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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Elias - João Batista - Allan Kardec

O profeta, o precursor, o apóstolo

Do IPEAK

    Apesar de às vezes parecer que a Humanidade terrestre está entregue às suas próprias forças, ao fazermos algumas reflexões com base nos dados da nossa própria história, notamos que isso não é verdade. Muito devemos a Espíritos nobres que desde o inicio estão conduzindo o leme desta embarcação que serve de moradia a Espíritos que para aqui veem a fim de aprender e progredir.

       Nosso propósito, nestas breves reflexões, é seguir a trajetória de um desses Espíritos que temos hoje como nosso Mestre, e que ficou conhecido na Terra como Allan Kardec. Vamos tomar como ponto de partida o personagem Elias, tendo por base os dados históricos registrados na Bíblia, e nessa mesma fonte iremos encontrar registros desse nobre Espírito voltando à Terra, sempre com o objetivo de fazer com que a Humanidade avance na via do progresso intelecto-moral. Vamos então seguir sua passagem pela Terra em três momentos: como Elias, no século IX a.C., no primeiro século da era cristã, como João Batista, e no século XIX, como Allan Kardec.

Elias, o profeta


    Elias viveu em Israel, no século IX a.C., durante o reinado de Acab, após a morte do rei Salomão. Ele anunciava Yahweh, Deus de Israel, face a Baal, deus dos Cananeus, do qual Jezabel, esposa do rei Acab, era ardente missionária.

    A palavra Elias vem do hebreu Eliyâhou ou Eliyâh, que quer dizer: Yahweh é meu Deus.

    O profeta Elias tinha uma ardente fé em Deus, e seu objetivo era despertar no povo pagão a fé no Deus único, no Deus vivo, pregar a moral e defender os frágeis contra a tirania real. Ele surge no Antigo Testamento numa hora em que a fragilidade do rei Acab, pela falta de fé no Deus vivo, precipitava Israel no paganismo. Isso foi por volta de 875-850 a.C.

    No tempo de Elias os profetas do Deus vivo eram facilmente massacrados pelos seguidores de Baal, mas ele foi um sobrevivente e, segundo as tradições, fora arrebatado aos céus numa carruagem de fogo. Pouco antes de partir ele passou seu manto e seus poderes a seu discípulo Eliseu.

Elias ressuscita o filho de uma viúva

    Há uma passagem tocante sobre a vida desse grande profeta, no livro 1Reis,  cap. XVII, 17 a 24.

    Elias havia se hospedado, por orientação da voz que o guiava, na casa de uma pobre viúva que vivia com seu único filho, e mal tinham com que se alimentar.

    Um dia o filho da viúva foi atingido por uma enfermidade tão violenta que parou de respirar. A mulher disse a Elias: “Que há entre vós e mim, homem de Deus? Viestes à minha casa para me trazer à memória os meus pecados, e para fazer morrer meu filho?

    Elias lhe disse: Dai-me vosso filho. E, tendo-o tomado nos braços, levou-o para seu quarto e colocou-o sobre a cama.

    Em seguida rogou ao Senhor, e lhe disse: Senhor meu Deus, afligistes essa viúva que tem o cuidado de me alimentar como pode, até mesmo fazendo morrer seu filho?

    Depois, implorou ao Senhor, dizendo-lhe: Senhor, meu Deus, fazei, eu vos peço, que a alma dessa criança volte ao seu corpo.

    E o Senhor atendeu a prece de Elias; a alma da criança voltou, e ela retomou a vida. A mulher disse a Elias: eu reconheço agora, após esta ação, que sois um homem de Deus, e que a palavra do Senhor é verdadeira em vossa boca.”

    Elias ainda é lembrado hoje em dia como um homem virtuoso, respeitado por muitas religiões, e comemorado em várias nações. Muitas montanhas levam o seu nome, dentre as quais a mais conhecida é o monte Santo Elias, no Alasca.

    O conjunto de livros de Reis, que trazem as narrativas da vida e dos feitos dessa grande alma é conhecido como o “Ciclo de Elias”.

Predição da vinda do precursor do Messias

    Naquele tempo, segundo os escritos bíblicos, o povo judeu estava esquecendo as leis trazidas por Moisés, estava deixando de lado o culto a Deus, e a injustiça se alastrava causando dor e sofrimento.

    No Antigo Testamento, no livro de Malaquias, por volta do V século a.C., vamos encontrar a predição da volta de Elias, agora como sendo aquele que viria preparar o povo para receber o Messias. Eis como está escrito sobre a vinda do precursor:

    O Senhor disse a Malaquias: “Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servidor, lei que lhe deixei na montanha de Horeb, para que ele levasse a todo o povo de Israel meus preceitos e meus mandamentos.

    Eu vos enviarei o profeta Elias, antes que chegue o grande dia do Senhor; e ele reunirá o coração dos pais aos dos seus filhos, e o coração dos filhos aos dos seus pais, para que, vindo, eu não lance anátema sobre a Terra." (Malaquias, cap. IV, 4 a 6.)

Comentário de Santo Agostinho sobre a nova vinda de Elias

    Santo Agostinho comenta a predição de Malachias em sua obra intitulada A cidade de Deus, livro XX, cap. XXIV. Reproduzimos aqui um pequeno trecho:

    "Após haver advertido os judeus para que se lembrassem da lei de Moisés, bem prevendo que ainda por longo tempo eles não a conceberiam espiritualmente, logo a seguir a Escritura acrescenta: 'Eu vos enviarei Elias de Thesba, antes que esse grande e luminoso dia do Senhor chegue. E ele volverá o coração do pai ao do filho, e o coração do homem ao de seu próximo, para que, no meu advento, eu não lance anátema à Terra.’

    É uma crença bastante geral entre os fiéis, que no fim do mundo, antes do julgamento, os judeus devem crer no verdadeiro Messias, isto é, em nosso Cristo, por meio desse grande e admirável profeta Elias, que lhes explicará a lei. Além disso, não é sem razão que se espera nele o precursor do advento de Jesus Cristo, pois não é sem razão que ainda agora se crê que ele vive. É certo, com efeito, segundo o testemunho da própria Escritura, que ele foi arrebatado num carro de fogo. Quando ele vier, explicará espiritualmente a lei que os judeus ainda entendem carnalmente, e ‘ele unirá o coração do pai ao do filho’,(…). O sentido é que os judeus, que são os filhos dos profetas, no número dos quais está Moisés, compreenderão a lei como seus pais, e assim o coração dos pais se reunirá aos dos filhos e o coração dos filhos aos de seus pais, quando tiverem os mesmos sentimentos." (...)[1]

João Batista, o precursor       


    Segundo o Evangelho de Lucas, João é filho do sacerdote Zacarias e de Elizabeth, prima de Maria, mãe de Jesus. Zacarias orava a Deus com fervor diante do altar; o anjo Gabriel apareceu ao seu lado, e Zacarias assustou-se. Mas o anjo lhe disse: “Não temas Zacarias, pois tua prece foi ouvida. Tua esposa te dará um filho, e tu lhe darás o nome de João. Ele será para ti um motivo de alegria e contentamento, e muitos se felicitarão com o seu nascimento, pois ele será grande diante do Senhor; não beberá vinho nem outra bebida que possa embriagar, e será repleto do Espírito santo desde o ventre de sua mãe; ele conduzirá ao Senhor seu Deus muitos dos filhos de Israel; caminhará diante de Deus com o espírito e o poder de Elias, para reunir os corações dos pais aos dos seus filhos, e chamar os rebeldes à prudência dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo perfeito.” (Lucas, 1: 5 a 17.)

João Batista é Elias reencarnado

    O Novo Testamento tem algumas passagens que atestam de forma clara que João Batista, o precursor de Jesus, é Elias reencarnado.

    No Evangelho de Mateus, cap. 11: 1 a 10, lemos o seguinte:

    “Ora, tendo João, na prisão, tomado conhecimento das obras maravilhosas de Jesus Cristo, envia dois de seus discípulos lhe dizer: Sois vós aquele de deve vir, ou devemos nós esperar um outro?

    Jesus lhes respondeu: Ide contar a João o que haveis ouvido e o que haveis visto: Os cegos veem, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres.

    E feliz daquele que não fizer de um motivo de escândalo e queda.

    Quando eles se foram [os discípulos de João], Jesus começa a falar de João ao povo, desta maneira:

    O que ides ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento?

    O que ides vós, digo eu, ver? Um homem indolente vestido de luxo? Sabeis que aqueles que se vestem dessa forma estão nas mansões dos reis.[2]

    Que ides ver então? Um profeta? Sim, eu vo-lo digo, e mais que um profeta.

    Pois é dele que foi escrito: Eu envio a vós o meu anjo, que vos preparará o caminho por onde deveis andar.

    Em verdade eu vos digo: entre os que são nascidos de mulher, não teve nenhum maior que João Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus, é maior que ele.(…)”

    Logo após o evento da transfiguração de Jesus no Monte Tabor, e de terem vindo confabular com o Mestre os Espíritos de Moisés e Elias, os discípulos Pedro, Tiago e João, que testemunharam aquela cena, perguntaram a Jesus:

    “Por que, pois, dizem os escribas ser preciso que, antes, venha Elias? - Jesus lhes respondeu: É certo que Elias tem de vir e que restabelecerá todas as coisas.

