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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A Lei de Destruição

Por Maria Ribeiro

A parte terceira de O Livro dos Espíritos é reservada a esclarecer sobre as leis morais, classificadas por Kardec com a permissão dos Espíritos em dez partes; aliás, a mesma divisão mosaica e que, segundo os Orientadores do Plano Maior, abrangem todas as circunstâncias da vida. (648)

Dentre as leis morais, a lei de destruição parece ser a menos compreendida, também pouco abordada. O capítulo VI representando a quinta lei - lei de destruição – aborda: destruição necessária e destruição abusiva; flagelos destruidores; guerras; homicídio; crueldade; duelo e pena de morte. Na questão 728, Kardec argúi aos Instrutores do Além se a destruição é uma lei da Natureza ao que eles prontamente respondem:

 “- É preciso que tudo se destrua para renascer e se regenerar, porque o que chamais destruição não é senão uma transformação que tem por objetivo a renovação e melhoramento dos seres vivos.”

Na Gênese, no capítulo III, lê-se:

 “Para aquele que não considera senão a matéria, que limita sua visão à vida presente, isso parecerá, com efeito, uma imperfeição na obra divina.”


Entre os animais forma-se a cadeia alimentar que promove na natureza um equilíbrio ao qual ninguém se dá conta. Entre os seres inferiores, desprovidos de senso moral, a mais imperiosa necessidade é a da nutrição - lutam para viver. “É nesse primeiro período que a alma se elabora e se ensaia para a vida.”

O homem passa por uma fase de transição e, nas primeiras idades, o que prevalece é o instinto animal; depois, este se contrabalança com o sentimento moral e agora a necessidade é satisfazer o desejo de domínio; somente muito depois, com o desenvolvimento do senso moral começa a surgir uma maior sensibilidade e “o homem passa a lutar contra as dificuldades e não mais contra seus semelhantes.” Na atualidade o homem se transformou no principal consumidor de alimento animal, e as pesquisas gastronômicas lançam sempre suas novidades; e não se pode crer, que isto se dê com o cruel intuito de massacrar os pobres bichinhos. O hábito de consumir carne parece incomodar um grupo formado dentro do Movimento Espírita que quer a todo custo demovê-lo, lutando contra a condição que a Natureza, ao menos provisoriamente, os colocou: de um lado, os animais, que desde a gênese mosaica foram dados aos homens para sua provisão; e de outro, os homens, cuja constituição orgânica exige proteína de origem animal. Isto se deve ao fato de alguns adeptos pouco convictos e superficialmente conhecedores de fato do Espiritismo, se deixarem seduzir pelas informações vindas de Espíritos mais facínoras do que sérios. Ainda no capitulo anterior que trata da lei de conservação, Allan Kardec, na questão 723 questiona se “a alimentação animal, entre os homens, é contrária à lei natural” e os Espíritos Codificadores objetam, muito claramente:

 ”- Na vossa constituição física a carne nutre a carne, de outra maneira o homem enfraquece. A lei de conservação dá ao homem um dever de entreter suas forças e sua saúde para cumprir a lei do trabalho. Ele deve, pois, se alimentar, segundo o exige a sua organização.”


Conclui-se que o primeiro dever do homem é zelar pela própria saúde e bem estar físico, o que, durante os estágios primitivos, ele procura fazê-lo instintivamente. De outra forma, ele não encontrará subsídios para desenvolver outros deveres, cumprir outras leis. Voltando à Gênese, no item 21 do referido capítulo, em destaque, está declarado:

“- A verdadeira vida, do animal, tal como a do homem, não se encontra no envoltório corporal, como também não se encontra em seu vestuário; ela está no princípio inteligente, que preexiste, e que sobrevive ao corpo.”

Daí, cabe perguntar, de onde estes companheiros tiraram tanta coragem para contradizer de forma tão aberrante aos insignes Codificadores: Kardec e os Espíritos adjudicados de tamanha missão. Seja coragem, seja estupidez, fato é que se trata de uma insolência absurda, pois que não há ninguém encarnado ou desencarnado à altura daqueles que trouxeram a Doutrina Espírita, ao menos agora. Demorará ainda talvez alguns séculos para que os missionários ressurjam para acrescentar na Codificação o que o próprio Kardec, na sua simplicidade, afiançou. Isto vai depender do avanço moral dos homens, que na atualidade ainda se encontram num tal estado entusiasta que chega ao ponto de negligenciar e desmentir a Verdade proposta pela Doutrina Espírita. 


