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terça-feira, 3 de julho de 2012

O vínculo de Roustaing com a Igreja

Por Nazareno Tourinho

Mais do que surpresos, os espíritas sinceros, e suficientemente esclarecidos, ainda alheios às consequências filosóficas da tese do corpo fluídico de Jesus, terão ficado perplexos durante a leitura do penúltimo escrito desta série, no qual mostramos o vínculo ideológico da obra de Jean-Baptiste Roustaing com a Igreja Romana, que desvirtuou a autêntica mensagem do Cristianismo e tantos males causou ao progresso da Humanidade.

Para que ninguém julgue ter havido de nossa parte a exploração de um mero e descuidoso tropeço do antigo bastonário da Corte Imperial de Bordeaux, isolado e perdido no Volume 2 de Os Quatro Evangelhos de sua autoria (6ª edição da FEB), vamos aqui transcrever mais alguns dislates do gênero, contidos no Volume 3 que dá sequência a “Revelação da Revelação”, por ele arquitetada com o objetivo de suplantar a obra de Allan Kardec, Ei-los:
“A mediunidade dos que, entre vós, servem de instrumentos aos Espíritos está apenas no começo. Mas, contrariamente ao que sucedeu na época dos discípulos, os vossos médiuns só entrarão no gozo completo de suas faculdades mediúnicas quando estiver entre os homens o Regenerador, Espírito que desempenhará a missão superior de conduzir a humanidade ao estado de inocência, isto é: ao grau de perfeição a que ela tem de chegar. Até lá, obterão somente fatos isolados, estranhos à ordem comum dos fatos.

“Não nos cabe fixar de antemão a época em que tal se verificará. O Senhor disse: vigiai e orai, porquanto desconheceis a hora em que soará retumbante a trombeta, fazendo que de seus túmulos saiam os mortos. Quer dizer: desconheceis a hora em que Deus fará que renasçam materialmente na terra os Espíritos elevados, incumbidos de dar impulso às virtudes que eles descerão a pregar, praticando-as em toda a sua extensão.

“O chefe da Igreja católica, nesta época em que este qualificativo terá a sua verdadeira significação, pois que ela estará em via de tornar-se universal, como sendo a Igreja do Cristo, o chefe da Igreja católica, dizemos, será um dos principais pilares do edifício.” (Página 65; os grifos são dos autores.)

“Debaixo da influência e da direção do Regenerador, caminhará o chefe da Igreja católica, a qual, repetimos, será então católica na legítima acepção deste termo, pois que estará em via de tornar-se universal, como sendo a Igreja do Cristo.” (Página 66)

“Homens, que praticais os ritos cristãos, não vos envergonheis de aproximar-vos da “mesa santa”, pois que sejam quais forem as profanações a que ela tenha sido exposta, sempre a podeis santificar pelo sentimento com que dela vos avizinhardes. Não coreis de vir, curvada a fronte, prostrar-vos aos pés do sacerdote que vos apresenta a hóstica “consagrada”.” (Página 403)

Aí está, não precisamos ir além. Os rustenistas da escola de Luciano dos Anjos poderão nos refutar através de longos e especiosos textos, garantindo que mutilamos as ideias centrais da obra de Roustaing, trazendo ao público apenas trechos esparsos de seus escritos, desconexos de outros imprescindíveis para completar o pensamento do autor. Quanto a isso, cumpre-nos denunciar a técnica mistificatória empregada nos volumes de Roustaing: os Espíritos que a ditaram, com refinada esperteza, própria dos padres jesuítas, acabam de dizer uma coisa e logo afirmam outra em contrário, a fim de obterem aceitação em nosso meio doutrinal. É por isso que os seus raros defensores sempre possuem argumentos para sustentar intermináveis polêmicas, reivindicando a condição de espíritas quando, no fundo, são católicos envergonhados, arrependidos mas ainda não inteiramente convertidos. Vejamos um exemplo da tática mistificatória exercida na obra de Roustaing, com base na última citação feita no presente artigo, a da página 403 do terceiro volume de Os Quatro Evangelhos. Ali somos concitados a não ter um constrangimento em nos prostrar aos pés de um sacerdote, de fronte curvada (a nossa, não a dele), e reverenciar a hóstia “consagrada”. Ora, qualquer pessoa sabe que isto é uma proposição católica, não espírita. Assim sendo, para dourar a pílula os ladinos autores do conselho no mesmo parágrafo o precedem com o reconhecimento da superioridade do ato espiritual sobre o ato material, e o complementam ressaltando a prevalência do fundo sobre a forma. Destarte, quando alguém, reproduzindo o mencionado trecho qual o fizemos, disser que a obra de Roustaing agasalha a apologia do ritual católico, do dogma da “Sagrada Eucaristia” etc., logo um de seus admiradores contestará, valendo-se da parte inicial ou final do parágrafo onde o referido trecho se encontra. E assim nunca falta munição verbalística para os renitentes defensores de Roustaing, que já sem coragem de atacar a obra de Kardec de frente (no pretérito atacaram, e a prova é a edição de 1920 de Os Quatro Evangelhos, que a FEB patrocinou e hoje esconde o fato, divulgando uma edição sem os ataques), já sem coragem de menosprezar frontalmente a obra de Kardec, repetimos, procuram minar as suas bases teóricas, contradizendo-lhes princípios filosóficos fundamentais como o que situa a encarnação e a reencarnação na categoria de lei da vida inteligente (na doutrina de Roustaing a experiência encarnatória não é uma necessidade para todos os Espíritos, é apenas castigo para alguns).

Na verdade, a única defesa possível da mistificação de Roustaing é a tese de que ela foi necessária quando surgiu, no século passado, a fim de atrair os católicos para o movimento espírita iniciante.

Este argumento, entretanto, é inaceitável, de um lado por ser aético e inconsistente (a nossa doutrina não endossa a teoria de que os fins justificam os meios, responsável, na Idade Média, pelas fogueiras da Santa Inquisição, e é contra o proselitismo, mesmo corretamente praticado do ponto de vista moral, pois seus postulados libertadores nunca serão absorvidos por quem ainda não estiver evolutivamente preparado para compreendê-los), e de outro lado porque a adulteração essencial de uma filosofia, através da mesclagem com quaisquer filosofias divergentes, é um modo solerte de arruiná-la perante o futuro, no campo das ideias (objetivo das entidades umbralinas fascinadoras do antigo bastonário da Corte Imperial de Bordeuax).

Na hipótese de querermos, por motivo de pura benevolência, aceitar a tese de que a mistificação de Roustaing, embora nociva, foi desculpável pela sua origem, atitude da qual já partilhamos no intuito de contribuir para a fraternidade dos espíritas brasileiros, sobre esta pergunta:

— Por que a FEB, atualmente, insiste em prestigiá-la, quando não mais ignora o seu caráter conflitante com a Codificação de Allan Kardec?

Fonte:

TOURINHO, Nazareno.  As Tolices e Pieguices da Obra de Roustaing – Nazareno Tourinho; ensaio crítico-doutrinário; 1ª edição, Edições Correio Fraterno, São Bernardo do Campo, SP, 1999.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O Espiritismo, a reencarnação e a igreja


Por José Reis Chaves

Esta matéria responde, em conjunto, às colocações do católico Sr. Carlos Ramalhete, mostrando a coerência e as verdades da Doutrina Espírita, as quais se identificam plenamente com a Bíblia, a razão e a Ciência.

Primeiramente, eis os questionamentos propostos pelo Sr Carlos Ramalhete, e, em seguida, a nossa matéria em resposta ao missivista:

Reencarnação

Dos erros mais comuns hoje em dia é a crença na chamada "reencarnação", um mecanismo pelo qual uma pessoa teria várias "vidas" sucessivas, sendo uma pessoa ou outra em uma vida ou outra, vidas essas passadas por toda parte. Esta crendice é evidentemente incompatível com a Fé Cristã, com a Razão e com o próprio bom senso.

A crença na reencarnação é incompatível com a Fé Cristã

Ela é incompatível com a Fé Cristã porque sabemos que "Para os homens está estabelecido morrerem uma só vez e logo em seguida virá o juízo." (Heb 9,27), e a reencarnação pressupõe que cada homem teria várias mortes sucessivas, nascendo depois com outro nome, filho de outros pais, em outro país... segundo as crenças de alguns grupos reencarnacionistas , a pessoa poderia nascer com o sexo oposto ou não, ou até, segundo alguns (como os de tendência hinduísta, oriental), poderia nascer como animal ou como planta!

Ela é incompatível com a Fé Cristã porque nega o valor dos Sacramentos (uma pessoa seria batizada novamente em cada "encarnação") , nega Céu, Purgatório e Inferno, nega a criação da alma humana, nega a união substancial entre corpo e alma, nega a existência de anjos e demônios, nega os privilégios da Santíssima Virgem Maria, nega o pecado original, nega a graça divina, nega toda a doutrina do sobrenatural, nega o juízo particular depois da morte, a ressurreição da carne e o juízo final.

Ela é incompatível com a Fé Cristã porque nega a Misericórdia divina e o perdão dos pecados (segundo Allan Kardec, "Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se não for em uma existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes ." - o pecado, para um reencarnacionista , nunca é perdoado!) e prega um deus que se existe não age, e se age não perdoa. Tudo seria um mecanismo em que estariam presas as pessoas, pagando em uma "encarnação" os pecados cometidos em "encarnações" anteriores, dos quais não têm lembrança ou conhecimento, sem esperança alguma de perdão.

A crença na reencarnação é incompatível com a Razão

A crença na reencarnação é também incompatível com a Razão, com o raciocínio lógico mais elementar. Afinal, para que seja possível aprender com um erro, é necessário que lembremos do erro cometido. Isto ocorre não apenas com os seres humanos, mas também com os animais. Um cachorro aprende a não satisfazer suas necessidades fisiológicas no lugar errado sendo castigado quando o fez, ou sentindo o cheiro do que fez para que se lembre de seu ato. Alguém que tentasse ensinar um cachorro a controlar sua bexiga esperando a hora em que o animal não mais se lembrasse do ato proibido para, de sopetão , castigá-lo, conseguirá na melhor das hipóteses traumatizar o pobre animal, nunca ensiná-lo a segurar a bexiga. Afinal, o pobre animalzinho não saberá porque terá sido castigado!

