quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Análise crítica do texto “Alimentação dos Espíritos” da autoria de Ricardo Di Bernardi, com base nas Obras Básicas da Doutrina Espírita. (2ª Parte)

12:17 Posted by O Blog dos Espíritas 1 comment
Por Maria das Graças Cabral

O presente artigo, prossegue na análise crítica ao texto “Alimentação dos Espíritos”, tendo como objeto, as questões tratadas por Ricardo Di Bernardi, no que concerne ao “perispírito” e “alimentação dos espíritos’. Serão as Obras Básicas da Doutrina Espírita, que validarão ou não a tese apresentada, a qual tem por base, entendimentos de Espíritos e/ou médiuns, considerados “confiáveis” pelo autor do texto.
 

Inicialmente, Ricardo Di Bernardi se reporta à flexibilidade do perispírito, asseverando que: O corpo espiritual apresenta-se moldável conforme as emanações mentais do Espírito. Cada espírito apresenta seu perispirito ou corpo espiritual com aspecto correspondente a elevação intelecto-moral. Seu estado psíquico vai determinar a sutilização do seu corpo.” (grifei) 

No que concerne ao acima exposto, encontramos fundamentação na Doutrina dos Espíritos, posto que, no livro A Gênese, quando trata da Formação e Propriedades do Perispírito, está expresso que os Espíritos agem sobre os fluidos espirituais através do pensamento e da vontade. Preceituam os Mestres Espirituais, que freqüentemente as transformações são o produto de um pensamento “inconsciente“. É assim, que um Espírito se apresenta perante um encarnado dotado de visão psíquica, sob a aparência que tinha quando se conheceram, mesmo que depois de várias encarnações. E prosseguem exemplificando, que se o Espírito foi uma vez negro e outra vez branco, apresentar-se-á como negro ou como branco, segundo qual das duas encarnações será evocado, e à qual se reportará seu pensamento. (A Gênese, Cap. XIV, item 14)   

Quanto à sutilização do corpo fluídico, determinada pelo estado psíquico do Espírito, prevê a mesma obra, que “a natureza do envoltório fluídico está sempre em relação com o grau de adiantamento moral do Espírito. Os Espíritos inferiores não podem mudá-lo à sua vontade, e por conseguinte não podem se transportar à vontade de um mundo para outro.” (A Gênese, Cap. XIV, item 9) (grifei)



Acompanhando o desenvolvimento do trabalho, nos deparamos em seqüência com as seguintes elucidações, advindas segundo as palavras do autor, de inúmeros autores espirituais. Vale advertir, que à partir de então, as idéias propostas não encontram mais nenhum respaldo na Doutrina Espírita, como será demonstrado oportunamente.





Assim se expressa o autor: O corpo espiritual é estruturado por aparelhos ou sistemas que se constituem de órgãos; estes órgãos são formados por tecidos que, por sua vez, são constituídos por células. Há inclusive patologias celulares tratadas em hospitais da espiritualidade. O chamado mundo espiritual é (no nosso nível) um mundo material de outra dimensão.” (grifei) 

Acrescenta Ricardo Di Bernardi, que “as células do corpo espiritual, em nível mais detalhado, são formadas por moléculas que se constituem de átomos. Os átomos do perispírito são formados por elementos químicos nossos conhecidos, além de outros desconhecidos do homem encarnado.” Em seguida, sugere a leitura das obras de Gustave Geley e Jorge Andréa, onde se encontra referências mais específicas ao corpo espiritual. 