Quer estas colocações Espíritas dizer que tal destruição é necessária. Recorram-se às palavras Kardequianas:

“Uma primeira utilidade que se apresenta nesta destruição, utilidade puramente física, certamente, é essa: os corpos orgânicos não se alimentam senão com a ajuda de matérias orgânicas, uma vez que estas matérias são as únicas que contêm os elementos nutritivos necessários à sua transformação. Os corpos, instrumentos de ação do princípio inteligente, têm necessidade de ser incessantemente renovados; a Providência os faz servir a seu mútuo alimento; é por isso que os seres se nutrem uns dos outros; então é o corpo que se nutre do corpo, porém o Espírito não se aniquilou, nem se alterou; apenas, despojou-se de seu invólucro.”

Outro aspecto relevante relacionado a isto é que é na luta que o Espírito se desenvolve: ele adquire habilidades e exercita sua inteligência, para enfim, adquirir conhecimentos e experiência, distanciando-se cada vez mais dos sinais de animalidade.


Dentro desta destruição que Kardec denomina necessária, remeta-se a uma prática imensamente útil a Humanidade, que é a sujeição de determinadas espécies animais para experimentos científicos. Por mais avançada esteja a tecnologia, seria impossível prescindir da participação destes nossos irmãos de ordem inferior na Criação* nas pesquisas de fármacos, ou para provar a eficiência das drogas farmacológicas, e em outras pesquisas onde a existência de um organismo perfeitamente vivo é um imperativo. Isto só tem trazido benefícios; aliás, existem regras éticas que regulam estas práticas. Sobre este particular, os Espíritos já haviam dito que o direito de destruição é regulado pela necessidade de provisão, e que o abuso jamais foi um direito. (734) Ou seja, não é só para a alimentação que os homens precisam dos animais, mas para o desenvolvimento de parte de sua Ciência, e principalmente da Ciência que preserva sua saúde e sua vida física. Pergunta-se: o que aconteceria hoje se ficasse terminantemente proibido a utilização dos animais nos experimentos científicos? Como seriam divididos os espaços físicos entre os homens e os animais, se ficasse proibido o consumo de carne? E se todos se tornassem vegetarianos, a demanda de vegetais atenderia  prontamente a todos? São questões que precisam ser pensadas, antes da propaganda de que a Doutrina Espírita proíbe o consumo de carne, palavras dos seguidores de Espíritos orientais. Está reservado o direito de excluir o alimento de origem animal do cardápio aos que voluntariamente despertarem o desejo do vegetarianismo. Mas que não esteja vinculado a esta escolha o atendimento a qualquer recomendação doutrinário-Espírita.

Com base no que as Excelsas Entidades afirmam nas obras fundamentais do Espiritismo, infere-se que, até chegar a um estado cuja nutrição independa da proteína animal, o homem tem muita carne a comer. A esta idéia não se associe uma motivação para os exageros, afinal, o exagero em tudo é maléfico.

Aliás, a constituição orgânica tem por base substâncias inorgânicas encontradas praticamente em tudo na natureza, tais como, oxigênio, hidrogênio, carbono e nitrogênio, entre outros, que, ao contato do fluido vital, ganham vida e, ao se combinarem entre si, adquirem a forma de aminoácidos, que são as unidades formadoras de proteínas. Proteínas e vida andam juntas, pois além de serem fundamentais para a construção dos organismos, também funcionam como enzimas e, nos vertebrados, funcionam como anticorpos. Muitas destas descobertas se realizaram após a Codificação, provando que os Espíritos sabiam perfeitamente do que falavam, enquanto que para o homem comum os informes científicos ainda representam grandes incógnitas... 

À medida que o homem evolui moralmente, seu corpo exigirá alimentos menos densos. Quanto mais material é o mundo onde habita, mais material será sua alimentação. Quando atingir esferas menos atrasadas, sua constituição física sendo mais sutil, obviamente exigirá igualmente alimentos mais sutis. Não se deve esquecer que o Espírito retira do ambiente onde vai estagiar, os elementos (fluidos) para formação de seu perispírito (na verdade, sua condição Espiritual é que atrairá tais elementos), e a partir deste, a formação do corpo físico de acordo com os elementos (materiais) desse globo. Portanto, nada impediria que um Espírito muito elevado encarnado na Terra, por exemplo, utilizasse para sua nutrição, as iguarias de origem animal, já que seu corpo físico é de constituição idêntica ao dos demais, tendo as mesmas exigências. 