    Mas, eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram; antes o trataram como lhes aprouve. É assim que farão morrer o Filho do homem.

    Então, seus discípulos compreenderam que era de João Batista que ele lhes falara.” (S. Mateus, 17:10 a 13.)

    As palavras de Jesus sobre João Batista são suficientes para que não precisemos buscar evidenciar ainda mais o caráter desse Espírito e a importância do seu papel como precursor do Messias.

Kardec fala sobre o novo advento de Elias

    "Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o reino dos céus é tomado pela violência e são os violentos que o arrebatam; - pois assim o profetizaram todos os profetas até João, e também a lei. - Se quiserdes compreender o que vos digo, ele mesmo é o Elias que deve vir. - Ouça-o aquele que tiver ouvidos de ouvir. (S. Mateus, 11:12 a 15.)”

    Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em S. João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já não acontece com esta passagem de S. Mateus, que não permite equívoco: ELE MESMO é o Elias que deve vir. Não há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva. - ‘Desde o tempo de João Batista até o presente o reino dos céus é tomado pela violência.’ Que significam essas palavras, uma vez que João Batista ainda vivia naquele momento? Jesus as explica, dizendo: 'Se quiserdes compreender o que digo, ele mesmo é o Elias que deve vir.’ Ora, sendo João o próprio Elias, Jesus alude à época em que João vivia com o nome de Elias. 'Até ao presente o reino dos céus é tomado pela violência': outra alusão à violência da lei moisaica, que ordenava o extermínio dos infiéis, para que os demais ganhassem a Terra Prometida, Paraíso dos hebreus, ao passo que, segundo a nova lei, o céu se ganha pela caridade e pela brandura.

    E acrescentou: Ouça aquele que tiver ouvidos de ouvir. Essas palavras, que Jesus tanto repetiu, claramente dizem que nem todos estavam em condições de compreender certas verdades." [3]

    "Elias já voltara na pessoa de João Batista. Seu novo advento é anunciado de modo explícito. Ora, como ele não pode voltar, senão tomando um novo corpo, aí temos a consagração formal do princípio da pluralidade das existências. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IV, nº 10.)”[4]                         

Anunciação do Consolador

    "Se me amais, guardai os meus mandamentos; e eu rogarei a meu Pai e ele vos enviará outro Consolador, a fim de que fique eternamente convosco: – O Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque o não vê e absolutamente o não conhece. Mas, quanto a vós, conhecê-lo-eis, porque ficará convosco e estará em vós. – Porém, o Consolador, que é o Santo Espírito, que meu Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar tudo o que vos tenho dito. (S. João, 14:15 a 17 e 26.)

    Jesus promete outro consolador: o Espírito de Verdade, que o mundo ainda não conhece, por não estar maduro para o compreender, consolador que o Pai enviará para ensinar todas as coisas e para relembrar o que o Cristo há dito. Se, portanto, o Espírito de Verdade tinha de vir mais tarde ensinar todas as coisas, é que o Cristo não dissera tudo; se ele vem relembrar o que o Cristo disse, é que o que este disse foi esquecido ou mal compreendido.”[5]                         

    “Sob o nome de Consolador e de Espírito de Verdade, Jesus anunciou a vinda daquele que havia de ensinar todas as coisas e de lembrar o que ele dissera. Logo, não estava completo o seu ensino. E, ao demais, prevê não só que ficaria esquecido, como também que seria desvirtuado o que por ele fora dito, visto que o Espírito de Verdade viria tudo lembrar e, juntamente com Elias, restabelecer todas as coisas, isto é, pô-las de acordo com o verdadeiro pensamento de seus ensinos.[6]

    Aqui fica bem claro que Elias estaria ao lado do Espírito de Verdade, que é o próprio Cristo, para restabelecer todas as coisas.

Por que Consolador? É Kardec quem responde:

    "Por que chama ele Consolador ao novo messias? Este nome, significativo e sem ambiguidade, encerra toda uma revelação. Assim, ele previa que os homens teriam necessidade de consolações, o que implica a insuficiência daquelas que eles achariam na crença que iam fundar. Talvez nunca o Cristo fosse tão claro, tão explícito, como nestas últimas palavras, às quais poucas pessoas deram atenção bastante, provavelmente porque evitaram esclarecê-las e aprofundar-lhes o sentido profético."[7]

O Espírito de Verdade é o guia espiritual de Allan Kardec

    Na Revista Espírita de novembro de 1861, no discurso feito por Allan Kardec no banquete que lhe fora oferecido em Bordeaux, ele lê uma comunicação que havia recebido sobre o grupo espírita que se formava naquela cidade, e assim se refere:

    “Eis, acerca deste assunto, o que ainda ontem, antes da sessão, dizia meu guia espiritual, o Espírito de Verdade.”

    Numa dissertação do Espírito de Verdade ele assim se refere àquele que está à frente da Doutrina Espírita, isto é a Kardec: “Estou convosco e meu apóstolo vos instrui.”[8]

    Não resta dúvida de que essas duas grandes almas, juntamente, vieram, pelo Espiritismo, restabelecer o verdadeiro pensamento do Cristo.

Allan Kardec, o Apóstolo

    Vejamos o que diz Santo Agostinho sobre o mestre Allan Kardec, numa comunicação publicada na Revista Espírita:

    “Um Espírito encarnado foi escolhido para vos dirigir, para vos conduzir. Submetei-vos com respeito, não às suas leis, pois ele não dá ordens, mas aos seus desejos. Por essa submissão provareis aos vossos inimigos que tendes o necessário espírito de disciplina para fazerdes parte da nova cruzada contra o erro e a superstição, o necessário espírito de amor e de obediência para marchardes contra a barbárie.

    “Envolvei-vos, pois, nessa bandeira da civilização moderna: o Espiritismo sob um só chefe, e derrubareis essas ideias esquisitas de frontes cornudas e de grandes caudas que devem ser destruídas.

    “Esse chefe, cujo nome não direi, bem o conheceis. Ele está na frente. Ele marcha sem temor às picadas venenosas das serpentes e dos répteis da inveja e do ciúme que o cercam. Ele ficará de pé, porque ungimos o seu corpo, para que seja sempre sólido e robusto. Segui-o, então. Mas, em vossa marcha, as tempestades cairão sobre as vossas cabeças e alguns de vós não encontrarão refúgio nem abrigo. Que esses se resignem com coragem, como os mártires cristãos, e pensem que a grande obra pela qual terão sofrido é a vida, é o despertar das nações adormecidas e que por isso serão largamente recompensados um dia, no reino do Pai.” Santo Agostinho.[9]

Jesus, Moisés e Elias: os três reveladores.

    "Seis dias depois, tendo chamado de parte a Pedro, Tiago e João, Jesus os levou consigo a uma alta montanha afastada[10] e se transfigurou diante deles. - Enquanto orava, seu rosto pareceu inteiramente outro; suas vestes se tornaram brilhantemente luminosas e brancas como a neve, de maneira que não há pisoeiro na Terra que possa fazer alguma tão branca. - E eles viram aparecer Elias e Moisés, que conversavam com Jesus." [11]

    No monte Tabor, diante dos três discípulo que Jesus chamara para acompanhá-lo, eis que aparecem, ao lado do Mestre, os Espírito de Moisés e de Elias…

    Naquela cena, em que Jesus mostra seu esplendor como Espírito puro que é, vemos um marco importante para a história da Humanidade, pois estavam ali os três reveladores das leis morais: Moisés, Jesus e Kardec.

Caráter da revelação espírita - Terceira revelação

    “O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo. Ele no-lo mostra, não mais como coisa sobrenatural, porém, ao contrário, como uma das forças vivas e sem cessar atuantes da Natureza, como a fonte de uma imensidade de fenômenos até hoje incompreendidos e, por isso, relegados para o domínio do fantástico e do maravilhoso. É a essas relações que o Cristo alude em muitas circunstâncias e daí vem que muito do que ele disse permaneceu ininteligível ou falsamente interpretado. O Espiritismo é a chave com o auxílio da qual tudo se explica de modo fácil.

    A lei do Antigo Testamento teve em Moisés a sua personificação; a do Novo Testamento tem-na no Cristo. O Espiritismo é a terceira revelação da lei de Deus, mas não tem a personificá-la nenhuma individualidade, porque é fruto do ensino dado, não por um homem, sim pelos Espíritos, que são as vozes do Céu, em todos os pontos da Terra, com o concurso de uma multidão inumerável de intermediários. É, de certa maneira, um ser coletivo, formado pelo conjunto dos seres do mundo espiritual, cada um dos quais traz o tributo de suas luzes aos homens, para lhes tornar conhecido esse mundo e a sorte que os espera.

    Assim como o Cristo disse: “Não vim destruir a lei, porém cumpri-la”, também o Espiritismo diz: “Não venho destruir a lei cristã, mas dar-lhe execução.” Nada ensina em contrário ao que ensinou o Cristo; mas, desenvolve, completa e explica, em termos claros e para toda gente, o que foi dito apenas sob forma alegórica. Vem cumprir, nos tempos preditos, o que o Cristo anunciou e preparar a realização das coisas futuras. Ele é, pois, obra do Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra."[12]       

O Consolador consiste nas relações entre os Espíritos e os homens

    "O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem dessas mesmas relações.

    Podemos defini-lo assim: O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.” (Allan Kardec, O que é o Espiritismo?, Preâmbulo.)       