A crença na reencarnação pressupõe um deus punitivo e sem misericórdia, ou melhor, um mecanismo que funciona por conta própria em que as pessoas são punidas em uma vida por pecados de que não se lembram, por erros que não sabem que cometeram, com o único objetivo de expiar uma falta que desconhecem totalmente ter cometido. Assim, evidentemente, não pode haver aprendizado. Como poderia uma pessoa que sofre com conseqüências de um suposto pecado em uma teórica vida passada aprender a não mais cometer aquele pecado, se ela nunca soube tê-lo cometido?! Como poderia ela saber que errou, que está sendo punida por aquele erro e que não mais deve cometê-lo, se ela não tem lembrança alguma desta suposta vida anterior e só vê as misérias que sofre e que lhe parecem absolutamente desprovidas de valor, já que não tem como ligá-las com aquilo que teria sido a causa destes sofrimentos e que teoricamente os faria justos?

A crença na reencarnação é também incompatível com a Razão pelo simples fato de que não ajuda em nada uma pessoa por pecados que ela não sabe ter cometido, como não faz sentido dizer ser a mesma pessoa (ou dar a ela uma punição!) quando ela nasceu de outros pais, com outro nome, em outro lugar, sem lembrança alguma de sua suposta vida anterior, de sua personalidade nesta "vida passada", de seus erros, acertos, ignorâncias e saberes.

Uma pessoa que não fala a mesma língua, não tem a mesma cultura, nasceu de outros pais, em outro país, não se lembra da "encarnação " anterior, não tem conhecimento algum de nada do que agora o afetaria, não é nem pode ser considerada a mesma pessoa que uma sua suposta "encarnação" anterior. Qual seria o ponto em comum entre essas pessoas? Apenas uma espécie de "carnê" de pecados a pagar, que seria passado de uma pessoa/ " encarnação" para outra pessoa/"encarnação", sem que seja possível lembrar-se da origem daqueles sofrimentos, sem que seja levado nada de uma "encarnação" a outra a não ser os pecados a pagar.

Assim, podemos dizer que a crença na reencarnação pressupõe na verdade que os pecados cometidos por uma pessoa (João da Silva, nascido em Botucatu dia 25.I.65 e falecido em Belo Horizonte em 30.VIII. 97, teria por pura maldade quebrado a perna de uma criança) são pagos por outra (José de Souza, nascido em 27.IX.97 em Belém do Pará, nascido com a perna aleijada). Ora, isso não apenas é injusto como é absurdo! Não é a mesma pessoa, já que não há nada (paternidade, nome, personalidade, naturalidade, cultura, conhecimentos...) em comum, e José de Souza não teria como saber que sofre pelos pecados de João da Silva, que teria morrido e deixado assim de ser punido pelos seus pecados, passados a José para que a pobre criança os pagasse!

A crença na reencarnação, além disso, é incompatível com a Razão (ao menos quando os reencarnacionistas afirmam que todas as "encarnações" ocorrem em seres humanos e na Terra) porque a população de hoje no planeta é equivalente à soma de todas as pessoas que cá já viveram até o século passado. Assim, cada pessoa poderia no máximo estar na primeira ou segunda "encarnação".

A crença na reencarnação é também incompatível com o bom senso mais elementar e é facilmente perceptível como apenas um reflexo do eterno orgulho humano quando percebemos que praticamente todas as pessoas que acreditam em reencarnação fazem questão de citar imediatamente supostas "encarnações" anteriores como reis, rainhas, pessoas famosas... conheço umas cinco ou seis Cleópatras!

Hoje em dia, com a queda dos padrões morais da sociedade, está também na moda ter sido uma prostituta elegante de alguma corte em supostas vidas anteriores. Isto reflete apenas as ânsias das pessoas, a sua incapacidade de enfrentar a realidade, mas evidentemente não corresponde à realidade.

Os Espíritas e a Igreja

Em 1953 a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil reafirmou o que afirmara em 1915 e em 1948:

"Os espíritas devem ser tratados, tanto no foro interno como no foro externo, como verdadeiros hereges e fautores de heresias, e não podem ser admitidos à recepção dos sacramentos, sem que antes reparem os escândalos dados, abjurem o espiritismo e façam a profissão de fé."

Segundo a Lei da Igreja, "chama-se heresia a negação pertinaz, após a recepção do batismo, de qualquer verdade que se deve crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dela" (CDC cân . 751).

Ora, "o herege incorre automaticamente em excomunhão" (CDC cân . 1364 §1), ou seja, deve ser excluído da recepção dos sacramentos (cân . 1331 §1), não pode ser padrinho de batismo (cân . 874), nem de crisma (cân . 892) e não pode casar na Igreja sem licença especial do bispo (cân . 1071) nem ser membro de associação ou irmandade católica (cân . 316).

Autor: Carlos Ramalhete - Livre cópia e difusão do texto em sua íntegra com menção do autor.

Contra-argumentos ao texto

O Cristianismo está dividido hoje em um grande número de igrejas ou correntes cristãs. A própria Igreja Católica Apostólica Romana tem suas divisões. Há católicos que assistem a uma missa todos os dia. E há católicos que passam anos sem assistir a uma missa. Há aqueles que não crêem na reencarnação, e há aqueles (a maioria) que a aceitam. Existem aqueles que não crêem no inferno e em outros dogmas católicos, e outros que, cegamente, aceitam todas as doutrinas católicas e mais as superstições católicas populares. Para os adversários do Espiritismo, é bom que se lembre aqui que a maioria dos católicos freqüenta centros espíritas e centros de Umbanda, Candomblé e Quimbanda. E uma prova de que é verdade o que estamos afirmando é que muitos padres, xingando os seus fiéis católicos, têm dito que “quando a coisa aperta para os católicos, eles correm para os centros espíritas”. E a própria Igreja afirma hoje que nela reina a unidade na diversidade. A diversidade é as divergências internas dela.

A Igreja tem muita afinidade com o Espiritismo. O Brasil é a maior nação católica do mundo, e é também a mais espírita do mundo. As Filipinas é a 2a nação católica da Ásia, e é a 2a nação espírita do mundo. De fato, a comunicação com os santos da Igreja não é com os cadáveres dos santos, mas com os espíritos dos santos. E a proibição de Moisés da comunicação com os espíritos (Dt. 18,11) não é de Deus, pois não está no Decálogo. Ademais, ela prova-nos que existe a comunicação com os espíritos, senão Moisés não a iria proibir. Não seria ele louco de proibir uma coisa que não existe. Mas Moisés mesmo se contradiz, com relação a esse assunto, permitindo a Eldade e Medade que recebam espíritos (Nm 11,26-29). E, se fôssemos obedecer a tudo determinado por Moisés, iríamos contra os Dez Mandamentos. Por exemplo, ele manda assassinar a pedradas todos os que se comunicam com os espíritos (Levítico 20,27).

Sabemos que Jesus e os apóstolos médiuns Pedro, Tiago e João, na Transfiguração, entraram em contato com os espíritos de Moisés e Elias. E para aqueles que dizem que Elias foi para o céu vivo, com seu corpo de carne, lembro-os de que Elias continuou na Terra depois do episódio de ter subido em uma carruagem de fogo, pois Jeorão, rei de Judá, recebeu de Elias uma carta, alguns anos depois do citado episódio evolvendo o desaparecimento de Elias numa carruagem de fogo (2 Crônicas 21,12).

Quanto à posição da Igreja em relação não só ao Espiritismo, mas também, a outras religiões, estão caducas aquelas condenações dos bispos brasileiros, de 1915, 1948 e 1953, como estão caducas as leis canônicas que regiam a Inquisição. Valem para hoje as decisões constantes da “Lumem Gentium” do Concílio Vaticano II. E ninguém é mais excomungado porque participa de alguma cerimônia ou evento não católicos.

Alegam muitos religiosos cristãos fundamentalistas que o pagamento de pecados pelas reencarnações é incompatível com a razão, porque o indivíduo não se lembra do pecado que está pagando. A criança não sabe que a panela quente no fogão queima seu dedo, e, no entanto, ela se queima assim mesmo sem saber o motivo e sem saber sequer que ela está cometendo um erro. Incompatível com a razão é o indivíduo pagar pelo pecado original de Adão e Eva, e que é também contra a Bíblia. “A alma que pecar, essa morrerá: o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai a iniqüidade do filho” (Ez 18,20). E Deus quis que nós ignorássemos nosso passado para o nosso próprio bem. Se o indivíduo tem uma pessoa de sua família, vizinha ou colega de trabalho ou de estudo, que, no passado, foi um seu desafeto ou grande inimigo seu, ao saber disso, automaticamente se criaria uma barreira entre os dois. Como, pois, haveria um relacionamento amistoso, de reconciliação e amizade entre eles? Seria muito difícil acontecer a sua harmonização. E um outro tipo de problema poderia haver com a lembrança de fatos do passado. Se surgir uma oportunidade para fazermos o bem a uma pessoa, mas descobrimos que, numa vida anterior, ela foi um nosso grande amigo ou irmão, avô, filha, esposa ou esposo, certamente lhe daríamos uma atenção toda especial. Mas não teríamos mérito! E, sem dúvida, ficaríamos perplexos e mesmo traumatizados, se soubéssemos o que já fizemos de errado no passado! Como se vê, é bom, em todo sentido, nós ignorarmos o nosso passado, como é bom ignorarmos também o nosso futuro. Aliás, tudo o que Deus faz é bom e mais do que certo. E, por isso, temos no Velho Testamento um texto reencarnacionista sobre esse assunto específico que acabamos de ver: “Somos de ontem e nada sabemos” (Jó 8,9). Esse ontem não é um passado de 24 horas, mas um passado longínquo, como se pode ver pelo contexto bíblico.