Kardec se preocupou em trazer esclarecimento sobre os flagelos de que o homem muitas vezes se torna vítima, e na questão 737 pergunta qual o objetivo destes para os homens. E a resposta diz que é para fazer a humanidade avançar mais depressa. Na questão seguinte, os Espíritos afirmam que Deus oferece aos homens outros meios de progredir, mas eles não os aproveitam, pois não utilizam o discernimento do bem e do mal, ou seja, praticam o mal e deixam de praticar o bem, mesmo com conhecimento de causa.  São provas que farão o homem exercitar alguns valores, como inteligência, paciência, resignação, abnegação, desinteresse e amor ao próximo; valores imprescindíveis para seu progresso. Além disso, têm os flagelos uma utilidade sob o ponto de vista físico: regiões sofrem alterações que trarão benefícios para as gerações futuras. (739/740)

De uma forma ou de outra, também o corpo do homem sofre a destruição. Dada a morte física, suas vestes carnais darão início ao espetáculo da total desorganização. As transformações post-mortem se iniciam em média duas horas após a morte. Microrganismos encetam o trabalho destruidor, mesmo antes da inumação. Não será exagero defender esta empreitada de que foram dotadas as bactérias - transformar um corpo em elementos menores, até que estes, recombinando-se entre si ou com outros elementos, dêem origem a outras formas de vida. Por isso não há o que se chama destruição no sentido de aniquilamento. Na verdade, deixa-se de existir uma forma para continuar existindo em outra, tanto o homem como tudo o que Deus criou.

Os Espíritos não assemelharam o instinto de destruição com a crueldade, alegando que aquela às vezes faz-se necessária, e essa nunca o é. E concluem a questão 752: “ela é sempre o resultado de uma natureza má.” O que leva a estes eventos infelizes entre os homens é a predominância da natureza animal sobre a espiritual, onde a satisfação das paixões fala mais alto; das paixões levadas ao exagero, pois que, equilibradamente, podem levar o homem a grandes coisas. (907/908) Quando um indivíduo age mal, porém para se preservar e preservar a sua espécie obedece ao instinto de conservação, do qual todos os seres são dotados. Então não se classifica como cruel ao liquidar outro com este fim. Mas à medida que se desenvolve, adquire noções sobre o bem e o mal, e agora, se age de idêntica forma, já responderá mais severamente, porque racionalmente, obedecendo ao seu egoísmo, faz o mal, o mesmo que ele fazia quando não podia ter noção mais exata das coisas, portanto, é um sujeito cruel. Mas é claro que estes julgamentos pertencem somente Àquele que a tudo e todos conhece. Cada qual que se julgue a si mesmo e reflita se ainda tem atitudes cruéis ao invés de querer buscar classificações para os outros.

O planeta Terra testemunha ocorrências absurdas que se sucedem uma sempre mais cruel que a anterior, causando sensações de derrota pessoal e coletiva; local onde permanecem vinculados Espíritos ainda afins com o mal, onde ainda existe a pena de morte, legal ou veladamente, como estimar uma data para um mundo melhor, ou por outra, para  advento do mundo de regeneração? Nem Jesus se atreveu a demarcar uma data para o estabelecimento do equilíbrio no planeta: ”Porém daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas unicamente meu Pai. (Mt 24,36)” Obviamente, porque tal evento depende unicamente da evolução humana.  Em O Livro dos Médiuns, em resposta à pergunta 11ª do item 298, lê-se: ”... Os Espíritos levianos que não têm nenhum escrúpulo em vos enganar, indicam os dias e as horas sem se inquietarem com o resultado. Por isso, toda previsão circunstanciada, deve vos ser suspeita.”

Mas o Cristo também alertou: ”Vigiai, pois, em todo o tempo, orando, para que sejais havidos por dignos de evitar todas essas coisas que hão de acontecer e de estar em pé diante do Filho do Homem.” (Lc 21, 36), como a dizer que está ao alcance do homem evitar muitas tragédias, materiais ou morais, e entende-se por “orando”, não simplesmente no sentido literal, mas no sentido ativo do termo. Orar também é pensar sempre no bem, em qualquer circunstância, e no bem da coletividade, trabalhando e investindo para a melhoria das instituições, que infelizmente, só funcionam muito precariamente. Há que se atender às atuais necessidades sociais, com a revisão de leis; com o repensar sobre os atuais modelos implementados que já não funcionam.

