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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Elias - João Batista - Allan Kardec

O profeta, o precursor, o apóstolo

Do IPEAK

    Apesar de às vezes parecer que a Humanidade terrestre está entregue às suas próprias forças, ao fazermos algumas reflexões com base nos dados da nossa própria história, notamos que isso não é verdade. Muito devemos a Espíritos nobres que desde o inicio estão conduzindo o leme desta embarcação que serve de moradia a Espíritos que para aqui veem a fim de aprender e progredir.

       Nosso propósito, nestas breves reflexões, é seguir a trajetória de um desses Espíritos que temos hoje como nosso Mestre, e que ficou conhecido na Terra como Allan Kardec. Vamos tomar como ponto de partida o personagem Elias, tendo por base os dados históricos registrados na Bíblia, e nessa mesma fonte iremos encontrar registros desse nobre Espírito voltando à Terra, sempre com o objetivo de fazer com que a Humanidade avance na via do progresso intelecto-moral. Vamos então seguir sua passagem pela Terra em três momentos: como Elias, no século IX a.C., no primeiro século da era cristã, como João Batista, e no século XIX, como Allan Kardec.

Elias, o profeta


    Elias viveu em Israel, no século IX a.C., durante o reinado de Acab, após a morte do rei Salomão. Ele anunciava Yahweh, Deus de Israel, face a Baal, deus dos Cananeus, do qual Jezabel, esposa do rei Acab, era ardente missionária.

    A palavra Elias vem do hebreu Eliyâhou ou Eliyâh, que quer dizer: Yahweh é meu Deus.

    O profeta Elias tinha uma ardente fé em Deus, e seu objetivo era despertar no povo pagão a fé no Deus único, no Deus vivo, pregar a moral e defender os frágeis contra a tirania real. Ele surge no Antigo Testamento numa hora em que a fragilidade do rei Acab, pela falta de fé no Deus vivo, precipitava Israel no paganismo. Isso foi por volta de 875-850 a.C.

    No tempo de Elias os profetas do Deus vivo eram facilmente massacrados pelos seguidores de Baal, mas ele foi um sobrevivente e, segundo as tradições, fora arrebatado aos céus numa carruagem de fogo. Pouco antes de partir ele passou seu manto e seus poderes a seu discípulo Eliseu.

Elias ressuscita o filho de uma viúva

    Há uma passagem tocante sobre a vida desse grande profeta, no livro 1Reis,  cap. XVII, 17 a 24.

    Elias havia se hospedado, por orientação da voz que o guiava, na casa de uma pobre viúva que vivia com seu único filho, e mal tinham com que se alimentar.

    Um dia o filho da viúva foi atingido por uma enfermidade tão violenta que parou de respirar. A mulher disse a Elias: “Que há entre vós e mim, homem de Deus? Viestes à minha casa para me trazer à memória os meus pecados, e para fazer morrer meu filho?

    Elias lhe disse: Dai-me vosso filho. E, tendo-o tomado nos braços, levou-o para seu quarto e colocou-o sobre a cama.

    Em seguida rogou ao Senhor, e lhe disse: Senhor meu Deus, afligistes essa viúva que tem o cuidado de me alimentar como pode, até mesmo fazendo morrer seu filho?

    Depois, implorou ao Senhor, dizendo-lhe: Senhor, meu Deus, fazei, eu vos peço, que a alma dessa criança volte ao seu corpo.

    E o Senhor atendeu a prece de Elias; a alma da criança voltou, e ela retomou a vida. A mulher disse a Elias: eu reconheço agora, após esta ação, que sois um homem de Deus, e que a palavra do Senhor é verdadeira em vossa boca.”

    Elias ainda é lembrado hoje em dia como um homem virtuoso, respeitado por muitas religiões, e comemorado em várias nações. Muitas montanhas levam o seu nome, dentre as quais a mais conhecida é o monte Santo Elias, no Alasca.

    O conjunto de livros de Reis, que trazem as narrativas da vida e dos feitos dessa grande alma é conhecido como o “Ciclo de Elias”.

Predição da vinda do precursor do Messias

    Naquele tempo, segundo os escritos bíblicos, o povo judeu estava esquecendo as leis trazidas por Moisés, estava deixando de lado o culto a Deus, e a injustiça se alastrava causando dor e sofrimento.

    No Antigo Testamento, no livro de Malaquias, por volta do V século a.C., vamos encontrar a predição da volta de Elias, agora como sendo aquele que viria preparar o povo para receber o Messias. Eis como está escrito sobre a vinda do precursor:

    O Senhor disse a Malaquias: “Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servidor, lei que lhe deixei na montanha de Horeb, para que ele levasse a todo o povo de Israel meus preceitos e meus mandamentos.

    Eu vos enviarei o profeta Elias, antes que chegue o grande dia do Senhor; e ele reunirá o coração dos pais aos dos seus filhos, e o coração dos filhos aos dos seus pais, para que, vindo, eu não lance anátema sobre a Terra." (Malaquias, cap. IV, 4 a 6.)

Comentário de Santo Agostinho sobre a nova vinda de Elias

    Santo Agostinho comenta a predição de Malachias em sua obra intitulada A cidade de Deus, livro XX, cap. XXIV. Reproduzimos aqui um pequeno trecho:

    "Após haver advertido os judeus para que se lembrassem da lei de Moisés, bem prevendo que ainda por longo tempo eles não a conceberiam espiritualmente, logo a seguir a Escritura acrescenta: 'Eu vos enviarei Elias de Thesba, antes que esse grande e luminoso dia do Senhor chegue. E ele volverá o coração do pai ao do filho, e o coração do homem ao de seu próximo, para que, no meu advento, eu não lance anátema à Terra.’

    É uma crença bastante geral entre os fiéis, que no fim do mundo, antes do julgamento, os judeus devem crer no verdadeiro Messias, isto é, em nosso Cristo, por meio desse grande e admirável profeta Elias, que lhes explicará a lei. Além disso, não é sem razão que se espera nele o precursor do advento de Jesus Cristo, pois não é sem razão que ainda agora se crê que ele vive. É certo, com efeito, segundo o testemunho da própria Escritura, que ele foi arrebatado num carro de fogo. Quando ele vier, explicará espiritualmente a lei que os judeus ainda entendem carnalmente, e ‘ele unirá o coração do pai ao do filho’,(…). O sentido é que os judeus, que são os filhos dos profetas, no número dos quais está Moisés, compreenderão a lei como seus pais, e assim o coração dos pais se reunirá aos dos filhos e o coração dos filhos aos de seus pais, quando tiverem os mesmos sentimentos." (...)[1]

João Batista, o precursor       


    Segundo o Evangelho de Lucas, João é filho do sacerdote Zacarias e de Elizabeth, prima de Maria, mãe de Jesus. Zacarias orava a Deus com fervor diante do altar; o anjo Gabriel apareceu ao seu lado, e Zacarias assustou-se. Mas o anjo lhe disse: “Não temas Zacarias, pois tua prece foi ouvida. Tua esposa te dará um filho, e tu lhe darás o nome de João. Ele será para ti um motivo de alegria e contentamento, e muitos se felicitarão com o seu nascimento, pois ele será grande diante do Senhor; não beberá vinho nem outra bebida que possa embriagar, e será repleto do Espírito santo desde o ventre de sua mãe; ele conduzirá ao Senhor seu Deus muitos dos filhos de Israel; caminhará diante de Deus com o espírito e o poder de Elias, para reunir os corações dos pais aos dos seus filhos, e chamar os rebeldes à prudência dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo perfeito.” (Lucas, 1: 5 a 17.)

João Batista é Elias reencarnado

    O Novo Testamento tem algumas passagens que atestam de forma clara que João Batista, o precursor de Jesus, é Elias reencarnado.

    No Evangelho de Mateus, cap. 11: 1 a 10, lemos o seguinte:

    “Ora, tendo João, na prisão, tomado conhecimento das obras maravilhosas de Jesus Cristo, envia dois de seus discípulos lhe dizer: Sois vós aquele de deve vir, ou devemos nós esperar um outro?

    Jesus lhes respondeu: Ide contar a João o que haveis ouvido e o que haveis visto: Os cegos veem, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres.

    E feliz daquele que não fizer de um motivo de escândalo e queda.

    Quando eles se foram [os discípulos de João], Jesus começa a falar de João ao povo, desta maneira:

    O que ides ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento?

    O que ides vós, digo eu, ver? Um homem indolente vestido de luxo? Sabeis que aqueles que se vestem dessa forma estão nas mansões dos reis.[2]

    Que ides ver então? Um profeta? Sim, eu vo-lo digo, e mais que um profeta.

    Pois é dele que foi escrito: Eu envio a vós o meu anjo, que vos preparará o caminho por onde deveis andar.