Adiante - para justificar a tese da alimentação dos Espíritos - aplica ao perispírito, os mesmos princípios da física destinados à matéria, assim se expressando: Sabemos pelos mais elementares princípios da física, que todo corpo em movimento (vibração) no universo gasta energia, logo precisa repô-la o que equivale a se alimentar. As leis da física não são leis humanas mas leis divinas (ou naturais) às quais estão sujeitos todos os elementos do cosmo. Há portanto um desgaste energético natural do corpo espiritual pelas suas atividades o que o leva a necessidade de ser alimentado por fontes de energia.” (grifei) 

Em seguida, prossegue lançando mão de ‘ensinamentos’ oriundos de Espíritos alienígenas à Doutrina Espírita, asseverando que dependendo do nível evolutivo do espírito, e conseqüente densidade do perispírito, varia a qualidade do alimento ou energia que o mesmo necessita para manter suas atividades. Espíritos superiores simplesmente absorvem do cosmo os elementos energéticos ("fluídicos") que necessitam. Ao se colocarem em oração (no sentido mais profundo), sintonizam com níveis energéticos ainda mais elevados (freqüências mais altas) aurindo para si o influxo magnético revitalizador, alimentando suas "baterias" espirituais.” (grifei)



Acrescenta que, “com relação aos espíritos mais relacionados com a nossa realidade, ou seja que ainda apresentam dificuldades em superar as tendências egoísticas, portanto traduzindo na configuração de seu corpo espiritual uma maior densidade, as necessidades são proporcionalmente mais densas.” (grifei)





Por fim, o autor traz a lume as “novidades” instituídas pelo Espírito André Luiz, através da emblemática obra Nosso Lar, asseverando que “em colônias espirituais, os espíritos precisam da ingestão de alimentos energeticamente mais densos, fazendo-o de forma muito semelhante a nós encarnados." E recomenda o estudo mais detalhado da obra "Nosso Lar" de André Luiz, que foi precursora de dezenas de outras onde se faz referência a alimentação, até as mais recentes "Violetas na Janela" etc.” (grifei) 

No que tange às obras acima indicadas por Ricardo Di Bernardi para estudo mais detalhado, vale ressaltar que as mesmas não podem ser consideradas espíritas, pois não se coadunam em vários aspectos, com os preceitos doutrinários contidos nas Obras Básicas da Doutrina Espírita.

No que concerne à alimentação dos Espíritos, constatamos que tais orientações não encontram validação nas Obras Básicas da Doutrina Espírita, como veremos a seguir. Inicialmente, para que os leitores e leitoras tenham uma melhor compreensão do assunto em comento, faz-se por oportuno observar, que o perispírito exerce funções diferenciadas para o Espírito na condição de encarnado, e quando desencarnado. 

A utilidade do perispírito para o Espírito encarnado, segundo os esclarecimentos de Allan Kardec, na Introdução de O Livro dos Espíritos (LE), é de liame que une a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito.” A união da alma ao corpo começa na concepção, quando o Espírito se liga ao corpo por um “laço fluídico“, o qual se prende célula a célula ao corpo carnal em formação. Assim, transmite as percepções e sensações do corpo físico ao Espírito, e vice-versa. Vale ressaltar, que é no Espírito que reside a sede da inteligência e das lembranças. Através do perispírito, o Espírito agirá no cérebro humano.

Já para o Espírito desencarnado, o perispírito deixa de ser liame e passa a ser o envoltório do Espírito, que tomará a forma ao arbítrio do mesmo, podendo tornar-se visível e mesmo palpável para os encarnados, conforme previsto em O Livro dos Espíritos. (LE., p. 95) 

Reportemo-nos então, ao item III, de o LE, quando os Espíritos Superiores tratam das Percepções, Sensações e Sofrimentos dos Espíritos. O Codificador da Doutrina Espírita, lança os seguintes questionamentos: Pergunta 253: - Os Espíritos experimentam as nossas necessidades e os nossos sofrimentos físicos? Resposta: - Eles o conhecem, porque os sofreram, mas não os experimentam como vós, porque são Espíritos. (grifei) 

Em seguida indaga Kardec na pergunta 254: Os Espíritos sentem fadiga e necessidade de repouso? Resposta: Não podem sentir a fadiga como a entendeis, e portanto não necessitam do repouso corporal, pois não possuem órgãos em que as forças tenham de ser restauradas. Mas o Espírito repousa, no sentido de não permanecer numa atividade constante. Ele não age de maneira material, porque a sua ação é toda intelectual e o seu repouso é todo moral. Há momentos em que o seu pensamento diminui de atividade e não se dirige a um objetivo determinado; este é um verdadeiro repouso, mas não se pode compará-lo ao do corpo. A espécie de fadiga que os Espíritos podem provar está na razão da sua inferioridade, pois quanto mais se elevam, de menos repouso necessitam. (grifei) 

Por fim, vejamos a pergunta 255 lançada pelo Codificador: Quando um Espírito diz que sofre, de que natureza é o seu sofrimento? Resposta: - Angústias morais, que o torturam mais dolorosamente que os sofrimentos físicos. (grifei) 

Diante do exposto, infere-se que: 1º) As necessidades físicas de que se queixam os Espíritos são apenas “impressões”; 2º) Os Espíritos não precisam de repouso, nem obviamente de alimento, posto que não possuem órgãos em que as forças tenham de ser restauradas, nem muito menos aparelho digestivo, sistema circulatório, nervoso ou genésico; 3º) O sofrimento do Espírito é totalmente moral, e não físico. 

Não obstante, quando leio mensagens mediúnicas positivadas em livros, revistas, artigos, etc., que fundamentam os mais diversos trabalhos, como o texto sob análise, e não encontro respaldo nos preceitos espíritas, questiono: - De onde esses Espíritos e/ou médiuns, trariam tais descrições e/ou informações? 

Chego a pensar na seguinte hipótese: - O Livro dos Espíritos, ao tratar da Encarnação em Diferentes Mundos, apresenta uma explanação feita por Kardec, à respeito da condição dos Espíritos encarnados em mundos elevados. Identifico “semelhanças” no que é narrado pelos Espíritos/médiuns, aos quais se reporta o autor do texto sob análise, ao tratar da vida espírita.

Observem as elucidações do Codificador: À medida que o Espírito se purifica, o corpo que o reveste aproxima-se igualmente da natureza espírita. A matéria se torna menos densa, ele já não se arrasta penosamente pelo solo, suas necessidades físicas são menos grosseiras, os seres vivos não têm mais necessidade de se destruírem para se alimentar. (...) Quanto menos material é o corpo, está menos sujeito às vicissitudes que o desorganizam; quanto mais puro é o Espírito, menos sujeito às paixões que o enfraquecem. (...)” (LE., p. 182) (grifei) 

Diante do exposto, penso que poderia haver uma ‘distorção’ no relato e/ou interpretação dos Espíritos e/ou dos médiuns no que concerne às suas respectivas experiências espirituais. Será que na realidade, tais Espíritos e/ou médiuns não estariam narrando a vida dos Espíritos encarnados em mundos mais elevados?  

Só vislumbro essa possibilidade, pois no que tange à vida espiritual do planeta Terra, conforme o previsto de forma clara nas Obras Básicas, a realidade é totalmente diversa das notícias trazidas pelos Espíritos e/ou médiuns, aos quais se reporta o autor do texto em comento! 

É fato que, enquanto encarnados na Terra, planeta de provas e expiações, teremos um corpo denso, com um organismo complexo, suscetível às mais diversas mazelas e prazeres. O elo de ligação entre este e a alma, como já foi dito exaustivamente, é o perispírito, formado pelos fluídos próprios do planeta. 

Não obstante, quando desencarnado, consoante orientações dos Mestres Espirituais, e as mais diversas comunicações mediúnicas apresentadas pelo Codificador na Revista Espírita e nas Obras Básicas, não estará o Espírito mais atrelado às carências físicas, exigidas pelo organismo humano. O corpo fluídico do Espírito, como dito anteriormente, não tem órgãos, pois estes só têm finalidade, para o corpo humano vivo. O Espírito não enxerga pelos órgãos da visão, não ouve pelo aparelho auditivo, não fala pela boca, etc. Seus sentidos, estão por todo o corpo fluídico que o envolve! Suas percepções e sensações, se adequarão a uma outra realidade espaço/temporal, própria da dimensão espiritual onde passa a viver. 

O Espírito de volta ao plano espiritual, não lutará mais pela sobrevivência física, de um corpo que já se decompôs. Sua luta será totalmente voltada às questões de cunho intelecto/moral, que o levará a profundas reflexões e avaliações sobre tudo o que vivenciou, e o que foi importante para sua evolução. Analisará seus erros e acertos, objetivando novos propósitos a serem realizados em uma próxima encarnação. Como somos resistentes a essas verdades!
Isto posto, entendo que os equívocos do texto, ocorrem principalmente, quando Espíritos/médiuns e autor, recorrem a outras áreas do conhecimento, e/ou a outras filosofias religiosas alienígenas, na busca de sustentação para mensagens espirituais de teor discutível, tentando a todo custo adequá-las à Doutrina dos Espíritos, embora tais idéias em nada se coadunem com os preceitos doutrinários espíritas.

Outro aspecto importante a considerar, que muito compromete a seriedade do trabalho objeto da presente análise - é o critério utilizado pelo autor, para validação das mensagens mediúnicas apresentadas como fonte de embasamento de sua tese. Ricardo Di Bernardi expressa uma confiança “incondicional” nos médiuns famosos aos quais se reporta, e nas mensagens dos Espíritos que por eles se manifestam. Não se atenta à grande lição deixada pelos Espíritos Superiores em O Livro dos Médiuns, quando nos alertam que no planeta Terra não existem médiuns perfeitos. Os bons médiuns são raros! E portanto, TODOS são mistificados. Alguns mais, outros menos.

Quais as conseqüências de tantas informações distorcidas? - Inúmeras falsas “revelações“, que se incorporam aos ensinamentos espíritas como verdades doutrinárias, embora em total desacordo com princípios propostos na Codificação kardeciana. Como também, sérios conflitos de entendimento, os quais, tanto o Codificador lutou por evitar, se esmerando no vocabulário, organização, explicações, esclarecimentos, e controle dos ensinamentos ministrados pelos Espíritos Superiores, e positivados na Revista Espírita e nas Obras Básicas da Doutrina Espírita. 

No que tange à questão das emblemáticas “colônias espirituais“, mencionadas pelo autor do texto analisado, sugiro aos leitores que confiram o artigo intitulado “Umbral e Nosso Lar - Uma realidade não existente face a Doutrina dos Espíritos”, publicado no presente blog Um olhar Espírita, quando tratamos de regiões delimitadas no plano espiritual destinadas ao sofrimento ou à felicidade do Espírito. Faz-se também imprescindível para um melhor aprendizado, o estudo do Capítulo VI, Vida Espírita, complementado pelo Ensaio Teórico Sobre a Sensação nos Espíritos, desenvolvido por Allan Kardec, contido no Livro Segundo de O Livro dos Espíritos; e o Capítulo II, item IX, Paraíso, Inferno, Purgatório. Paraíso Perdido, do Livro Quarto da mesma obra.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


CABRAL, Maria das Graças. Umbral e Nosso Lar - uma realidade não existente face a Doutrina dos Espíritos.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Editora LAKE, 62ª edição, SP, 2001.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médius. Editora LAKE, 22ª edição, SP, 2002.
KARDEC, Allan. A Gênese. Editora LAKE, 20ª edição, SP, 2001.

Um comentário:

  1. Muito interessante mesmo este artigo que trata da alimenteção dos espíritos.

    Estou precisando muito de uma ajuda sua.

    Estou criando um artigo no qual pretendo colocar o ponto de vista de cada religião, doutrina ou sistema filosófico sobre o destino final da terra com base nas escrituras sagradas de Jesus e não pretendo copiar artigos já prontos da internet.

    Se for possível, você poderia me fornecer um resumo do assunto com base nas escrituras sagradas, segundo o entendimento da religião, doutrina ou sistema filosófico do qual você faz parte?

    O ponto no qual pretendo discorrer está descrito nos Evangelhos em Apocalipse Cap. 21 e 22 “O novo céu e a nova terra”. E “A nova Jerusalém” e em outros pontos dos Evangelhos ligados ao tema. Quanto mais objetivo e não dado a segundas interpretações for o seu resumo, melhor servirá para o trabalho. E como já disse, melhor é que não seja copiado. Antecipadamente agradeço!

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