Enquanto aguarda-se ansiosamente pelo mundo de regeneração, milhões de irmãos morrem de fome, outros tantos morrem nas guerras, seja nas regiões do mundo envolvidas culturalmente com as guerras (se assim se pode expressar), seja nas guerras das metrópoles: trânsito, assassínios motivados por diversas razões, latrocínios, drogas... Outros milhões anseiam pelo carnaval, pelas festividades, pela copa do mundo, como se nada tivesse acontecendo. Há muito recurso pecuniário envolvido em tudo isso, mas não há um tostão para atender as necessidades básicas das pessoas. Não seria isto um duelo, aliás, um terrível duelo? São homens contra homens: de um lado, homens poderosos e afortunados, do outro homens miseráveis e esquecidos. E no meio? No meio tem-se uma espada afiada representada por outros homens, presunçosos e egoístas que não tomam partido, já que seus interesses não sofrem danos nesse  duelo.

Aqui não haveria necessidade da aplicação desta lei? Destruir os costumes bárbaros, que igualam o homem ao bruto; pois os costumes bárbaros também se modernizaram e tomam corpo entre nós.

Ao que parece é o mundo de regeneração que aguarda pelos homens. Ele já é uma realidade para todos os que trabalham ou trabalharam por conquistá-lo. É uma outra promessa do Cristo que se cumpre para estes porque  não será algo milagroso, um acontecimento inusitado, maravilhoso, repentino... O mundo de regeneração será resultado de uma construção coletiva, partindo de atitudes individuais. E para que ele seja efetivamente instaurado, será preciso destruir o atual sistema de coisas, romper com os valores vigentes, e que, de uma forma ou de outra, recebem o aval de todos.

Esta Lei de destruição analisada pelos Espíritos faz que se reflita sobre como as transformações ocorrem após o declínio de algo, que pode ocorrer sutil ou bruscamente. Alguns sistemas de governo só mudaram após muitas comoções, até mesmo após revoluções sangrentas, por exemplo. Os eventos inovadores chegam para transformar um certo estado de coisas, e, à primeira vista, seus resultados podem ser considerados negativos ou ruins, dada a visão superficial e imediatista dos homens. Estes eventos acabam incitando os indivíduos para o trabalho, pois que deles exigirá o exercício da inteligência através das pesquisas e descobertas.

No mundo material tudo se transforma sempre visando o bem e um mais perfeito estado de coisas, na tentativa de redirecionar o homem para uma visão toda Moral. Nada ocorre sem uma legítima utilidade. Deus, supremo Bem e Amor, todo Bondade e Justiça, conhece as reais necessidades de cada Ser da Criação, e todas as leis que estabeleceu são solidárias entre si, cabendo aos homens, se instruírem e se moralizarem para compreendê-las na sua integridade, na sua utilidade, na sua grandiosidade.

*Imitando os Espíritos e Kardec, utilizamos este termo, mas, na nossa indigna condição, por  falta de um mais adequado, reconhecendo-se grandeza em todas as obras da criação. 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

[OLE] - Guerras

O Livro dos Espíritos - Allan Kardec
Capítulo 6 - Lei de Destruição

742. Qual a causa que leva o homem à guerra?

— Predominância da natureza animal sobre a espiritual e a satisfação das paixões. No estado de barbárie, os povos só conhecem o direito do mais forte, e é por isso que a guerra, para eles, é um. estado normal. A medida que o homem progride, ela se torna menos freqüente, porque ele evita as suas causas e, quando ela se faz necessária, ele sabe adicionar-lhe humanidade.

743. A guerra desaparecerá um dia da face da Terra?

— Sim, quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus. Então todos os povos serão irmãos.

744. Qual o objetivo da Providência ao tornar a guerra necessária?

— A liberdade e o progresso.

744 – a) Se a guerra deve ter como efeito conduzir à liberdade, como se explica que ela tenha geralmente por fim e por resultado a escravização?

— Escravização momentânea para sovar os povos, a fim de fazê-los andar mais depressa.

745. Que pensar daquele que suscita a guerra em seu proveito?

— Esse é o verdadeiro culpado e necessitará de muitas existências para expiar todos os assassínios de que foi causa, porque responderá por cada homem cuja morte tenha causado para satisfazer a sua ambição.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

OLE - Lei de Destruição

I – Destruição Necessária e Destruição Abusiva

728. A destruição é uma lei da Natureza?

- É necessário que tudo se destrua para renascer e se regenerar porque isso a que chamais destruição não é mais que transformação, cujo objetivo é a renovação e o melhoramento dos seres vivos.