    Em verdade eu vos digo: entre os que são nascidos de mulher, não teve nenhum maior que João Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus, é maior que ele.(…)”

    Logo após o evento da transfiguração de Jesus no Monte Tabor, e de terem vindo confabular com o Mestre os Espíritos de Moisés e Elias, os discípulos Pedro, Tiago e João, que testemunharam aquela cena, perguntaram a Jesus:

    “Por que, pois, dizem os escribas ser preciso que, antes, venha Elias? - Jesus lhes respondeu: É certo que Elias tem de vir e que restabelecerá todas as coisas.

    Mas, eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram; antes o trataram como lhes aprouve. É assim que farão morrer o Filho do homem.

    Então, seus discípulos compreenderam que era de João Batista que ele lhes falara.” (S. Mateus, 17:10 a 13.)

    As palavras de Jesus sobre João Batista são suficientes para que não precisemos buscar evidenciar ainda mais o caráter desse Espírito e a importância do seu papel como precursor do Messias.

Kardec fala sobre o novo advento de Elias

    "Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o reino dos céus é tomado pela violência e são os violentos que o arrebatam; - pois assim o profetizaram todos os profetas até João, e também a lei. - Se quiserdes compreender o que vos digo, ele mesmo é o Elias que deve vir. - Ouça-o aquele que tiver ouvidos de ouvir. (S. Mateus, 11:12 a 15.)”

    Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em S. João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já não acontece com esta passagem de S. Mateus, que não permite equívoco: ELE MESMO é o Elias que deve vir. Não há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva. - ‘Desde o tempo de João Batista até o presente o reino dos céus é tomado pela violência.’ Que significam essas palavras, uma vez que João Batista ainda vivia naquele momento? Jesus as explica, dizendo: 'Se quiserdes compreender o que digo, ele mesmo é o Elias que deve vir.’ Ora, sendo João o próprio Elias, Jesus alude à época em que João vivia com o nome de Elias. 'Até ao presente o reino dos céus é tomado pela violência': outra alusão à violência da lei moisaica, que ordenava o extermínio dos infiéis, para que os demais ganhassem a Terra Prometida, Paraíso dos hebreus, ao passo que, segundo a nova lei, o céu se ganha pela caridade e pela brandura.

    E acrescentou: Ouça aquele que tiver ouvidos de ouvir. Essas palavras, que Jesus tanto repetiu, claramente dizem que nem todos estavam em condições de compreender certas verdades." [3]

    "Elias já voltara na pessoa de João Batista. Seu novo advento é anunciado de modo explícito. Ora, como ele não pode voltar, senão tomando um novo corpo, aí temos a consagração formal do princípio da pluralidade das existências. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IV, nº 10.)”[4]                         

Anunciação do Consolador

    "Se me amais, guardai os meus mandamentos; e eu rogarei a meu Pai e ele vos enviará outro Consolador, a fim de que fique eternamente convosco: – O Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque o não vê e absolutamente o não conhece. Mas, quanto a vós, conhecê-lo-eis, porque ficará convosco e estará em vós. – Porém, o Consolador, que é o Santo Espírito, que meu Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar tudo o que vos tenho dito. (S. João, 14:15 a 17 e 26.)

    Jesus promete outro consolador: o Espírito de Verdade, que o mundo ainda não conhece, por não estar maduro para o compreender, consolador que o Pai enviará para ensinar todas as coisas e para relembrar o que o Cristo há dito. Se, portanto, o Espírito de Verdade tinha de vir mais tarde ensinar todas as coisas, é que o Cristo não dissera tudo; se ele vem relembrar o que o Cristo disse, é que o que este disse foi esquecido ou mal compreendido.”[5]                         

    “Sob o nome de Consolador e de Espírito de Verdade, Jesus anunciou a vinda daquele que havia de ensinar todas as coisas e de lembrar o que ele dissera. Logo, não estava completo o seu ensino. E, ao demais, prevê não só que ficaria esquecido, como também que seria desvirtuado o que por ele fora dito, visto que o Espírito de Verdade viria tudo lembrar e, juntamente com Elias, restabelecer todas as coisas, isto é, pô-las de acordo com o verdadeiro pensamento de seus ensinos.[6]

    Aqui fica bem claro que Elias estaria ao lado do Espírito de Verdade, que é o próprio Cristo, para restabelecer todas as coisas.

Por que Consolador? É Kardec quem responde:

    "Por que chama ele Consolador ao novo messias? Este nome, significativo e sem ambiguidade, encerra toda uma revelação. Assim, ele previa que os homens teriam necessidade de consolações, o que implica a insuficiência daquelas que eles achariam na crença que iam fundar. Talvez nunca o Cristo fosse tão claro, tão explícito, como nestas últimas palavras, às quais poucas pessoas deram atenção bastante, provavelmente porque evitaram esclarecê-las e aprofundar-lhes o sentido profético."[7]

O Espírito de Verdade é o guia espiritual de Allan Kardec

    Na Revista Espírita de novembro de 1861, no discurso feito por Allan Kardec no banquete que lhe fora oferecido em Bordeaux, ele lê uma comunicação que havia recebido sobre o grupo espírita que se formava naquela cidade, e assim se refere:

    “Eis, acerca deste assunto, o que ainda ontem, antes da sessão, dizia meu guia espiritual, o Espírito de Verdade.”

    Numa dissertação do Espírito de Verdade ele assim se refere àquele que está à frente da Doutrina Espírita, isto é a Kardec: “Estou convosco e meu apóstolo vos instrui.”[8]

    Não resta dúvida de que essas duas grandes almas, juntamente, vieram, pelo Espiritismo, restabelecer o verdadeiro pensamento do Cristo.

Allan Kardec, o Apóstolo

    Vejamos o que diz Santo Agostinho sobre o mestre Allan Kardec, numa comunicação publicada na Revista Espírita:

    “Um Espírito encarnado foi escolhido para vos dirigir, para vos conduzir. Submetei-vos com respeito, não às suas leis, pois ele não dá ordens, mas aos seus desejos. Por essa submissão provareis aos vossos inimigos que tendes o necessário espírito de disciplina para fazerdes parte da nova cruzada contra o erro e a superstição, o necessário espírito de amor e de obediência para marchardes contra a barbárie.

    “Envolvei-vos, pois, nessa bandeira da civilização moderna: o Espiritismo sob um só chefe, e derrubareis essas ideias esquisitas de frontes cornudas e de grandes caudas que devem ser destruídas.

    “Esse chefe, cujo nome não direi, bem o conheceis. Ele está na frente. Ele marcha sem temor às picadas venenosas das serpentes e dos répteis da inveja e do ciúme que o cercam. Ele ficará de pé, porque ungimos o seu corpo, para que seja sempre sólido e robusto. Segui-o, então. Mas, em vossa marcha, as tempestades cairão sobre as vossas cabeças e alguns de vós não encontrarão refúgio nem abrigo. Que esses se resignem com coragem, como os mártires cristãos, e pensem que a grande obra pela qual terão sofrido é a vida, é o despertar das nações adormecidas e que por isso serão largamente recompensados um dia, no reino do Pai.” Santo Agostinho.[9]

Jesus, Moisés e Elias: os três reveladores.

    "Seis dias depois, tendo chamado de parte a Pedro, Tiago e João, Jesus os levou consigo a uma alta montanha afastada[10] e se transfigurou diante deles. - Enquanto orava, seu rosto pareceu inteiramente outro; suas vestes se tornaram brilhantemente luminosas e brancas como a neve, de maneira que não há pisoeiro na Terra que possa fazer alguma tão branca. - E eles viram aparecer Elias e Moisés, que conversavam com Jesus." [11]

    No monte Tabor, diante dos três discípulo que Jesus chamara para acompanhá-lo, eis que aparecem, ao lado do Mestre, os Espírito de Moisés e de Elias…

    Naquela cena, em que Jesus mostra seu esplendor como Espírito puro que é, vemos um marco importante para a história da Humanidade, pois estavam ali os três reveladores das leis morais: Moisés, Jesus e Kardec.

Caráter da revelação espírita - Terceira revelação

    “O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo. Ele no-lo mostra, não mais como coisa sobrenatural, porém, ao contrário, como uma das forças vivas e sem cessar atuantes da Natureza, como a fonte de uma imensidade de fenômenos até hoje incompreendidos e, por isso, relegados para o domínio do fantástico e do maravilhoso. É a essas relações que o Cristo alude em muitas circunstâncias e daí vem que muito do que ele disse permaneceu ininteligível ou falsamente interpretado. O Espiritismo é a chave com o auxílio da qual tudo se explica de modo fácil.

    A lei do Antigo Testamento teve em Moisés a sua personificação; a do Novo Testamento tem-na no Cristo. O Espiritismo é a terceira revelação da lei de Deus, mas não tem a personificá-la nenhuma individualidade, porque é fruto do ensino dado, não por um homem, sim pelos Espíritos, que são as vozes do Céu, em todos os pontos da Terra, com o concurso de uma multidão inumerável de intermediários. É, de certa maneira, um ser coletivo, formado pelo conjunto dos seres do mundo espiritual, cada um dos quais traz o tributo de suas luzes aos homens, para lhes tornar conhecido esse mundo e a sorte que os espera.

