhum tipo de explicação. Nas edições posteriores, em francês, o verbete vago também não aparece. Naquele mesmo ano, o grande espírita de Matão-SP, Cairbar Schutel (1868-1938), traduziu e publicou esse interessante opúsculo, com autorização expressa de Jean Meyer. A reedição francesa e a brasileira foram simultâneas. Mais tarde, foi relançado pela editora O Clarim, de Matão, por iniciativa de seu editor, Wallace Leal V. Rodrigues, em 1968, posteriormente incluído na coletânea “Iniciação Espírita” (1970), ao lado de duas outras obras introdutórias de Kardec, pela Edicel, com apresentação e notas do jornalista e filósofo espírita Herculano Pires.

Do ponto de vista editorial, soa muito estranha a publicação desse opúsculo com o verbete vazio. Teria sido um problema de revisão? Seria um lapso na composição, dadas as condições técnicas da época, isso do ponto de vista gráfico-editorial? Não nos esqueçamos de que na segunda edição de “O Livro dos Espíritos” (1860) ocorreu um pequeno erro na numeração das questões. O que seria a pergunta 1011, está em branco, suprimida, ou seja, não é numerada, o que totaliza 1019 questões e não 1018. O erro passou batido e não foi corrigido por Kardec, possivelmente em função da imensa quantidade de tarefas e projetos a serem realizados por ele, que sozinho, não pôde completá-los na sua totalidade, em função de sua desencarnação súbita.

Allan Kardec poderia ter corrigido o suposto lapso do verbete vazio numa segunda edição do opúsculo, jamais publicada, pois, como ele próprio afirmou: “Esta obra está inteiramente esgotada e não será reimpressa. Será substituída pelo novo trabalho, ora no prelo, que sairá muito mais completo e obedecerá a um outro plano.” (“Revista Espírita”, agosto de 1860). Este novo trabalho no prelo, a que ele se refere, é “O Livro dos Médiuns”, lançado em 1861 e que era para ter o título de “O Espiritismo Experimental”, a continuação, o “Lado B” de “O Livro dos Espíritos”.

Supondo que era mesmo para ter saído assim, com o verbete vago, qual então a real intenção de Kardec ao fazer isso? O que ele desejou exprimir com tal atitude editorial? Não sabemos. Todavia, seria muito estranho atribuir, no lançamento dessa obra, algum tipo de enigma intencional, uma trívia, como um jogo de computador, um jogo mental, talvez uma charada que deveria ser posteriormente decifrada. Algo que destoa bastante do perfil psicológico e biográfico do fundador do Espiritismo. Não combina com ele tal atitude.

O mais provável é que, devido a um erro de composição gráfica, a primeira edição do opúsculo saiu assim mesmo, com o verbete Religião vazio.

Por sua vez, a nota explicativa, contida na edição lançada pela Edicel nada esclarece, pelo contrário, confunde ainda mais. Há uma referência ao célebre Discurso de Abertura de Allan Kardec, proferido por ocasião do Dia dos Mortos, data magna para os espíritas da época, publicado na “Revista Espírita”, em dezembro de 1868. Kardec aí conclui que o Espiritismo não é religião e que essa palavra deveria, segundo ele, ser evitada para definir a doutrina nascente. Em seguida, é citada a justificativa de Herculano Pires, “forçando a barra”, acoplando tal definição kardequiana ao conceito de religião dinâmica do filósofo espiritualista francês Henri Bergson: um razoável equívoco, muito bem esclarecido pelo escritor espírita Krishnamurti de Carvalho Dias, no ensaio “Análise do Pensamento de Allan Kardec de 1855 a 1869”, exposto por ele no I Simpósio Nacional do Pensamento Espírita, realizado de 11 a 13 de agosto de 1989, em Santos-SP.

A existência desse famoso verbete vazio não causa nenhum prejuízo para o entendimento conceitual do Espiritismo. Quem tiver alguma dúvida quanto ao Espiritismo ser religião ou não, basta ler a polêmica de Allan Kardec com o abade Chesnel (“Revista Espírita”, maio e julho de 1859), o Discurso de Abertura já citado e a definição enfática e radical contida no preâmbulo de “O Que é o Espiritismo”.