    Haveria, neste momento por que passa a Humanidade terrena, maior consolo do que obter, nas instruções obtidas nas comunicações com os Espíritos do progresso, por evocação ou espontaneamente, nos diálogos com nossos familiares que nos antecederam na volta para a verdadeira vida, a fé em Deus e a certeza da vida futura?

    Poderíamos, fora das relações com os Espíritos, compreender a justiça divina, obter consolo e aquecer a esperança em melhores dias?

    Todavia, há Espíritos que, embora comunicando-se com os vivos, orientam seus médiuns a desaconselhar as evocações dos familiares, dos Anjos guardiães e dos demais guias, enfim, querem que só alguns possam se comunicar, minando assim o aspecto consolador do Espiritismo…

    Vejamos o que diz o Espírito de Verdade a este respeito:

    “Aliás, os Espíritos que pretendem ser eles os únicos que se podem comunicar esquecem-se de dizer por que não o podem os outros fazê-lo. A pretensão que manifestam é a negação do que o Espiritismo tem de mais belo e de mais consolador: as relações do mundo visível com o mundo invisível, dos homens com os seres que lhes são caros e que assim estariam para eles sem remissão perdidos. São essas relações que identificam o homem com o seu futuro, que o desprendem do mundo material. Suprimi-las é remergulhá-lo na dúvida, que constitui o seu tormento; é alimentar-lhe o egoísmo. Examinando-se com cuidado a doutrina de tais Espíritos, nela se descobrirão a cada passo contradições injustificáveis, marcas da ignorância deles sobre as coisas mais evidentes e, por conseguinte, sinais certos da sua inferioridade” O Espírito de Verdade. (Livro dos Médiuns, item 301.)

Encerramos estas breves reflexões com as ternas palavras do Espírito de Verdade:

    “(…) Meu Pai não quer aniquilar a raça humana; quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto não existe a morte, vos socorrais mutuamente, e que se faça ouvir não mais a voz dos profetas e dos apóstolos, mas a dos que já não estão mais no corpo, a clamar: Orai e crede! pois a morte é a ressurreição, e a vida a prova escolhida, durante a qual as virtudes que houverdes cultivado crescerão e se desenvolverão como o cedro.

    Homens fracos, que compreendeis as trevas das vossas inteligências, não afasteis o facho que a clemência divina vos coloca nas mãos para vos clarear o caminho e reconduzir-vos, filhos perdidos, ao regaço de vosso Pai.

    Sinto-me por demais tomado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa fraqueza imensa, para deixar de estender mão socorredora aos infelizes transviados que, vendo o céu, caem nos abismos do erro. Crede, amai, meditai sobre as coisas que vos são reveladas; não mistureis o joio com a boa semente, as utopias com as verdades. (...)"

Eis-me aqui; venho até vós, porque me chamastes

    "Sou o grande médico das almas e venho trazer-vos o remédio que vos há de curar. Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos. Venho salvá-los. Vinde, pois, a mim, vós que sofreis e vos achais oprimidos, e sereis aliviados e consolados. Não busqueis alhures a força e a consolação, pois que o mundo é impotente para dá-las. Deus dirige um supremo apelo aos vossos corações, por meio do Espiritismo. Escutai-o. Extirpados sejam de vossas almas doloridas a impiedade, a mentira, o erro, a incredulidade. São monstros que sugam o vosso mais puro sangue e que vos abrem chagas quase sempre mortais. Que, no futuro, humildes e submissos ao Criador, pratiqueis a sua lei divina. Amai e orai; sede dóceis aos Espíritos do Senhor; invocai-o do fundo de vossos corações. Ele, então, vos enviará o seu Filho bem-amado, para vos instruir e dizer estas boas palavras: Eis-me aqui; venho até vós, porque me chamastes. - (O Espírito de Verdade. Bordeaux, 1861.) [13]


[1] Santo Agostinho, La Cité de Dieu, livre XIX, ch. XXIX, “De la venue d'Elie avant le jugement, pour dévoiler le sens caché des Écritures et convertir les juifs à Jésus-Christ.” Traduzido do francês pela autora deste artigo.

[2] Elias se vestia com um manto rude feito de pele de camelo e habitava uma caverna no deserto.

[3] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IV - Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo - Ressurreição e reencarnação, itens 10 e 11.

[4] A Gênese - As predições, cap. XVII - Predições do Evangelho - Advento de Elias, itens 33 e 34.

[5] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI - O Cristo consolador - Consolador prometido, itens 3 e 4.

[6] A Gênese - As predições, cap. XVII - Predições do Evangelho - Anunciação do Consolador, item 37.

[7] A Gênese - A Gênese, cap. I - Caráter da revelação espírita, item 27.

[8] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI - O Cristo consolador - Instruções dos Espíritos - Advento do Espírito de Verdade, item 6.

[9] Revista Espírita, agosto de 1862 - Sociedade Espírita de Constantina.

[10] O Monte Tabor, a sudoeste do lago de Tabarich e a 11 quilômetros a sudeste de Nazaré, com cerca de 1.000 metros de altura. (nota original)

[11] A Gênese - Os milagres segundo o Espiritismo, cap. XV - Os milagres do Evangelho - Transfiguração, itens 43 e 44.

[12] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. I - Não vim destruir a lei - O Espiritismo, itens 5 a 7.

[13] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI - O Cristo consolador - Instruções dos Espíritos - Advento do Espírito de Verdade, itens 5 e 7.

Fonte: IPEAK

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A Carta Comprometedora de Elias

Por Paulo da Silva Neto Sobrinho

Se não se convencem pelos fatos, menos o fariam pelo raciocínio. (Allan Kardec).

O escritor José Reis Chaves, autor do livro A Face Oculta das Religiões, em um artigo publicado, em sua Coluna, de 26.04.04, no jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, “Ressurreição de Todos”, dá-nos uma informação interessantíssima. Diz ele:

“E o desaparecimento de Elias vivo confundiu muito os teólogos sobre a ressurreição. Mas ele ficou na Terra, pois Jorão, depois, recebeu dele uma carta. (2 Crônicas 21,12)”.

Engraçado como muitas vezes não enxergamos o óbvio, pois realmente, segundo a narrativa bíblica citada, Elias, depois de ter sido supostamente arrebatado, enviou mesmo uma carta a Jorão, filho e sucessor de Josafá, de Judá. Confirmam isso os tradutores da Bíblia de Jerusalém, quando nos oferecem a seguinte explicação para essa passagem:

“De acordo com a cronologia de 2Rs, Elias tinha desaparecido antes do reinado de Jorão de Israel (2Rs 2; 3,1) e, portanto, antes de Jorão de Judá (2Rs 8,16; cf. no entanto 2Rs 1,17). O cronista deve utilizar uma tradição apócrifa”.

Mas o que há de extraordinário nisso? Bom, se a passagem mencionada for verdadeira, e aqui os defensores da inerrância bíblica, por coerência, não podem aceitar de outro modo, estaremos diante de duas alternativas. A primeira: que Elias não foi arrebatado, já que envia uma carta. Isso para nós foi o que de fato ocorreu, uma vez que é difícil sustentar que alguém tenha sido arrebatado de corpo e alma levando-se em conta que se “Deus é espírito” (Jo 4,24), nós também somos seres espirituais, já que fomos criados à Sua imagem e semelhança. Por outro lado, se “o espírito é que dá vida, a carne não serve para nada” (Jo 6,63) e que “a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus” (1Cor 15,50) não há como compatibilizar corpo físico na dimensão espiritual. A segunda alternativa, que, por certo, poderá deixar alguns fanáticos perplexos, é que, se aceitarmos que não há exceção nas Leis Divinas, Elias morreu, como irá acontecer com todo ser humano; daí, por força das circunstâncias, teremos que admitir que, do plano espiritual, ele envia uma carta ao rei. Portanto, uma ocorrência mediúnica, com alguém servindo de médium para receber essa carta e enviá-la ao destinatário, traduzindo-se isso em uma autêntica psicografia.

A título de curiosidade, observamos que os termos usados nessa narrativa aparecem, nas diversas traduções bíblicas, ora como “uma carta”, ora como “uma mensagem” e ora como “um escrito”, mas, no fundo, tudo é a mesma coisa. Lembramo-nos aqui do saudoso Chico Xavier que recebia, com facilidade uma imensidão de cartas dos “mortos”.

Na primeira hipótese acima citada, não há nenhum fato bíblico entre “os arrebatados” que venha a sustentar a possibilidade de que, em algum momento, um deles tenha se comunicado, por qualquer meio, com os encarnados. Entretanto, quanto à segunda hipótese, ou seja, a que Elias tenha morrido, podemos comprovar biblicamente, por dois acontecimentos, os quais vêm apoiar a uma ocorrência dessa ordem.

O primeiro, narrado em 1Sm 28, 1-25, é um fenômeno mediúnico de psicofonia, que registra a ocasião em que o rei Saul vai a Endor, para que, através da pitonisa (médium) que residia nessa localidade, pudesse aconselhar-se com o profeta Samuel, já desencarnado. Como estava numa situação angustiante, pois se encontrava cercado pelo exército dos filisteus, queria saber do espírito do velho profeta sobre o que o futuro lhe aguardava em relação a essa iminente guerra.