    Assim como o Cristo disse: “Não vim destruir a lei, porém cumpri-la”, também o Espiritismo diz: “Não venho destruir a lei cristã, mas dar-lhe execução.” Nada ensina em contrário ao que ensinou o Cristo; mas, desenvolve, completa e explica, em termos claros e para toda gente, o que foi dito apenas sob forma alegórica. Vem cumprir, nos tempos preditos, o que o Cristo anunciou e preparar a realização das coisas futuras. Ele é, pois, obra do Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra."[12]       

O Consolador consiste nas relações entre os Espíritos e os homens

    "O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem dessas mesmas relações.

    Podemos defini-lo assim: O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.” (Allan Kardec, O que é o Espiritismo?, Preâmbulo.)       

    Haveria, neste momento por que passa a Humanidade terrena, maior consolo do que obter, nas instruções obtidas nas comunicações com os Espíritos do progresso, por evocação ou espontaneamente, nos diálogos com nossos familiares que nos antecederam na volta para a verdadeira vida, a fé em Deus e a certeza da vida futura?

    Poderíamos, fora das relações com os Espíritos, compreender a justiça divina, obter consolo e aquecer a esperança em melhores dias?

    Todavia, há Espíritos que, embora comunicando-se com os vivos, orientam seus médiuns a desaconselhar as evocações dos familiares, dos Anjos guardiães e dos demais guias, enfim, querem que só alguns possam se comunicar, minando assim o aspecto consolador do Espiritismo…

    Vejamos o que diz o Espírito de Verdade a este respeito:

    “Aliás, os Espíritos que pretendem ser eles os únicos que se podem comunicar esquecem-se de dizer por que não o podem os outros fazê-lo. A pretensão que manifestam é a negação do que o Espiritismo tem de mais belo e de mais consolador: as relações do mundo visível com o mundo invisível, dos homens com os seres que lhes são caros e que assim estariam para eles sem remissão perdidos. São essas relações que identificam o homem com o seu futuro, que o desprendem do mundo material. Suprimi-las é remergulhá-lo na dúvida, que constitui o seu tormento; é alimentar-lhe o egoísmo. Examinando-se com cuidado a doutrina de tais Espíritos, nela se descobrirão a cada passo contradições injustificáveis, marcas da ignorância deles sobre as coisas mais evidentes e, por conseguinte, sinais certos da sua inferioridade” O Espírito de Verdade. (Livro dos Médiuns, item 301.)

Encerramos estas breves reflexões com as ternas palavras do Espírito de Verdade:

    “(…) Meu Pai não quer aniquilar a raça humana; quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto não existe a morte, vos socorrais mutuamente, e que se faça ouvir não mais a voz dos profetas e dos apóstolos, mas a dos que já não estão mais no corpo, a clamar: Orai e crede! pois a morte é a ressurreição, e a vida a prova escolhida, durante a qual as virtudes que houverdes cultivado crescerão e se desenvolverão como o cedro.

    Homens fracos, que compreendeis as trevas das vossas inteligências, não afasteis o facho que a clemência divina vos coloca nas mãos para vos clarear o caminho e reconduzir-vos, filhos perdidos, ao regaço de vosso Pai.

    Sinto-me por demais tomado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa fraqueza imensa, para deixar de estender mão socorredora aos infelizes transviados que, vendo o céu, caem nos abismos do erro. Crede, amai, meditai sobre as coisas que vos são reveladas; não mistureis o joio com a boa semente, as utopias com as verdades. (...)"

Eis-me aqui; venho até vós, porque me chamastes

    "Sou o grande médico das almas e venho trazer-vos o remédio que vos há de curar. Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos. Venho salvá-los. Vinde, pois, a mim, vós que sofreis e vos achais oprimidos, e sereis aliviados e consolados. Não busqueis alhures a força e a consolação, pois que o mundo é impotente para dá-las. Deus dirige um supremo apelo aos vossos corações, por meio do Espiritismo. Escutai-o. Extirpados sejam de vossas almas doloridas a impiedade, a mentira, o erro, a incredulidade. São monstros que sugam o vosso mais puro sangue e que vos abrem chagas quase sempre mortais. Que, no futuro, humildes e submissos ao Criador, pratiqueis a sua lei divina. Amai e orai; sede dóceis aos Espíritos do Senhor; invocai-o do fundo de vossos corações. Ele, então, vos enviará o seu Filho bem-amado, para vos instruir e dizer estas boas palavras: Eis-me aqui; venho até vós, porque me chamastes. - (O Espírito de Verdade. Bordeaux, 1861.) [13]


[1] Santo Agostinho, La Cité de Dieu, livre XIX, ch. XXIX, “De la venue d'Elie avant le jugement, pour dévoiler le sens caché des Écritures et convertir les juifs à Jésus-Christ.” Traduzido do francês pela autora deste artigo.

[2] Elias se vestia com um manto rude feito de pele de camelo e habitava uma caverna no deserto.

[3] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IV - Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo - Ressurreição e reencarnação, itens 10 e 11.

[4] A Gênese - As predições, cap. XVII - Predições do Evangelho - Advento de Elias, itens 33 e 34.

[5] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI - O Cristo consolador - Consolador prometido, itens 3 e 4.

[6] A Gênese - As predições, cap. XVII - Predições do Evangelho - Anunciação do Consolador, item 37.

[7] A Gênese - A Gênese, cap. I - Caráter da revelação espírita, item 27.

[8] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI - O Cristo consolador - Instruções dos Espíritos - Advento do Espírito de Verdade, item 6.

[9] Revista Espírita, agosto de 1862 - Sociedade Espírita de Constantina.

[10] O Monte Tabor, a sudoeste do lago de Tabarich e a 11 quilômetros a sudeste de Nazaré, com cerca de 1.000 metros de altura. (nota original)

[11] A Gênese - Os milagres segundo o Espiritismo, cap. XV - Os milagres do Evangelho - Transfiguração, itens 43 e 44.

[12] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. I - Não vim destruir a lei - O Espiritismo, itens 5 a 7.

[13] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI - O Cristo consolador - Instruções dos Espíritos - Advento do Espírito de Verdade, itens 5 e 7.

Fonte: IPEAK

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Um drama íntimo - Apreciação Moral

Por Allan Kardec


O Monde Illustré de 7 de fevereiro de 1863 conta o drama de família seguinte, que comoveu, a justo título, a sociedade de Florença. O autor assim começa a sua narração:

“Eis a história. Ele era um velho de setenta e dois anos; ela, uma jovem de vinte. Ele a havia esposado há três anos... Não vos revolteis! O velho conde, originário de Viterbo, era absolutamente sem família, o que é muito estranho para um milionário! Amália não era sem família, mas era sem milhões! Para compensar as coisas, quase a tendo visto nascer, sabendo-a de bom coração e de um espírito encantador, ele tinha dito à mãe: ‘Deixa-me paternalmente casar com Amália. Durante alguns anos ela cuidará de mim e depois...’

“Fez-se o casamento. Amália compreende os seus deveres; cerca o velho dos mais assíduos cuidados e lhe sacrifica todos os prazeres de sua idade. Tendo o conde ficado cego e semipa­ralítico, ela passava as mais longas horas do dia a lhe fazer companhia, a fazer leitura, a lhe contar tudo o que podia distraí-lo e encantá-lo. ‘Como sois boa, minha cara filha!’ exclamava ele muitas vezes, tomando-lhe as mãos e atraindo-a para depor sobre sua fronte o casto e doce beijo do enternecimento e do reconhecimento.

“Um dia, entretanto, ele percebe que Amália se afasta de sua pessoa; que, posto sempre assídua e cheia de solicitude, ela parece temer sentar-se a seus pés. Uma suspeita atravessa seu espírito. Uma noite, quando ela fazia leitura, ele lhe toma o braço, a atrai, enlaça-lhe a cintura e então, soltando um grito terrível, cai esgotado de emoção e de cólera aos pés da jovem! Amália perde a cabeça; lança-se para a escada, atinge o andar superior, precipita-se pela janela e cai estatelada. O velho sobreviveu apenas seis horas a essa catástrofe!” 

Perguntarão que relação pode ter esta história com o Espiritismo? Vê-se aí a intervenção de alguns espíritos brincalhões? - Essas relações estão nas deduções que o Espiritismo ensina a tirar das coisas aparentemente mais vulgares da vida. Quando o céptico ou o indiferente não vê num fato senão um motivo para a ironia, ou passa ao lado sem notar, o espírita o observa e dele tira uma instrução, remontando às causas providenciais, sondando-lhes as consequências para a vida porvindoura, conforme os exemplos que as relações de além-túmulo lhe oferecem, da justiça de Deus.

No fato acima relatado, em vez de simples e agradável anedota entre ele, o velho, e ela, a jovem, o Espiritismo vê duas vítimas. Ora, como o interesse pelos infelizes não termina no sólio da vida presente, mas os segue na vida futura, na qual acredita, ele pergunta se aí não há um duplo castigo para uma dupla falta, e se ambos não foram punidos por onde pecaram. Ele vê um suicídio, e como sabe que esse crime é sempre punido, ele se pergunta qual o grau de responsabilidade em que incorre o que o cometeu.

Vós que pensais que o Espiritismo só se ocupa de duendes, de aparições fantásticas, de mesas girantes e de Espíritos batedores, se vos désseis ao trabalho de estudá-lo, saberíeis que ele toca em todas as questões morais. Esses Espíritos que vos parecem tão risíveis, e que, entretanto, não passam de almas dos homens, dão a quem observa as suas manifestações a prova de que ele próprio é Espírito, momentaneamente ligado a um corpo. Ele vê na morte não o fim da vida, mas a porta da prisão que se abre ao prisioneiro para restituí-lo à liberdade. Aprende que as vicissitudes da vida corpórea são as consequências de suas próprias imperfeições, isto é, das expiações pelo passado e pelo presente, e provações para o futuro. Daí ele é naturalmente conduzido a não ver o cego acaso nos acontecimentos, mas a mão da Providência. Para ele a justa sentença: A cada um segundo as suas obras não só acha a sua aplicação apenas no além-túmulo, mas também na Terra. Eis por que tudo o que se passa em redor de si tem seu valor, sua razão de ser. Ele tudo estuda para disso tirar proveito e regular sua conduta com vistas ao futuro, que para ele é uma realidade demonstrada. Remontando às causas das desgraças que o afligem, aprende a não mais acusar a sorte ou a fatalidade, mas a si mesmo.

Não tendo esta digressão outro objetivo senão mostrar que o Espiritismo se ocupa de algo mais que de Espíritos batedores, voltemos ao nosso assunto. Considerando-se que o fato foi tornado público, é permitido apreciá-lo, tanto mais quanto não designamos ninguém nominalmente.

Se se examinar a coisa do ponto de vista puramente mundano, a maior parte das pessoas não verá nele senão a consequência muito natural de uma união desproporcional, e atirarão no velho a pedra do ridículo como oração fúnebre. Outros acusarão de ingratidão a jovem senhora que traiu a confiança do homem generoso que queria enriquecê-la. No entanto, ela tem para o espírita um lado mais sério, porque o espírita aí busca um ensinamento.

Perguntar-nos-emos, então, se na ação do velho não havia mais egoísmo que generosidade ao vincular uma moça quase criança à sua caducidade, pelos laços indissolúveis que podiam conduzi-la à idade em que se deve antes pensar no descanso do que em gozar do mundo; se impondo-lhe esse duro sacrifício, não era fazê-la pagar bem caro a fortuna que lhe prometera. Não há verdadeira generosidade sem desinteresse. Quanto à jovem, ela não podia aceitar esses laços senão com a perspectiva de vê-los quebrados em breve, pois nenhum motivo de afeição a ligava ao velho. Havia, pois, cálculo de ambos os lados, e esse cálculo foi frustrado. Deus não permitiu que nem um nem o outro o aproveitassem. A um infringiu a desilusão, ao outro a vergonha, que os mataram a ambos.

Resta a responsabilidade do suicídio, que jamais fica impune, mas que muitas vezes encontra circunstâncias atenuantes. A mãe da jovem, para encorajá-la a aceitá-lo, havia dito: “Com esta grande fortuna farás a felicidade do homem pobre que amares. Enquanto esperas, honra e respeita, durante o que lhe resta de vida, esse grande coração que quis fazer-te sua herdeira.” Era tomá-la pelo lado sensível, mas, para gozar dos benefícios desse grande coração, que teria sido muito maior se a tivesse dotado sem interesse, seria preciso especular sobre a duração de sua vida. A moça errou ao ceder, mas a mãe errou mais em excitá-la, e é ela que incorrerá na maior parte da responsabilidade do suicídio da filha.

É assim que aquele que se mata para escapar à miséria é culpado pela falta de coragem e de resignação, mas muito mais culpado ainda é aquele que é a causa primeira desse ato de desespero. Eis o que o Espiritismo ensina, pelos exemplos que põe sob os olhos daqueles que estudam o mundo invisível.

Quanto à mãe, sua punição começa nesta vida, a princípio pela morte horrível da filha, cuja imagem talvez venha persegui-la e enchê-la de remorsos, depois pela inutilidade, para ela, do sacrifício que ela provocou, porque tendo falecido o marido seis horas depois de sua mulher, toda a sua fortuna vai para os colaterais afastados, e ela nenhum proveito terá.

Os jornais estão cheios de casos de todo gênero, louváveis ou censuráveis, que podem oferecer, como este que acabamos de relatar, assunto para estudos morais sérios. É para os espíritas uma mina inesgotável de observações e instruções. O Espiritismo lhes dá os meios de aí descobrirem o que se passa desapercebido para os indiferentes e ainda mais para o céptico, que geralmente aí não vê senão o fato mais ou menos picante, sem lhe procurar nem as causas nem as consequências. Para os grupos, é um elemento fecundo de trabalho, no qual os Espíritos protetores não deixarão de ajudar, dando a sua apreciação.

Fonte: Revista Espírita, fevereiro de 1864 - Um drama íntimo

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Esquecimento das injúrias

Da Revista Espírita 

Minha filha, o esquecimento das injúrias é a perfeição da alma, como o perdão das feridas feitas à vaidade é a perfeição do Espírito. A Jesus foi mais fácil perdoar os ultrajes de sua Paixão do que ao último de vós perdoar uma leve zombaria. A grande alma do Salvador, habituada à doçura, nem concebia amargura nem vingança; as nossas, atingidas por ninharias, esquecem o que é grande.

Diariamente os homens imploram a Deus o perdão, que desce sobre eles como benéfico orvalho, mas seus corações esquecem essa palavra sem cessar repetida na prece. Em verdade vos digo: o fel interno corrompe a alma. É a pedra enorme que a fixa ao solo e retarda a sua elevação. Quando fordes censurados, entrai em vós mesmos; examinai vosso pecado interior, aquele que o mundo ignora; medi a sua profundidade e curai a vossa vaidade, pelo conhecimento de vossa miséria. Se, mais grave, a ofensa atingir o coração, lamentai o infeliz que a cometeu, como lamentaríeis o ferido cuja chaga aberta verte sangue. A compaixão é devida àquele que aniquila seu ser futuro.

No Jardim das Oliveiras, Jesus conheceu a dor humana, mas ignorou sempre a aspereza do orgulho e a pequenez da vaidade. Ele encarnou-se para mostrar aos homens o tipo da beleza moral que lhes devia servir de modelo. Não vos afasteis dela jamais. Modelai as vossas almas como a cera mole e fazei que a vossa argila transformada se transforme num mármore imperecível que Deus, o grande escultor, possa assinar.

LÁZARO

Fonte: 

Revista Espírita, fevereiro de 1862
Sociedade Espírita de Paris - Médium: Sra. Costel

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Jesus, o amor perfeito de todo o bem

09:19 Posted by Fabiano Vidal , , , , No comments
Por Sergio F. Aleixo

Muito se fala em reforma íntima, ou interior. Que seja. A expressão, contudo, parece algo insuficiente a propósitos tão transversais como os do Espiritismo. Simples reformas não operam mudanças substantivas, cuja significação anime em definitivo o fomento de uma nova sensibilidade, que é, sem dúvida, a meta suprema do Evangelho do Mestre.

Os ensinos e a vida de Jesus em tudo se distanciam destes simulacros comportamentais, de meras exibições proselitistas, que as religiões do oportunismo ousam chamar de “conversões”. Há que considerar o sentido mais radical da mensagem genuinamente cristã, que se reporta a nossa mudança de mente, à passagem de nossos níveis de consciência a percepções mais apuradas do existir, mediante a compreensão da necessidade de enfrentarmos o coexistir segundo Jesus: aquilo que queremos que nos façam, devemos fazê-lo primeiramente aos demais, pois não há amor a Deus que não se faça amor ao próximo e vice-versa; do contrário, não haveria amor e, mais ainda: sem amor, já não haveria Deus.

Para tanto, são precisos movimentos de grande profundidade do ser imortal, que o conduzam para além da sua face animal, da mecânica física e mesmo da aparência perispirítica, e lhe proporcionem surpreender-se neste poder de constante transformação, fundamentalmente moral, por influência de nossa identidade perene em sua incorruptível transcendência, de divina natureza. Todos somos filhos do Altíssimo!

Claro está hoje que estes movimentos de grande profundidade no espírito não se verificam por graça, de um momento inusitado para outro de mero capricho. A evolução pela reencarnação é o processo natural que opera esta transformação gradativa da consciência imortal dos seres, em âmbitos de especialíssimos estados, cada vez mais identificados com nossa filiação indissimulável, até que nos sobrevenha aquela plenitude definitiva, destinada às criaturas em sua realizável perfeição: a angelitude, da qual é impossível decairmos.