728 – a) O instinto de destruição teria sido dado aos seres vivos com fins providenciais?

- As criaturas de Deus são os instrumentos de que ele se serve para atingir os seus fins. Para se nutrirem, os seres vivos se destroem entre si e isso com o duplo objetivo de manter o equilíbrio da reprodução, que poderia tornar-se excessiva, e de utilizar os restos do invólucro exterior. Mas é apenas o invólucro que é destruído e esse não é mais que acessório, não a parte essencial do ser pensante, pois este é o princípio inteligente indestrutível que se elabora através das diferentes metamorfoses por que passa.

729. Se a destruição é necessária para a regeneração dos seres, por que a Natureza os cerca de meios de preservação e conservação?

Para evitar a destruição antes do tempo necessário. Toda destruição antecipada entrava o desenvolvimento do principio inteligente. Foi por isso que Deus deu a cada ser a necessidade de viver e de se reproduzir.

730. Desde que a morte deve conduzir-nos a uma vida melhor, e que nos livra dos males deste mundo, sendo mais de se desejar do que de se temer, por que o homem tem por ela um horror instintivo que a torna motivo de apreensão?

Já o dissemos. O homem deve procurar prolongar a sua vida para cumprir a sua tarefa. Foi por isso que Deus lhe deu o instinto de conservação e esse instinto o sustenta nas suas provas; sem isso, muito freqüentemente ele se entregaria ao desânimo. A voz secreta que o faz repelir a morte lhe diz que ainda pode fazer alguma coisa pelo seu adiantamento. Quando um perigo o ameaça, ela o adverte de que deve aproveitar o tempo que Deus lhe concede,mas o ingrato rende geralmente graças à sua estrela, em lugar do Criador.

731. Por que, ao lado dos meios de conservação, a Natureza colocou ao mesmo tempo os agentes destruidores?

O remédio ao lado do mal; já o dissemos, para manter o equilíbrio e servir de contrapeso.

732. A necessidade de destruição é a mesma em todos os mundos?

É proporcional ao estado mais ou menos material dos mundos e desaparece num estado físico e moral mais apurado. Nos mundos mais avançados que o vosso, as condições de existência são muito diferentes.

733. A necessidade de destruição existirá sempre entre os homens na Terra?

—A necessidade de destruição diminui entre os homens à medida que o Espírito supera a matéria; é por isso que ao horror da destruição vedes seguir-se o desenvolvimento intelectual e moral.

734. No seu estado atua], o homem tem direito ilimitado de destruição sobre os animais?

Esse direito é regulado pela necessidade de prover à sua alimentação e à sua segurança; o abuso jamais foi um direito.

735. Que pensar da destruição que ultrapassa os limites das necessidades e da segurança; da caça, por exemplo, quando não tem por objetivo senão o prazer de destruir, sem utilidade?

Predominância da bestialidade sobre a natureza espiritual. Toda destruição que ultrapassa os limites da necessidade é uma violação da lei de Deus. Os animais não destroem mais do que necessitam, mas o homem, que tem o livre-arbítrio, destrói sem necessidade. Prestará contas do abuso da liberdade que lhe foi concedida, pois nesses casos ele cede aos maus instintos.

736. Os povos que levam ao excesso o escrúpulo no tocante à destruição dos animais têm mérito especial?

É um excesso, num sentimento que em si mesmo é louvável, mas que se torna abusivo e cujo mérito acaba neutralizado por abusos de toda espécie Eles têm mais temor supersticioso do que verdadeira bondade.

II – Flagelos Destruidores

737. Com que fim Deus castiga a Humanidade com flagelos destruidores?

Para fazê-la avançar mais depressa. Não dissemos que a destruição é necessária para a regeneração moral dos Espíritos, que adquirem em cada nova existência um novo grau de perfeição? E necessário ver o fim para apreciaras resultados. Só julgais essas coisas do vosso ponto de vista pessoal, e as chamais de flagelos por causa dos prejuízos que vos causam; mas esses transtornos são freqüentemente necessários para fazer com que as coisas cheguem mais prontamente a uma ordem melhor, realizando-se em alguns anos o que necessitaria de muitos séculos(1). (Ver item 744.)

738. Deus não poderia empregar, para melhorar a Humanidade, outros meios que não os flagelos destruidores?

Sim, e diariamente os emprega, pois deu a cada um os meios de progredir pelo conhecimento do bem e do mal. E o homem que não os aproveita; então, é necessário castigá-lo em seu orgulho e fazê-lo sentir a própria fraqueza.