O segundo, sempre “esquecido” dos contraditores da comunicação com os “mortos”, é quando os espíritos de Moisés e Elias apareceram a Jesus, Pedro, Tiago e João, e conversaram com o Mestre. Classificamos esse fenômeno mediúnico como de “materialização”, pois esses dois espíritos também foram vistos pelos três discípulos que testemunharam o fato, que, ao que tudo indica, eram os médiuns doadores da energia necessária para a produção do fenômeno, a qual chamamos de ectoplasma. Inclusive, podemos observar que, nos principais fenômenos mediúnicos produzidos por Jesus, vistos por alguns como milagres, os três apóstolos citados eram convidados por Ele, para deles participarem, pois só eles, entre os que o seguiam, possuíam essa energia de forma mais acentuada.

Há ainda um outro evento, que nunca é falado, pois não teria como ser negado: trata-se do acontecido com o próprio Jesus, que depois de morto comunicou-se com inúmeras pessoas. E, plagiando o que o apóstolo dos gentios disse aos coríntios, diríamos: “Pois se os mortos não se comunicam, também Cristo não se comunicou. Se Cristo não se comunicou ilusória a nossa fé”.

Assim, com essa carta de Elias, acreditamos estar diante de mais uma ocorrência bíblica, que vem provar a comunicação entre os dois planos da vida, embora negada sistematicamente por alguns, mas que pode ser corroborada pela própria proibição bíblica de Moisés de se comunicar com os mortos (Dt 18,9-14), já que Moisés não era tão louco assim para proibir algo que não existe. Está, portanto, comprovada pela própria Bíblia, a realidade da comunicação entre os habitantes do mundo físico com os do mundo espiritual. E como diria Jesus: “Quem tem ouvidos, ouça”.


Referência Bibliográfica:

Bíblia de Jerusalém, São Paulo: Paulus, 2002.

Jornal O Tempo, de 26.04.2004, Coluna de José Reis Chaves, pág. A8.

(Artigo Publicado no Jornal Espírita, julho de 2004, nº 347, FEESP, pág. 11)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Reencarnação: o "elo esquecido" do Cristianismo

Por Jerri Roberto S. de Almeida Preâmbulo

Há muito tempo atrás os cristãos acreditavam na reencarnação. Essa é a conclusão da escritora americana Elizabeth Clare Prophet, em seu livro "Reencarnação: o elo perdido do cristianismo". A obra é uma análise histórica da reencarnação, especialmente, a partir do cristianismo até os concílios da Igreja e a perseguição aos hereges. A autora, embora utilizando uma fonte bibliográfica extremamente rica e usando uma terminologia eminentemente espírita (reencarnação, mundo espiritual...) não faz nenhuma referência ao Espiritismo. De qualquer forma, iremos refletir, dentro dessa breve historiografia de idéias sobre a reencarnação, a proposta espírita, oportunizando, na atualidade, a continuação dos ensinos de Jesus sobre as vidas sucessivas.

O Novo Testamento

O principal alvo de debates sobre a reencarnação no Novo Testamento está centralizado nas passagens que se referem a João Batista como sendo a reencarnação do profeta Elias. O tema é abordado três vezes nos Evangelhos. Vejamos.

A primeira, quando João está pregando no deserto e os sacerdotes e levitas chegam para interrogá-lo. Ele então nega ser Elias. Mas identifica-se como ' a voz do que clama no deserto...'" (E.S.E. cap. XV). No entanto, para os judeus essa "voz" havia sido prevista pelo profeta Malaquias como sendo a "voz" do precursor do Messias, identificado como Elias.

Segundo Elizabeth, João, por certo, teve um bom motivo para responder dessa forma. Negou ser Elias para evitar reações das autoridades políticas e religiosas, que mais tarde o decapitaram, mas, ao mesmo tempo, confirmou "veladamente" a sua reencarnação para tranqüilizar seus seguidores.

Jesus afirmou que João Batista era a Reencarnação de Elias.

Observemos que, nas outras duas vezes em que a questão sobre Elias aparece, é o próprio Jesus a declara que João era Elias que "retornara". A primeira vez é quando João está na prisão e Jesus publicamente faz essa referência: "Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir". (E.S.E. cap. XV, 8 a 10)

Após a morte de João Batista, vamos encontrar a cena da transfiguração de Jesus no monte Tabor. Quando Jesus se transfigura, então Elias e Moisés aparecem e falam com Jesus. Quando descem do monte, os discípulos perguntam-lhe: "Porque dizem os escribas que é necessário que Elias venha primeiro?". em outras palavras: "Se Elias deveria vir primeiro, como profeta, para preparar o caminho para a sua vinda, então por que ele aparece em seu corpo espiritual?

"O que está fazendo no 'céu' se ainda não o vimos na Terra?" Segundo a narrativa de Marcos, Jesus responde: "(...) Digo-vos, porém, que Elias já veio, e fizeram-lhe tudo o que quiseram, como dele está escrito". Mateus apresenta a mesma história, acrescentando a seguinte frase: "Então entenderam os discípulos que lhes falara de João Batista."

De acordo com Elizabeth, "os discípulos provavelmente entenderam que a declaração de Jesus ' fizeram-lhe tudo o que quiseram' referia-se à decapitação de João, por ordem do rei Herodes Antipas.

Observando-se apenas esses três relatos, é razoável concluir-se que o princípio da reencarnação fazia parte dos ensinos de Jesus, como um mecanismo natural da lei do progresso e da evolução.

Muitos estudiosos, contrários à idéias da pluralidade das existências, acreditam que a questão da reencarnação de Elias em João, e sua referência por Jesus, na verdade, teria sido acrescentada pelos autores dos Evangelho, ou mesmo, pelos tradutores. Se analisarmos essa questão do ponto de vista meramente histórico, realmente tornar-se-ia difícil chegar a uma conclusão absoluta e irretoquível. Primeiro, porque as fontes primárias não foram conservadas, e segundo, porque os autores dos Evangelhos não eram historiadores, mas pessoas com limitações naturais de conhecimento e que puderam conservar pela memória, e/ou pelas tradições orais, os ensinamentos que Jesus lhes havia ministrado. As palavras do Cristo, disseminadas ao longo do tempo, foram transmitidas de boca em boca, e, posteriormente, transcritas em diferentes épocas, muito tempo depois de sua morte.

Não obstante a contribuição da Doutrina Espírita, nessa e em outras tantas questões, é realmente notável. Allan Kardec, em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", no cap. IV, após analisar as informações dos espíritos superiores encarregados de orientar a codificação do Espiritismo, reafirma:

"A idéia de que João Batista era Elias e de que os profetas podiam reviver na Ter4ra se nos depara em muitas passagens dos Evangelhos(...). Se fosse errônea essa crença, Jesus não houvera deixado de a combater, como combateu tantas outras e a põe por princípio e como condição necessária, quando diz: " Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo.' E insiste, acrescentando: Não te admires de que eu te haja dito ser preciso nasças de novo".

Em "O Livro dos Espíritos", questão 222, novamente afirmou: "Muitos repelem a idéia da reencarnação pelo só motivo de ela não lhes convir.(...) De alguns sabemos que saltam em fúria só com o pensarem que tenham de voltar à Terra.".

Os Alexandrinos

Retornando a nossa análise história, encontraremos Filon de Alexandria (20 a.C. - 50d.C.), filósofo judeu e contemporâneo de Jesus, cujas idéias a respeito do objetivo da vida situava-se na própria integração com Deus através de sucessivas existências; teve um papel muito importante na combinação dos pensamentos grego e judaico. Filon e sua escola de pensamento davam uma interpretação alegórica do Antigo Testamento, conferindo-lhe um significado simbólico. A reencarnação fazia parte de sua visão filosófica sobre a vida: "As (almas) que se deixam influenciar pelo desejo de uma vida mortal(...) retornam a ela" - escreveu ele. Filon viveu na cidade de Alexandria, próximo do delta do Nilo, famosa por sua biblioteca e por ser um grande centro intelectual da época. Suas idéias influenciaram profundamente alguns patriarcas da igreja romana: Clemente de Alexandria, Orígenes e Ambrório. Filon era um erudito que acreditava e ensinava que o ser humano pode chegar a Deus pela sabedoria e pela transcendência.

Segundo Elizabeth, Orígenes (185 a 254 d.C.), que viveu em Alexandria, ao estudar os textos de Filon, em conjunto com os clássicos gregos de Platão e Pitágoras, passou a associar a idéia da justiça divina com a idéia das vidas sucessivas, fazendo a seguinte indagação: "se as almas não existiam previamente, por que encontramos cegos de nascença que nunca pecaram, enquanto outros nascem sãos?". Logicamente, chegava a conclusão de que a situação atual da criatura humana é oriunda, também, de suas ações pretéritas de outras vidas:

"Se o nosso destino atual não fosse determinado pelas obras de nossas passadas existências, como poderia Deus ser justo, permitindo que o primogênito servisse o mais moço e fosse odiado, antes de haver praticado atos que merecessem a servidão e o ódio? Só as vidas anteriores podem explicar a luta de Esáu e Jacó, (...) e outros tantos fatos que seriam o opróbrio da justiça divina, se não fosse justificados pelas ações boas ou más praticadas em anteriores existências".