Quem tem olhos que veja, quem tem ouvidos que ouça: Allan Kardec jamais concebeu o Espiritismo como religião, jamais ele o definiu e conceituou como doutrina religiosa. Nunca passou pela cabeça do Druida de Lyon fundar uma doutrina dogmática, uma nova religião, uma espécie de neocristianismo, o cristianismo redivivo ou qualquer tipo de confissão religiosa. Sua pretensão, declarada e manifesta, sempre foi fazer do Espiritismo uma ciência de observação, uma ciência filosófica, uma doutrina filosófico-científica e moral.

Sob uma análise mais sociológica, antropológica, histórica, hermenêutica, se Kardec fundou (sem querer, querendo) uma nova religião, em função da aceitação da linguagem cristã, de sua atitude supostamente tácita, conciliatória frente à Igreja e da tentativa de reinterpretar os dogmas católicos sob a ótica espírita em suas três últimas obras, é uma questão que não cabe aqui ser analisada, mas sim, em outra oportunidade...

Eugenio Lara, arquiteto, jornalista e designer gráfico, é fundador e editor do site PENSE - Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense], membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc) e autor dos livros em edição digital: Racismo e Espiritismo; Milenarismo e Espiritismo; Amélie Boudet, uma Mulher de Verdade - Ensaio Biográfico; Conceito Espírita de Evolução; Os Quatro Espíritos de Kardec e Os Celtas e o Espiritismo.

Retirado do site PENSE - http://www.viasantos.com/pense/arquivo/1320.html

Fenómenos Espiritas Y Suas Consecuencias Filosóficas

Por Cairbar Schutel

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Los hechos espiritas se manifiestan, hoy, en todas partes, ellos constituyen una voz que parte de todos los puntos del globo y repercute, de lado a lado, despertando al hombre de la letárgica y animándolo a marchar, con valentía, por el camino de la espiritualidad que conduce a la Vida Eterna. Se puede decir que no hay una sola ciudad del mundo, una sola aldea, aun en los más lejos rincones del planeta, en que manifestaciones extraordinarias no se hayan verificado, con la admiración de unos, y mala voluntad y repulsa de otros. En los medios humildes, como en la alta sociedad, en las zonas científicas, como entre los elementos clericales, los fenómenos espiritas de carácter ostensivo constituyen la gran luz que viene a iluminar a los hombres el puerto de salvación. Ho hay una sola familia que no cuente un hecho “anormal” que le haya ocurrido.

Eso viene a probar que los fenómenos espiritas tienen un carácter verdaderamente providencial. Y no se puede explicar de otro modo esos hechos ostensivos, espontáneos, independientes de toda voluntad humana y de todos los poderes terrestres, hechos, digamos de paso, que señalan una inteligencia superior a las inteligencias de la tierra, llena de presión, de concisión y altamente científica.

Quien lea con atención los relatos de materializaciones, de manifestaciones, de aportes, de fotografías, testimoniadas por hombres como William Crookes, Russel Wallace, Oliver Lodge, Paul Gibier, César Lombroso, Ernesto Bozzano y cientos de otros sabios de responsabilidad moral y científica, que no puede negar el gran valor moral y científico de esas manifestaciones, fenómenos tan trascendentes que todos esos sabios unidos – físicos, químicos, fisiólogos, anatomistas, etc., son incapaces de producirlos en su mínima parte.

¿En vista de eso podrán esos hechos ser recibidos como ocurrencias simplemente anormales, sin una causa maestra que tiene intenciones superiores, determinativas para un fin moral y de alta relevancia espiritual?

Ciertamente no se puede concluir que un efecto inteligente deje de tener, a su vez, una causa inteligente y una intención cualquiera, digna de nuestra observación, de nuestro estudio y de nuestra meditación. Todos los fenómenos de la vida actual, aun los más rudimentarios, tienen una causa y un objetivo, como verificamos en la vida de los seres que pueblan nuestro mundo. No se enciende una luz sin que un factor no se mueva, un intermediario no aparezca y no se vea el fin para el cual esa luz se destina.