738 – a) Nesses flagelos, porém, o homem de bem sucumbe como os perversos; isso é justo?

Durante a vida, o homem relaciona tudo a seu corpo, mas, após a morte, pensa de outra maneira. Como já dissemos, a vida do corpo é um quase nada; um século de vosso mundo é um relâmpago na Eternidade. Os sofrimentos que duram alguns dos vossos meses ou dias, nada são. Apenas um ensinamento que vos servirá no futuro. Os Espíritos que preexistem e sobrevivem a tudo, eis o mundo real. (Ver item 85.) São eles os filhos de Deus e o objeto de sua solicitude. Os corpos não são mais que disfarces sob os quais aparecem no mundo. Nas grandes calamidades que dizimam os homens, eles são como um exército que, durante a guerra, vê os seus uniformes estragados, rotos ou perdidos. O general tem mais cuidado com os soldados do que com as vestes.

738 – b) Mas as vítimas desses flagelos, apesar disso, não são vítimas?

Se considerássemos a vida no que ela é, e quanto é insignificante em relação ao infinito, menos importância lhe daríamos. Essas vítimas terão noutra existência uma larga compensação para os seus sofrimentos, se souberem suportá-los sem lamentar.

Comentário de Kardec: Quer a morte se verifique por um flagelo ou por uma causa ordinária, não se pode escapar a ela quando soa a hora da partida: a única diferença é que no primeiro caso parte um grande número ao mesmo tempo.

Se pudéssemos elevar-nos pelo pensamento de maneira a abranger toda a Humanidade numa visão única, esses flagelos tão terríveis não nos pareceriam mais do que tempestades passageiras no destino do mundo.

739. Esses flagelos destruidores têm utilidade do ponto de vista físico, malgrado os males que ocasionam?

Sim, eles modificam algumas vezes o estado de uma região; mas o bem que deles resulta só é geralmente sentido pelas gerações futuras.

740. Os flagelos não seriam igualmente provas morais para o homem, pondo-o às voltas com necessidades mais duras?

Os flagelos são provas que proporcionam ao homem a ocasião de exercitar a inteligência, de mostrar a sua paciência e a sua resignação ante a vontade de Deus, ao mesmo tempo que lhe permitem desenvolver os sentimentos de abnegação, de desinteresse próprio e de amor ao próximo, se ele não for dominado pelo egoísmo.

741. E dado ao homem conjurar os flagelos que o afligem?

Sim, em parte, mas não como geralmente se pensa. Muitos flagelos são as conseqüências de sua própria imprevidência. Á medida que ele adquire conhecimentos e experiências, pode conjurá-los, quer dizer, preveni-los, se souber pesquisar-lhes as causas. Mas entre os males que afligem a Humanidade, há os que são de natureza geral e pertencem aos desígnios da Providência. Desses, cada indivíduo recebe, em menor ou maior proporção, a parte que lhe cabe, não lhe sendo possível opor nada mais que a resignação à vontade de Deus. Mas ainda esses males são geralmente agravados pela indolência do homem.

Comentário de Kardec: Entre os flagelos destruidores, naturais e independentes do homem, devem ser colocados em primeira linha a peste, a fome, as inundações, as intempéries fatais à produção da terra. Mas o homem não achou na Ciência, nos trabalhos de arte, no aperfeiçoamento da agricultura, nos afolhamentos e nas irrigações, no estudo das condições higiênicas, os meios de neutralizar ou pelo menos de atenuar tantos desastres? Algumas regiões antigamente devastadas por terríveis flagelos não estão hoje resguardadas? Que não fará o homem, portanto, pelo seu bem-estar material, quando souber aproveitar todos os recursos da sua inteligência e quando, ao cuidado da sua preservação pessoal, souber aliar o sentimento de uma verdadeira caridade para com os semelhantes? (Ver item 707.)


(1) Esta resposta coloca de maneira bem clara o problema dos “saltos” da Natureza, de que tratamos em nota anterior. “O salto qualitativo” a que se refere a dialética marxista, e que para alguns contradiz a ordem evolutiva da doutrina espírita, é exatamente essa espécie de “transtornos” que apressam o desenvolvimento. Como se vê, o Espiritismo reconhece a existência e a necessidade desses “transtornos”, mas integrados no processo geral da evolução, não os admitindo como quebra desse processo. (N. do T.)

O Livro dos Espíritos - Tradução de José Herculano Pires.