A partir do século IV, no entanto, a idéia das vidas sucessivas, que era naturalmente difundida, mexeria profundamente com as estruturas de interesse da igreja romana. Um padre chamado Ário, que viveu de 250 d.C. - 336 d.C., nascido no Líbano, ensinava que Jesus era filho de Deus; logo, Jesus teve um princípio. A proposta de Jesus seria nos ensinar como chegar a Ele. Ário defendia que isso seria possível através de sucessivas existências físicas. As idéias arianistas ensejaram o concílio de Nicéia, uma cidade a beira de um lago a sudeste de Constantinopla, em junho de 325. O ponto central dos debates era se Jesus havia sido criado ou não. Se houvera sido criado, conforme entendiam os arianistas, então o progresso poderia ser alcançado por nós se seguíssemos simples e tão somente, os seus ensinamentos. Mas se ele não houvesse sido criado, sendo portanto igual a Deus, como desejavam os ortodoxos, seria totalmente distinto da criação.

Nesse caso, a criatura humana para atingir a "salvação" dependeria exclusivamente da subserviência aos princípios da igreja romana. É claro que o concílio rejeitou a primeira idéia e aprovou a segunda. Com isso as idéias de Ário tornaram-se heréticas e suas obras proibidas.

Anatematizando a Reencarnação

Orígenes, que havia concordado com Ário que o objetivo de Jesus era ensinar os seres humanos como atingir a divindade, discrepando dos ortodoxos literaristas, seria sistematicamente condenado em suas idéias entre os séculos V e VI. Justiniano (527-565 d.C.), imperador romano, por volta da primeira metade do século VI, tomou o partido dos antiorigenistas, promulgando um édito onde condenou dez princípios ensinados por Orígenes, inclusive a pluralidade das existências. No entanto, somente no ano 553, ao convocar o Quinto Concílio Geral da Igreja, o princípio da reencarnação seria definitivamente abolido. Esse concílio incluía efetivamente o origenismo na lista dos movimentos heréticos: "se alguém afirmar a fictícia preexistência das almas, afirmará a monstruosa restauração que dela decorre que seja anatematizado" (Restauração" significa o retorno da alma à união com Deus).

A princípio, Agostinho lutou contra a permanência do conceito de reencarnação na doutrina da Igreja.

Naturalmente a visão reencarnacionista ensejava, desde os seus primórdios, a concepção do ser humano ser autor de seu próprio destino e, portanto, dependeria somente do indivíduo e seu livre-arbítrio, lograr o progresso ou a "salvação", e de mais ninguém. Evidentemente essa proposta desarticulava os interesses de supremacia político-religiosos da época. Tanto é verdade que Agostinho (354-430 d.C.) chegou a escrever uma carta ao Papa Inocêncio I, advertindo-o sobre a necessidade de condenar-se as idéias sobre as vidas sucessivas, sob pena de a Igreja perder a sua própria autoridade. Logo, o princípio do esforço pessoal e não simplesmente a aceitação de regras impostas colidia diretamente com o "fora da igreja não há salvação". Com a rejeição da reencarnação, a igreja teve que encontrar uma outra explicação para a ocorrência de fatos negativos a pessoas boas. Sem as ações passadas para explicar as diferenças entre os destinos, restou à igreja aceitar a doutrina do pecado original elaborada por Agostinho, que se tornou o mais influente teólogo da igreja. Assim se expressa Elizabeth: "O pecado original também era um conceito atraente para os governantes seculares. Como a doutrina firmava que o homem era naturalmente mau, ele seria, obviamente, incapaz de governar a si próprio. Assim, deveria obedecer os seus governantes(...) Certamente foi uma ideologia que servia às necessidades das classes dominantes da sociedade romana".

Agostinho, o retorno à reencarnação

Agostinho passou nove anos adepto do maniqueísmo, que combinava idéias cristãs, gnósticas e budistas, antes de voltar-se para o cristianismo. Certamente, nesse período, manteve contato com as idéias reencarnacionistas, uma vez que esse princípio fazia parte dos ensinamentos do profeta Mani. Todavia, com a elaboração de sua teologia a posteriori, deixou-se envolver pelos conflitos pessoais e negativistas que somente a obra do tempo poderia retificar. Foi assim que, com o passar dos séculos, Agostinho aprimorando seus paradigmas sobre os mecanismos pelos quais a justiça divina se manifesta, retornaria ao cenário do mundo, na segunda metade do século XIX, na tarefa de "reascender" na Terra o elo, não "perdido", mas "esquecido" do cristianismo: a reencarnação. Ao compor a plêiade de espíritos superiores que orientaram o trabalho de Allan Kardec na codificação do Espiritismo, Agostinho tem oportunidade de afirmar: "Como é bela essa missão! Assim, com que alegria vimos a vós para vos dar a conhecer os desígnios divinos! Para vos revelar as maravilhas do além-túmulo! Mas vós, que já sois iniciados nessas sublimes verdades, espalhai a semente em vosso derredor e a recompensa será bela".

A Reencarnação dignifica a Vida

Consubstanciando a Lei do Progresso, a reencarnação propicia sentido à existência humana. O seu princípio está na natureza, e, como tal, não pode ser excluído pelo ser humano. Variando-se as culturas e o tempo, a idéia reencarnacionista sempre acompanhou e acompanhará o pensamento humano ao longo de sua historiografia. Cabe ressaltar que a Doutrina Espírita, representando a síntese do conhecimento humano, em suas expressões científica, filosófica e religiosa, oportuniza uma cosmovisão da vida e, pelo apelo que faz à razão e ao bom-senso, estimula o ser humano à ação do bem: "Fora da Caridade não há salvação", isto é, o Espiritismo não diz que fora dele não há salvação, mas apresenta-nos a caridade, como normativa natural de libertação dos ciclos reencarnatórios em desajustes, convidando-nos à plenitude e, portanto, ao aproveitamento máximo de nossa atual existência.

Jerri Roberto S. de Almeida é Professor de História e dirigente Espírita ( Revista "A Reencarnação", nº 421)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Os Quatro Evangelhos

Por Paulo da Silva Neto Sobrinho

Recentemente acabamos de ler um livro sobre a Bíblia, especificamente, sobre o livro Êxodo, onde encontramos a afirmação de que Moisés foi posteriormente as personalidades Elias e João Batista. Até então, não tínhamos disso nenhuma informação e nem nos estudos que fizemos lembramo-nos de ter lido algo parecido. Assim, no interesse de saber a verdade, pedimos explicações ao editor, que muito gentilmente nos respondeu.

Literalmente nos disse:

“Com relação ao fato de Moisés e Elias terem aparecido no episódio da transfiguração, apesar de serem o mesmo Espírito, transcreveremos trecho da obra Os Quatro Evangelhos, editada pela Federação Espírita Brasileira, Casa-Máter do Espiritismo em nosso País, merecedora, portanto, de todo crédito”:

“Moisés, Elias e João sempre foram o mesmo Espírito reencarnado, mas não a mesma personalidade humana, a mesma individualidade terrena. Assim é que, no Tabor, quando da transfiguração de Jesus, um Espírito superior, da mesma elevação que Elias e João, tomou a figura, a aparência de Moisés. Tais substituições se dão quando necessárias — por Espíritos da mesma ordem”. (Volume 2, pág. 498).

A esse respeito, esclarece Kardec:

“À medida que os Espíritos se purificam e elevam na hierarquia, os caracteres distintivos de suas personalidades se apagam, de certo modo, na uniformidade da perfeição; nem por isso, entretanto, conservam eles menos suas individualidades. É o que se dá com os Espíritos superiores e os Espíritos puros. Nessa culminância, o nome que tiveram na Terra, em uma das mil existências corporais efêmeras por que passaram, é coisa absolutamente insignificante. (...)

O mesmo ocorre todas as vezes que um Espírito superior se comunica espontaneamente, sob o nome de uma personagem conhecida. Nada prova que seja exatamente o Espírito dessa personagem; porém, se ele nada diz que desminta o caráter desta última, há presunção de ser o próprio e, em todos os casos, se pode dizer que, se não é ele, é um Espírito do mesmo grau de elevação, ou talvez até um enviado seu.(...).

A questão da identidade é, pois, como dissemos, quase indiferente, quando se trata de instruções gerais, uma vez que os melhores Espíritos podem substituir-se mutuamente, sem maiores conseqüências.” (O Livro dos Médiuns, item 256).

Tudo leva a crer que o Editor está coberto de razão na questão, e, por sinal, fez colocações muito pertinentes baseadas no Livro dos Médiuns, sobre a hipótese do espírito Elias, na ocasião da transfiguração, ter sido substituído por outro espírito que assumiu, vamos dizer assim, a aparência dele. Mas, ao final voltaremos esse ponto para analisá-lo.

Tudo estava resolvido, mas alguma coisa nos dizia que deveríamos ver a opinião de Kardec sobre a obra de Roustaing. Pelo que deduzimos Kardec teve muito mais bom senso do que aparentemente a nossa FEB – Federação Espírita Brasileira, já que não aprovou e nem desaprovou “Os Quatros Evangelhos”, sugerindo que tudo fosse passado pelo controle universal dos Espírito, coisa que somente no futuro poderia ocorrer.