Frio automatismo cósmico? De forma nenhuma. É a Providência mesma que se nos manifesta. Ao demais, dizem os espíritos superiores da codificação kardeciana que Jesus Cristo é o tipo mais perfeito que o próprio Deus nos ofereceu para guia e modelo. E, de fato, não se trata de um guia cego, um modelo distante de nossas vidas tão precárias. Ele efetivamente conhece o caminho pelo qual nos enveredou com sua entrada neste mundo de sangue e água, pele e ossos; padecendo a carne, mas de contínuo vivificado no espírito. Ele veio para dar testemunho da verdade, e esta mais não é do que a essência espiritual da vida.

No mundo teremos tribulações, mas tenhamos bom ânimo, pois o Mestre é vitorioso deste sistema de coisas pelo menos há milhões anos. E não se distraiu com nossas brincadeiras de cabra-cega à margem do caminho; veio até nós para que o trilhemos com decisão e sem vendas. Só conheceremos a verdade e esta somente nos tornará livres se permanecermos na doutrina de Jesus, aquele que encarnou o amor perfeito de todo o bem, assumindo para si próprio que o que se faça ao menor de seus irmãos a ele mesmo estará sendo feito. Ao menos uma vez, o mais simples foi visto como o mais importante.

Fonte: Blog Ensaios da Hora Extrema - http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com.br/2012/12/jesus-o-amor-perfeito-de-todo-o-bem.html

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O Castigo

Por Allan Kardec

Exposição geral do estado dos culpados por ocasião de sua entrada no mundo dos Espíritos, ditada à Sociedade Espírita de Paris, em outubro de 1860.

"Os Espíritos maus, egoístas e endurecidos, são, logo depois da morte, tomados de dúvida cruel a respeito do seu destino presente e futuro; eles olham em torno de si, e não vendo de início nada sobre o que possam exercer a sua maldade, são tomados pelo desespero, pois a inação e o isolamento são intoleráveis para os maus Espíritos; eles não levantam seus olhares na direção dos lugares habitados pelos puros Espíritos; consideram o que os cerca, e logo tocados pelo abatimento dos Espíritos fracos e punidos, agarram-se a eles como a uma presa, utilizando-se da lembrança de suas faltas passadas, que incessantemente põem em ação por seus gestos desprezíveis. Não lhes bastando essa zombaria, mergulham sobre a Terra quais abutres famintos; buscam entre os homens, a alma que lhes dê fácil acesso às suas tentações; dela se apoderam, exaltam sua cobiça, e tratam de extinguir sua fé em Deus; quando, enfim, senhores de uma consciência e vendo sua presa assegurada, estendem sobre tudo o que se aproxime de sua vítima, o fatal contágio.

Ao exercer sua raiva, o mau Espírito é quase feliz; ele sofre apenas nos momentos em que não age, e também naqueles em que o bem triunfa do mal.

Entretanto, os séculos se escoam; de repente, o mau Espírito sente as trevas a invadi-lo; seu círculo de ação se restringe; sua consciência, muda até então, lhe faz sentir as pontas aceradas do arrependimento. Inativo, arrastado pelo turbilhão, ele vagueia, como dizem as Escrituras, sentindo sua pele arrepiar de terror. Não tarda, então, e um grande vazio o invade; o momento é chegado, ele deve expiar: a reencarnação está lá, ameaçadora; ele vê, como numa miragem, as provas terríveis que o aguardam; quereria recuar, mas avança e, precipitado no abismo boquiaberto da vida, ele rola amedrontado, até que o véu da ignorância recaia sobre seus olhos. Ele vive, age, e é ainda culpado; sente em si não sei que lembrança inquieta, pressentimentos que o fazem tremer, mas não o fazem recuar na via do mal. Extenuado de forças e de crimes, ele vai morrer. Estendido sobre um grabato, ou sobre seu leito, que importa! o homem culpado sente, sob sua aparente imobilidade, revolver-se e viver um mundo de sensações esquecidas. Sob suas pupilas fechadas, ele vê despontar um clarão, ouve estranhos sons; sua alma, prestes a deixar o corpo, agita-se impaciente, enquanto suas mãos crispadas tentam agarrar as cobertas; ele quereria falar, gritar aos que o cercam: Retenham-me! eu vejo o castigo! Mas não pode; a morte sela seus pálidos lábios, e os assistentes dizem: Ele agora está em paz!

Entretanto, ele tudo ouve; flutua em torno de seu corpo que não desejaria abandonar; uma força secreta o atrai; ele vê, e reconhece o que já havia visto. Desvairado, ele se lança no espaço onde desejaria esconder-se. Nada de abrigo! nada de repouso! Outros Espíritos lhe retribuem o mal que ele fez e, castigado, escarnecido, confuso por sua vez, ele vagueia, e vagueará até que a divina luz deslize sobre seu endurecimento e o clareie, para lhe mostrar o Deus vingador, o Deus que triunfa de todo o mal, que ele não poderá satisfazer senão à força de gemidos e expiações.

Georges.

Jamais foi traçado quadro tão eloquente, tão terrível e tão verdadeiro da sorte do mau; é necessário recorrer à fantasmagoria das chamas e das torturas físicas?

Allan Kardec

(O Céu e o Inferno - Segunda Parte - Exemplos - Capítulo IV - Espíritos sofredores)       

Fonte: IPEAK

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Fénelon - Tratado da existência e dos atributos de Deus

Pela Equipe IPEAK

François Fénelon, pseudônimo de François de Salignac de La Mothe-Fénelon, foi um teólogo, poeta e escritor francês bastante influente na França e cujas ideias liberais muito contribuíram para a emancipação da humanidade.

Nasceu no castelo da família, em Périgord, em 6 de agosto de 1651 e morreu em Cambrai a 7 de janeiro de 1715, aos sessenta e três anos de idade.

Extraímos um pequeno trecho de um de seus livros e o traduzimos do francês, como singela homenagem a esse nobre Espírito, pela data do seu nascimento. Ei-lo aqui reproduzido: 

TRATADO DA EXISTÊNCIA E DOS ATRIBUTOS DE DEUS[1] 

Por François Fénelon, escrito em 1712 

Provas da existência de Deus, tiradas da consideração das principais maravilhas da natureza.  

(...) Após essas comparações, sobre as quais peço ao leitor para simplesmente consultar-se a si próprio, mesmo sem raciocinar, creio que é momento de entrar no detalhe da natureza. Não pretendo penetrá-la toda inteira; quem o poderia? Também não pretendo entrar em nenhuma discussão de Física; essas discussões suporiam certos conhecimentos aprofundados que muitas pessoas de espírito jamais adquiriram; quero lhes propor apenas um simples golpe de vista sobre a face da natureza; não quero lhes falar senão do que todo mundo sabe, e que precisa apenas de um pouco de atenção tranquila e séria.

Detenhamo-nos primeiramente no grande objeto que atrai nossos primeiros olhares, isto é, a estrutura geral do Universo. Lancemos um olhar sobre esta terra que nos suporta; observemos no céu essa abóbada imensa que nos cobre; esses abismos de ar e de água que nos rodeiam, e os astros que nos iluminam. Um homem que vive sem reflexão pensa apenas nos espaços que estão junto de si ou que têm alguma relação com suas necessidades; ele considera a terra inteira apenas como o chão do seu quarto, e vê o sol que o ilumina durante o dia da mesma maneira que vê a vela que o ilumina durante a noite; seus pensamentos se limitam ao lugar estreito que ele habita. Ao contrário, o homem habituado a refletir estende seu olhar para mais longe, e considera com curiosidade os abismos quase infinitos que o rodeiam por todos os lados. Um vasto reino lhe parece então um pequeno canto da Terra; a própria Terra não é, a seus olhos, senão um ponto da massa do Universo; admira-se de estar aí localizado sem saber como nela veio parar.

Quem é que suspendeu esse globo da terra que é imóvel? Quem é que nela pôs os fundamentos? Nada, ao que lhe parece, é mais vil que ela; os mais infelizes lhe calcam sob os pés. No entanto, é para possui-la que se investem todos os grandes tesouros. Se a terra fosse mais dura, o homem não poderia abrir-lhe o seio para cultivá-la; se ela fosse menos dura, não poderia suportá-lo; ele afundaria em toda parte, como afunda na areia ou no lamaçal. É do seio inesgotável da terra que sai tudo o que há de mais precioso. Essa massa informe, vil e grosseira, toma as formas mais diversas e se transforma, passo a passo, em todos os bens que lhe solicitamos; essa lama tão feia transforma-se em mil objetos belos que encantam os olhos; em apenas um ano ela se torna galhos, botões, folhas, flores, frutos e sementes, para renovar suas liberalidades em favor dos homens. Nada a esgota. Quanto mais dilaceramos suas entranhas, mas liberal ela é. Após tantos séculos, durante os quais tudo tem dela saído, ainda não está gasta; não se torna velha; suas entranhas ainda estão plenas dos mesmos tesouros.

Mil gerações passaram por seu seio: tudo envelhece, exceto ela, que rejuvenesce a cada ano, na primavera. Ela jamais falta aos homens; mas, insensatos, os homens faltam a si mesmos negligenciando o seu cultivo (...).

Admirai as plantas que nascem da terra; elas fornecem alimentos aos sãos e remédios aos doentes. Suas espécies e suas virtudes são inumeráveis: elas enfeitam a terra; dão verdor, flores odoríferas e frutos deliciosos. Vedes essas vastas florestas que parecem tão antigas quanto o mundo? As árvores se afundam na terra por meio de suas raízes, como se elevam para o céu por meio de seus galhos; suas raízes as sustentam contra os ventos, e vão buscar, como por pequenos tubos subterrâneos, todos os sucos destinados à nutrição de seu caule; o próprio caule se reveste de uma casca dura, que coloca a madeira tenra ao abrigo das injúrias do ar; seus galhos distribuem, por diversos canais a seiva que as raízes reuniram no tronco. No verão esses ramos nos protegem contra os raios do sol, com sua sombra; no inverno eles nutrem a chama que conserva em nós o calor natural. Sua madeira não é útil somente para o fogo; é uma matéria dócil, ainda que sólida e durável, à qual, sem dificuldade, a mão do homem dá todas as formas que desejar, para as grandes obras de arquitetura e de navegação. Além disso, pendendo seus ramos para a terra, as árvores frutíferas parecem oferecer seus frutos ao homem.

As árvores e as plantas, deixando cair seus frutos ou seus grãos, preparam em torno delas mesmas uma numerosa prosperidade. A mais frágil planta, o menor legume, contêm em pequeno volume, num grão, o germe de tudo o que se desdobra nas mais altas plantas e nas maiores árvores. A terra, que jamais muda, faz todas essas mudanças em seu seio.

Observemos agora o que chamamos de água: é um corpo líquido, claro e transparente. Por um lado, ela corre, escapa, foge; por outro, toma todas as formas do corpo que a contêm, não tendo nenhuma para si mesma. Se a água fosse um pouco mais rarefeita, se tornaria uma espécie de ar; toda a face da terra seria seca e estéril; haveria apenas animais voadores; nenhuma espécie de animal poderia nadar, nenhum peixe poderia viver; não haveria nenhum comércio pela navegação. Que mão habilidosa soube condensar a água, sutilizar o ar, e distinguir tão bem essas duas espécies de corpos fluidos?

Se a água fosse um pouco mais rarefeita, não poderia sustentar esses prodigiosos edifícios que denominamos navio; os corpos menos pesados afundariam primeiro na água. Quem é que tomou o cuidado de escolher uma tão justa configuração de partes, e um grau tão preciso de movimento, para tornar a água tão fluida, tão insinuante, tão própria a escapar, tão incapaz de toda consistência, e no entanto tão forte para levar, e tão impetuosa para arrastar as mais pesadas massas? Ela é dócil; o homem a conduz, como um cavaleiro conduz um cavalo pelas pontas das rédeas; ele a distribui como lhe convém; eleva-a sobre as montanhas escarpadas, e se serve de seu próprio peso para fazê-la cair, e subir tanto quanto desceu. Mas o homem, que conduz as águas com tanto império é, a seu turno, conduzido por elas. A água é uma das maiores forças motrizes que o homem sabe empregar para suprir ao que lhe falta nas artes mais necessárias, por causa da sua pequenez e pela fragilidade de seu corpo.

Todavia, essas águas que, não obstante sua fluidez, são massas tão pesadas, não deixam de se elevar acima de nossas cabeças e ficar lá por longo tempo suspensas.  Vede essas nuvens que voam como sobre as asas dos ventos? Se caíssem de repente em grossas colunas d’água, rápidas como torrentes, submergiriam e destruiriam tudo o que estivesse em seu caminho, e o restante das terras ficariam áridas. Que mão as têm nesses reservatórios suspensos, e não lhes permite cair senão gota a gota, como se fossem destiladas por um regador? Donde vem que em certos países quentes, onde quase nunca chove, o orvalho é tão abundante que supre a falta de chuva, e em outros países, tais como nas margens do Nilo e do Ganges, a inundação regular dos rios em certas estações diminui a necessidade dos povos de irrigar a terra? Pode-se imaginar medidas melhor tomadas para tornar todas as regiões férteis?

Assim, a água dessedenta não somente os homens, mas também os campos áridos; e aquele que nos deu esse corpo fluido o distribuiu com cuidado sobre a terra como os canais de um jardim. (...)

[1] Texto extraído das Œuvres Choisies de Fénelon. Traité de l’Existence et des Attributs de Dieu, Première partie, ch. I. Traduzido do francês pela Equipe do IPEAK.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Ser espírita, ser social

Por Erika Renata Dias de Araújo

A ausência de debates e ações sobre questões sociais e políticas é  um fato no movimento espírita brasileiro. Tanto, que é de causar estranheza e até mesmo críticas, um espírita engajado politicamente ou participando atividade de movimentos sociais. Mas por que isto acontece?

A visão equivocada do Espiritismo como religião está na raiz do problema. Desde a Antiguidade a religião é utilizada como forma de dominação das massas, manobra que atingiu seu apogeu na Idade Média e perdura até hoje variando de intensidade nos diferentes países. Tantas vezes utilizada pelos detentores do poder para tal fim, já faz parte da mentalidade coletiva de muitas culturas a idéia de que devemos nos resignar com a realidade em que nos encontramos, mesmo sendo a mais desumana possível, pois é da vontade de Deus que seja assim.

No meio espírita, especificamente, a resignação e benevolência são confundidas com comodismo e estagnação. “O importante é trabalhar no bem” é sentença repetida e imperam as ações de caráter assistencialista, que embora tenham seu mérito no tocante à situações urgentes, não promovem o bem estar social, pois não mudam a realidade. Além disso, essas práticas denotam a falta de compreensão do que seja caridade. E qual afinal o conceito de caridade segundo a Doutrina Espírita? Caridade é um sentimento profundo de amor a si mesmo e ao próximo, é por isso, atitude individual, a humildade e o desinteresse pessoal são suas marcas mais patentes. Depreende-se que caridade é muito mais do que distribuir sopa aos idosos ou doar roupas.

O Espiritismo é consolador e transformador, pois dá conhecimento ao homem sobre a vida futura. Dá ao mesmo, então, outro ponto de vista que começa pelo conhecimento de si mesmo sob novo ângulo e um olhar mais profundo da realidade que o rodeia. Sem dúvida, o conhecimento da vida futura estreita a importância dos problemas relativos à matéria, mas, ainda assim,  a vida corporal possui importância capital para a evolução do Espírito e é mesmo uma necessidade deste.

É claro que devemos buscar o nosso aperfeiçoamento e um importante passo neste sentido se dá através do exercício da resistência às influências perniciosas da matéria. Em O Livro dos Espíritos encontramos alguns pontos interessantes sobre a finalidade da encarnação dos Espíritos (questão 132): 
“Deus a impõe com o fim de levá-los à perfeição: para uns, é uma expiação; para outros, uma missão. Mas, para chegar a essa perfeição, eles devem sofrer todas as vicissitudes da existência corpórea; nisto é que está a expiação. A encarnação tem ainda outra finalidade, que é a de pôr o Espírito em condições de enfrentar a sua parte na obra da Criação. É para executá-la que ele toma um aparelho em cada mundo, em harmonia com a matéria essencial do mesmo, afim de nele cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. E dessa maneira, concorrendo para a obra geral, também progredir.” (Grifos nossos). 
Nesta passagem e em muitas outras como a Lei de Trabalho e Lei de sociedade, fica evidente que ao Espírito encarnado será cobrado não só as escolhas e atitudes que repercutem em seu progresso individual como de suas escolhas, atitudes e omissões no que concerne ao progresso coletivo, do qual é parte obrigatória. A sociedade existe pela necessidade humana de ajuda mútua, de se relacionar e para que os seres aprendam uns com os outros. Por isso os Espíritos respondem a Kardec (questão 766 e ss) que a vida em sociedade é útil ao progresso individual e geral, condenando ainda, o isolamento voluntário.

Desta percepção decorre que é obrigação de qualquer ser humano buscar o melhor para si e para os outros, de trabalhar por si e pelos outros, de contribuir para a harmonia do planeta em que vive. Entretanto, essa responsabilidade é ainda maior para o Espírita, porque compreendendo os laços de fraternidade e solidariedade que devem unir os seres, compreendendo que o trabalho é uma lei de Deus, compreendendo que deve trabalhar para extirpar de si o egoísmo... se omitir em questões sociais e políticas que influenciam na vida de todos é um equívoco ainda mais grave.

Ainda em O Livro dos Espíritos, destacamos a questão 799: 
“De que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso?   — Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz os homens compreenderem onde está o seu verdadeiro interesse. A ‘vida futura não estando mais velada pela dúvida, o homem compreenderá melhor que pode assegurar o seu futuro através do presente. Destruindo os preconceitos de seita, de casta e de cor, ele ensina aos homens a grande solidariedade que os deve unir como irmãos.” (Grifos nossos). 
A começar pela pergunta feita por Kardec, essa questão revela-se de suma importância. Poderíamos refazê-la perguntando: “De que maneira os Espíritas podem contribuir para o progresso?” e a resposta seria a mesma. A frase que diz que compreendendo a vida futura “o homem compreenderá melhor que pode assegurar o seu futuro através do presente” possui grande significado filosófico. O Espiritismo bem compreendido nos leva a pensar as diversas dimensões da existência, de outra forma, mais responsável, mais consciente.  Desde os mínimos gestos cotidianos: nas suas relações no trabalho, no seio da família, e até a participação direta num movimento social, numa entidade comunitária, num sindicato etc.

Os Espíritos respondem ainda a Kardec: “Destruindo os preconceitos de seita, de casta e de cor, ele ensina aos homens a grande solidariedade que os deve unir como irmãos.”. Os Espíritas são convocados a destruir preconceitos de toda espécie e fazer implantar a solidariedade e a fraternidade. Isso equivale ou não a uma profunda transformação social?

Apenas engana a si mesmo aquele que vai ao Centro Espírita ouvir palestras tomar passes e não muda seu ângulo de visão, tampouco suas atitudes. Engana-se ainda mais, quem se diz Espírita e não toma para si sua parcela de contribuição para o aperfeiçoamento da vida na Terra. De que outra forma podemos “assegurar o futuro pelo presente”, senão participando ativamente agora da construção do futuro? Como fazer isso alheio aos embates políticos e às ações sociais? Como amar ao próximo e não lutar para o correto aproveitamento dos recursos naturais? Como ser consciente sem se engajar nos problemas que tangem à categoria de trabalho da qual se faz parte? Como pensar no progresso coletivo sem se preocupar com quem ocupa o poder?

Como se vê, é a própria Doutrina Espírita quem convoca seus adeptos para a participação ativa na vida social, intervindo de acordo com suas afinidades e aptidões, portanto, ser Espírita é também  exercer plenamente seu papel como ser social, como agente transformador de uma realidade que começa em cada um e se expande para além de nós  mesmos. E na dinâmica social, que também é divina, quanto mais vivenciamos o Espiritismo, melhores seres humanos nos tornamos, consequentemente, mais consciência tomamos das circunstâncias que nos rodeiam, não intervir em sua melhoria é faltar com um dever.


“Um homem não pode fazer o certo numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível.”

-Mahatma Gandhi-

Fonte: NEFCA - Núcleo Espírita de Filosofia e Ciências Aplicadas - http://www.nefca.org.br/artigo/ser-espirita-ser-social

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Os Messias do Espiritismo

Por Allan Kardec

Para quem conhece a doutrina, ela é, de ponta, um pro­testo contra o misticismo, pois que tende a reconduzir to­das as crenças para o terreno positivo das leis da natureza. Mas, entre os que não a conhecem, há pessoas para as quais tudo o que escapa da humanidade tangível é místico. Para estas, adorar a Deus, orar, crer na Providência é ser místico. Não temos que nos preocupar com a sua opinião.

A palavra messias é empregada pelo Espiritismo na sua acepção literal de mensageiro, enviado, abstração feita da idéia de redenção e de mistério, particular aos cultos cris­tãos, O Espiritismo não tem que discutir esses dogmas, que não são de sua jurisdição: diz o sentido no qual emprega o vocábulo, para evitar qualquer equívoco, deixando cada um crer conforme a sua consciência, que não procura pertur­bar.

Assim, para o Espiritismo, todo Espírito encarnado para cumprir uma missão especial junto à humanidade é um messias, na acepção geral da palavra, isto é, um missionário ou enviado, com a diferença, entretanto, que o vocábulo messias implica mais particularmente a idéia de uma mis­são direta da divindade e, por isto, a da superioridade do Espírito e da importância da missão. De onde se segue que há uma distinção a fazer entre os messias propriamente di­tos, e os Espíritos simples missionários, O que os distingue é que, para uns, a missão ainda é uma prova, porque podem falir, ao passo que para os outros é um atributo de sua su­perioridade. Do ponto de vista da vida corporal, os messias entram na categoria das encarnações ordinárias de Espírito, e o vocábulo não tem nenhum caráter de misticidade.

Todas as grandes épocas de renovação viram aparecer messias encarregados de dar impulso ao movimento regenerador e o dirigir. Sendo a época atual uma das mai­ores transformações da humanidade, terá também os seus messias, que a presidem já como Espírito, e terminarão sua missão como encarnados. Sua vinda não será marcada por nenhum prodígio, e Deus, para os fazer reconhecer, não perturbará a ordem das leis da natureza. Nenhum sinal extraordinário aparecerá no céu, nem na Terra, e não se­rão vistos descendo das nuvens acompanhados por anjos. Nascerão, viverão e morrerão, como o comum dos homens, e sua morte não será anunciada ao mundo nem por tremo­res de Terra, nem pelo obscurecimento do sol; nenhum si­nal exterior os distinguirá, assim como o Cristo, em vida, não se distinguia dos outros homens. Nada, pois, os assina­lará à atenção pública senão a grandeza de suas obras, a sublimidade de suas virtudes, e a parte ativa e fecunda, que tomarão, na fundação da nova ordem de coisas. À antigüidade pagã os teve, feitos deuses; a história os colocará no Panteon dos grandes homens, dos homens de gênio, mas, sobretudo entre os homens de bem, cuja memória será hon­rada pela posterioridade.

Tais serão os messias do Espiritismo; grandes homens entre os homens, grandes Espíritos entre os Espíritos, marcarão sua passagem por prodígios da inteligência e da virtude, que atestam a verdadeira superioridade, muito mais que a produção de efeitos materiais que pode realizar o primeiro a surgir. Este quadro um pouco prosaico talvez faça caírem algumas ilusões; mas é assim que as coisas se passarão, muito naturalmente, e os seus resultados não serão menos importantes por não serem rodeados das formas ideais e um tanto maravilhosas, com que certas imaginações gostam de os cercar.

Dissemos os messias porque, com efeito, as previsões dos Espíritos anunciam que haverá vários, o que nada tem de admirável, segundo o sentido ligado a essa palavra, e em razão da grandeza da tarefa, pois que se trata, não do adiantamento de um povo ou de uma raça, mas da regeneração da humanidade inteira. Quantos serão? Uns dizem três, outros mais, outros menos, o que prova que a coisa está nos segredos de Deus. Um deles teria supremacia? E ainda o que pouco importa, o que até seria perigoso saber antecipadamente.

A vinda dos Messias, como fato geral, está anunciada, porque era útil que dela se estivesse prevenido; é uma dádiva do futuro e um assunto de tranqüilidade, mas as individualidades não se devem revelar senão por seus atos. Se alguém deve abrigar um deles, o fará inconscientemente, como para o primeiro vindo; assisti-lo-á e o protegerá por pura caridade, sem a isto ser solicitado por um sentimento de orgulho, do qual talvez não se pudesse defender, que mau grado seu deslizaria para o coração e lhe faria perder o fruto de sua ação. Seu devotamento talvez não fosse tão desinteressado moralmente quanto ele próprio o imaginasse.

Além disso, a segurança do predestinado exige que ele seja coberto por um véu impenetrável, porque ele terá Herodes. Ora, um segredo jamais é melhor guardado do que quando por todos desconhecido. Ninguém, pois, deve conhecer a sua família, nem o lugar de seu nascimento e os próprios Espíritos vulgares não o sabem. Nenhum anjo virá anunciar sua vinda à sua mãe, porque ela não deve fazer diferença entre ele e os outros filhos; magos não virão adorá-lo em seu berço e lhe oferecer ouro e incenso, porque ele não deve ser saudado senão quando tiver dado suas provas.

Será protegido pelos invisíveis, encarregados de velar por ele e conduzido à porta onde deverá bater e o dono da casa não conhecerá aquele que receberá em seu lar.

Falando do novo Messias, disse Jesus: Se alguém vos disser: O Cristo está aqui, ou está ali”, não vades lá, porque lá não estará.” Há, pois, que desconfiar das falsas indicações, que têm por fim ludibriar, visando fazer procurá-lo onde ele não está. Desde que não é permitido aos Espíritos revelar o que deve ficar secreto, toda comunicação circunstanciada sobre este ponto deve ser tida por suspeita, ou como uma provação para quem a recebe.

Pouco importa, pois, o número dos messias. Só Deus sabe o que é necessário; mas o que é indubitável é que ao lado dos messias propriamente ditos, Espíritos superiores, em número ilimitado, encarnar-se-ão, ou já estão encarnados, com missões especiais, para os secundar. Surgirão em todas as classes, em todas as posições sociais, em todas as seitas e em todos os povos. Havê-los-á nas ciências, nas ar­es, na literatura, na política, nos chefes de estado, enfim por toda a parte onde sua influência poderá ser útil à difusão das idéias novas e às reformas que serão sua conseqüência. A autoridade de sua palavra será tanto maior quanto será fundada na estima e na consideração de que serão cercados.

Mas, perguntarão, nessa multidão de missionários de todas as classes, como distinguir os messias? Que importa se os distinguem ou não? Eles não vêm à Terra para aí se fazer adorar, nem para receber homenagens dos homens. Não trarão, pois, nenhum sinal na fronte; mas, assim como pela obra se conhece o artífice, dirão após a sua partida: Aquele que fez a maior soma de bem deve ser o maior.”

Sendo o Espiritismo o principal elemento regenerador, importava que o instrumento estivesse pronto, quando vierem os que dele devem servir-se, e o trabalho que se realiza neste momento, e que os precede de pouco. Mas antes é preciso que a grade tenha passado pelo chão, para o purgar das ervas parasitas, que abafariam o bom grão.

E sobretudo o vigésimo século que verá florescerem grandes apóstolos do Espiritismo, e que poderá ser chamado o século dos messias. Então a antiga geração terá desaparecido e a nova estará em plena força; livre de suas convulsões, formada de elementos novos ou regeneradores, a humanidade entrará definitivamente e pacificamente na fase do progresso moral, que deve elevar a Terra na hierarquia dos mundos.

(Extraído do artigo "COMENTÁRIOS SOBRE OS MESSIAS DO ESPIRITISMO", R. E., março de 1868)

Fonte: http://saberesdoespirito.blogspot.com.br/2009/08/os-messias-do-espiritismo-allan-kardec.html

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Repensando Jesus - Parte II


Por Maria Ribeiro

 Dar-se-á continuidade a respeito das ditas mensagens psicografadas que trazem revelações da vida de Jesus não contadas nos Evangelhos. Pois bem, estes textos caíram no gosto de grande número de adeptos e são utilizados inclusive para basearem os estudos realizados nos Centros quando o tema é a figura do Mestre.

Sem querer repetir o que grandes estudiosos do passado e do presente incansavelmente dizem, há nisto grande perigo, e o mais imediato é realmente a assimilação de tais ensinamentos pelos não estudiosos com sua consequente permanência na ignorância. Coisas que parecem inofensivas podem causar, como tem causado, grandes transtornos no ME.

Não se pode negar que trata-se de empreendimento por demais audacioso, e claro, temerário. Até certo ponto, também as tentativas de interpretações de passagens evangélicas caíram num terrível vício de floreações por demais exageradas, trocando as falas simbólicas do Cristo por outras simbologias, muitas vezes vagas e sem fundamento prático. Há inúmeras obras disseminadas no ME de conteúdo pretensamente "evangélico", para cujas interpretações deve ter havido um esforço enorme de imaginação.

Sobre isto, entretanto, é preciso que fique muito claro que tanto os escritores quanto suas obras são respeitados, mediante a fraternidade que deve unir todos os homens. Mas até certo grau, pois nenhuma literatura pode superar aquela trazida pelos Espíritos Superiores na Codificação. Quando a Codificação deixa de ser o parâmetro então se torna difícil que os confrades se dialoguem, pois que falarão de coisas diversas.

A Doutrina Espírita é como o cérebro e a medula espinal que comandam as funções do corpo e seus membros, de maneira que, se por alguma razão, os membros começam a ganhar vida própria e a agir por si mesmos, caminharão para rumos incertos.

Não se trata de querer impor o conhecimento trazido pela Doutrina como o único verdadeiro, trata-se de admitir que o conhecimento trazido pela Doutrina teve um mestre criterioso, sensato, racional. Aliás ele próprio garantiu que haveria complementos, já que a Doutrina Espírita é uma ciência e como tal não estará estagnada. O grave problema é que as falas consideradas "complemento da Doutrina" simplesmente a contradizem sem nenhum constrangimento, sendo aceitas sem critério algum por boa parte de adeptos deslumbrados com as "novidades".

Os textos da Codificação não foram poupados, pois também surgiram os que querem "interpretá-los!"

Com poucos minutos de conversa é possível reconhecer os que "se formam" fora da escola kardequiana: acham que sua literatura  agradável, floreada e poética lhes ensina tudo sobre Espiritismo; acreditam que a instituição que se intitula para o ME quase que como um vaticano para os católicos é simplesmente o máximo, visto que confiável, acima de qualquer suspeita. Geralmente são pessoas "nascidas na Doutrina" ou foram adotadas pelos "donos dos centros", de quem recebem orientações. A verdade é que muitos entraram na Doutrina, mas não percebem diferença entre ela e o Movimento Espírita.

Não se pode ter nada contra o romantismo e a poesia, isto alivia as tensões, as carências. O problema é fazer alguém encontrar lógica nas coisas mais absurdas, às vezes até ridículas.

Sobre as experiências de Jesus nos bastidores dos evangelhos, descritas nas psicografias, já se pôde constatar duas versões distintas para o mesmo fato. Fosse verdadeiro, o desfecho seria o mesmo, obedecendo ao estilo de cada médium-espírito, claro. O que ocorre, entretanto, é que muitos absorvem muito rápido o que ouvem e, como são orientadas a lerem estas obras, sedimentam o erro que cria raiz. Não adquirem o hábito de ler Kardec, e o que chamam livros de estudo, não passam de releituras infiéis de pontos doutrinários mal compreendidos.   

Não bastam os ensinos do Sermão da Montanha, verdadeiro código de ética descrito principalmente no livro de Mateus? Neste, Jesus fala claramente sobre como o homem deve se conduzir consigo mesmo, em sociedade e com Deus.

Jesus entra justamente neste ponto: consta que ele era um homem dócil, brando, meigo. Estas qualidades parecem tocar mais de perto as pessoas. E pensar que nele estas qualidades eram reflexo de sua grande sabedoria, exige um raciocínio que a Doutrina nos propõe quando fala da progressão dos Espíritos. No ME há os que enxergam em Jesus algo tão extraordinário que se esquecem de que ele é um Espírito que evoluiu obedecendo às mesmas leis impostas para todos. 

Mas Jesus era também um homem enérgico e esta nuance de sua personalidade parece não ser muito atraente. 

O homem doce e meigo afaga, compreende, oferece conselhos e um ombro para chorar, cura feridas. Mas o enérgico fala o que é preciso que se ouça, fala o que é preciso ser falado. E fala naturalmente, pois sabe que há uma realidade indesejável, prejudicial, que precisa ser contida. Ele só demonstra energia quando se refere aos teimosos, a pessoas que cometem erros por gosto de fazê-lo. É um homem maduro que ensina de forma que todos  compreendam, de acordo com a maturidade de cada um.

O "Conheça-te a ti mesmo" proposto pelo filósofo da antiguidade e relembrada pelos reveladores da espiritualidade, significa encarar aos próprios defeitos e não fugir deles, fingir que não existem. O que se faz é o que Freud chama de negação - processo mental usado para a recusa da percepção de realidades internas ou não, geralmente fatos ou eventos desagradáveis ou dolorosos. Deve ser por isso que vê-se pessoas insatisfeitas com a Verdade o tempo todo, se debatendo, se magoando por que estão diante de realidades que precisam mudar. Isto é Jesus falando e multidões se recusando a ouvir. 

O problema é que toda mudança requer trabalho e causa transtorno, por isto a inação parece mais cômoda. Então é preciso surgir o homem enérgico, o homem verdade: Jesus.

Metaforicamente, então é o momento de crucificar Jesus, posto que ele é a Verdade.

Para os espíritas a figura de Jesus não pode ser amesquinhada conforme o fizeram outrem. Espíritos Perfeitos sabem todas as coisas. Mas, repetidamente, ouve-se falar em "duas asas da evolução"- referência aos aspectos evolutivos moral e intelectual, pois que não se compreendeu até hoje que o progresso intelectual leva ao moral, infalivelmente; separações de conceitos como "Evangelho e Doutrina", quando os  próprios Espíritos em resposta a Kardec na conhecida questão 625 de O Livro dos Espíritos propagam ser Jesus - seus ensinamentos - o modelo e guia da Humanidade. A imaginação criou com isto uma religião espírita, cheia de dogmas, ritualismos e preceitos que se vê em combate com as contradições criadas por ela mesma ao longo do tempo.

Jesus não é o santo, o inocente que morreu na cruz conforme se ouve nas evangelizações. Jesus é um Espírito hierarquicamente elevado que se propôs a instruir um grupo de Espíritos ignorantes. Daí ele afirmar ser o mestre. Aquela figura de coitadinho não comunga com a real condição de um mestre, muito menos com a condição de Espírito Perfeito...  

Jesus é o símbolo da Moral, dos ricos valores que um homem deve haurir em sua trajetória, não para encontrar-se com Deus, aquele Deus majestoso, "cheio de glórias"... mas para encontrar-se a si mesmo, pois quando isso acontecer, Deus terá deixado de ser um mistério, suas leis magnânimas serão parceiras benquistas do Homem Moralizado.

Em algum momento da eternidade, o Espírito que surgiu a dois mil anos sob o nome de Jesus nada mais era do que alguém em condições parecidas com as que se conhecem: dificuldades, defeitos, falhas, erros, quedas. Num outro momento da eternidade, o Homem Moralizado será também um símbolo da Moral para outros homens ignorantes.

É a lei da vida - solidariedade.

  • Leia aqui a primeira parte deste texto.