Mas há um outro texto bíblico, agora do Apóstolo Paulo, muito usado contra a reencarnação. É quando Paulo fala que Jesus morreu uma vez só, como o homem morre uma vez só (Hb 9,27). Esse texto Paulino nada tem a ver com a reencarnação nem a favor dela nem contra ela. A palavra homem vem do Latim “humus”, água com terra ou barro, da qual se originou a palavra, também latina, “homo”, homem em Português. De fato o homem morre uma vez só “e bem morrido”. “Aquele que desce à sepultura, jamais se levantará” (Jó 7,9). Além de esta afirmação do Livro de Jó nos mostrar como o homem era visto pelos semitas, ou seja, pelo seu lado fenomênico, material, mostra-nos também que a ressurreição não é do corpo, mas do espírito, pois jamais subirá o que desce à sepultura, isto é, o corpo, a carne. Realmente, a ressurreição do corpo é do Credo da Igreja. Mas a da Bíblia é do espírito. “Temos dois corpos, um da natureza e outro espiritual; ressuscita o espiritual” (1 Co. 15,44). Para um dos maiores teólogos católicos da Igreja da atualidade, o espanhol André Torres Queiruga, a ressurreição, inclusive a de Jesus Cristo, é também do espírito (“Repensar a Ressurreição”, Ed. Paulinas). Quando o espírito reencarna, ele ressuscita (ressurge) na carne. Quando o homem morre, seu espírito ressuscita no mundo espiritual, até que, um dia, o espírito fique por lá. “Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá” (Ap. 3,12)

Sobre a nossa personalidade, nós temos duas: uma geral do espírito, a que pertence o inconsciente, e outra particular para cada vida do espírito na carne, da qual é o consciente. E é o consciente que funciona, quando estamos em vigília ou estado normal de consciência. O consciente não se lembra de vidas passadas. E é por isso que só nos lembramos de episódios de outras vidas, quando estamos em estado alterado de consciência, isto é, o estado em que funciona o nosso inconsciente. O estado de consciência normal ou não alterado é o de Beta (vigília), quando estamos acordados ou com o consciente em funcionamento. Já os estados alterados de consciência, em que funciona o inconsciente, são o de Alfa, isto é, o de quando estamos quase dormindo ou quase acordando (a pessoa fica meio grogue). O estado de Teta se dá quando temos um sono leve. Delta é quando estamos em sono profundo. E como já foi dito, as lembranças de episódios de encarnações passadas ocorrem nesses estados alterados de consciência, muito raramente quando o indivíduo está em Beta (vigília).Neste estado de Beta, as lembranças só acontecem de modo indireto ou em forma de tendências, inclinações, talentos.

Os adversários fundamentalistas da reencarnação alegam que ela é contrária às doutrinas da Igreja. Em outros termos, a Igreja não a aceita. Mas nem tudo que não é aceito pela Igreja está errado. E, às vezes, acontece até o contrário, estando errado o que foi aceito pela Igreja, de que são exemplos a Inquisição, as Cruzadas e as guerras ou conflitos religiosos do passado, de que a Igreja pede hoje perdão. E eu gostaria de dizer para os católicos e evangélicos contrários à reencarnação que ela foi aceita pelo Cristianismo Primitivo, tendo sido só condenada no Concílio Ecumênico (553), por influência do Imperador Justino e sua esposa Teodora. Como o fenômeno da reencarnação nunca foi condenado por Jesus e a Bíblia, pelo contrário, em Jesus e nela temos várias passagens que falam direta e indiretamente sobre a reencarnação, não é, pois, estranho que ela tenha feito parte do Cristianismo dos primeiros séculos. E a própria condenação dela no citado concílio demonstra que ela era aceita por teólogos cristãos. E entre eles gostaríamos de destacar São Clemente de Alexandria, Orígenes, São Cirilo, o Papa São Gregório Magno, São Justino, autor de “Apologia da Religião Cristã”, São Gregório Nazianzeno etc.

E a reencarnação não é uma doutrina só dos espíritas. Ela é universal, tendo hoje o respaldo de vários segmentos da ciência, como a Terapia de Vivências passadas (TVP), exercida por milhares de médicos, psicólogos, parapsicólogos e até por físicos, como o francês radicado nos Estados Unidos, Patrick Drouot. Pode haver falhas nessas regressões. Por exemplo: interferências de entidades, as quais podem identificar-se falsamente, trazendo confusão de identidade ao inconsciente da pessoa que regride e ao seu terapeuta. Por isso, os terapeutas da TVP devem ser bem preparados nos seus cursos de Pós-Graduação. Uma pesquisa feita pela Universidade de Oxford, encomendada pela Igreja Anglicana (Inglaterra), com base em 2.000, 4.000.000.000 de pessoas, isto é, 2/3 da população da Terra, crêem na reencarnação. E essa doutrina não é incompatível com a Doutrina Cristã nem com a lógica e a razão. E o clero católico e os pastores são contra ela, porque ela nos mostra que a salvação depende da vivência do Evangelho do Cristo, enquanto que o clero católico e os pastores querem “vender” para nós a salvação! “Os homens não perdoam as doutrinas que lhes fazem perigar os interesses” (Salomon Reinach). Mais sobre a reencarnação no nosso livro “A Reencarnação Segundo a Bíblia e a Ciência”.

Jesus Cristo é o nosso Redentor, no sentido de que Ele foi o Enviado do Pai para nos trazer a mensagem do Evangelho. Mas, se fosse o sangue de Jesus que nos remisse, não precisaríamos fazer nada. Poderíamos nos esbaldar! E o próprio Jesus disse: “Ninguém deixará de pagar até o último centavo”. Se fosse, pois, o sangue Dele que nos redimisse, não teríamos que pagar nem o primeiro nem o último centavo do preço de nossas faltas! E esse ensino do Mestre nos deixa claro, também, que pago o último centavo, estaremos quites com a Justiça Divina, não tendo nós que pagar mais nada, porquanto, a justiça divina é perfeita. E isso derruba por completo as chamadas penas eternas.

Quanto aos sacrifícios, Jesus disse: “Basta de sacrifícios!” Destarte, o sangue derramado de um ser humano ou de um animal não acalma Deus, o Pai, nem faria despertar em Deus sua misericórdia para nós, pois Deus é imutável. Aliás, a sua misericórdia por ser infinita, não poderia ser aumentada nem diminuída com nenhuma espécie de sacrifício, muito menos humano e de um homem justo e inocente como foi Jesus. E Deus não é um espírito de baixo astral, que se compraz com sangue derramado.

Sabemos hoje, também, que não há inferno geográfico eterno, nem de fogo propriamente dito, como o entendiam (uns fingiam entender), por ignorância os teólogos do passado e muitos ainda de hoje o entendem. O fogo do inferno bíblico é figurado, é no sentido esotérico e não exotérico. Muitos líderes religiosos de hoje fingem que crêem ainda nessas coisas, para amedrontarem seus fiéis e, assim, poderem manipulá-los melhor. Ademais, poucos sabem que o termo “eterno” vem de uma palavra grega, “aionios”, que quer dizer um período longo, mas que tem fim! E hoje, 150 anos depois do ensino espírita, a Igreja passou a ensinar também que o inferno não é um local geográfico, mas um estado de consciência, ou seja, o contrário do reino de Deus, que está dentro de nós, em forma ainda, às vezes, de semente ou em estado potencial, como diz a filosofia. E, por conseqüência, o Paraíso ou Céus (no plural, tradução correta de “Caeli”, como consta da Vulgata de São Jerônimo), está também em nós. “O reino de Deus está dentro de vós mesmos”.

Jesus disse que não veio condenar o mundo, mas salvar o mundo. E, como vimos, Ele salva o mundo com o seu Evangelho. Uns querem dizer que o Espiritismo e a reencarnação anulam todo o sacrifício de Jesus. Na verdade, o Espiritismo não aceita o sangue de Jesus como sendo resgate de nossos pecados, mas valoriza, sim, o sacrifício de sua vinda ao nosso mundo e de sua morte, tudo para trazer para nós a mensagem do Pai. E tanto é verdade isso, que o Espiritismo incentiva todos a porem em prática essa mensagem do Pai. Realmente, é vivenciando o Evangelho do Mestre dos mestres, que nós vamos nos aperfeiçoando em nossa caminhada em direção à perfeição do Pai. “Fora da Caridade não há salvação” (Allan Kardec). “A fé sem obras é morta” (São Tiago). “Posso ter uma fé que remove montanha, mas se eu não tiver caridade, não sou nada” (São Paulo). E o Nazareno não ensinou que é crendo em determinados dogmas criados pelos teólogos, quando eles nem conheciam ainda direito a Bíblia, que nós nos tornamos seus discípulos e nos salvamos, mas por nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou.

O espírita é aquele, pois, que procura seguir o verdadeiro ensino de Jesus, já que busca, como foi dito, a vivência do seu Evangelho. E o Espiritismo crê de fato na misericórdia infinita de Deus, pois, para nós espíritas, essa misericórdia divina é tão ampla, que Deus nos dá quantas chances (reencarnações) forem necessárias para a nossa salvação. Em outras palavras, para o Espiritismo, a misericórdia divina é infinita mesmo, ou seja, é incondicional e é para todo o sempre. É como nos mostra a Parábola do Filho Pródigo, em que o Pai de Misericórdia está sempre com os braços abertos para abraçar a qualquer filho seu, pois Deus não faz exceção de pessoas. Basta que um filho seu “entre em si”, como diz a Parábola, e queira voltar para Ele, pois o Pai, que é perfeito, respeita totalmente o nosso livre-arbítrio, para quando quisermos, como quisermos e onde quisermos despertar para a verdade que liberta, pois somos espíritos imortais e filhos de um Pai tão amorável, que nos ama mais do que nós mesmos nos amamos!

Fonte: Portal do Espírito - http://www.espirito.org.br/portal/artigos/jose-chaves/o-espiritismo-a-reencarnacao.html

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Universalismo crístico ou Misticismo antiespirítico?

Por Artur Felipe Azevedo

Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. (1 João 4)

O Espiritismo, consubstanciado na Doutrina Espírita, teve e tem como principal missão reestabelecer a Verdade e revelar ainda outras tantas, só capazes de serem hoje compreendidas em conformidade com o progresso intelecto-moral alcançado pela humanidade após séculos de lutas contra as trevas da ignorância.

A História nos conta que a Igreja Católica lutou por muito tempo para que seus dogmas de fé não fossem atingidos pelas descobertas e avanços da Ciência, o que poderia comprometer o domínio sobre os fiéis e desmantelar sua influência e privilegiada posição econômica e política.

Com o Renascimento, período marcado por transformações em muitas áreas da vida humana, que assinalam o final da Idade Média e o início da Idade Moderna, houve ruptura com as estruturas medievais, marcando grandes avanços nas artes, na filosofia e nas ciências.

O pensamento iluminista, a seu turno, durante o século XVIII, marcou o fim do obscurantismo, inaugurando uma nova era, iluminada pela razão e respeito à humanidade. As novas descobertas da ciência, a teoria da gravitação universal de Isaac Newton e o espírito de relativismo cultural fomentado pela exploração do mundo ainda não conhecido foram também importantes para a eclosão do Iluminismo.

Entre os precursores, destacaram-se os grandes racionalistas, como René Descartes e Spinoza, e os filósofos políticos Thomas Hobbes e John Locke. Na época, é igualmente marcante a fé no poder da razão humana. Chegou-se a declarar que, mediante o uso judicioso da razão, seria possível um progresso sem limites. Porém, mais que um conjunto de idéias estabelecidas, o Iluminismo representava uma atitude, uma maneira de pensar. De acordo com Immanuel Kant, o lema deveria ser "atrever-se a conhecer". Surge o desejo de reexaminar e pôr em questão as ideias e os valores recebidos, com enfoques bem diferentes, daí as incoerências e contradições entre os textos de seus pensadores. A doutrina da Igreja foi duramente atacada, embora a maioria dos pensadores não renunciassem totalmente à ela.

A França teve destacado desenvolvimento em tais ideias e, entre seus pensadores mais importantes, figuram Voltaire, Montesquieu, Diderot e Rousseau. Kant, na Alemanha, David Hume, na Escócia, Cesare Beccaria, na Itália, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, nas colônias britânicas, figuram entre os maiores expoentes.

Tempos depois, já com a Igreja Romana em pleno declínio na Europa e com a Inquisição dando seus últimos suspiros, surge Allan Kardec, descortinando o mundo espiritual, sem fantasias, sem mistérios, sem hermetismo, desvelando ao mundo a realidade de além-túmulo, e apresentando uma Doutrina eminentemente racional e lógica, filtrando todo e qualquer arroubo místico advindo da fé cega, seja de origem dogmática ou advinda de puras concepções humanas de cunho fantasista.

Não obstante os esforços da Espiritualidade Superior para que fossem atingidos tais elevados objetivos, muitos indivíduos, talvez confundindo a nova situação de liberdade do pensamento, partiram para a revivescência de mitos e crendices, em sua maioria advindos das priscas eras do paganismo, na tentativa de conduzir à ausência de dogmatismos ou estruturas religiosas padronizadas.

Alguns partidários dessas teorias, a qual podemos chamar de "neopagãos", nos tempos modernos, acreditam ter encontrado, surpreendentemente, no Espiritismo, a confirmação de suas crenças. Utilizando-se de alguns postulados espíritas, como a comunicabilidade dos espíritos e a reencarnação, passam tais indivíduos a transmitirem informações e a escreverem obras que acabam por cair no gosto de alguns "espíritas", obviamente ainda pouco versados na Doutrina, ou seja, que pouco ou nada estudaram (e entenderam) da Codificação.

O espírito Ramatis pode ser apontado como espírito mais citado pelos propagadores do neopaganismo no meio espírita. Defensor daquilo que chama de "universalismo crístico", o espírito Ramatis tem se utilizado de médiuns ideologicamente adeptos de concepções neopagãs que, bem intencionados ou não, se servem do Espiritismo e do movimento espírita para divulgarem suas ideias. Entre eles, podemos citar o médium Roger Bottini, que escreve obras romanceadas que versam sobre temáticas no mínimo exóticas, tais como: era de Peixes, civilização atlante, fim dos tempos, etc. Ao mesmo tempo, o médium diz receber revelações sobre personagens famosas da antiguidade, como faraós egípcios, legisladores hebreus do porte de Moisés, assim como outros em que não encontramos registros, já que teriam vivido na Atlântida, Lemúria ou alguma civilização lendária qualquer. Tudo isso entremeado por relatos de existência de dragões, magos negros, energias desconhecidas, seres interplanetários, e tudo que possa atiçar a imaginação do leitor. Como de costume, a fim de angariar confiança, o citado autor chega a declarar que foi filho de Allan Kardec em uma encarnação passada, como se tal informação, pura e simples, sem qualquer indício e confirmação, pudesse lhe conferir alguma autoridade extra. Confira o que afirma o citado "médium" em seu sítio na internet:

"Além de ter vivido na personalidade de Akhenaton, Allan Kardec foi, também, Atônis, o sacerdote do sol na Atlântida, e Andrey era seu filho. Logo, por mais incrível que isso possa parecer, Allan Kardec foi meu pai na extinta Atlântida e um inesquecível amigo no antigo Egito, durante seu reinado como o faraó filho do Sol."
E para dar peso à sua ousada afirmação, trata de creditar tais informações ao auxílio de um espírito, já que, para muitos desavisados, basta ser espírito para possuir toda a sabedoria e conhecimento universais:

"Logo, sei o que estou dizendo. Essas informações são obtidas através de um processo de regressão de memória conduzido por Hermes, que é o mentor espiritual de todos os nossos livros."

Em outro trecho do mesmo sítio, o sr. Bottini ainda "revela":

" (...)Como eu era o próprio Natanael, e vivi próximo a Moisés desde os tempos da Atlântida, quando ele viveu como Atlas, posso ter "defendido" de forma exagerada as suas atitudes nos eventos da libertação do povo judeu da escravidão no Egito."

O mais estarrecedor e surpreendente de tudo isso é que tais teorias são apresentadas como oriundas da evolução do pensamento espírita, embora colidam frontalmente com os métodos e objetivos da Doutrina e não tenham recebebido, nem de perto, a confirmação proveniente do controle universal.

Frente a tudo isso, a advertência de Erasto, constante em "O Livro dos Médiuns", cresce em importância, já que, em matéria de Espiritismo, o benfeitor espiritual afirma que "é preferível rejeitar dez verdades a aceitar uma única mentira". Tal assertiva denota prudência e critério para a avaliação de qualquer conteúdo, mais notadamente os de origem mediúnica.

Como já tratamos em outras oportunidades, a fascinação de origem mediúnica é um problema recorrente, e decorre das próprias dificuldades do médium, tornando-o presa fácil de pseudossábios e mistificadores da erraticidade. Listemos algumas delas:

1) vaidade (desejo imoderado de atrair admiração dos homens);
2) orgulho (conceito elevado ou exagerado de si próprio);
3) narcisismo (amor excessivo a si mesmo);
4) egoísmo (exclusivismo que faz o indivíduo referir tudo a si próprio);
5) presunção (ato ou efeito de presumir; de vangloriar-se; de formar de si grande opinião);
6) arrogância (tomar como seu; atribuir a si);
7) ambição (desejo veemente de fortuna, de glória, de honrarias, de poder; cobiça.)

No que tange especificamente ao item 7, pudemos recentemente verificar que há médiuns (ou pseudomédiuns) inclusive organizando excursões pagas ao Egito e outros locais tidos como "especiais" e "místicos" com o fito de alcançarem vantagens pecuniárias, o que é certamente algo lamentável, sob todos os pontos-de-vista. O Espiritismo nada tem a ver com eles, que se valem da condição de médiuns para adquirirem fama, dinheiro e poder.

O papel do verdadeiro espírita é o de esclarecer, orientar e, inclusive, desmascarar toda e qualquer iniciativa que vise a iludir, a enganar ou mistificar, uma vez que tais atitudes são reprováveis e atrasam a marcha evolutiva, tanto de suas vítimas como de seus executores, assim como colaboram para o descrédito e ridicularização da própria Doutrina Espírita, utilizada por indivíduos inescrupulosos como pano de fundo para encobrir uma série de interesses espúrios.

Não só leiamos, mas acima de tudo estudemos a Doutrina Espírita, para que nosso discernimento se amplie e possamos nos imunizar dessas e outras tantas influências perniciosas que lutam, nas sombras, para a derrocada desse clarão de conhecimento e sabedoria que ressuma do Espiritismo.

Fonte: Blog Ramatis - Sábio ou Pseudosábio?

terça-feira, 8 de junho de 2010

Estranha contradição

Por Cairbar Schutel

Parece paradoxal que o Espiritismo conte dentre os seus maiores adversários os sacerdotes da Igreja de Roma e os mais entusiastas prosélitos da Religião Católica. Se a nossa Doutrina não faz outra coisa senão proclamar a existência de Um Deus bom, amoroso, indulgente e sábio; se ela apresenta esse Deus cheio de carícias para com seus filhos, e nos recomenda que O adoremos, em espírito e verdade, e em toda parte, com todas as forças do nosso entendimento, do nosso coração, da nossa alma, por que motivo a Igreja nos apoda e assaca injúrias, quando deveria unir-se a nós para extinguir a incredulidade que lavra pelo mundo, ainda mesmo entre aqueles que se intitulam católicos porque os pais o foram?

Se o Espiritismo preceitua, como o Cristo, o amor ao próximo, sem exclusão de católicos, de judeus e de gentios, se ele ordena a caridade para com todos, como meio de salvação, por que razão o sacerdotalismo o impugna, taxando-o de herético e pagão?

Se a Doutrina Espírita, sancionando a Comunicação dos Espíritos, vem nos demostrar a imortalidade da alma, o prosseguimento da vida, portanto, dos que indevidamente chamamos de “mortos”, os nossos parentes e amigos, conhecidos e desconhecidos, sendo esses fatos a base fundamental da Religião, a rocha inamovível da Fé, por que repele a Igreja esta Verdade, preferindo substituí-la por manifestações diabólicas, que nada edificam e vão de encontro com a bondade e justiça de Deus, vão de encontro com a Doutrina da imortalidade e da Esperança do futuro dos nossos entes caros e do nosso próprio futuro além do túmulo?

Se o Espiritismo tem como base dos seus estudos o Novo Testamento, a Palavra de Jesus Cristo e reproduz a mesma Doutrina do Mestre num maravilhoso fac-símile, a ponto de proclamar como Jesus fazia, a excelsa recomendação: “Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos perseguem e caluniam; orai pelos que vos maltratam”, qual é a razão da Igreja execrar o Espiritismo e excomungar aos que dão obediência às suas recomendações?

Se nós, com o Espiritismo, fazemos muita questão de recomendar aos estudiosos o cumprimento dos preceitos de Jesus, exarados nas parábolas do Bom Samaritano (S. Lucas, X, 25-37); do Juízo Final (Mateus, XXV, 31-46); das Dez Virgens (Mateus, XXV, 1-13); Dos Talentos (Mateus, XXV, 14-30); e todas as mais: do Joio e do Trigo, da rede, do grão de mostarda, do fermento, da pérola, do tesouro escondido, do cego que guia cegos; se, enfim, a nossa recomendação é o estudo do Evangelho, em espírito e verdade, por que o sacerdotalismo, que se diz representante de Deus, nos renega e afirma que não temos parte com Jesus?

Se, com conclusão, recomendamos a oração como um preceito de submissão ao Senhor do Céu e da Terra, e a “Prece Dominical”, que foi a que Jesus ensinou aos seus discípulos como a regra áurea para nos dirigirmos a Deus e obtermos perdão das nossas faltas, como ousa o clero afirmar que somos irreligiosos, descrentes e partícipes das instruções do Satanás?

Uma das duas: ou a Igreja de Roma não conhece a Doutrina de Jesus, ou então ela constitui-se sua legítima inimiga.

Estranha contradição!

Fonte: O Clarim - Publicado em 01 de agosto de 1936Justificar

sábado, 3 de abril de 2010

Espiritismo era crime no Código Penal Brasileiro de 1890, punido com até 6 meses de prisão

Artigo 157 também previa multa de até 500 mil réis.

Espíritas foram processados por 'atentar contra a saúde pública'.

Ricardo Muniz
Do G1, em São Paulo


A partir de 1890, ser espírita no Brasil era crime punido com multa e detenção de 1 a 6 meses. Nem a declaração do país como Estado laico, em 1891, ajudou. Antes da República, os espíritas eram alvos costumeiros de ataques da imprensa, reclamações de médicos e oposição da Igreja Católica. Depois, com Constituição republicana e tudo, ficou ainda pior.

Espíritas também teriam sido usados como bodes expiatórios para diminuir a oposição do catolicismo ao regime republicano

A situação nada confortável é um dos temas tratados pela socióloga Célia da Graça Arribas em sua dissertação de mestrado, defendida na USP em 2008 (“Afinal, espiritismo é religião? – A doutrina espírita na formação da diversidade religiosa brasileira”, trabalho orientado pelo professor Flávio Pierucci).

  • Clique aqui para baixar a íntegra da dissertação (226 páginas, formato .pdf)

"Apresentar o espiritimo como religião era visto como solução portadora de uma segurança legal que era sentida como premente para a existência do movimento em chão brasileiro."

Contradições

Na primeira Carta republicana, promulgada em fins de fevereiro de 1891, o artigo 72 previa que “todos os indivíduos e confissões religiosas podem exercer pública e livremente o seu culto”.

Um ano antes, um decreto (o 119-A) já instituía plena liberdade religiosa: “É prohibido à autoridade federal, assim como à dos Estados federados, expedir leis, regulamentos, ou actos administrativos, estabelecendo alguma religião, ou vedando-a, e crear differenças entre os habitantes do paiz, ou nos serviços sustentados à custa do orçamento, por motivo de crenças, ou opiniões philosophicas ou religiosas”.

Mas entre uma norma e outra, em 1890 o Código Penal tornou o espiritismo, por não considerá-lo uma religião, assunto para delegacias de polícia. “Praticar o espiritismo, a magia e seus sortilegios, usar de talismans e cartomancias para despertar sentimentos de odio ou amor, inculcar cura de molestias curaveis ou incuraveis, emfim, para fascinar e subjugar a credulidade publica [art. 157, na grafia da época]” era crime punível com “prisão cellular por um a seis mezes e multa de 100$000 a 500$000 [100 mil a 500 mil réis]”.

“Prisão celular” é o mesmo que privação de liberdade, em regime fechado, cumprida em penitenciária. A multa máxima correspondia a cerca de US$ 270 pelo câmbio de 1890. Segundo Célia, os efeitos práticos desse artigo se estenderam até a década de 1960 (mesmo com as alterações do Código de 1940, vigente até hoje).

A norma – que associa o espiritismo a rituais de magia e adivinhações – refletia a pressão do clero católico, dos positivistas e até mesmo da classe médica, “temerosa da disseminação sem controle do curandeirismo”.

Por outro lado, os espíritas também foram usados como bodes expiatórios para diminuir a oposição do catolicismo ao novo regime, causada pelo desatrelamento entre a Igreja e o Estado. Em consequência do novo Código Penal, vários espíritas foram presos a partir de 1891. Em muitos processos, foram acusados de “atentar contra a saúde pública”.

A socióloga defende que a reivindicação do caráter religioso do espiritismo durante a primeira República representou justamente a escolha de uma via de legitimação social. Esse caráter religioso não era algo definido desde o início do espiritismo – nem na França, nem no Brasil. "Apresentar o espiritismo como uma religião era visto como solução portadora de uma segurança legal que era sentida como premente para a existência do movimento espírita em chão brasileiro", escreve Célia.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Espírito Desencarnado não é Santo

Por Alamar Régis Carvalho

O grande problema de uma doutrina são os equívocos praticados por alguns dos seus profitentes. A Doutrina Espírita também é vítima disto, pelo que fazem alguns espíritas que, apesar da boa vontade que estão investidos no movimento e até mesmo da honestidade de propósitos, não se dão muito ao trabalho de entender bem os postulados doutrinários, a base fundamental da doutrina, na sua essência, e terminam prejudicando o entendimento do Espiritismo.

É exatamente por causa desses conhecimentos apenas superficiais da doutrina que ainda há muita prática igrejeira em nosso movimento, com todos os ingredientes do espírito de igreja, com as proibições, as obrigações, as censuras, as rezações excessivas, os rituais, as perseguições e todas essas coisas.

Analisemos aqui a questão da concepção dos espíritos pelos espíritas. Antes que eu faça a minha abordagem, vale relermos “O Livro dos Espíritos”, em seu livro segundo, que fala do “Mundo Espírita ou dos Espíritos”, da natureza dos espíritos de um modo geral, da influência deles em nossas vidas, etc.

É muito comum ouvirmos pessoas dizerem:

- “Esta coisa tem que ser assim, porque o Espírito tal disse que tem que ser assim, no livro tal”.

- “A nossa instituição vai ter que trabalhar desta forma, porque o mentor da casa disse que tem que ser desta forma”.

- “Fulano está errado e não deve ser levado a sério, porque o espírito tal, no livro tal, coloca a coisa de uma maneira diferente”.

- “Isto não é Espiritismo!!!!”.

Expressões como estas são ouvidas a todo momento no meio espírita. Daí resultam aquilo que chamo de “Espiritismos à moda da casa”, quando vários dirigentes, em diversas localidades, fazem do Espiritismo o que bem entendem, embora laborando na doutrina com honestidade e dedicação.

A grande confusão que existe é a concepção dos Espíritos, quando muitos os vêem como verdadeiros santos, donos absolutos da verdade, conhecedores de todas as coisas, perfeitos e infalíveis como se fossem o próprio Deus.

É preciso que todos nós espíritas entendamos bem aquilo que a obra básica da doutrina nos ensina, que diz que os espíritos desencarnados são exatamente os espíritos dos homens que viveram encarnados na Terra.

Se uma pessoa não foi espírita, quando encarnada, não vira espírita imediatamente à sua desencarnação. Poderá, depois de algum tempo, aceitar as idéias espíritas; do mesmo jeito que poderia aceitá-las, como muitos passam a aceitar, quando estão encarnados. Mas poderá também não querer aceitar.

Se uma pessoa, enquanto encarnada, viveu advogado aqui, praticando a advocacia como sua vocação e profissão, depois que desencarna não terá tendência para ser “espírito de cura”, já que não teve qualquer afinidade com a medicina ou a enfermagem. Continuará gostando do direito, das leis, dos “data venia”, do “vamos fazer uma juntada aos autos do processo”, do “transitado e julgado” etc.

Se um espírito foi padre ou freira, quando encarnado, amante da sua venerável igreja católica, não vai deixar de amar a sua igreja, depois que morre, por mais que tome consciência da sua condição de desencarnado, entenda a possibilidade da comunicação mediúnica, passe a usar um médium para se comunicar, crie simpatia pelo Espiritismo e resolva até escrever livros, exercendo o seu amor pela educação, pelo ensinar e pela aplicação dos seus conhecimentos de um modo geral.

Só que tentará passar para as pessoas, mesmo espíritas, orientações conforme a sua cultura adquirida que, queiramos ou não, trás o ranço católico. É natural que não vá passar idéias inquisitoriais, recomendações a determinadas formalidades, rituais ou qualquer procedimento católico que ele não aceita, do mesmo jeito que nos dias atuais já conseguimos identificar padres que, mesmo encarnados, não aceitam determinados dogmas e procedimentos que a sua igreja impõe. Antigamente o padre que se atrevesse a pelo menos insinuar que não aceitava pelo menos um dogma da igreja, era queimado sumariamente. Hoje a coisa está mais livre.

Nós temos um problema muito sério, no movimento espírita, no campo da moralidade, por exemplo, problema esse que gera outros para as pessoas.

Geralmente os Espíritos que são mais conhecidos no movimento espírita, que escrevem livros, que enviam mensagens através dos mais famosos médiuns, são pessoas que desencarnaram nas décadas de dez, de vinte, de trinta... mais ou menos.

Raramente nos vemos um espírito escrever algum livro pelo Divaldo, por exemplo, ou por outro médium, que tenha desencarnado na década de setenta. Falo desses espíritos que são considerados modelos doutrinários pelo movimento, não espíritos como aqueles da Editora Petit, embora respeitáveis.

Acompanhem o meu raciocínio:

Uma pessoa que viveu até a década de vinte, por exemplo, tendo desencarnado com 70 anos, mais ou menos, certamente deve ter nascido por volta do ano de 1850.

Que tipo de cultura ele adquiriu no período da sua vida como encarnado, acerca do que seria moral, da relação homem mulher, dos direitos do homem e dos direitos da mulher, etc, vivendo no período de 1850 a 1920?

Conceber a mulher como um ser inferior ao homem, que deveria se limitar aos afazeres domésticos, jamais a sair também para trabalhar fora, em igualdade de condições, era uma concepção machista desse espírito?

Claro que não. É machista hoje, nos nossos dias, mas no tempo dele era absolutamente normal, era o que era moral.

Discutia-se abertamente as questões sobre o sexo nas escolas? Nem pensar! Seria considerada a maior imoralidade.

Hoje o assunto é abordado, naturalmente, não apenas nas escolas, como também na televisão, onde até órgãos sexuais masculinos e femininos, em látex, são mostrados para crianças pegarem, vêem como funcionam, com câmeras mostrando em close, e ninguém mais se escandaliza com isto, a não ser mentes altamente poluídas e retrógradas que ainda existem nos dias atuais.

Mas o espírito em questão veria a coisa com essa naturalidade de hoje? Claro que não, veria como imoralidade conforme a cultura da sua época.

Mas aí há um outro questionamento que, de fato, tem fundamento:

Os espíritos, depois de desencarnados, continuam o curso das suas vidas normalmente, continuam os seus aprendizados, as suas buscas, pesquisas e aperfeiçoamento das suas idéias.

Nem todos.

Aqui na Terra, algumas pessoas concluem as suas graduações, nos diversos cursos superiores, e param por aí. São muitos os médicos que se formam, entram numa das vertentes das especialidades e ficam acomodados naquele conhecimento, sem se preocuparem com Mestrado, Doutorado, Pós Graduação em geral, participação em Congressos, Seminários, assinaturas de revistas e periódicos, porém trabalhando honestamente, lidando com dedicação, amor e respeito aos seus pacientes, no entanto estacionaram os seus conhecimentos.

Conheço oftalmologista formado há mais de 40 anos, que nunca fez qualquer pós graduação muito menos participou de congresso algum.

No Direito, nas diversas Engenharias e em todos os outros segmentos ocorrem a mesma coisa.

Você vai encontrar, entre os espíritos encarnados, alguns que, embora desencarnados na década de 20, continuaram a acompanhar o processo evolutivo, inclusive do plano encarnado e falam como se estivessem vivendo aqui hoje.

A Joanna de Ângelis, por exemplo, é um espírito que desencarnou em 1823, mas fala tranqüilamente sobre Carl Gustav Jung, que nasceu em 1875 e desencarnou em 1961, com um detalhe: Ela viveu no Brasil e ele na Suíça.

Mas tem outro detalhe que precisamos considerar: Ela foi freira, em várias das suas encarnações, inclusive na última, e como freira foi uma mulher extremamente digna, honesta e moralmente elevada.

Por estar em Paz com a sua consciência, já que o postulado espírita, que ela também passou a admirar, diz que A Lei de Deus está escrita na nossa consciência, ela obviamente deve conceber a sua vida como freira absolutamente correta e os conceitos obtidos no seio católico como sendo morais.

Continua freira, o que é absolutamente normal. Tanto que quando se apresenta a algum médium vidente, está sempre com a vestimenta de freira.

Outro aspecto que deve ser considerado:

O fato de um espírito desencarnado entender que ele pode se comunicar com o mundo material através de um médium, possibilidade que vem sendo dita pelo Espiritismo há muito tempo, não quer dizer que ele aceite o Espiritismo, se não aceitava enquanto encarnado.

Tenho mais um exemplo a citar:

Com o médium José Medrado, trabalham vários espíritos, com destaque para aqueles que gostam de pintar quadros.

Acontece que no meio deles, tem um que é padre e que não aceita o Espiritismo.

Veja só que coisa mais interessante: Se o Medrado participar de algum evento de pintura mediúnica em alguma instituição espírita, esse espírito se recusa a comparecer e, obviamente, não pinta nada. Mas se o evento acontece em um clube ou qualquer lugar neutro, já que é comum o citado médium realizar esse tipo de trabalho em ambientes não espíritas, olha ele lá, já querendo lugar na fila.

Vá explicar uma coisa dessa.

Segundo relata Medrado, trata-se de um espírito dócil, bom e carinhoso, mas pensa desse jeito e exige que todo mundo respeite o seu modo de ser, o que é um direito que ele tem.

Deixa de ser bom por causa disto?

Se você quiser me qualificar como alguns dirigentes me qualificam, pela minha absoluta independência de pensamento, que qualifique, mas eu, sinceramente, não leio obra espírita nenhuma, seja do espírito que for, já com a idéia preconcebida de que tudo o que vou ler ali é a verdade absoluta, que não deve ser discutida e nem questionada.

Se eu questiono até o Evangelho, que foi colocado no mundo como a “Boa Nova” do Cristo, como aquele caso da parábola da figueira, que eu não engulo de jeito nenhum, porque o meu bom senso convida-me e perguntar a mim mesmo:

“Será que o episódio aconteceu exatamente daquele jeito como foi relatado pelo evangelista?”.

Pense você, raciocine você e veja se tem sentido Jesus, com toda aquela excelência que ele foi, ter vontade de comer figo, encontrar uma figueira que não tinha nenhum fruto para lhe satisfazer, numa época em que não era tempo de figos, de repente se aborrecer daquele jeito e amaldiçoar a pobre da árvore e ainda jogar-lhe uma praga!!! Tem cabimento, uma coisa dessa?

Aí aparece um monte de gente para fazer palestras, dando as mais diversificadas interpretações para aquilo, pra coisa ficar “bonitinha”. Ora, tenha a santa paciência.

Para concluir é bom que todos entendamos que ninguém vira santo depois que desencarna, ninguém vira sábio, adquire todos os conhecimentos, fica dono de verdade absoluta e muito menos deve ser aceito em todos os seus conceitos e opiniões sem a devida análise o mais criteriosa possível.

Aproveito aqui para dizer às pessoas amigas que costumam me convidar para fazer palestras em algumas cidades. Se vocês me convidarem, como muitos convidam, para participar de reuniões mediúnicas, digam antes à direção da casa que o Alamar costuma gostar de conversar com os espíritos, gosta de questionar e de esclarecer todas as colocações feitas que não ficam bem claras. Comigo não tem esse negócio de silêncio absoluto e apenas ficar ouvindo, ouvindo, ouvindo e dizendo amém para o que espírito fala não.

É bom que se saiba, também, que muitos conceitos impostos por muitos espíritas, com base no que disse o espírito A ou B, principalmente no campo da moralidade, devem ser considerados como opiniões pessoais deles, e nem sempre devem ser absorvidos como a verdade absoluta. Principalmente quando entramos mais fundo na questão e identificamos um pouco da “cabeça” do médium na mensagem.

Ihhhhh! Aí já é uma outra matéria, que demandariam algumas páginas a mais.

A excelência do Espiritismo só se desperta onde existem espíritas lúcidos, sensatos e coerentes. Fora disso, o que encontramos é apenas prática de religião espírita.

Amém.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

As doutrinas cristãs não podem colidir com a fé verdadeira

Por José Reis Chaves

A fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem (Hebreus 11,1).

Mas nem todos têm fé (2 Tessalonicenses (3,2)). O apóstolo são Tomé não acreditou na aparição de Jesus em espírito aos seus colegas. Mas depois, o Mestre, materializado (fenômeno de ectoplasmia) apareceu novamente a todos eles. Mas Jesus não condenou Tomé pela sua incredulidade, apenas disse que são bem-aventurados (felizes) os que não viram e creram. Os outros apóstolos já eram felizes, porque já tinham constatado a aparição, em espírito, pela fé, enquanto que são Tomé, só depois de comprová-la pela materialização. Mas isso é também válido: "Conhecereis a verdade e ela vos libertará".

Hoje, se sabe que, pelo seu perispírito, um morto pode aparecer e até se materializar, mas no tempo de Jesus, era grande a ignorância sobre esses fenômenos espirituais ou mediúnicos. É que os médiuns especiais, que veem essas coisas, e os pesquisadores dessa área eram e ainda são uma minoria. Daí que não são a maioria os que creem em aparições dos mortos.

É notório que as religiões tradicionais ocidentais, como se fossem materialistas, não estudam e até desaconselham o estudo desses fenômenos. Apenas o espiritismo estuda-os. E, por esses fenômenos espíritas terem o respaldo da ciência espiritualista, os outros líderes religiosos se irritam contra o espiritismo.

E muitos desses líderes até apelam, em vão, para a absurda afirmação de que o espírita não é cristão, porque não aceita certos dogmas. Porém, Jesus não ensinou que se conhecem seus discípulos por crerem nesta ou naquela doutrina, mas por se amarem uns aos outros. E também, como os espíritas praticam a caridade, eles incomodam mesmo os líderes religiosos que se consideram cristãos por apenas crerem em certas doutrinas, que nada têm a ver com o verdadeiro ensino do Nazareno: "Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros" (João 13, 34 e 35).

Muitos padres estão alardeando para os quatro cantos do mundo que a Igreja está perdendo fiéis, sim, mas que os que se conservam católicos o são de fato. Porém, ela sempre teve essa minoria (8% a 10%) que é católica de carteirinha. Mas a grande maioria de 90% continua na mesma indiferença.

Elementos do clero católico se gloriam ingenuamente pelo fato de a Igreja perder fiéis não só para as igrejas evangélicas, mas também para os sem religião e os ateus, o que é lamentável. Ainda bem que grande parte dos sem religião compõe-se de espíritas da corrente espírita científica e filosófica, que não tem o espiritismo como religião.

Com a evolução cultural das pessoas, cada vez mais elas vão ficando em dúvida com certas doutrinas cristãs antigas incompatíveis com a razão e os evangelhos. Assim, a Igreja nunca precisou tanto de um novo concílio ecumênico para reestruturar as suas doutrinas! E até parece uma ironia do destino que os próprios dogmas que se tornaram no passado, pela força e não pela razão os pilares da teologia católica, herdada em parte pelas outras igrejas cristãs, vêm se tornando instrumentos de sua decadência.

A fé verdadeira e inabalável, como ensina Kardec, tem que ser racional. Realmente, a certeza da fé tem que ser superior às dúvidas dela.

Mas o mais lamentável de tudo isso que está acontecendo é a fuga dos cristãos para o materialismo!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A Mente que não mente

Por Hermínio C. Miranda

A ortodoxia religiosa sempre andou preocupada com a eclosão de doutrinas reformistas e renovadoras que classifica sumariamente de heréticas. Essa vigilância tem levado a muita perseguição injusta e a não poucos arrependimentos e recuos. Alguns heréticos chegaram mesmo a passar da condição de réprobos à canonização, como Joana D’ Arc, quando foi revisto o seu processo. Outros, como Giodarno Bruno e Galileu, constituem até hoje pontos sensíveis na história eclesiástica, como pecados da juventude que não relembramos sem angústia.

O problema, porém, tornou-se muito mais sério nestes últimos tempos, nos quais o arcabouço teológico começa a estalar ao peso insuportável da modernização do pensamento. Ainda que a ciência também tenha seus dogmas e seus hereges, muito do que ela vai revelando adquire foros de conquista irreversível, geralmente em sacrifício de velhos conceitos superados.

Qualquer menino de ginásio sabe hoje que um corpo humano não pode subir ao céu como querem os dogmas da ascensão do Cristo e de Maria.

Mesmo admitindo-se a atuação de uma força propulsora que os projetasse para além da gravidade terrestre, os corpos assim deslocados, ficariam suspensos no espaço a circular na órbita da terra ou de seu satélite.

Esse tipo de conhecimento leva o homem moderno às trilhas da descrença por não saber como conciliar razão e fé. Os grandes filósofos do cristianismo ortodoxo conseguiram, com enorme sucesso e por largo espaço de tempo, convencer fiéis de que a fé era uma coisa e razão outra, e que aquela não poderia ser subordinada a esta.

Ainda há quem admita esse conceito absurdo; outros, porém, preferem pensar por sua própria cabeça e submeter à crítica da razão aquilo que lhes chega envolvido pela atmosfera abafada da teologia escolástica. Estes derivam para descrença e desanimam na busca da verdade ou partem para o estudo sistemático de qualquer sistema que ofereça alguma luz ao entendimento do universo.

O Espiritismo é a doutrina que conseguiu, pela primeira vez, conciliar fé e razão, não admitindo aquilo que não puder passar no teste do racionalismo inteligente e esclarecido.

Por isso vai se impondo metodicamente, seguramente, ampliando cada vez mais sua área de influência, pois atrai a todos aqueles que, sem poderem mais aceitar a velha crença divorciada da razão, estão prontos para acatar uma verdade superior que não exige o sacrifício do raciocínio. Mas ainda: o Espiritismo expõe uma doutrina do mais profundo sentido humanista. A sua racionalidade não a levou à frieza dos símbolos matemáticos ou dos meros conceitos filosóficos – é, antes, uma norma de vida, um roteiro para compreensão do universo e posicionamento do homem na escala cósmica.

Por isso, muitos nos procuram, o que preocupa, como é natural, os responsáveis pela perpetuação do superado sistema dogmático. Através dos séculos, chegou a ser desenvolvida uma verdadeira técnica de combate às novas idéias que ameaçam a estabilidade da ortodoxia. Essa técnica se aperfeiçoa com o passar do tempo, mas continua basicamente a mesma.

O Espiritismo é uma das doutrinas que muito vem incomodando a igreja especialmente a brasileira, ou seja, a porção brasileira do catolicismo romano. Para combatê-los, vários e ilustres sacerdotes têm sido investidos dos necessários poderes e dos competentes “Imprimatur” e “Nihil Obstat”. Essa é a técnica básica.

Há algum tempo, entretanto, a dominante do plano de ataque era a velha doutrina de interferência do diabo nas manifestações mediúnicas. Hoje isto seria inadmissível, pois até mesmo os sacerdotes já descobriram que essa história de demônio é fantasia pura. A prova está nas declarações de alguns eminentes teólogos perante o Concílio Vaticano-II. Impedidos assim de invocar o demônio de atacar a ciência nas suas conquistas mais legítimas, buscam qualquer princípio científico que ofereça a mínima possibilidade de apoio. Esse é o ponto em que variou a técnica.

Um dos recursos de que estão se socorrendo os nossos queridos irmãos sacerdotes é a Parapsicologia, na qual vêm depositando grandes e infundadas esperanças.

A Parapsicologia ainda não está muito segura de si e sofre dum renitente mal de origem, que poderíamos chamar, recorrendo ao velho grego, de pneumofobia, ou seja, medo do espírito. A jovem ciência que nós espíritas, poderíamos classificar como autêntica reencarnação da Metapsíquica, treme à idéia de acabar descobrindo o espírito humano e foge da palavra como, segundo se dizia, o desmoralizado diabo fugia da cruz. Os modernos tratados de Parapsicologia giram todos em torno do mesmo “leit motiv”: “O Alcance da Mente”, “O Novo Mundo da Mente”, “Ciência Fronteiriça da Mente”, “Canais Ocultos da Mente”. É tudo mente e nada de espírito. Sobrevivência?! Deus nos livre! Pois se nem quererem concordar em que o espírito exista, como vão admitir que sobrevive? Nada disso; tudo se explica pela faculdade extra-sensorial da mente. Mas que faculdade é essa e que “Mente” é essa?

Vêm, então, os nossos inevitáveis sacerdotes parapsicológicos deitar sabedoria extra-sensorial, contaminados irremediavelmente pela mesmíssima pneumofobia e tudo para eles é Mente também.

Topamos, assim, como esta incongruência, difícil de se admitir em homens que devem ter estudado a sua filosofia:

1 – a mente dispõe de faculdades extra-sensoriais (postulado cientifico que aceitam e ensinam);

2 – o espírito (alma) que não pode existir sem a mente; sobrevive à morte física (postulado teológico que também aceitam e pregam);

3 – a mente (ou espírito ou alma) não está sujeita a limitação de tempo ou de espaço (também pacífico).

No entanto, qual a conclusão: A mente do espírito sobrevivente que ligada ao corpo, tinha recursos tão notáveis, não pode manifestá-los quando se separa do corpo pela morte física, a não ser através do “milagre”(!).

E os livros que contam essas coisas merecem ingênuos e inadvertidos “Imprimatur” e “Nihil Obstat”, o que vale dizer que são aprovados, confiantemente para o leitor católico; autoridades Eclesiásticas respeitáveis dão cobertura do ponto de vista teológico a obras que, do ângulo científico, estão oferecendo uma visão deformada e incompleta da realidade. A Parapsicologia não tem substância suficiente para oferecer base à teologia ortodoxa e jamais a terá, enquanto permanecer contida nos seus gabinetes atuais.

No dia em que o mecanismo do espírito (chamem de mente se quiserem) for pesquisado por cientistas corajosos e despidos de preconceitos, vão ser “revelados” os seguintes pontos que o Espiritismo conhece há mais de cem anos:

1- que espírito existe, preexiste e sobrevive;

2- que há um intercâmbio ativo entre os homens que já viveram na Terra e os espíritos dos que vivem como homens;

3- que o espírito se reencarna, evolui e é responsável pelo que faz aqui e no mundo espiritual.

Diante disso, como é que vão ficar os nossos padres parapsicólogos? Quando voltarem para o espaço, depois da chamada “crise da morte” e quiserem transmitir a realidade da sobrevivência ao companheiro encarnado, este poderá dizer muito simplesmente que não é preciso admitir a comunicação espírita; basta a pantomnésia ou a hiperestesia direta, ou indireta. E o pobre espírito, dentro duma realidade irrecusável, irá amargar alhures a repercussão de sua vaidade teológica e científica.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O Espiritismo visto por um historiador

Por Armando Souto Maior

O historiador é um homem que, de certa forma, carrega sobre seus ombros as dores do mundo. Vê mais e, conseqüentemente, sofre mais do que qualquer outro profissional que questione e se espante continuamente com o ser humano. Se não tiver acesso ao Espiritismo, a atração que sentirá pela agnosticismo ou pelo materialismo militante é muito forte. Além disso, tem vários mecanismos de fuga, sempre à sua disposição, pois pode mergulhar em um tempo que não é o seu, com facilidades e técnicas especiais. Entre seu eventual alheamento, suas fugas, seus eventuais sofrimentos pessoais e desencontros com a filosofia, surgem-lhe as sedutoras propostas do ateísmo que, teoricamente, são um tanto dolorosas e as mesmo tempo libertadoras das suas inquirições mais profundas, anestesiando-lhe seu choque diante do mundo. Não fugi à regra e percorri essa etapa.

A fé e ciência percorreram, ao longo da história, caminhos separados, muitas vezes antagônicos. É com o advento do Espiritismo que esse secular desencontro está sendo atenuado, com tendência natural ao desaparecimento. William Crookes é um conhecido exemplo no século XIX e a parapsicologia e a transcomunicação instrumental são consideradas nesses sentido dois marcos importantes no século XX. Eu era, como todo agnóstico, cientificista, e o superficial conhecimento que tinha do Espiritismo levava-me sempre ao falacioso raciocínio de que a teoria espírita era demasiadamente bem organizada para corresponder à realidade. O homem, para mim, sempre se havia revelado um espanto de maldade, e nada indicava que tivesse sido criado por uma entidade superior, personificação de bondade e justiça. As religiões onde ela inseria, numas mais e noutras menos, constituíam para mim simples portões para uma fé irracional, sem nenhum compromisso com a lógica.

Porém, certa vez, nos Estados Unidos, fui assistir a uma conferência de Carlos Campetti sobre “O Livro dos Espíritos”, para atender ao convite de uma amiga, Fernanda Wienskoski. Após a conferência, Campetti colocou-se à disposição do público para responder a perguntas sobre o assunto tratado. Tentei encostá-lo no canto da parede. Ele respondeu com elegância e lógica. É claro que não me convenceu naquela noite, mas induziu-me a uma posterior leitura de Kardec, onde aos poucos obtive respostas convincentes ao problema do ser, do destino e da origem do homem. O aspecto científico do Espiritismo deu-me o apoio de que eu necessitava para aceitá-lo como um fato transcendente na minha vida.

Antes de minha aceitação da teoria espírita, eu era pouco complacente, algo vaidoso, auto suficiente e tinha muita dificuldade em perdoar. Fazia da ironia uma regra de conduta e do orgulho intelectual um escudo. Depois, é claro, minha personalidade sofreu grandes transformações. Naturalmente ainda tenho seqüelas do passado, mas quem não as tem? Percebi, contudo, que havia dado um grande passo no meu processo evolutivo.

A reação da família, dos amigos e da Universidade à minha aceitação do Espiritismo, de maneira geral, foi respeitosa. É provável que no ambiente universitário alguém tenha pensado, ou ainda esteja pensando, que essa transformação seja fruto natural da velhice. Estando velho eu estaria com mais medo da morte e através de um mecanismo de defesa ou instinto de conservação, não aceitava mais o não ser, o desaparecimento total. No ambiente universitário, que conheço muito bem, é perfeitamente possível esse tipo de raciocínio.

Creio que se chega do Espiritismo através de três caminhos: pelo amor, pela dor ou pela necessidade intelectual de se obter uma explicação racional para transcendentes perguntas: quem somos, porque somos, de onde viemos e para onde vamos. A Filosofia tentou oferecer respostas a essas perguntas e o resultado foi uma verbalização erudita não explicativa. Aqui e ali, entretanto, houve clarões que se anteciparam à teoria espírita. Sócrates e Platão, acessíveis somente a pessoas de certo nível intelectual, são exemplos clássicos desses clarões, porém a concepção sistêmica de um todo que respondesse logicamente àquelas perguntas a qualquer pessoas só se tornou possível, nos meados do século XIX, com Kardec.

A revelação da verdade espírita enfrentou – e ainda enfrenta – barreiras poderosas tais como os cleros organizados de diversas crenças, com fortes motivações econômicas, antigas tradições religiosas e pautas culturais sedimentadas há séculos e completamente alheias ao conhecimento científico. Criam-se, portanto, “establisments” religiosos que, somente com o tempo serão paulatinamente modificados.

O Espiritismo, historicamente, contrariou interesses econômicos poderosos e suas implicações políticas. A igreja católica e as diversas igrejas protestantes refugiadas na sacralização da Bíblia, que supostamente seria “a palavra divina”, viram-se, com o Espiritismo, ameaçadas em suas posições como intermediárias entre Deus e os homens. Todos os absurdos dos teólogos medievais foram incorporados pela teologia protestante, além de que o antiquado empirismo religioso judaico, embasado por uma tradição sacralizadora, teve também guarida no pensamento da Reforma, isso em relação ao Antigo Testamento. Em relação aos Evangelhos é visível uma grande miopia intelectual, não explicativa, mas em todo esse processo anti-espírita a força econômica foi de grande importância, alimentada pela antiga e lucrativa prática do dízimo e uso do poder social decorrente da acumulação de capital. Muito tempo ainda decorrerá antes que o Espiritismo se transforme, como já foi previsto, no grande futuro de todas as religiões. Mas isso inexoravelmente acontecerá.

transcrito de Jornal Espírita de Pernambuco – Número 52 – Ano V – Janeiro de 2001

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Espiritismo à brasileira

Por Fábio Luiz da Silva

Onde mais senão no Brasil é possível ser católico, judeu ou protestante e mesmo assim acreditar em reencarnação? Pode parecer estranho, mas é isto que indica uma pesquisa realizada pelo Vox Populi (VARELLA, 2000: 78-82) , segundo a qual 59% da população brasileira acredita que já teve outras vidas, apesar de somente 3% se declararem espíritas. Um contra-senso em qualquer outra parte do mundo, mas significa que pelo menos um dos princípios espíritas encontrou um ambiente propício para seu desenvolvimento em nosso país.

Nascido na França do século XIX, através do trabalho de Allan Kardec, o Espiritismo chegou ao Brasil ainda neste mesmo século. Porém, o Espiritismo brasileiro ganhou um colorido que o fez diferente daquele existente na Europa. Assim, o surgimento do Espiritismo no Brasil provoca duas questões teóricas interessantes. Primeiro, seria o Espiritismo brasileiro uma deformação do Espiritismo europeu ou uma construção original? Segundo, quais as relações entre o Espiritismo e os cultos afro-brasileiros?

Vejamos a primeira questão. É comum entender que o Espiritismo possuía na Europa um caráter mais científico e filosófico e que no Brasil ele ganhou características mais religiosas (STOLL, 1999: 41). Argumenta-se que tal fato deve-se ao misticismo da tradição cultural brasileira. É a opinião de Ubiratan Machado em seu livro “Os Intelectuais e o Espiritismo”: a maioria de nossos espíritas preferia realçar o aspecto religioso, dando relevo à parte mágico-mística da doutrina (...)(1983:114). Para este autor o abrasileiramento do Espiritismo levou-o a uma perda do caráter experimentalista e científico de sua origem, e isto corresponderia a um abastardamento do Espiritismo no Brasil. Igualmente pensam assim François Laplantine e Marion Aubrée: il n’a jamais eu le caractère “expérimental” tant revendiqué par les spirittes français (1990:185).

Discordamos desta interpretação que considera o Espiritismo brasileiro uma simples deturpação do europeu. Acreditamos que o Espiritismo, no Brasil, foi uma construção original. Sandra Jacqueline Stoll, utilizando o trabalho de Clifford Geertz Observando el Islam (no qual é realizada uma análise comparativa sobre o desenvolvimento do Islamismo em duas culturas diferentes: Marrocos e Indonésia), conclui que as diferenças apresentadas por uma mesma religião em lugares diferentes são geradas por tensões inerentes ao processo de universalização das religiões, pois variam as estratégias sociais para resolver o dilema: adaptação versus preservação de princípios. E aplica o mesmo raciocínio ao Espiritismo:

Como o Islamismo na Indonésia, o Espiritismo é uma religião importada, que se difunde no país confrontando-se com uma cultura religiosa já consolidada, hegemônica e, portanto, conformadora do ethos nacional. Sua difusão, como postulam certos autores, foi em parte favorecida pelo fato das práticas mediúnicas já estarem socialmente disseminadas, de longa data, no âmbito das religiões de tradição afro. No entanto, em contraposição a estas o Espiritismo define sua identidade, elegendo sinais diacríticos elementos do universo católico(...) O Espiritismo brasileiro assume um “matiz perceptivelmente católico” na medida em que incorpora à sua prática um dos valores centrais da cultura religiosa ocidental: a noção cristã de santidade. (STOLL, 1999: 48)

O Espiritismo no Brasil não é um simples desvio de uma doutrina racional de origem européia e que sofreu uma contaminação do mágico e do místico, graças a uma predisposição do povo brasileiro para o maravilhoso. É uma construção original, influenciada pela formação cultural brasileira que já possuía elementos que foram reinterpretados pelo Espiritismo, assim como ele foi reinterpretado por estes elementos: crenças indígenas, africanas e populares de origem européia. Desta forma, acreditamos não ser possível ao Espiritismo manter uma “pureza” para onde quer que fosse difundido.

A segunda questão por nós levantada no início deste texto pode ser simplificada da seguinte forma: o termo Espiritismo inclui as crenças afro-brasileiras? A palavra Espiritismo pode ser encontrada referindo-se a toda crença na possibilidade de comunicação com o além através de médiuns (incluindo, neste caso, o Candomblé, Umbanda e o Espiritismo de Allan Kardec); somente à Umbanda e ao Espiritismo de Kardec (como muitos umbandistas entendem) ou somente ao Espiritismo de Kardec (como querem os espíritas). Estas diversas definições marcam diferentes posições dos sistemas religiosos e dentro das ciências sociais (HESS, 1989: 183).

Desde sua chegada ao Brasil, seus adversários tentaram igualá-lo às crenças afro-brasileiras. Assim se expressava a Igreja, ainda no século XIX, em seu primeiro documento condenando o Espiritismo: a Pastoral de 1867 do Arcebispo da Bahia D. Manoel Joaquim da Silveira. E também o bispo Boaventura Kloppenburg em seu livro A Umbanda no Brasil, no qual identifica Espiritismo e Umbanda (HESS, 1989:186-187)

Por outro lado, os intelectuais espíritas esforçam-se por marcar as diferenças. No livro Africanismo e Espiritismo, Deolindo Amorim defende a idéia que a Umbanda é muito mais parecida com o catolicismo do que com o Espiritismo, devido aos rituais, que segundo ele, não existem no Espiritismo. No preâmbulo da obra acima citada, assinado por Lippmann Tesch de Oliveira, fica claro o desejo espírita de afastar qualquer mal entendido que possa confundir Espiritismo e Umbanda:

Quando falamos em Espiritismo, saibam os leitores que nos referimos à codificação CIENTÍFICA, FILOSÓFICA e MORAL, de Allan Kardec, - a única com o privilégio de ostentar semelhante título! – que o mestre expôs numa série de obras notáveis, editoradas na França, no período de 1857 a 1869, e não a êsse conglomerado de pagelança e de rituais espalhafatosos, onde preponderam o mediunismo abastardado; em suma – ao carnaval de UMBANDA, difundido e praticado por aí em fora, sob o rótulo daquela luminosa esquematização espiritualista.(AMORIM, 1949: 5-7)

Ora, os católicos identificam Espiritismo/Umbanda e os espíritas Catolicismo/Umbanda, (...) são muito acentuados os traços de afinidade entre o Catolicismo e o Africanismo (...)(AMORIM, 1949: 70) , cada grupo tentando marcar diferenças e semelhanças através de um raciocínio parecido e que tem algo de preconceituoso.

Em meio às Ciências Sociais, segundo Hess (1989:183) também encontramos ambas as posições. Cândido Procópio Ferreira de Camargo, em seu livro Kardecismo e Umbanda defende a existência de um continuum mediúnico, que tem em um polo o Espiritismo e no outro a Umbanda. Também pensam assim os antropólogos franceses François Laplantine e Marion Aubrée (1990: 179). Idéia semelhante percebemos em expressões como adeptos de qualquer religião de possessão ou adeptos de uma prática mediúnica (SAEZ, 1991) , que referem-se tanto ao Espiritismo como aos cultos afro-brasileiros. Já Maria Laura Cavalcanti, autora do livro O Mundo invisível: Cosmologia, Sistema Ritual, e Noção de Pessoa no Espiritismo, enfatiza muito mais as diferenças (HESS, 1989: 188).

Entendemos que, apesar de tentadora, a opção por considerar o Espiritismo dentro de um continuum mediúnico tende a deixar de lado as características que o aproximam do Catolicismo, para enfatizar apenas suas as semelhanças com as crenças afro-brasileiras. Stoll (1999), por exemplo, percebeu a existência de um processo de santificação da figura de Francisco Cândido Xavier, muito próximo do que ocorre na Igreja Católica. Podemos concluir, portanto, que nossa opção de estudo abre a possibilidade de novas visões do processo histórico de legitimação social do Espiritismo, o que pode colaborar para uma compreensão mais satisfatória deste fenômeno religioso, cujas idéias estão disseminadas até mesmo entre aquelas pessoas que oficialmente professam outras crenças.

Fábio Luiz da Silva é Mestre em História, professor da Universidade Estadual de Londrina e da Faculdade Metropolitana/IESB.

Texto produzido a partir de um capítulo da dissertação de mestrado: A Perspectiva do além: a história na visão do Espiritismo (1938-1949)

Referência bibliográfica

AMORIM, Deolindo. Africanismo e Espiritismo. Rio de Janeiro: Mundo Espírita, 1949.

AUBRÉE, Marion; LAPLANTINE, François. La Table, le livre e les esprits. Paris: JC Lattés, 1990

HESS, David J. Disobsessing disobsession: religion. Ritual, and the social sciences in Brazil. Cultural Anthropology, Washington, v. 4, n. 2, p. 182-193, may. 1989.

MACHADO, Ubiratam. Os Intelectuais e o espiritismo. Rio de Janeiro: Antares/INL, 1983.

SAEZ, Oscar Calavia. Fantasmas falados: mito, escatologia e história no Brasil. Campinas, 1991. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – UNICAMP

STOLL, Jacqueline Stoll. Entre dois mundos: o Espiritismo da França e no Brasil. São Paulo, 1999. Tese (Doutorado em Antropologia) – USP.

VARELLA, Flávia. À Nossa moda. Veja, São Paulo, a 33, n. 1659, p. 78-82, jul. 2000.