Em janeiro de 1868, observar que essa data é posterior ao lançamento da obra em questão, quando Kardec lança o livro “A Gênese”, onde podemos ver que, num certo ponto, ele defende, sem nenhuma sombra de dúvida, que Jesus teve um corpo físico comum a todos nós. No capítulo XV – Os milagres do Evangelho, encontramos o seguinte parágrafo (item 2):

“Como homem, tinha a organização dos seres carnais; mas como Espírito puro, desligado da matéria, deveria viver a vida espiritual mais do que a vida corpórea, da qual não tinha as fraquezas. A superioridade de Jesus sobre os homens não se prendia às particularidades de seu corpo, mas às de seu Espírito, que dominava a matéria de maneira absoluta, e à de seu perispírito, haurida na parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres. (Cap. XIV, nº 9). Sua alma não devia prender-se ao corpo senão pelos laços estritamente indispensáveis; constantemente desligado, devia dar-lhe uma dupla vista não somente permanente, mas de uma penetração excepcional e bem de outro modo superior àquela que se vê entre os homens comuns. (...)” (Grifo do original)

Veja bem que, já de início, Kardec não usa de meias palavras para expor seu pensamento de que Jesus, “como homem, tinha a organização dos seres carnais”. Ora, a tese levantada por Roustaing é que Jesus possuía não um corpo carnal, mas um corpo fluídico, o que fica inevitavelmente contra o que diz o codificador do Espiritismo.

Mais à frente é que veremos Kardec detalhar melhor o seu pensamento, conforme podemos constatar quando ele diz sobre o desaparecimento do corpo de Jesus.

Coloca Kardec (item 65 em diante), e tudo nos leva a crer que, pelo teor, essa colocação tem um destinatário certo, qual seja, a obra de Roustaing:

“Segundo uma outra opinião, Jesus não teria revestido um corpo carnal, mas somente um corpo fluídico; não fora, durante a sua vida, senão uma aparição tangível, em uma palavra, uma espécie de agênere. Seu nascimento, sua morte e todos os atos materiais de sua vida, não seria senão uma aparência. Foi assim, diz-se, que seu corpo, retornado ao estado fluídico, pôde desaparecer do sepulcro, e foi com esse mesmo corpo que ele se mostrou depois de sua morte”.

“Sem dúvida, semelhante fato não é radicalmente impossível, segundo o que se sabe hoje sobre as propriedades dos fluidos; mas seria ao menos inteiramente excepcional e em oposição formal ao caráter dos agêneres. (Cap. XIV, nº 36). A questão é, pois, saber se uma tal hipótese é admissível, se é confirmada ou contradita pelos fatos.

“A permanência de Jesus sobre a Terra apresenta dois períodos: a que a precede e aquela que se segue à sua morte. Na primeira, desde o momento da concepção até o nascimento, tudo se passa, na mãe, como nas condições comuns da vida[1]. Desde o seu nascimento até a morte, tudo, em seus atos, em sua linguagem e nas diversas circunstâncias de sua vida, apresenta os caracteres inequívocos da corporeidade. Os fenômenos de ordem física que se produzem nele são acidentais, e nada têm de anormal, uma vez que se explicam pelas propriedades do perispírito, e se encontram em diferentes graus entre alguns indivíduos. Depois de sua morte, ao contrário, tudo nele revela o ser fluídico. A diferença entre os dois estados é de tal modo marcante que não é possível assimilá-los”.

“O corpo carnal tem as propriedades inerente à matéria propriamente dita, e que diferem essencialmente daquelas dos fluidos etéreos; a desorganização nela se opera pela ruptura da coesão molecular. Um instrumento cortante, penetrando no corpo material, divide-lhe os tecidos; se os órgãos essenciais à vida são atacados, seu funcionamento se detém, e a morte se segue, quer dizer, a morte do corpo. Essa coesão não existe nos corpos fluídicos, a vida não repousa mais sobre o funcionamento de órgãos especais, e neles não podem se produzir desordens análogas; um instrumento cortante, ou qualquer outro, aí penetra como num vapor, sem lhe ocasionar nenhuma lesão. Eis porque essas espécies de corpos não podem morrer, e porque os seres fluídicos designados sob o nome de agêneres não podem ser mortos”.

“Depois do suplício de Jesus, seu corpo ali, inerte e sem vida, foi enterrado como os corpos comuns, e cada um podia vê-lo e tocá-lo. Depois de sua ressurreição, quando quer deixar a Terra, não morre mais; seu corpo se eleva, se desvanece e desaparece, sem deixar nenhum traço, prova evidente de que o seu corpo era de outra natureza daquele que pereceu sobre a cruz; de onde é preciso concluir que se Jesus pôde morrer, foi porque tinha um corpo carnal”.

“Em conseqüência de suas propriedades materiais, o corpo carnal é a sede das sensações e das dores físicas que repercutem no centro sensitivo ou Espírito. Não é o corpo que sofre, é o Espírito que recebe o contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. Num corpo privado do Espírito, a sensação é absolutamente nula; pela mesma razão, o Espírito, que não tem corpo material, não pode sentir os sofrimentos que são o resultado da alteração da matéria, de onde é igualmente necessário concluir que se Jesus sofreu materialmente, como disso não se poderia duvidar, foi porque tinha um corpo material, de uma natureza semelhante àqueles de todo o mundo”.

Continua, Kardec:

“Aos fatos materiais vêm se acrescentar considerações morais poderosíssimas”.

“Se Jesus estivesse, durante a sua vida, nas condições de seres fluídicos, não teria sentido nem a dor, nem nenhuma das necessidades do corpo; supor que assim não haja sido, é tirar-lhe todo o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolheu como exemplo de resignação. Se tudo nele não era senão aparência, todos os atos de sua vida, o anúncio reiterado de sua morte, a cena dolorosa do jardim das Oliveiras, sua prece a Deus para afastar o cálice de seus lábios, sua paixão, sua agonia, tudo, até a sua última exclamação no momento de entregar o seu Espírito, não teria sido senão um vão simulacro, para enganar sobre a sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida, uma comédia indigna de um simples homem honesto, com mais forte razão de um ser tão superior; em uma palavra, ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e posteridade. Tais são as conseqüências lógicas desse sistema, conseqüências que não são admissíveis, porque o abaixam moralmente, em lugar de elevá-lo”.

E arremata categórico:

“Jesus teve, pois, como todos, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que atestam os fenômenos materiais e os fenômenos psíquicos que assinalaram a sua vida”.

Não dá, pois para conciliar a obra “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing, com o que Kardec desenvolve na codificação da Doutrina Espírita. E chamamos a atenção para o fato que o Livro “A Gênese”, ter sido lançado depois da obra de Roustaing.

Entretanto, talvez a maioria dos espíritas nem saibam, mas Kardec fez uma análise dessa obra. Vamos encontrá-la na Revista Espírita, Jornal de Estudos Psicológicos, relativa ao mês de junho de 1866, que vale a pena colocarmos neste estudo, para que tenhamos um esclarecimento mais aprofundado do assunto.

Passaremos, então, a palavra a Kardec, no texto intitulado “Os Evangelhos Explicados” – Pelo Sr. Roustaing[2], onde ele comenta, ao que tudo indica, os recém lançados livros:

“Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerado, e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, sobre nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada por O Livro dos Espíritos e o dos Médiuns. As partes correspondentes àquelas que tratamos em O Evangelho Segundo o Espiritismo o são num sentido análogo. De resto, como nos limitamos às máximas morais que, quase sem exceção, são geralmente claras, elas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; também foram o assunto de controvérsias religiosas. Foi por esta razão que começamos por ali a fim de ser aceito sem contestação, esperando para o resto que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a idéia espírita”.

“O autor desta nova obra acreditou dever seguir um outro caminho; em lugar de proceder por graduação, quis alcançar o objetivo de um golpe. Tratou, por certas questões que não julgamos oportuno abordar ainda, e das quais, conseqüentemente, lhe deixamos a responsabilidade, assim como aos Espíritos que os comentaram. Conseqüente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa caminhada sobre o desenvolvimento da opinião, não daremos, até nova ordem, às suas teorias, nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o cuidado de sancioná-las ou de contradizê-las. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais aos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, e que, em todos os casos, têm necessidade da sanção do controle universal, e até mais ampla confirmação não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita”.

“Quando tratarmos essas questões, o faremos sem cerimônia; mas é que, então, teremos recolhido os documentos bastante numerosos, nos ensinos dados de todos os lados pelos Espíritos, para poder falar afirmativamente e ter a certeza de estar de acordo com a maioria; é assim que fazemos todas as vezes que se trata de formular um princípio capital. Nós os dissemos cem vezes, para nós a opinião de um Espírito, qualquer que seja o nome que traga, não tem senão o valor de uma opinião individual; nosso critério está na concordância universal, corroborada por uma rigorosa lógica, para as coisas que não podemos controlar por nossos próprios olhos. De que nos serviria dar prematuramente uma doutrina como uma verdade absoluta, se, mais tarde, ela devesse ser combatida pela generalidade dos Espíritos?”.

“Dissemos que o livro do Sr. Roustaing não se afasta dos princípios de O Livro dos Espíritos e o dos Médiuns; nossas observações levam, pois, sobre aplicação desses mesmos princípios à interpretação de certos fatos. É assim, por exemplo, que dá ao Cristo, em lugar de um corpo carnal, um corpo fluídico concretizado, tendo todas as aparências da materialidade, e dele faz uma agênere. Aos olhos dos homens que não teriam podido compreender, então, sua natureza espiritual, teve que passar EM APARÊNCIA, essa palavra é incessantemente repetida em todo o curso da obra, para todas as vicissitudes da Humanidade. Assim se explicaria o mistério de seu nascimento: Maria não teria tido senão as aparências da gravidez. Este ponto, colocado por premissa e pedra angular, é a base sobre a qual se apóia para explicação de todos os fatos extraordinários ou miraculosos da vida de Jesus”.