La fenomenología espirita, verificada en todas las épocas y en todos los países, por todas las generaciones que vivieron en este mundo, ha sido, en todos los tiempos, el principio básico de la fe que dignifica al ser humano.

Antiguamente, debido a la deficiencia de la inteligencia para juzgar las cosas espirituales, ella fue dirigida para la clase de cosas sobrenaturales , y los “expertos” que tomaron para sí la misión de guiar a los hombres la guardaron en la “urna de los milagros” para, más cómodamente, mantener su dominio sobre las masas.

Los filósofos y los sabios, asignado a una psicología retardada que había cristalizado todos sus métodos de enseñanza, no pudieron comprender el alcance de esos hechos que solo eran recibidos, religiosamente, por los hijos del pueblo.

Explorando la obra de los estudios fisiológicos, aunque desde tiempos pasados los fenómenos psíquicos tuviesen larga extensión, quedamos con la oscuridad sobre la existencia o no existencia del alma, lo que prueba que la antigua psicología no ofrecía a los sabios de entonces los elementos precisos para la resolución del mayor de todos los problemas que debe resolver la suerte del destino humano.

Fue preciso que nuevas mentalidades viniesen a desbravar el campo del Animismo, obligando, después, a las barreras de lo sobrenatural y del misterio, para que la luz irradiase en los horizontes, y un nuevo método de estudio de esa creación de la Psicología Experimental, que extendió su área a las regiones inexploradas del alma humana, en esta fase de la vida, alargando su acción al mundo ultrasensible que nos rodea y para donde tendremos que ir.

Y, de ese estudio experimental, se llegó a la conclusión de las intenciones morales y científicas de los fenómenos psíquicos, base fundamental del Animismo y del Espiritismo, que se hallan en intima ligación con todas las ciencias, dándoles un cuño superior de progreso, completándolas con las nuevas verdades que vienen a quitarles las dificultades en las que se hallan, para resolver ciertos problemas, cuya oscuridad veda su acción progresiva en la perfección de las gentes, en la evolución de todos los conocimientos que deben constituir y proporcionar el bienestar de los pueblos. Ofreciendo a todos las insignias inconfundibles de alta Moral Cristiana, con todas las Enseñanzas filosóficas de su Instituidor, los fenómenos espiritas, parte integrante de la Revelación sobre la cual Jesús dijo haber fundado su Iglesia, son, de hecho, las demostraciones claras, legibles y palpables de la Inmortalidad, única base verdadera de Fe, de Amor y de Sabiduría.

Sin los hechos, no hay religión, ni ciencia que pueda prevalecer. A la química se pide reacciones; a las matemáticas, números, leyes de equilibrio. Para merecer el nombre de ciencia, es preciso que se demuestre esta o aquella con pruebas positivas.

Los fenómenos psíquicos, no hay, absolutamente, duda, echan mano de la luz que ilumina la verdad que salva. Solo por ellos, nos podemos convencer de la sobrevivencia espiritual, ósea, de la sobrevivencia individual y, consecuentemente, de nuestros deberes para con nuestros semejantes y para con Dios.

Las consecuencias filosóficas de los hechos espiritas nos traen, como contribución de progreso y bienestar, leyes olvidadas por los hombres y destinadas a establecer en la Tierra el reinado de la Fraternidad, bajo la Paternidad de Dios.

No quieran nuestros adversarios desviar los objetivos de la Fenomenología Espirita, atribuyéndoles teorías malsanas que no sean coherentes con sus hechos.

Acuérdense bien que todas las teorías aventadas para dar explicaciones de los fenómenos caerán por tierra por insostenibles.

“Los hechos son persistentes” – como dijo el Profesor. Lombroso y, cara a los hechos, el investigador perspicaz e inteligente ha de verificarlos de naturaleza anímica y de naturaleza espirita, más, sean unos o sean otros, ninguna explicación pueden tener, sin la existencia del alma y de su sobrevivencia a la muerte del cuerpo carnal. Esa es la verdad que nadie, con buenos fundamentos, osara contestar.

Traducido por M. C. R.
Publicado en RIE en julio de 1934