“Sem dúvida, não há aí nada de materialmente impossível para quem conhece as propriedades do envoltório perispiritual; sem nos pronunciar pró ou contra essa teoria diremos que ela é ao menos hipotética, e que, se um dia ela fosse reconhecida errada, a base sendo falsa, o edifício desmoronaria. Esperamos, pois os numerosos comentários que ela não deixará de provocar da parte dos Espíritos, e que contribuirão para elucidar a questão. Sem prejulgá-la, diremos que já foram feitas objeções sérias a essa teoria, e que, na nossa opinião, os fatos podem perfeitamente se explicar sem sair das condições da Humanidade corpórea”.

“Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, não diminui nada a importância dessa obra que, ao lado das coisas duvidosas do nosso ponto de vista, delas encerra, incontestavelmente, boas e verdadeiras, e será consultada proveitosamente pelos Espíritas sérios”.

“Se o fundo de um livro é o principal, a forma não é de se desdenhar, e entra também por alguma coisa no sucesso. Achamos que certas partes são desenvolvidas muito longamente, sem proveito para a clareza. Na nossa opinião, se, limitando-se ao estrito necessário, ter-se-ia podido reduzir a obra em dois, ou mesmo em um único volume, teria ganhado em popularidade”. (os grifos em negrito são nossos).

Podemos muito bem perceber que Kardec, embora não condene de todo a obra, deixa aberto para o futuro o julgamento. Mas, quanto à questão do corpo fluídico, não deixa de dar sua opinião de que não sanciona essa hipótese. Não deixa também de falar que falta clareza e objetividade a essa obra.

Diz, de forma bastante clara, que a obra de Roustaing, por falta de uma confirmação mais ampla, não poderia ser considerada como parte integrante da Doutrina Espírita.

Pensamos que somente pelo fato da FEB ter editado “Os Quatro Evangelhos” não quer necessariamente dizer que ela concorde com tudo que contém nesta obra, até mesmo porque estaria contradizendo Kardec, e, bem sabemos, que os órgãos do movimento Espírita devem estar, acima de tudo, sintonizados com o pensamento do codificador. Nós particularmente entendemos que a FEB não está fazendo nada mais que seguindo a recomendação bíblica: “Examinai tudo, retende o que é bom”.

Entretanto, se não houver um esclarecimento mais objetivo a respeito disso, é bem provável que muitos irão pensar que a FEB está assinando embaixo do que consta nessa obra. Assim, passamos a palavra a FEB, para que se pronuncie a respeito e esclareça qual é realmente a sua posição ante “Os Quatros Evangelhos”, para que não levem as pessoas a pensarem erroneamente a respeito do que ela advoga.

Mas, voltando ao nosso assunto inicial sobre Moisés ter sido Elias e posteriormente João Batista, como ainda não houve o “controle universal”, proposto por Kardec, e por não poder ser considerado parte integrante da Doutrina Espírita, preferimos ficar somente com o fato de João Batista ter sido Elias em nova encarnação, já que além de ser uma afirmativa de Jesus também foi dita por vários outros Espíritos.

Agora, vamos analisar a questão da aparição de Moisés e Elias a Jesus, no monte Tabor. Na narrativa de Mateus (17, 1-9) está dito que eles conversavam com Jesus, e Lucas (9, 28-36), detalha dizendo que o assunto era sobre a partida de Jesus que ia se realizar em Jerusalém. Colocando tudo isso sob um raciocínio lógico e, no pressuposto de que um desses espíritos esteja substituindo um outro, realmente não compreendemos, pois segundo está sendo dito Moisés e Elias são a mesma individualidade, então qual a razão de um espírito aparecer junto com outro que lhe toma a aparência, já que, no fundo, ambas aparições estão a representar uma mesma pessoa? Se eles fossem realmente um, deveria haver somente uma aparição, uma vez que o próprio interessando já estava pessoalmente lá.

E mais, não há como afastarmos, nem um milímetro, do pensamento de Kardec, quando ele diz: “para nós a opinião de um Espírito, qualquer que seja o nome que traga, não tem senão o valor de uma opinião individual; nosso critério está na concordância universal, corroborada por uma rigorosa lógica”, isso nos aplicamos para qualquer Espiritista ou entidade representativa do Movimento Espírita.

Agosto/2002.

Bibliografia
A Gênese, Allan Kardec, IDE, Araras, SP, 4ª edição, 1993.
Revista Espírita, tomo IX, Allan Kardec, IDE, Araras, SP, 1ª edição, 1993.

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[1] Não falamos do mistério da encarnação, do qual não temos que nos ocupar aqui, e que será examinado ulteriormente.

[2] Os quatro Evangelhos, seguidos dos mandamentos explicados em espírito e verdade pelos evangelistas assistidos pelos apóstolos. Recolhidos e colocados em ordem por J.B.Roustaing, advogado da corte imperial de Bordeaux, antigo chefe da ordem dos advogados – 3 vol. In-12 – Preço 10 fr. 50. Paris, Livraria Central, 24, bulevarde dos Italianos – Bordeaux, todas as livrarias.

Paulo da Silva Neto Sobrinho, é natural de Guanhães, MG; formado em Ciências Contábeis e Administração de Empresas pela Universidade Católica (PUC-MG); aposentou-se como Fiscal de Tributos pela Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais; freqüenta o movimento Espírita desde Julho/87; em Casas Espíritas exerceu as funções de Presidente, Coordenador de Reunião de Desobsessão e Coordenador de Reunião de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita; tem artigos publicados no Jornal Espírita e O Semeador da FEESP. Sites Espíritas na Internet também publicaram alguns textos; autor do livro A Bíblia à Moda da Casa, atualmente freqüenta a Fraternidade Espírita Fabiano de Cristo, em Guanhães.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

ESE - Ressurreição e Reencarnação

1 – E veio Jesus para os lados de Cesaréia de Felipe, e interrogou seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? E eles responderam: Uns dizem que é João Batista, mas outros que é Elias, e outros que Jeremias ou algum dos Profetas. Disse-lhes Jesus: E vós, quem dizeis que sou eu? Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, filho do Deus vivo. E respondendo Jesus, lhe disse: Bem aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne e o sangue que te revelaram isso, mas sim meu Pai, que está nos Céus”. (Mateus, XVI: 13-17)

2 – E chegou a Herodes, o Tetrarca notícia de tudo o que Jesus obrava, e ficou como suspenso, porque diziam uns: É João que ressurgiu dos mortos; e outros: É Elias que apareceu; e outros: É um dos antigos profetas que ressuscitou. Então disse Herodes: Eu mandei degolar a João; quem é, pois, este, de quem ouço semelhantes coisas? E buscava ocasião de o ver. (Marcos, VI: 14-15; Lucas, IX: 7-9)

3 – (Após a transfiguração). E os discípulos lhe perguntaram, dizendo: Pois por que dizem os escribas que importa vir Elias primeiro? Mas ele, respondendo, lhes disse: Elias certamente há de vir, e restabelecerá todas as coisas: digo-vos, porém, que Elias já veio, e eles não o conheceram, antes fizeram dele quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer às suas mãos. Então compreenderam os discípulos que de João Batista é que ele lhes falara. (Mateus, XVII: 10-13; Marcos, XVIII: 10-12)

RESSURREIÇÃO E REENCARNAÇÃO

4 – A reencarnação fazia parte dos dogmas judeus, sob o nome de ressurreição. Somente os saduceus, que pensavam que tudo acabava com a morte, não acreditavam nela. As idéias dos judeus sobre essa questão, como sobre muitas outras, não estavam claramente definidas. Porque só tinham noções vagas e incompletas sobre a alma e sua ligação com o corpo. Eles acreditavam que um homem podia reviver, sem terem uma idéia precisa da maneira por que isso se daria, e designavam pela palavra ressurreição o que o Espiritismo chama, mais justamente, de reencarnação. Com efeito, a ressurreição supõe o retorno à vida do próprio cadáver, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, sobretudo quando os elementos desse corpo já estão há muito dispersos e consumidos. A reencarnação é à volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas num outro corpo, novamente constituído, e que nada tem a ver com o antigo. A palavra ressurreição podia, assim, aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos demais profetas. Se, portanto, segundo sua crença, João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias, pois que João tinha sido visto criança e seus pais eram conhecidos. João podia ser, pois, Elias reencarnado, mas não ressuscitado.

5 – E havia um homem dentre os fariseus, por nome Nicodemos, senador dos judeus. Este, uma noite, veio buscar a Jesus, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és mestre, vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer estes milagres, que tu fazes, se Deus não estiver com ele. Jesus respondeu e lhe disse: Na verdade, na verdade te digo que não pode ver o Reino de Deus senão aquele que renascer de novo. Nicodemos lhe disse: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode entrar no ventre de sua mãe e nascer outra vez? Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus, o que é nascido de carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito. Não te maravilhes de eu te dizer que vos importa nascer de novo. O Espírito sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde ele vem, nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito. Perguntou Nicodemos: Como se pode fazer isto? Respondeu Jesus: Tu és mestre em Israel, e não sabes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo: que nós dizemos o que sabemos, e damos testemunho do que vimos, e vós, com tudo isso, não recebeis o nosso testemunho. Se quando eu vos tenho falado das coisas terrenas, ainda assim me credes, como creríeis, se eu vos falasse das celestiais? (João, III: 1-12)

6 – A idéia de que João Batista era Elias, e de que os profetas podiam reviver na Terra, encontra-se em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nas acima reproduzidas (nº 1 a 3). Se essa crença fosse um erro, Jesus não deixaria de combatê-la, como fez com tantas outras. Longe disso, porém, ele a sancionou com toda a sua autoridade, e a transformou num princípio, fazendo-a condição necessária, quando disse: Ninguém pode ver o Reino dos Céus, se não nascer de novo. E insistiu, acrescentando: Não te maravilhes de eu ter dito que é necessário nascer de novo.

7 – Estas palavras: “Se não renascer da água e do Espírito”, foram interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. Mas o texto primitivo diz simplesmente: Não renascer da água e do Espírito, enquanto que, em algumas traduções, a expressão do Espírito foi substituída por do Espírito Santo, o que não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários feitos sobre o Evangelho, assim como um dia será constatado sem equívoco possível.(1)

8 – Para compreender o verdadeiro sentido dessas palavras, é necessário reportar à significação da palavra, que não foi empregada no seu sentido específico. Os antigos tinham conhecimentos imperfeitos sobre as ciências físicas, e acreditavam que a Terra havia saído das águas. Por isso, consideravam a água como o elemento gerador absoluto. É assim que encontramos no Gênesis: “O Espírito de Deus era levado sobre as águas”, “flutuava sobre as águas”, “que o firmamento seja no meio das águas”, que as águas que estão sob o céu se reúnam num só lugar, e que o elemento árido apareça”, “que as águas produzam animais viventes, que nadem na água, e pássaros que voem sobre a terra e debaixo do firmamento”.

Conforme essa crença, a água se transformara no símbolo da natureza material, como o Espírito o era da natureza inteligente. Estas palavras: “Se o homem renascer da água e do Espírito”, ou “na água e no Espírito”, significam pois: “Se o homem não renascer com o corpo e a alma”. Neste sentido é que foram compreendidas no princípio.

Esta interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito”. Jesus faz aqui uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo. “O que é nascido da carne é carne”, indica claramente que o corpo procede apenas do corpo, e que o Espírito é independente dele.

9 – “O Espírito sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai”, é uma passagem que se pode entender pelo Espírito de Deus que dá a vida a quem quer, ou pela alma do homem. Nesta última acepção, a seqüência: “mas não sabes de onde vem nem para onde vai”, significa que não se sabe o que foi nem o que será o Espírito. Se, pelo contrário, o Espírito, ou alma, fosse criado com o corpo, saberíamos de onde ele vem, pois conheceríamos o seu começo. Em todo caso, esta passagem é a consagração do principio da preexistência da alma, e por conseguinte da pluralidade das existências.

10 – Desde os tempos de João Batista até agora, o Reino dos Céus é tomado pela força, e os que fazem violência são os que o arrebatam. Porque todos os profetas e a lei, até João, profetizaram. E se vós o quereis bem compreender, ele mesmo é o Elias que há de vir. O que tem ouvidos de ouvir, ouça”. (Mateus, XI: 12-15)

11 – Se o princípio da reencarnação, expresso em São João, podia, a rigor, ser interpretado num sentido puramente místico, já não aconteceria o mesmo nesta passagem de São Mateus, onde não há equívoco possível: “Ele mesmo é o Elias que há de vir”. Aqui não existe figura, em alegoria; trata-se de uma afirmação positiva. “Desde o tempo de João Batista até agora, o Reino dos Céus é tomado pela força”, que significam estas palavras, pois João ainda vivia no momento em que foram ditas? Jesus as explica, ao dizer: “E se vós o quereis bem compreender, ele mesmo é o Elias que há de vir”. Ora, João tendo sido Elias, Jesus alude ao tempo em que João vivia com o nome de Elias. “Até agora, o Reino dos Céus é tomado pela força”, é outra alusão à violência da lei mosaica, que ordenava o extermínio dos infiéis, para a conquista a Terra Prometida, Paraíso dos hebreus que, segundo a nova lei, o céu é ganho pela caridade e pela brandura. A seguir, acrescenta: “O que tem ouvidos de ouvir, ouça”. Essas palavras, tão freqüentemente repetidas por Jesus, exprimem claramente que nem todos estavam em condições de compreender certas verdades.

12 – Os teus mortos viverão. Os meus, a quem tiraram a vida, ressuscitarão. Despertai e cantai louvores, vós os que habitais no pó, porque o orvalho que cai sobre vós é orvalho de luz, e arruinareis a terra e o reino dos gigantes”. (Isaias, XXVI: 19)

13 – Esta passagem de Isaias é também bastante clara: “Os teus mortos viverão”. Se o profeta tivesse querido falar da vida espiritual, se tivesse querido dizer que os mortos não estavam mortos em Espírito, teria dito: “ainda vivem”, e não: “viverão”. Do ponto de vista espiritual, essas palavras seriam um contra senso, pois implicariam uma interrupção na vida da alma. No sentido de regeneração moral, seriam as negações das penas eternas, pois estabelecem o princípio de que todos os mortos reviverão.

14 – Quando o homem morre uma vez, e seu corpo, separado do espírito, é consumido, em que se torna ele? Tendo o homem morrido uma vez, poderia ele reviver de novo? Nesta guerra em que me encontro, todos os dias de minha vida, estou esperando que chegue a minha mutação (Job, XIV: 10-14, segundo a tradução de Sacy).

Quando o homem morre, perde toda a sua força e expira depois, onde está ele? Se o homem morre, tornará a viver? Esperarei todos os dias de meu combate, até que chegue a minha transformação? (Id. Tradução protestante de Osterwald).

Quando o homem está morto, vive sempre; findando-se os dias da minha existência terrestre, esperarei, porque a ela voltarei novamente. (Id. Versão da Igreja Grega).

15 – O princípio da pluralidade das existências está claramente expresso nessas três versões. Não se pode supor que Job quisesse falar da regeneração pela água do batismo, que ele certamente não conhecia. “Tendo o homem morrido uma vez, poderia ele reviver de novo?” A idéia de morrer uma vez e reviver implicam a de morrer e reviver muitas vezes. A versão da Igreja Grega é ainda mais explicita, se possível: “Findando-se os dias da minha existência terrestre, esperarei, porque a ela voltarei novamente”. Quer dizer: eu voltarei à existência terrena. Isto é tão claro como se alguém dissesse. “Saio de casa, mas a ela voltarei.”

“Nesta guerra em que me encontro, todos os dias de minha vida, estou esperando que chegue a minha mutação”. Job quer falar, evidentemente, da luta que sustenta as misérias da vida. Ele espera a sua mutação, ou seja, ele se resigna. Na versão grega, a expressão “esperarei”, parece antes se aplicar à nova existência: “Findando-se os dias da minha existência terrestre, esperarei, porque a ela voltarei novamente”, Job parece colocar-se, após a morte, num intervalo que separa uma existência de outra, e dizer que ali esperará o seu retorno.

16 – Não é, pois, duvidoso, que sob o nome de ressurreição, o princípio da reencarnação fosse uma das crenças fundamentais dos judeus, e que ela foi confirmada por Jesus e pelos profetas, de maneira formal. Donde se segue que negar a reencarnação é renegar as palavras do Cristo. Suas palavras, um dia, constituirão autoridade sobre este ponto, como sobre muitos outros, quando forem meditadas sem partidarismo.

17 – A essa autoridade, de natureza religiosa, virá juntar-se no plano filosófico, a das provas que resultam da observação dos fatos. Quando dos efeitos se quer remontar às causas, a reencarnação aparece como uma necessidade absoluta, uma condição inerente à humanidade, em uma palavra, como uma lei da natureza. Ela se revela, pelos seus resultados, de maneira por assim dizer material, como o motor oculto se revela pelo movimento que produz. Somente ela pode dizer ao homem de onde ele vem, para onde vai, por que se encontra na Terra, e justificar todas as anomalias e todas as injustiças aparentes da vida.

Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, a maior parte das máximas do Evangelho são ininteligíveis, e por isso tem dado motivo a interpretações tão contraditórias. Esse princípio é a chave que deve restituir-lhes o verdadeiro sentido.

(1) A tradução de Osterwald está conforme o texto primitivo, e traz: não renascer da água e do Espírito. A de Sacy diz do Espírito Santo. A de Lamennais também diz: Espírito Santo. (2) Para o desenvolvimento do dogma da reencarnação, ver O Livro dos Espíritos, caps IV e V; O que é o Espiritismo, cap. II; ambos de Allan Kardec; e a Pluralidade das Existências, de Pezzani. (Nota do Tradutor: A palavra “dogma”, figura aqui no sentido racional e não fideísta, como “princípio” e não como dogma de fé O Espiritismo não é dogmático, no sentido religioso da palavra, mas têm princípios fundamentais, que filosoficamente são chamados dogmas).

Fonte: KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires.