sexta-feira, 29 de abril de 2011

"Os Quatro Evangelhos ", de J. B. Roustaing

Por Gélio Lacerda da Silva

Propusemo-nos analisar partes dos livros de Jean Baptiste Roustaing intitulados "Os Quatro Evangelhos", denominados também "Revelação da Revelação" e "Espiritismo Cristão", editados pela Federação Espírita Brasileira e por ela adotados para estudo, ininterrupto, desde a sua fundação.

Apontar todos os conceitos antidoutrinários dos quatro grossos volumes seria necessário escrever outros tantos livros.

Aos títulos acima se sucedem as palavras "Seguidos dos mandamentos explicados em espírito e verdade pelos Evangelistas assistidos pelos Apóstolos e Moisés". Tradução de Guillon Ribeiro (ex-presidente da FEB). Temos a 5ª edição, 1971.

De início, uma "Nota da Editora" enaltecendo as qualidades intelectuais do tradutor Guillon Ribeiro e informando que ele foi presidente da Federação Espírita Brasileira durante 26 anos consecutivos, desencarnado em 26 de Outubro de 1943.

Na folha seguinte há uma "RECOMENDAÇÃO":

"Para que o leitor melhor possa compreender e assimilarás ensinamentos contidos nesta obra, necessário se torna que primeiramente leia as seguintes obras de Allan Kardec:

"O Livro dos Espíritos"

"O Livros dos Médiuns"

A EDITORA."

Esclareça-se, desde já, que Roustaing transplantou para os seus livros a terminologia espírita dos livros de Kardec, motivo por que a FEB faz essa recomendação. Tão só, porque, com relação à essência da doutrina espírita, Roustaing modificou-a completamente, como adiante se verá, introduzindo assim o primeiro cisma no Espiritismo.

Nas páginas 9 à 12, sob o título "DUAS PALAVRAS", o tradutor se revela deslumbrado com a obra de Roustaing e se confessa "muito aquém do encargo recebido".

Eis pequena mostra das "DUAS PALAVRAS", que ocupam quatro páginas do livro:

"De nenhum modo pretendemos realçar aqui, em duas palavras, o valor e a importância verdadeiramente extraordinários desta obra incomparável, única até hoje no mundo, onde, dia a dia, à medida que for sendo calmamente estudada e meditada, avultarão a sua grandiosidade e a sua profundeza. Para o fazermos, talvez nada menos de um volume houvéramos de escrever, quando nos não faltasse capacidade".

Note-se o fascínio do tradutor, julgando necessário escrever pelo menos um volume, a título de prefácio da obra de Roustaing, se não Ihe faltasse capacidade. Se realizasse o seu intento, estaria apenas seguindo o estilo prolixo do seu mestre Roustaing, já mencionado por Kardec, quando este, na sua crítica a "Os Quatro Evangelhos" de Roustaing, afirmou que "a obra poderia ter sido reduzida a dois, ou mesmo a um só volume e teria ganho em popularidade." ("Revista Espírita", Edicel, junho/1866).

E acrescenta o tradutor:

"Nela se encerra toda uma revelação de verdades divinas que ainda em nenhuma outra fora dado ao homem entrever. Ela nos põe sob as vistas, banhados numa claridade intensíssima, que por vezes ainda nos ofusca os olhos tão pouco acostumados à luminosidade das coisas espirituais, esse código de sabedoria infinita que se há de tornar o código único dos Homens - os Evangelhos de Jesus. Tanto basta para que a sua preciosidade assinalada fique."

O tradutor, por certo, conhecia os livros de Kardec, mas o seu fascínio pelos livros de Roustaing dá a medida exala do pouco ou nada que para ele representaram os ensinos da Codificação Kardequiana. Diante da "claridade intensíssima" da obra roustainguista, que Ihe ofuscou os olhos, vemos o tradutor imitando Paulo quando, na estrada de Damasco, ficou temporariamente cego pela luminosidade de Jesus.

Concluindo o resumo das "Duas Palavras":

"Se, apesar dessa assistência e dessa misericórdia, ficamos muito aquém do encargo recebido, como é nossa convicção, que nos perdoem os que lerem esta tradução da obra imorredoura dos "Quatro Evangelhos explicados em espírito e verdade"..."

Por questão de respeito, não diremos que a "verdade" roustainguista é uma grosseira mentira, mas afirmamos, convicto, e o leitor constatará, que a verdade de Roustaing não é a verdade espírita.

É curioso ressaltar que, nos livros de Roustaing, o tradutor enaltece apaixonadamente a obra. No "O Evangelho Segundo o Espiritismo", de Allan Kardec, edições FEB, também traduzido por Guillon Ribeiro, este não escreve sequer uma palavra sobre o livro. Em lugar disso, na 77ª edição, por exemplo, lêem-se elogios da Federação Espírita Brasileira à erudição do tradutor.

No seu "Prefácio", às páginas 57/67, Roustaing explica o porquê de "Os Quatro Evangelhos":

"Li o Livro dos Espíritos. Nas páginas desse volume encontrei: uma moral pura, uma doutrina racional, de harmonia com o espírito e progresso dos tempos modernos, consoladora para a razão humana; a explicação lógica e transcendente da lei divina ou natural, das leis de adoração, de trabalho, de reprodução, de destruição, de sociedade, de progresso, de igualdade, de liberdade, de justiça, de amor e caridade, de aperfeiçoamento moral, dos sofrimentos e gozos futuros.

"Em seguida, deparei com explicações judiciosas acerca da alma no estado de encarnação e no de liberdade; do fenômeno da morte, da individualidade e das condições de individualidade da alma após a morte; do que se chamou anjo e demônio; dos caminhos e meios, dos agentes secretos ou ostensivos de que se serve Deus para o funcionamento, o desenvolvimento, o progresso físico dos mundos; do progresso e desenvolvimento físico, moral e intelectual de todas as suas criaturas.

"Encontrei ainda a explicação racional da pluralidade dos mundos; da lei do renascimento presidindo, pelo progresso incessante não só da matéria como da inteligência, à vida e à harmonia universais, no infinito e na eternidade.

"Compreendi, mais do que nunca, diante da pluralidade dos mundos e das humanidades, assim como de suas hierarquias; da pluralidade das existências e da respectiva hierarquia, que os homens, no nosso planetas são de uma inferioridade moral notória; de uma inferioridade intelectual acentuada relativamente às leis a que estão sujeitos na Terra os diversos reinos da Natureza e às leis naturais a que obedecem os mundos e as humanidades superiores, por meio das quais aquelas leis se conjugam na unidade e na solidariedade.

(- - -)

"Li em seguida o Livro dos Médiuns..., consultei a História,... Per lustrei os livros das duas revelações, o Antigo e o Novo Testamento...

"Mas, se por um lado a moral sublime do Cristo resplandeceu a meus olhos em toda a sua pureza, em todo o seu fulgor, como brotando de uma fonte divina, por outro lado, tudo permaneceu obscuro, incompreensível e impenetrável à minha razão, no tocante à revelação sobre a origem e a natureza espirituais de Jesus, sobre a sua posição espírita em relação a Deus e ao nosso planeta, sobre os seus poderes e a sua autoridade.

"Quanto à revelação sobre uma origem, uma natureza ao mesmo tempo humanas e extra-humanas de Jesus, sobre o modo de sua aparição na Terra, tudo, como antes, se conservou igualmente obscuro, incompreensível e impenetrável à minha razão.

" .. senti a impotência da razão humana para penetrar as trevas da letra e, desde então, a necessidade de uma revelação nova, de uma revelação da Revelação "

( )

Como se vê, "Os Quatro Evangelhos" foram ditados a Roustaing para atendê-lo nas suas dúvidas quanto à origem e natureza de Jesus. Os espíritos mistificadores, contudo, foram além da expectativa de Roustaing: satisfizeram-no com a teoria de um Jesus de natureza extra-humana, não gerado por Maria, enfim, um agênere, ressuscitando a ideologia docetista do corpo aparente de Jesus, surgida logo após a sua morte, que o apóstolo João denunciou de "Anticristo" (João, lª Ep. Univ., 4: l a 3, e 2ª Ep., 1:7), e ainda, nesses livros de Roustaing, a falange de espíritos embusteiros contesta vários ensinos espíritas contidos nos livros de Allan Kardec.

Há, também, no 1° volume de "Os Quatro Evangelhos" de Roustaing, uma "Introdução" por ele escrita, da pág. 69 à 126: são 58 páginas com repetidas referências ao "corpo fluídico" de Jesus ou à sua "natureza extra-humana", e à "virgindade de Maria", expressões que se estendem, exaustivamente, ao longo dos quatro grossos volumes.

O deslumbramento de Roustaing pela tese docetista "de que Jesus não veio em carne", condenada pelo apóstolo João, é de tal monta que, enquanto o Espiritismo diz "Fora da Caridade não há Salvação", Roustaing coloca como pedra angular de sua doutrina "a natureza extra-humana de Jesus". Se o espiritismo se preocupa com a essência dos ensinos de Jesus, Roustaing se fascina com a teoria do Jesus de apenas "corpo fluídico".

*Retirado do livro "Conscientização Espírita"

André Luiz existiu?

Por Randy*

O famoso e suposto autor espiritual André Luiz, que dispensa apresentações, nos é apresentado por Francisco Xavier como um espirito inferior que, sem mais nem menos, o movimento espirita elevou à categoria de espírito puro.

Sim, espirito puro, pois aos espiritos puros é dado tudo saber e André Luiz aparenta ter respostas para tudo. Mas, somente sob o seu unico ponto de vista, sem consolidação nenhuma com nenhum tipo de aferição ou consolidação.

E quando uma informação não é aferida e quando não há o menor interesse em aferi-la, somos obrigados, por plena compreensão do conteúdo do Livro dos Médiuns, a questionar a própria identidade do espírito.

Não há provas - nenhuma - da identidade desse espirito. Estranhamente, quando Kardec compilou a codificação, os espiritos comunicantes faziam questão de se identificar - e com nomes que utilizaram encarnados e que eram plenamente conhecidos. A lista é grande e extremamente significativa. Claro que os nomes em si não dizem nada, mas o conjunto de informações com identidade também auxiliam na credibilidade de uma informação após, é claro, aferida pelo CUEE.

Mas... quem era André Luiz?... Qual sua importância para a história da construção do pensamento filosófico? Vamos apelar - qual sua importância para a construção do pensamento cristão? Que grande cientista teria sido para aprimorar a ciência espírita? Que lastro intelecto/moral ele possuía para, mesmo sem considerar o CUEE, alguém lhe dar crédito?

Não sabemos. O que sabemos são as estranhas palavras de Waldo Vieira, co-autor de diversos livros assinados por André Luiz, no sentido de que Chico Xavier fraudou comunicações. Isso é grave e isso é muito sério. Temos ainda comprovações de plágio de obras cientificas em sites de análise cética. E temos pareceres de cientistas destruindo as fantasiosas teorias cientificas daquele suposto autor espiritual.

Então, esse suposto espirito, realmente existiu?

Que provas temos disso? Basta a palavra de UM médium? O mesmo acusado de fraude por seu parceiro?

Surgiram lendas de que seria um médico brasileiro famoso. Até quadros já foram pintados. Mas... onde a comprovação? Se um Erasto chega para um medium e dita um compendio de gloriosos axiomas cientifico/morais e diz: sou Erasto, por que o suposto espírito mais lido do país nunca disse: sou fulano?

Vamos nos lembrar que esse mesmo suposto espirito, segundo as proprias palavras de seu suposto autor encarnado, acabava de sair do inexistente Umbral. Bem, se saiu de lá, era inferior... Afinal, embora seja possivel evoluir no plano espiritual, a reencarnação é compulsória para essa evolução. Então, um suposto espirito sai do Umbral e logo em seguida vira um sábio com milhares de seguidores encarnados?

De onde teria saido, então, S. Agostinho, S.Luiz, Erasto?

E esse mesmo suposto espirito, saido do Umbral, dita impiedosamente uma nova doutrina simulando ser Espiritismo e... as pessoas seguem??? Então, estamos a seguir imperfeitos e os superiores são deixados ao lado?

Vamos fazer outras indagações, todas sem resposta:

- Por que Francisco Xavier nunca recebeu comunicação de um espirito da codificação?

- Por que este mesmo autor jamais recebeu uma unica comunicação de Kardec?

- Por que jamais se leu a partir dele uma unica comunicação do Espirito de Verdade?

- Quais, de fato, foram as comunicações de espiritos de fato superiores recebidos por este autor?

- E por que, afinal de contas, as pessoas em geral não tentam responder a essas perguntas sem a paixão da idolatria?

Quem é André Luiz, então? Teria mesmo existido? Ou foi apenas o fruto de animismo de seu autor encarnado - acusado de fraude por seu sócio?

OBS: estamos totalmente abertos à contestação destas idéias, desde que devidamente embasadas. Afinal, são perguntas. Talvez nós mesmos desconheçamos respostas importantes. Vamos ver... Sempre tem alguém que responde. Quando não é aqui**, são as maricotas de outros lugares que não tiram os olhos daqui pelo ibope pessoal...

*Randy é moderador da comunidade "Eu sou Espírita - Espiritismo" do Orkut. ** O autor refere-se à citada comunidade do Orkut.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O porvir e o nada

Por Allan Kardec

(Fonte: O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)

1. - Vivemos, pensamos e operamos - eis o que é positivo. E que morremos, não é menos certo.

Mas, deixando a Terra, para onde vamos? Que seremos após a morte? Estaremos melhor ou pior? Existiremos ou não? Ser ou não ser, tal a alternativa. Para sempre ou para nunca mais; ou tudo ou nada: Viveremos eternamente, ou tudo se aniquilara de vez? É uma tese, essa, que se impõe.

Todo homem experimenta a necessidade de viver, de gozar, de amar e ser feliz. Dizei ao moribundo que ele viverá ainda; que a sua hora é retardada; dizei-lhe sobretudo que será mais feliz do que porventura o tenha sido, e o seu coração rejubilará.

Mas, de que serviriam essas aspirações de felicidade, se um leve sopro pudesse dissipá-las?

Haverá algo de mais desesperador do que esse pensamento da destruição absoluta? Afeições caras, inteligência, progresso, saber laboriosamente adquiridos, tudo despedaçado, tudo perdido! De nada nos serviria, portanto, qualquer esforço no sofreamento das paixões, de fadiga para nos ilustrarmos, de devotamento à causa do progresso, desde que de tudo isso nada aproveitássemos, predominando o pensamento de que amanhã mesmo, talvez, de nada nos serviria tudo isso. Se assim fora, a sorte do homem seria cem vezes pior que a do bruto, porque este vive inteiramente do presente na satisfação dos seus apetites materiais, sem aspiração para o futuro. Diz-nos uma secreta intuição, porém, que isso não é possível.

2. - Pela crença em o nada, o homem concentra todos os seus pensamentos, forçosamente, na vida presente.

Logicamente não se explicaria a preocupação de um futuro que se não espera.

Esta preocupação exclusiva do presente conduz o homem a pensar em si, de preferência a tudo: é, pois, o mais poderoso estimulo ao egoísmo, e o incrédulo é conseqüente quando chega à seguinte conclusão: Gozemos enquanto aqui estamos; gozemos o mais possível, pois que conosco tudo se acaba; gozemos depressa, porque não sabemos quanto tempo existiremos

Ainda conseqüente é esta outra conclusão, aliás mais grave para a sociedade: Gozemos apesar de tudo, gozemos de qualquer modo, cada qual por si: a felicidade neste mundo é do mais astuto.

E se o respeito humano contém a alguns seres, que freio haverá para os que nada temem?

Acreditam estes últimos que as leis humanas não atingem senão os ineptos e assim empregam todo o seu engenho no melhor meio de a elas se esquivarem.

Se há doutrina insensata e anti-social, é, seguramente, o niilismo que rompe os verdadeiros laços de solidariedade e fraternidade, em que se fundam as relações sociais.

3. - Suponhamos que, por uma circunstância qualquer, todo um povo adquire a certeza de que em oito dias, num mês, ou num ano será aniquilado; que nem um só indivíduo lhe sobreviverá, como de sua existência não sobreviverá nem um só traço: Que fará esse povo condenado, aguardando o extermínio?

Trabalhará pela causa do seu progresso, da sua instrução? Entregar-se-á ao trabalho para viver? Respeitará os direitos, os bens, a vida do seu semelhante? Submeter-se-á a qualquer lei ou autoridade por mais legitima que seja, mesmo a paterna?

Haverá para ele, nessa emergência, qualquer dever?

Certo que não. Pois bem! O que se não dá coletivamente, a doutrina do niilismo realiza todos os dias isoladamente, individualmente.

E se as conseqüências não são desastrosas tanto quanto poderiam ser, é, em primeiro lugar, porque na maioria dos incrédulos há mais jactância que verdadeira incredulidade, mais dúvida que convicção - possuindo eles mais medo do nada do que pretendem aparentar - o qualificativo de espíritos fortes lisonjeia-lhes a vaidade e o amor-próprio; em segundo lugar, porque os incrédulos absolutos se contam por ínfima minoria, e sentem a seu pesar os ascendentes da opinião contrária, mantidos por uma força material.

Torne-se, não obstante, absoluta a incredulidade da maioria, e a sociedade entrará em dissolução.

Eis ao que tende a propagação da doutrina niilista. (1)

Fossem, porém, quais fossem as suas conseqüências, uma vez que se impusesse como verdadeira, seria preciso aceitá-la, e nem sistemas contrários, nem a idéia dos males resultantes poderiam obstar-lhe a existência. Forçoso é dizer que, a despeito dos melhores esforços da religião, o cepticismo, a dúvida, a indiferença ganham terreno dia a dia.

Mas, se a religião se mostra impotente para sustar a incredulidade, é que lhe falta alguma coisa na luta. Se por outro lado a religião se condenasse à imobilidade, estaria, em dado tempo, dissolvida.

O que lhe falta neste século de positivismo, em que se procura compreender antes de crer, é, sem dúvida, a sanção de suas doutrinas por fatos positivos, assim como a concordância das mesmas com os dados positivos da Ciência. Dizendo ela ser branco o que os fatos dizem ser negro, é preciso optar entre a evidência e a fé cega.

(1) Um moço de dezoito anos, afetado de uma enfermidade do coração, foi declarado incurável. A Ciência havia dito: Pode morrer dentro de oito dias ou de dois anos, mas não irá além. Sabendo-o, o moço para logo abandonou os estudos e entregou-se a excessos de todo o gênero.

Quando se lhe ponderava o perigo de uma vida desregrada, respondia: Que me importa, se não tenho mais de dois anos de vida? De que me serviria fatigar o espírito? Gozo o pouco que me resta e quero divertir-me até ao fim. Eis a conseqüência lógica do niilismo.

Se este moço fora espírita, teria dito: A morte só destruirá o corpo, que deixarei como fato usado, mas o meu Espírito viverá. Serei na vida futura aquilo que eu próprio houver feito de mim nesta vida; do que nela puder adquirir em qualidades morais e intelectuais nada perderei, porque será outro tanto de ganho para o meu adiantamento; toda a imperfeição de que me livrar será um passo a mais para a felicidade. A minha felicidade ou infelicidade depende da utilidade ou inutilidade da presente existência. É portanto de meu interesse aproveitar o pouco tempo que me resta, e evitar tudo que possa diminuir-me as forças. Qual destas doutrinas é preferível?

4. - É nestas circunstâncias que o Espiritismo vem opor um dique à difusão da incredulidade, não somente pelo raciocínio, não somente pela perspectiva dos perigos que ela acarreta, mas pelos fatos materiais, tornando visíveis e tangíveis a alma e a vida futura.

Todos somos livres na escolha das nossas crenças; podemos crer em alguma coisa ou em nada crer, mas aqueles que procuram fazer prevalecer no espírito das massas, da juventude principalmente, a negação do futuro, apoiando-se na autoridade do seu saber e no ascendente da sua posição, semeiam na sociedade germens de perturbação e dissolução, incorrendo em grande responsabilidade.

5. - Há uma doutrina que se defende da pecha de materialista porque admite a existência de um princípio inteligente fora da matéria: é a da absorção no Todo Universal.

Segundo esta doutrina, cada indivíduo assimila ao nascer uma parcela desse princípio, que constitui sua alma, e dá-lhe vida, inteligência e sentimento.

Pela morte, esta alma volta ao foco comum e perde-se no infinito, qual gota dágua no oceano.

Incontestavelmente esta doutrina é um passo adiantado sobre o puro materialismo, visto como admite alguma coisa, quando este nada admite. As conseqüências, porém, são exatamente as mesmas.

Ser o homem imerso em o nada ou no reservatório comum, é para ele a mesma coisa; aniquilado ou perdendo a sua individualidade, é como se não existisse; as relações sociais nem por isso deixam de romper-se, e para sempre.

O que lhe é essencial é a conservação do seu eu; sem este, que lhe importa ou não subsistir?

O futuro afigura-se-lhe sempre nulo, e a vida presente é a única coisa que o interessa e preocupa.

Sob o ponto de vista das conseqüências morais, esta doutrina é, pois, tão insensata, tão desesperadora, tão subversiva como o materialismo propriamente dito.

6. - Pode-se, além disso, fazer esta objeção: todas as gotas d'água tomadas ao oceano se assemelham e possuem idênticas propriedades como partes de um mesmo todo; por que, pois, as almas tomadas ao grande oceano da inteligência universal tão pouco se assemelham? Por que o gênio e a estupidez, as mais sublimes virtudes e os vícios mais ignóbeis? Por que a bondade, a doçura, a mansuetude ao lado da maldade, da crueldade, da barbaria? Como podem ser tão diferentes entre si as partes de um mesmo todo homogêneo? Dir-se-á que é a educação que a modifica? Neste caso donde vêm as qualidades inatas, as inteligências precoces, os bons e maus instintos independentes de toda a educação e tantas vezes em desarmonia com o meio no qual se desenvolvem?

Não resta dúvida de que a educação modifica as qualidades intelectuais e morais da alma; mas aqui ocorre uma outra dificuldade: Quem dá a esta a educação para fazê-la progredir? Outras almas que por sua origem comum não devem ser mais adiantadas. Além disso, reentrando a alma no Todo Universal donde saiu, e havendo progredido durante a vida, leva-lhe um elemento mais perfeito. Dai se infere que esse Todo se encontraria, pela continuação, profundamente modificado e melhorado. Assim, como se explica saírem incessantemente desse Todo almas ignorantes e perversas?

7. - Nesta doutrina, a fonte universal de inteligência que abastece as almas humanas é independente da Divindade; não é precisamente o panteísmo.

O panteísmo propriamente dito considera o principio universal de vida e de inteligência como constituindo a Divindade. Deus é concomitantemente Espírito e matéria; todos os seres, todos os corpos da Natureza compõem a Divindade, da qual são as moléculas e os elementos constitutivos; Deus é o conjunto de todas as inteligências reunidas; cada indivíduo, sendo uma parte do todo, é Deus ele próprio; nenhum ser superior e independente rege o conjunto; o Universo é uma imensa república sem chefe, ou antes, onde cada qual é chefe com poder absoluto.

8. - A este sistema podem opor-se inumeráveis objeções, das quais são estas as principais: não se podendo conceber divindade sem infinita perfeição, pergunta-se como um todo perfeito pode ser formado de partes tão imperfeitas, tendo necessidade de progredir? Devendo cada parte ser submetida à lei do progresso, força é convir que o próprio Deus deve progredir; e se Ele progride constantemente, deveria ter sido, na origem dos tempos, muito imperfeito.

E como pôde um ser imperfeito, formado de idéias tão divergentes, conceber leis tão harmônicas, tão admiráveis de unidade, de sabedoria e previdência quais as que regem o Universo? Se todas as almas são porções da Divindade, todos concorreram para as leis da Natureza; como sucede, pois, que elas murmurem sem cessar contra essas leis que são obra sua? Uma teoria não pode ser aceita como verdadeira senão com a cláusula de satisfazer a razão e dar conta de todos os fatos que abrange; se um só fato lhe trouxer um desmentido, é que não contém a verdade absoluta.

9. - Sob o ponto de vista moral, as conseqüências são igualmente ilógicas. Em primeiro lugar é para as almas, tal como no sistema precedente, a absorção num todo e a perda da individualidade. Dado que se admita, consoante a opinião de alguns panteístas, que as almas conservem essa individualidade, Deus deixaria de ter vontade única para ser um composto de miríades de vontades divergentes.

Além disso, sendo cada alma parte integrante da Divindade, deixa de ser dominada por um poder superior; não incorre em responsabilidade por seus atos bons ou maus; soberana, não tendo interesse algum na prática do bem, ela pode praticar o mal impunemente.

10. - Demais, estes sistemas não satisfazem nem a razão nem a aspiração humanas; deles decorrem dificuldades insuperáveis, pois são impotentes para resolver todas as questões de fato que suscitam. O homem tem, pois, três alternativas: o nada, a absorção ou a individualidade da alma antes e depois da morte

É para esta última crença que a lógica nos impele irresistivelmente, crença que tem formado a base de todas as religiões desde que o mundo existe.

E se a lógica nos conduz à individualidade da alma, também nos aponta esta outra conseqüência: a sorte de cada alma deve depender das suas qualidades pessoais, pois seria irracional admitir que a alma atrasada do selvagem, como a do homem perverso, estivesse no nível da do sábio, do homem de bem. Segundo os princípios de justiça, as almas devem ter a responsabilidade dos seus atos, mas para haver essa responsabilidade, preciso é que elas sejam livres na escolha do bem e do mal; sem o livre-arbítrio há fatalidade, e com a fatalidade não coexistiria a responsabilidade.

11. - Todas as religiões admitiram igualmente o principio da felicidade ou infelicidade da alma após a morte, ou, por outra, as penas e gozos futuros, que se resumem na doutrina do céu e do inferno encontrada em toda parte.

No que elas diferem essencialmente, é quanto à natureza dessas penas e gozos, principalmente sobre as condições determinantes de umas e de outras.

Daí os pontos de fé contraditórios dando origem a cultos diferentes, e os deveres impostos por estes, consecutivamente, para honrar a Deus e alcançar por esse meio o céu, evitando o inferno.

12. - Todas as religiões houveram de ser em sua origem relativas ao grau de adiantamento moral e intelectual dos homens: estes, assaz materializados para compreenderem o mérito das coisas puramente espirituais, fizeram consistir a maior parte dos deveres religiosos no cumprimento de fórmulas exteriores.

Por muito tempo essas fórmulas lhes satisfizeram a razão; porém, mais tarde, porque se fizesse a luz em seu espírito, sentindo o vácuo dessas fórmulas, uma vez que a religião não o preenchia, abandonaram-na e tornaram-se filósofos.

13. - Se a religião, apropriada em começo aos conhecimentos limitados do homem, tivesse acompanhado sempre o movimento progressivo do espírito humano, não haveria incrédulos, porque está na própria natureza do homem a necessidade de crer, e ele crerá desde que se lhe dê o pábulo espiritual de harmonia com as suas necessidades intelectuais.

O homem quer saber donde velo e para onde vai. Mostrando-se-lhe um fim que não corresponde às suas aspirações nem à idéia que ele faz de Deus, tampouco aos dados positivos que lhe fornece a Ciência; impondo-se-lhe, ademais, para atingir o seu desiderato, condições cuja utilidade sua razão contesta, ele tudo rejeita; o materialismo e o panteísmo parecem-lhe mais racionais, porque com eles ao menos se raciocina e se discute, falsamente embora. E há razão, porque antes raciocinar em falso do que não raciocinar absolutamente.

Apresente-se-lhe, porém, um futuro condicionalmente lógico, digno em tudo da grandeza, da justiça e da infinita bondade de Deus, e ele repudiará o materialismo e o panteísmo, cujo vácuo sente em seu foro intimo, e que aceitará à falta de melhor crença.

O Espiritismo dá coisa melhor; eis por que é acolhido pressurosamente por todos os atormentados da dúvida, os que não encontram nem nas crenças nem nas filosofias vulgares o que procuram. O Espiritismo tem por si a lógica do raciocínio e a sanção dos fatos, e é por isso que inutilmente o têm combatido.

14. - Instintivamente tem o homem a crença no futuro, mas não possuindo até agora nenhuma base certa para defini-lo, a sua imaginação fantasiou os sistemas que originaram a diversidade de crenças. A Doutrina Espírita sobre o futuro - não sendo uma obra de imaginação mais ou menos arquitetada engenhosamente, porém o resultado da observação de fatos materiais que se desdobram hoje à nossa vista -congraçará, como já está acontecendo, as opiniões divergentes ou flutuantes e trará gradualmente, pela força das coisas, a unidade de crenças sobre esse ponto, não já baseada em simples hipótese, mas na certeza. A unificação feita relativamente à sorte futura das almas será o primeiro ponto de contacto dos diversos cultos, um passo imenso para a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para a completa fusão.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Como se forma um magnetizador?

Por Randy*

Frequentemente temos dito que não existe o "passe espirita" e somos muito especificos quando dizemos isso.

A codificação não prevê esse tipo de coisa que se vê por aí: gente dançando, estalando dedos, "alisando" o ar e etc. E se criaram diversas teorias para esse tipo de coisa, deram nomes aos passes, deram direções, mas tudo baseado em...

Não sabemos no que se baseia esse tipo de coisa.

A codificação fala em cura mediunica e magnetização. Não vamos falar em cura mediunica, posto que esta é rara. Mas, sobre a magnetização... O que é isso? Seriam os "passistas" magnetizadores? Aliás, qualquer um pode ser um magnetizador?

Vemos nos CE´s que qualquer um pode ser "passista". Mas, em alguns há até "curso de passes", baseados em Jacob de Mello e em Edgar Armond. Isso suplantaria o que seria necessário para tornar alguém um magnetizador?

Não vemos como isso seria possível. O magnetizador, no conceito clássico, também é o hipnotizador. E foi sobre o conceito clássico que Kardec trabalhou, já que ele conheceu Mesmer (o "codificador" da magnetização). Além disso, o problema é que não existem manuais confiáveis de como perceber a capacidade magnetizadora e tampouco como desenvolvê-la.

A maior parte do material sobre o assunto não fala sobre esta questão e sim sobre a confusão que reside com o "passe".

A nossa questão sobre o passe espírita, suposto que seja, mas inexistente enquanto conceito, está no:

- conceito

- método

- treinamento

O conceito é o clássico. O método...

O método, segundo a codificação é unicamente a imposição de mãos.

O treinamento... Bem, para começar, a magnetização só surte efeitos positivos quando realizada por pessoas que possuem elevada moral, posto que a qualidade do magnetismo diz respeito a essa qualidade.

Portanto, NÃO, nem todo mundo pode ser magnetizador espirita e NÃO, o povo que anda por aí dando passes que não conheça os mecanismos de magnetização e elevada moral não poderiam estar aplicando os tais "passes".

Então, o passe, por conta disso, não existe, não é eficaz e não atua sobre sólida estrutura cientifica.

Mas, permanece a pergunta: como se forma um magnetizador espirita?

Vamos à codificaçao para verificar algumas coisas:

32. São extremamente variados os efeitos da ação fluídica sobre os doentes, de acordo com as circunstâncias. Algumas vezes é lenta e reclama tratamento prolongado, como no magnetismo ordinário; doutras vezes é rápida, como uma corrente elétrica. Há pessoas dotadas de tal poder, que operam curas instantâneas nalguns doentes, por meio apenas da imposição das mãos, ou, até, exclusivamente por ato da vontade. Entre os dois pólos extremos dessa faculdade, há infinitos matizes. Todas as curas desse gênero são variedades do magnetismo e só diferem pela intensidade e pela rapidez da ação. O princípio é sempre o mesmo: o fluido, a desempenhar o papel de agente terapêutico e cujo efeito se acha subordinado à sua qualidade e a circunstâncias especiais.

Observem os destaques. A magnetização pode ser feita sem a imposição de mãos. Nesse caso, por que todos os passistas que conhecemos bailam com suas mãos? Resposta - porque não são magnetizadores - apenas repetem o que lhe foi repassado sem o devido estudo, SELEÇÃO MORAL e treinamento DE MAGNETIZAÇÃO.

Notem ainda que se fala em "fluidos subordinados à qualidade". Então, não há mais uma vez, como imaginar que qualquer um poderia ser um magnetizados (ou passista, como dizem os equivocados).

E finalmente, diz-se de "circunstancias especiais". Mas... oras... Nos CE´s sempre há filas de pessoas que se obrigam a tomar passes e dezenas de "mediuns" misteriosamente escolhidos que aplicam os tais passes indiscriminadamente. Então, onde estão as circunstancias especiais de que fala a codificação?

Vamos ainda a outros conceitos...

33. A ação magnética pode produzir-se de muitas maneiras:

1º pelo próprio fluido do magnetizador; é o magnetismo propriamente dito, ou magnetismo humano, cuja ação se acha adstrita à força e, sobretudo, à qualidade do fluido;

2º pelo fluido dos Espíritos, atuando diretamente e sem intermediário sobre um encarnado, seja para o curar ou acalmar um sofrimento, seja para provocar o sono sonambúlico espontâneo, seja para exercer sobre o indivíduo uma influência física ou moral qualquer. É o magnetismo espiritual, cuja qualidade está na razão direta das qualidades do Espírito;

3º pelos fluidos que os Espíritos derramam sobre o magnetizador, que serve de veículo para esse derramamento. É o magnetismo misto, semi-espiritual, ou, se o preferirem, humano-espiritual. Combinado com o fluido humano, o fluido espiritual lhe imprime qualidades de que ele carece. Em tais circunstâncias, o concurso dos Espíritos é amiúde espontâneo, porém, as mais das vezes, provocado por um apelo do magnetizador.

Nota-se a questão da "qualidade" sendo insistentemente colocada. Quando não se fala da qualidade de um magnetizador, fala-se da qualidade do espirito. Mas... a qualidade do espirito que se utiliza de um medium também se liga por afinidade MORAL ao medium, salvo, como diz o Livro dos Mediuns, em "casos especiais". Casos especiais não podem ser frequentes, ou não seriam especiais.

Vamos prosseguir:

34. É muito comum a faculdade de curar pela influência fluídica e pode desenvolver-se por meio do exercício; mas, a de curar instantaneamente, pela imposição das mãos, essa é mais rara e o seu grau máximo se deve considerar excepcional. No entanto, em épocas diversas e no seio de quase todos os povos, surgiram indivíduos que a possuíam em grau eminente. Nestes últimos tempos, apareceram muitos exemplos notáveis, cuja autenticidade não sofre contestação. Uma vez que as curas desse gênero assentam num princípio natural e que o poder de operá-las não constitui privilégio, o que se segue é que elas não se operam fora da Natureza e que só são miraculosas na aparência.

Vejam... diversas pessoas entram numa "câmara de passe" com dores aqui, ali e dizem sairem dali curadas. Mas, é evidente que dores de cabeça ou musculares ou em outras partes do corpo não constituem cura, mas amenização de efeitos. E nesse ponto, como diz o trecho acima sobre a excepcionalidade, até onde vai a autenticidade, tanto do passista, quanto do suposto doente?

Porém, o mais importante aqui é o trecho que inspirou este tópico: a faculdade magnétizadora pode se desenvolver por meio do exercicio.

Mas... nao se fala que tipo de exercicio seria esse.

Já captamos que o magnetizador precisa ter moral elevada. Já captamos que nem todos são magnetizadores natos. Mas, não elaboramos como, se fato, de exercita um magnetizador.

Eis a raiz da questão. A magnetização surgiu como ciência e veio ainda conjugada com a hipnose. Quase sempre o magnetizador é um hipnotizador. Sendo assim, não há como dizer que os passistas sejam magnetizadores, nem que o que eles aplicam - o passe - seja magnetização. O passe - essa coisa que se faz por aí - não existe. É um placebo realizado por uma maioria de pessoas que desconhecem conceitos e treinamento.

No entanto, permanece a questão de cunho cientifico para nós:

- Como descobrir e treinar um magnetizador?

* Moderador da comunidade Eu Sou Espírita - Espiritismo do Orkut

domingo, 17 de abril de 2011

Reencarnação no Contexto Histórico

Por Paulo da Silva Neto Sobrinho

“Pois não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não existe nada de oculto que não venha a ser conhecido”. (JESUS, Mt 10,26).

A cada dia que desenvolvemos nossos estudos sobre o tema reencarnação estamos vendo que, infelizmente, muitas coisas foram expurgadas das Sagradas Escrituras, a verdade pouco lhes importa, com o objetivo de justificar a manutenção de dogmas religiosos. Dogmas esses que ainda servem aos interesses das lideranças religiosas, que buscam de todas as formas fazer com que seus fiéis permaneçam na ignorância e assim sigam acreditando nessa teologia “Adão e Eva”.

Assim, é que já em Êxodo 20, 5, mudaram a preposição, que fatalmente nos levaria à conclusão da existência da reencarnação, quando trocam o “na” por “até”, vejamos:

“... porque eu, Iahweh teu Deus, sou um Deus ciumento, que puno a iniqüidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam”.

Só que, com essa mudança, o texto entra em conflito com outra passagem bíblica:

“Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos em lugar dos pais. Cada um será executado por seu próprio crime”. (Dt 24, 16) [ [1] ].

Entretanto, se colocarmos a preposição “na” em lugar da usada no texto, ficaremos perfeitamente coerentes com essa passagem anterior e a justiça divina não puniria um inocente, mas o próprio espírito culpado que nasceria como neto ou bisneto dele mesmo, ou seja, o próprio criminoso reencarnado como um de seus descendentes.

Sempre lemos, de outros autores, que a idéia da reencarnação existia no cristianismo primitivo e existe no judaísmo, como por exemplo, Dr. Severino Celestino da Silva, em Analisando as Traduções Bíblicas, H. Spencer Lewis, F.R.C, Ph.D., no livro A Vida Mística de Jesus e o teólogo alemão Holger Kersten, autor de Jesus Viveu na Índia, do qual transcrevemos:

“Até agora, quase todos os historiadores da Igreja acreditaram que a doutrina da reencarnação foi declarada herética durante o Concílio de Constantinopla em 553. No entanto, a condenação da doutrina se deve a uma ferrenha oposição pessoal do imperador Justiniano, que nunca esteve ligado aos protocolos do Concílio. Segundo Procópio, a ambiciosa esposa de Justiniano, que, na realidade, era quem manejava o poder, era filha de um guardador de ursos do anfiteatro de Bizâncio. Ela iniciou sua rápida ascensão ao poder como cortesã. Para se libertar de um passado que a envergonhava, ordenou, mais tarde, a morte de quinhentas antigas ‘colegas’ e, para não sofrer as conseqüências dessa ordem cruel em uma outra vida como preconizava a lei do Carma, empenhou-se em abolir toda a magnífica doutrina da reencarnação. Estava confiante no sucesso dessa anulação, decretada por ‘ordem divina’”.

“Em 543 d.C. o imperador Justiniano, sem levar em conta o ponto de vista papal, declarou guerra frontal aos ensinamentos de Orígenes, condenando-os através de um sínodo especial. Em suas Obras De Principiis e Contra Celsum, Orígenes (185-235 d.C), o grande Padre da Igreja, tinha reconhecido, abertamente, a existência da alma antes do nascimento e sua dependência de ações passadas. Ele pensava que certas passagens do Novo Testamento poderiam ser explicadas somente à luz da reencarnação”.

“Do Concílio convocado pelo imperador Justiniano só participaram bispos do Oriente (ortodoxos). Nenhum de Roma. E o próprio Papa, que estava em Constantinopla naquela ocasião, deixou isso bem claro”.

“O Concílio de Constantinopla, o quinto dos Concílios, não passou de um encontro, mais ou menos em caráter privado, organizado por Justiniano, que, mancomunado com alguns vassalos, excomungou e maldisse a doutrina da pré-existência da alma, apesar dos protestos do Papa Virgílio, com a publicação de seus Anathemata.

“A conclusão oficial a que o Concílio chegou após uma discussão de quatro semanas teve que ser submetida ao Papa para ratificação. Na verdade, os documentos que lhe foram apresentados (os assim-chamados ‘Três Capítulos’) versavam apenas sobre a disputa a respeito dos três eruditos que Justiniano, há quatro anos, havia por um edito declarado heréticos. Nada continham sobre Orígenes. Os Papas seguintes, Pelágio I (556-561), Pelágio II (579-590) e Gregório (590-604), quando se referiram ao quinto Concílio, nunca tocaram no nome de Orígenes”.

“A Igreja aceitou o edito de Justiniano – ‘Todo aquele que ensinar esta fantástica pré-existência da alma e sua monstruosa renovação será condenado’ – como parte das conclusões do Concílio. Portanto, a proibição da doutrina da reencarnação não passa de um erro histórico, sem qualquer validade eclesiástica”. (pág. 240-241).

E especificamente quanto ao judaismo podemos comprovar pelo historiador judeu Flavius Josephus, citado por Dr. Hernani de Guimarães Andrade, no livro Você e a Reencarnação, à página 28. Dr. Hernani em referência a WHISTON (The Works of Flavius Josephus, trad. Willian Whiston, M.A., London: War, Loc & Co. Limited.), diz-nos:

Flavius Josephus (37 a 95 a.D.), intelectual e historiador judeu, em sua famosa obra De Bello Judaico, faz a seguinte advertência aos soldados judeus que preferiam desertar, suicidando-se:

"Não vos recordais de que todos os espíritos puros que se encontram em conformidade com a vontade divina vivem no mais humildes dos lugares celestiais, e que no decorrer do tempo eles serão novamente enviados de volta para habitar corpos inocentes? Mas que as almas daqueles que cometeram suicídio serão atiradas às regiões trevosas do mundo inferior?" (Josephus, 1910).

Entretanto, até nessa clássica obra desse autor da antiguidade modificaram o texto para, obviamente, fugir da idéia da reencarnação, conforme podemos comprovar pela tradução de Vicente Pedroso, publicada no livro História dos Hebreus, (CPAD, 7ª ed., 2003), que diz o seguinte (pág. 600):

Não sabeis que Ele difunde suas bênçãos sobre a posteridade daqueles, que depois de ter chamado para junto de si, entregam em suas mãos, a vida, que, segundo as leis da natureza, Ele lhes deu e que suas almas voam puras para o céu, para lá viverem felizes e voltar, no correr dos séculos, animar corpos que sejam puros como elas (*) e que ao invés, as almas dos ímpios, que por uma loucura criminosa dão a morte a si mesmos são precipitados nas trevas do inferno.

(*) Parece, segundo estas palavras, que Josefo acreditava na metempsicose.

Observar que apesar dos textos serem bem semelhantes, mudaram todo o sentido do original para fugir da idéia da reencarnação. Dúvida que envolveu até o próprio editor: “Parece, segundo estas palavras, que Josefo acreditava na metempsicose”, querendo dissimular o pensamento sobre a reencarnação.

Mas se esqueceu de modificar o que disse Josephus, quando fala no que acreditavam os fariseus:

“Eles julgam que as almas são imortais, que são julgadas em um outro mundo e recompensadas ou castigadas segundo foram neste, viciosas ou virtuosas; que umas são eternamente retidas prisioneiras nessa outra vida e que outras voltam a esta”. (op. cit., pág. 416).

Entretanto, o mesmo não aconteceu com a tradução do livro Atos dos Apóstolos 23, 8, onde se diz que os fariseus sustentam “a ressurreição”, quando, na verdade, deveria ser “a reencarnação”, conforme nos informa o historiador judeu.

Podemos ainda acrescentar as informações contidas no livro As Rodas da Alma, onde o Rabino Philip S. Berg desenvolvendo o tema dentro da ótica cabalista, diz a certa altura (pág. 29):

“Entre todos os que aceitam a doutrina da reencarnação, talvez os cabalistas sejam os únicos que acreditam que uma alma pode retornar num nível inferior daquele que deixou em uma vida anterior. Efetivamente, se o peso do tikun (correção) for suficientemente pesado, uma alma humana poderá se encontrar reencarnada no corpo de um animal, de uma planta ou até mesmo de uma pedra”.

“A Cabala é o significado mais profundo e oculto da Torá, ou Bíblia”, diz Berg, o que confirma que é um conhecimento do judaísmo místico, segundo suas próprias palavras.

Trazemos também a opinião de Sérgio F. Aleixo, escritor e estudioso da Bíblia, que em seu livro Reencarnação – Lei da Bíblia, Lei do Evangelho, Lei de Deus, diz o seguinte (pág. 21):

“Neste trabalho, queremos demonstrar que a cultura judaico-cristã tem precedentes reencarnacionistas incontestáveis, a despeito de as políticas igrejeiras, sustentadas pelos mais absurdos teologismos, se obstinarem ainda em negá-los”.

É comum a certas pessoas advogarem que devemos, para interpretar a Bíblia, levar em conta o contexto histórico, mas quando o fato é reencarnação não seguem a sua própria recomendação. Os fatos históricos estão aí relatados, e não há como mudá-los. Resta então aos fanáticos a humildade de mudarem de posicionamento em relação ao assunto. Embora sinceramente achamos isso muito difícil, pois são completamente cegos, cuja única verdade que aceitam é a que lhes ensinaram, pouco importa se corresponde à realidade ou não. Todos os que pensam diferente deles são “heréticos” que precisam ser combatidos.

Aos que ainda nos dias de hoje perseguem os Espíritas por causa desse princípio doutrinário do Espiritismo, recomendamos que leiam mais, mas saiam da literatura de autores “recomendados” e busquem a verdade em outras obras, principalmente de outros autores, estudiosos e pesquisadores da reencarnação, que não os de sua corrente religiosa. Somente os que temem a verdade é que proíbem a leitura de obras fora do “nihil obstat” de sua liderança religiosa.

Referências Bibliográficas:

ALEIXO, S.F. Reencarnação – Lei da Bíblia, Lei do Evangelho, Lei de Deus, Niterói, Lachâtre, 2003.

ANDRADE, H.G. Você e a Reencarnação, Bauru, CEAC, 2002.

BERG, P. S. As Rodas da Alma, São Paulo, Centro de Estudos da Cabala, 1998.

CHAVES, J. R. A Reencarnação Segundo a Bíblia e a Ciência, São Paulo, 2002.

DIVERSOS. Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Paulus, 2002.

KERSTEN, H. Jesus Viveu na Índia. São Paulo, Best Seller, 1988.

LEWIS, H.S. A Vida Mística de Jesus, Curitiba, AMORC, 2001.

SILVA, S. C. Analisando as Traduções Bíblicas. João Pessoa; Idéia, 2001.


[1] Ver tb: Ex 34, 7; Nm 14, 18; Jr 31, 29-30 e Ez 18, 2-4, 20.

domingo, 10 de abril de 2011

Los Criptógamos Carnudos de J.B. Roustaing

Por José Herculano Pires

Para ler a versão em português, clique aqui.

Esa es la revelación de la revelación. Roustaing copia y desfigura a Kardec acrecentando a sus enseñanzas los mayores absurdos. Tómese en cuenta que esas criaturas extrañas, en forma de larvas y babosas, son encarnaciones de espíritus humanos que habían tenido alta evolución sin pasar por la encarnación humana. Después de desenvolver la razón en alto grado y de haber colaborado con dios en los procesos de la Creación, llegando a un mismo a orientar a criaturas humanas, vuelven a la condición de criptógamos carnudos.

¿Más por que hablan los reveladores en sustancias humanas? ¿Por qué no simplifican las cosas diciendo simplemente que esos espíritus decaídos van a encarnarse en babosas? ¿Por qué es preciso engañar a los espiritistas que aceptan a Kardec y que saben que la evolución espiritual es irreversible, que el espíritu humanizado no puede retrogradar al plano animal? Es el mismo proceso de sofisma, de hacer trampa, usado en la cuestión del aparente cuerpo de Jesús, cuando hablan de encarnación fluídica para escapar al anatema de Juan contra los que dicen que Cristo no vino de carne. Las sustancias humanas de los criptógamos carnudos son una invención absurda y tonta. ¡ Y tanta gente para defender esas bobadas dentro del espiritismo!

¡Más que son los criptógamos carnudos? ¿Por qué ese nombre tan extraño? Todo tiene su razón en la máquina infernal del ilogismo roustanguista, aunque sea siempre a anti razón la que entra en escena. Apreciemos el asunto a la luz de la razón para intentar esclarecerlo.

La palabra criptógamo es empleada científicamente para designar plantas cuyos órganos reproductores no aparecen, están ocultos. El origen del término es griego: kryptos, que quiere decir oculto, y gamos, que quiere decir casamiento, unión. Así, criptógamos es un ejemplar de especie vegetal que tiene sus órganos reproductores escondidos. Los “reveladores” roustanguista acrecentaron la palabra carnudo para adaptar la designación al reino animal. Así, criptógamo carnudo seria una especie de animal (más no animal porque formado de substancias humanas) en que se encarnan espíritus humanos que retrogradaron al plano vegetal y animal.

Atención para esto: cuando decimos que ellos retrogradaron al plano vegetal y animal no estamos forzando la interpretación. Científicamente los animales semejantes a las plantas están localizados en la línea divisoria de los reinos vegetal y animal, son desenvolvimiento de plantas. Si existiesen esos criptógamos carnudos la Ciencia los catalogaría como formar de pasaje de los criptógamos vegetales para el reino animal.

Tenemos así la teoría de la Metempsicosis, tan seguramente refutada por la lógica de Kardec, devuelta al medio espirita por ilogismo roustanguista. Bastaría ese triste episodio, tomado del caldero diabólico de los absurdos de “Los Cuatro Evangelios” para probarnos, sin la menor sombra de duda, que esa obra es de autoría de las tinieblas y que su finalidad es confundir a los espiritistas poco habituados a pasar las cosas por la criba de la razón.

Más que esto, sin embargo, el objetivo evidente es el de la ridicularizar el Espiritismo para apartar a las personas de buen sentido.

(O Verbo e a Carne, Júlio Abreu Filho e J. Herculano Pires, edições Cairbar, SP, 1ª ed., 1973, págs. 43/45)

Retirado do livro "Conscientização Espírita", de Gélio Lacerda da Silva.

Traducido por M. C. R.

Las Advertencias de Kardec a Roustaing Y La Profecía de Erasto

Por Sergio Aleixo

Para ler a versão em português, clique aqui.

En la Revista Espirita de junio de 1863 hay un articulo kardeciano sobre la no retrogradación de los Espíritus. Este texto fue citado por el abogado de Bordéus y sometido al examen de los autores espirituales de Los Cuatro Evangelios en el número 59 de la obra. Los guías de la pretendida Revelación de la Revelación concluyeron que los que piensan que la encarnación es una necesidad general “no fueron esclarecidos, o no reflexionaron bastante”.

Kardec dice en su artículo de junio de 1863 que la idea rustenista de que “los Espíritus no habían sido creados para encarnar”, que “la encarnación seria solamente el resultado de su falta”, constituye un sistema “especioso a primera vista” y que, “tal sistema cae por la mera consideración de que, si ningún Espíritu hubiese fallado, no habría hombres en la Tierra, ni en los otros mundos”.

Según el Codificador, el hombre “es una de los engranajes esenciales de la creación” y, por esta razón “Dios no podía subordinar la realización de esta parte de su obra a la caída eventual de sus criaturas, a menos que contase por tanto con un número siempre suficiente de culpados para ofrecer operarios a los mundos creados y por crear”. Para Kardec “El buen sentido repele tal idea”.

Más a esto respondieron los guías de Roustaing: “La última frase debe ser riscada”. Y aun admitiendo que era “pronto” para resolver el “origen del Espíritu” - en relación a lo que, de hecho, ya recomendara Kardec de máxima cautela [1]-, los guías rustenistas exhortaron la vanidad de los más sensibles y del propio jurisconsulto de esta manera:

Serbios de lo que os decimos [sobre el origen de las cosas], porque, al mismo tiempo en que vuestro trabajo aparece a los ojos de todos, los Espíritus encarnados ya se hallaran más dispuestos para recibir lo que entonces [cuando, en el Libro de los Espíritus, fue dicho que el Espíritu era creado simple e ignorante], y aun mismo hoy [abril de 1863], tomarían por una monstruosidad, o por una tontería ridícula.[2]

Kardec reafirmo en su artículo de junio de 1863 la doctrina de El Libro de los Espíritus y negó la tesis rustenista que asegura que la reencarnación es ocasionada como castigo a los Espíritus faltosos. Esto prueba irrefutablemente que no es verdadera la propaganda centenaria de la F.E.B., la cual siempre dio cuenta de que Kardec y Roustaing solo divergían en cuanto a la naturaleza del cuerpo de Jesús, concordando en todo lo demás.

El Codificador dijo en alta voz que el estado primitivo del Espíritu no es el de “inocencia inteligente y raciocinada”. Estos términos utilizados por el maestro lionés en junio de 1863 resumen con precisión las tesis “especiales” de la revelación de la Revelación, que, sin embargo, solamente seria publicada tres años después. Si no, veamos:

Alcanzando el punto de preparación para entrar en el reino humano, los Espíritus se preparan, de hecho, en mundo ad-hoc, para la vida espiritual consciente, independiente y libre. Es en ese momento en el que entran en aquel estado de inocencia y de ignorancia. La voluntad del soberano Señor les da la conciencia de su inocencia y facultades y, por consiguiente, de sus actos, conciencia que produce el libre albedrio, la vida moral, la inteligencia independiente y capaz de raciocinio, la responsabilidad. Llegando de este modo a la condición de Espíritu formado, de Espíritu pronto para ser humanizado si fuera a fallar, el Espíritu en un estado de inocencia completa, habiendo abandonado, con sus últimas envolturas animales, los instintos oriundos de las exigencias de la animalidad. […] Los que se conservan puros también desenvuelven actividades e inteligencia, con el fin de progresar, en el estado fluídico, por medio de esfuerzos espirituales que necesitan hacer para, de la fase de inocencia y de ignorancia, de infancia y de instrucción, llegar, sin haber fallado, a la perfección![3]

Esta flagrante coincidencia de palabras y la citación, en el numero 59 de Los Cuatro Evangelios, de la absoluta negativa de Kardec a la tesis de la “caída” evidencia que, de alguna suerte, ya en 1863, el Codificador había tomado ciencia del material que estaba siendo compilado por Roustaing desde diciembre de 1861. Ponderaba el nostálgico colega Gelio Lacerda de la Silva, ex presidente de la Federación Espirita del Estado del Espíritu santo:

Para entender como Kardec contesto, en 1863, un asunto que Roustaing vinculo en su libro, publicado en 1866, todo lleva a creer que Roustaing, antes de su libro llegar al público, ya divulgaba su contenido. Fue en abril de 1863 cuando los Espíritus mistificadores dictaron a Roustaing, a través de Mme. Collignon, la enseñanza anti doctrinaria de que el Espíritu solo será humanizado si fallara, conforme la nota en la página. 295, 1. º Volumen, 5ª ed. De Los Cuatro Evangelios; por tanto, no hay duda de que Kardec, en junio de 1863, en su referido artículo, se alabó a Roustaing en el mensaje dictado en abril de 1863. [4]

Y agregó a esto un hecho relevante. El Codificador, cierta vez, publicó una carta de la médium Emilie Collignon encaminando para sí dictados espirituales. Aseguraba la sensitiva que uno de esos comunicados era de un espíritu que, antes, se presentara a Kardec en substitución al de Gerard de Codemberg. Rebatidos los argumentos de la médium, el genio lionés le dijo que el texto “presenta todas los caracteres de una comunicación apócrifa.” [5]

Luego Kardec publica mensaje del Espíritu Bernardin a la misma sensitiva, en la que proclama en el "pensamiento filosófico", "lleno de sabiduría", el supuesto hecho de que “somos una esencia creada pura, más decaída; pertenecemos a una patria donde todo es pureza; culpables, fuimos exiliados por algún tiempo, más solo por algún tiempo”. ¡Ya era la doctrina rustenista de la caída del espíritu!

En clara reparación, el maestro recomienda, entre paréntesis, la lectura de su aclamado articulo de enero de 1862, sobre la doctrina de los ángeles decaídos, como también, en su observación final, advierte del peligro de, en ciertas comunicaciones, espíritus no muy elevados emitir opiniones personales, que reflejan apenas sistemas e ideas no siempre justas acerca de los hombres y de las cosas. Según Kardec:

Publicadas sin corrección, esas ideas falsas apenas lanzaran descredito sobre el espiritismo, ofrecerán armas a sus enemigos y sembraran la duda y la inseguridad entre los neófitos. Con los comentarios y las explicaciones dados a propósito, el propio mal algunas veces se torna instructivo. Sin esto podrían responsabilizar a la doctrina por todas las utopías enunciadas por ciertos Espíritus más orgullosos que lógicos. Si el Espiritismo pudiese ser retardado en su marcha, no sería por los ataques abiertos de sus enemigos declarados, más si por el celo irreflexivo de los amigos imprudentes. No se trata, pues, de hacer compilaciones indigestas, donde todo se halla amontonado confusamente y cuyo menor inconveniente seria molestar al lector; es preciso evitar con cuidado todo cuanto pueda falsear la opinión sobre el Espiritismo. Ahora, todo esto exige un trabajo que justifica la demora de tales publicaciones. [6]

La situación no era del todo buena para la médium, que ya estaba recibiendo la pretendida Revelación de la Revelación desde diciembre de 1861, y que se extendería hasta mayo de 1865,[7] y en clima, ahora, quien sabe, de probable melindre, en función de estos pareceres desfavorables de Kardec. Anote el estudioso que el maestro lionés habla, en su observación, sobre “Espíritus más orgullosos que lógicos”, “celo irreflexivo de los amigos imprudentes” y “compilaciones indigestas, donde todo se haya amontonado confusamente y cuyo menos inconveniente seria molestar al lector”. ¡No resta duda! El material rustenista fue enviado a Kardec ya en 1862, más el maestro luego percibió las inconsistencias y peligros.

Roustaing, por tanto, puede contar con la previa advertencia del Codificador, que se digno hasta preservarlo del ridículo, dada su distinción social, no mencionándole el nombre a aquel artículo de junio de 1863, sobre la no retrogradación de los Espíritus. Elegante, más firme, Kardec definió la tesis rustenista de la caída como “un sistema que tiene algo de engañoso a primera vista”, argumentando de la forma que ya destaque en el inicio.

El abogado bordelés, por tanto, debería haber acatado el entendimiento de su “muy honrado jefe Espírita”. Fue dada a Roustaing la oportunidad de desistir de aquel trabajo, todavía no lo interrumpió; de cierto, por el orgullo herido. Un ex presidente de la Orden de los Abogados, miembro del tribunal Imperial de Bordéus, al ser “desacatado” por un profesor lionés radicado en Paris. No, esto no podía ser, aun mismo que se tratase de un aclamado autor pedagógico.

La médium Collignon y el abogado Roustaing. Ambos en situación de evidente amargura por no haber obtenido de Kardec el respaldo que ambicionaban para sus trabajos mediúmnicos. Combinación explosiva que generó el primer cisma en el movimiento espirita, cuyos ecos, infelizmente, se pueden oír aun.

No obstante estas advertencias de Kardec, Espíritus orientadores habían expedido alertas al respecto de un ataque de entidades mistificadoras en la ciudad de Bordéus. Durante la sesión general allá ocurrida el 14 de octubre de 1861, Kardec leyó, después de su discurso, una epístola de Erasto a los espiritas de aquella localidad. [8]

En voz un tanto más severa, el amigo espiritual de la codificación Kardeciana aseguró ser necesario prevenir a los espiritas bordeleses contra un peligro que era su deber señalarles. Erasto los avisó, entonces, del inminente asalto de una turba de Espíritus engañadores, cuya finalidad seria fomentar la cesión, la división, y llevar a una ruptura lamentable por todos los títulos. Repitiendo lo que los propios guías espirituales del movimiento en Bordéus dijeron a los espiritas de aquella ciudad. Erasto esclareció que habría dos tipos de mistificadores en el ataque. Un tipo vendría con combinaciones abiertamente hostiles a las enseñanzas de los legítimos misioneros del Espíritu de Verdad, este, el presidente de la regeneración planetaria y guía personal del Kardec y del espiritismo. Otro tipo de mistificadores, sin embargo, se presentaría con disertaciones sabiamente combinadas, en las cuales, gracias tiradas piadosas, insinuarían la herejía o algún principio disolvente.

¿Roustaing tomo conocimiento de la epístola por terceros? ¿O, como adeptos suyos afirman hoy sin pruebas, estuvo presente en la sesión general? De cualquier forma, no fue por falta de esta advertencia que cometió el error de publicar su pretendida Revelación de la Revelación, cuyos dictados comenzarían a aparecer ya en diciembre de aquel año, dos meses después de la sesión general, insinuando exactamente la herejía gnóstica docetista de Jesús fluídico y el principio disolvente de la reencarnación como resultado de una supuesta caída, especie de falencia, verdadera retrogradación que, según los guías rustenistas, sería aplicable hasta Espíritus con responsabilidades planetarias. [9]

Todo se dio tal cual la predicación. Fue un vaticinio de Erasto; en esta ocasión, mensajero del espíritu de Verdad; este último, por otra parte, algunos espíritus vinculados a la Iglesia primitiva habían identificado como Jesús, al señor Roustaing y el Sr. Sabo, a quien Kardec recomendó lo primero, para que se iniciase en el Espiritismo. Al lado del mal, se ve que Dios puso el remedio, más no fue utilizado. [10]

La nomenclatura creada por Kardec – la palabra Espiritismo, inclusive – estaba en toda la supuesta Revelación de la revelación, aun mismo en el titulo: “Espiritismo Cristiano”. Como si nunca fuera dicho por Kardec: “El punto esencial es que la enseñanza de los Espíritus es eminentemente cristiano: el se apoya en la inmortalidad del alma, en las penas y recompensas futuras, en el libre albedrio del hombre, en la moral de Cristo, y por tanto no es irreligioso”. [11]

El hecho es que Roustaing, infelizmente, se apoderó del nombre y de los términos de una doctrina cuya codificación nunca le cabio. Más allá de esto, ni el ni sus discípulos jamás demostraron en que, al final de cuentas, la tesis basilar de su “escuela” se distingue de la antigua tesis de los agnósticos docetista. En el decir autorizado de E. Pagels, la antigua secta postulaba que “Jesús no era un ser humano, y si un ser espiritual que se adapto a la percepción humana”, [12] o sea, conforme en el Espiritismo se dice: un agênere.

No se trata, claro, del agênere desenvolver la percepción física, mas, esto si, de adaptarse a la percepción humana, esto es, de terceros, a fin de que lo puedan notar, aun mismo desencarnado; tanto es asi, que los rustenistas pregonaban que Jesús no tenía “cuerpo material humano, sujeto a la muerte”, que “no podía sufrir, según nuestro modo de entender material” y que – asómbrense – “no murió efectivamente en el Gólgota”. [13] ¡Hora! Dice el espiritismo muy contundentemente:

[…] el Espíritu que no tiene cuerpo material no puede experimentar los sufrimientos que son el resultado de la alteración de la materia, de donde también es forzoso concluir que, si Jesús sufrió materialmente, lo que no se puede dudar, es porque tenía un cuerpo material de naturaleza semejante a la de los cuerpos de toda la gente. 14]

Se aladea eso el flagrante de que, para el rustenismo, en la práctica, la carne humana es un efecto “del mal”; apenas asumen a los Espíritus que son punidos por las faltas cometidas en “estado fluídico”. Y el docetismo, según Pastorino, entendía exactamente esto: “[…] todo lo que es material es imperfecto e impuro, pues es obra del Principio del Mal; como Jesús presentaba el Principio del Bien, el Padre, no podía haberse sometido al Principio del Mal, no podía haber tenido cuerpo físico carnal”. [15]

De hecho, en este texto de Los Cuatro Evangelio, de entre otros, se puede constatar el horror de los guías docetista al cuerpo humano, vinculándolo a “lama”, al “sufrimiento”, a la “falibilidad”, tornándolo efecto inherente a la condición de “culpable” :

Mayor aun era la diferencia entre ese cuerpo de Jesús vuestros cuerpos de lama. […] no lo olvidéis: todo aquel que reviste la carne y sufre, como vosotros, la encarnación material humana es falible. Jesús era demasiadamente puro para vestir la librea del culpado. Su naturaleza espiritual era incompatible con la encarnación material, tal como la sufrís. (Vol. 1, n. 14.)

Posible seria concluir entonces, con los guías rustenistas, que Jesús no cometió imperfecciones morales cuando estuvo en la Tierra no solo porque nunca las practicara en los planos del espíritu, más también porque no estaba revestido de carne humana. La instrucción 625 de El Libro de los Espíritus caducaría.

¿Si, pues qué valor poseería para nosotros el guía y el modelo de una perfección que le fue conferida por proceso evolutivo diferente de la que nos encontramos? Sería un guía errado, un modelo errado para una humanidad errada, porque nada sabría de nuestra vida terrestre, con la cual su pureza siempre habría sido incompatible.

Y más: Jesús habría mentido cuando dijo a Nicodemo: “Hablo de lo que se; doy testimonio de lo que vi”, porque nada conocería ni nada habría visto acerca de nuestra experiencia humana. El rustenismo, por estas y otras, es un insulto a la autoridad moral y espiritual del Maestro de Nazaret, a pesar de suponer exaltarla.

[1] “São essas opiniões pessoais que os Espíritos orgulhosos nos dão como verdades absolutas. É sobretudo a respeito do que deve permanecer oculto, como o futuro e o princípio das coisas, que eles mais insistem, a fim de darem a impressão de que conhecem os segredos de Deus. E é também sobre esses pontos que há mais contradições.” (O Livro dos Médiuns, 300.)
[2] Os Quatro Evangelhos. Vol. I, n. 56. F.E.B, 5.ª ed., 1971, p. 295. Entre colchetes, palavras minhas.
[3] Os Quatro Evangelhos. Vol. I, ns. 56 e 59.
[4] Conscientização Espírita. Do Princípio da Não Retrogradação dos Espíritos.
[5] Revista Espírita. Jun/1862. Princípio Vital das Sociedades Espíritas.
[6] Revista Espírita. Jun/1862. Ensinos e Dissertações Espíritas. O Espiritismo Filosófico. Bordeaux, 4 de abril de 1862. Médium: Sra. Collignon. Observação [de Kardec].
[7] Cf. Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 5.ª ed., 1971, pp. 64 e 66.
[8] Revista Espírita. Nov/1861. Primeira Epístola de Erasto aos Espíritas de Bordéus.
[9] Os Quatro Evangelhos. Vol. I, n. 59. F.E.B, 5.ª ed., 1971, p. 325-326. Cf. Cap. 14: Estranhezas do Ensino Rustenista.
[10] Cf. Revista Espírita. Jun/1861. Correspondência.
[11] O Livro dos Espíritos, 222.
[12] Os Evangelhos Gnósticos, IV.
[13] Os Quatro Evangelhos. Prefácio. F.E.B., 1920, p. 59.
[14] KARDEC, Allan. A Gênese, XV, 65.
[15] Sabedoria do Evangelho. Vol. 3. Jesus Anda Sobre a Água.

Retirado do blog "O Primado de Kardec" - http://oprimadodekardec.blogspot.com/2011/02/capitulo-4-as-advertencias-de-kardec.html

Traducido por M. C. R.

sábado, 9 de abril de 2011

Os Milagres Segundo O Espiritismo

15:27 Posted by O Blog dos Espíritas , , , , , 1 comment
Allan Kardec - A Gênese

Os milagres no sentido teológico - O Espiritismo não faz milagres - Faz Deus milagres? - O sobrenatural e as religiões

Os milagres no sentido teológico

1. - Na acepção etimológica, a palavra milagre (de mirari, admirar) significa: admirável, coisa extraordinária, surpreendente. A Academia definiu-a deste modo: Um ato do poder divino contrário às leis da Natureza, conhecidas.

Na acepção usual, essa palavra perdeu, como tantas outras, a significação primitiva. De geral, que era, se tornou de aplicação restrita a uma ordem particular de fatos. No entender das massas, um milagre implica a idéia de um fato extranatural; no sentido teológico, é uma derrogação das leis da Natureza, por meio da qual Deus manifesta o seu poder. Tal, com efeito, a acepção vulgar, que se tornou o sentido próprio, de modo que só por comparação e por metáfora a palavra se aplica às circunstâncias ordinárias da vida.

Um dos caracteres do milagre propriamente dito é o ser inexplicável, por isso mesmo que se realiza com exclusão das leis naturais. É tanto essa a idéia que se lhe associa, que, se um fato milagroso vem a encontrar explicação, se diz que já não constitui milagre, por muito espantoso que seja. O que, para a Igreja, dá valor aos milagres é, precisamente, a origem sobrenatural deles e a impossibilidade de serem explicados. Ela se firmou tão bem sobre esse ponto, que o assimilarem-se os milagres aos fenômenos da Natureza constitui para ela uma heresia, um atentado contra a fé, tanto assim que excomungou e até queimou muita gente por não ter querido crer em certos milagres.

Outro caráter do milagre é o ser insólito, isolado, excepcional. Logo que um fenômeno se reproduz, quer espontânea, quer voluntariamente, é que está submetido a uma lei e, desde então, seja ou não seja conhecida a lei, já não pode haver milagres.

2. - Aos olhos dos ignorantes, a Ciência faz milagres todos os dias. Se um homem, que se ache realmente morto, for chamado à vida por intervenção divina, haverá verdadeiro milagre, por ser esse um fato contrário às leis da Natureza. Mas, se em tal homem houver apenas aparências de morte, se lhe restar uma vitalidade latente e a Ciência, ou uma ação magnética, conseguir reanimá-lo, para as pessoas esclarecidas ter-se-á dado um fenômeno natural, mas, para o vulgo ignorante, o fato passará por miraculoso. Lance um físico, do meio de certas campinas, um papagaio elétrico e faça que o raio caia sobre uma árvore e certamente esse novo Prometeu será tido por armado de diabólico poder. Houvesse, porém, Josué detido o movimento do Sol, ou, antes, da Terra e teríamos aí o verdadeiro milagre, porquanto nenhum magnetizador existe dotado de bastante poder para operar semelhante prodígio.

Foram fecundos em milagres os séculos de ignorância, porque se considerava sobrenatural tudo aquilo cuja causa não se conhecia. À proporção que a Ciência revelou novas leis, o círculo do maravilhoso se foi restringindo; mas, como a Ciência ainda não explorara todo o vasto campo da Natureza, larga parte dele ficou reservada para o maravilhoso.

3. - Expulso do domínio da materialidade, pela Ciência, o maravilhoso se encastelou no da espiritualidade, onde encontrou o seu último refúgio. Demonstrando que o elemento espiritual é uma das forças vivas da Natureza, força que incessantemente atua em concorrência com a força material, o Espiritismo faz que voltem ao rol dos efeitos naturais os que dele haviam saído, porque, como os outros, também tais efeitos se acham sujeitos a leis. Se for expulso da espiritualidade, o maravilhoso já não terá razão de ser e só então se poderá dizer que passou o tempo dos milagres. (Cap. I, nº 18.)
O Espiritismo não faz milagres

4. - O Espiritismo, pois, vem, a seu turno, fazer o que cada ciência fez no seu advento: revelar novas leis e explicar, conseguintemente, os fenômenos compreendidos na alçada dessas leis.

Esses fenômenos, é certo, se prendem à existência dos Espíritos e à intervenção deles no mundo material e isso é, dizem, o em que consiste o sobrenatural. Mas, então, fora mister se provasse que os Espíritos e suas manifestações são contrárias às leis da Natureza; que aí não há, nem pode haver, a ação de uma dessas leis.

O Espírito mais não é do que a alma sobrevivente ao corpo; é o ser principal, pois que não morre, ao passo que o corpo é simples acessório sujeito à destruição. Sua existência, portanto, é tão natural depois, Como durante a encarnação; está submetido às leis que regem o princípio espiritual, como o corpo o está às que regem o princípio material; mas, como estes dois princípios têm necessária afinidade, como reagem incessantemente um sobre o outro, como da ação simultânea deles resultam o movimento e a harmonia do conjunto, segue-se que a espiritualidade e a materialidade são duas partes de um mesmo todo, tão natural uma quanto a outra, não sendo, pois, a primeira uma exceção, uma anomalia na ordem das coisas.

5. - Durante a sua encarnação, o Espírito atua sobre a matéria por intermédio do seu corpo fluídico ou perispírito, dando-se o mesmo quando ele não está encarnado. Como Espírito e na medida de suas capacidades, faz o que fazia como homem; apenas, por já não ter o corpo carnal para instrumento, serve-se, quando necessário, dos órgãos materiais de um encarnado, que vem a ser o a que se chama médium. Procede então como um que, não podendo escrever por si mesmo, se vale de um secretário, ou que, não sabendo uma língua, recorre a um intérprete. O secretário e o intérprete são os médiuns de um encarnado, do mesmo modo que o médium é o secretário ou o intérprete de um Espírito.

6. - Já não sendo o mesmo que no estado de encarnação o meio em que atuam os Espíritos e os modos por que atuam, diferentes são os efeitos, que parecem sobrenaturais unicamente porque se produzem com o auxílio de agentes que não são os de que nos servimos. Desde, porém, que esses agentes estão na Natureza e as manifestações se dão em virtude de certas leis, nada há de sobrenatural, ou de maravilhoso. Antes de se conhecerem as propriedades da eletricidade, os fenômenos elétricos passavam por prodígios para certa gente; desde que se tornou conhecida a causa, desapareceu o maravilhoso. O mesmo ocorre com os fenômenos espíritas, que não são mais aberrantes das leis naturais do que os fenômenos elétricos, acústicos, luminosos e outros, que serviram de fundamento a uma imensidade de crenças supersticiosas.

7. - Entretanto, dir-se-á, admitis que um Espírito pode levantar uma mesa e mantê-la no espaço sem ponto de apoio; não está aí uma derrogação da lei da gravidade? - Sim, da lei conhecida. Conhecem-se, porém, todas as leis? Antes que se houvesse experimentado a força ascensional de alguns gases, quem diria que uma pesada máquina, transportando muitos homens, poderia triunfar da força de atração? Ao vulgo, isso não pareceria maravilhoso, diabólico? Aquele que se houvera proposto, há um século, a transmitir uma mensagem a 500 léguas e receber a resposta dentro de alguns minutos, teria passado por louco; se o fizesse, teriam acreditado estar o diabo às suas ordens, porquanto, então, só o diabo era capaz de andar tão depressa. Hoje, no entanto, não só se reconhece possível o fato, como ele parece naturalíssimo. Por que, pois, um fluido desconhecido careceria da propriedade de contrabalançar, em dadas circunstâncias, o efeito da gravidade, como o hidrogênio contrabalança o peso do balão? É, efetivamente, o que sucede, no caso de que se trata. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. IV.)

8. - Uma vez que estão no quadro dos da Natureza, os fenômenos espíritas se hão produzido em todos os tempos; mas, precisamente, porque não podiam ser estudados pelos meios materiais de que dispõe a ciência vulgar, permaneceram muito mais tempo do que outros no domínio do sobrenatural, donde o Espiritismo agora os tira.

Baseado em aparências inexplicadas, o sobrenatural deixa livre curso à imaginação que, a vagar pelo desconhecido, gera as crenças supersticiosas. Uma explicação racional, fundada nas leis da Natureza, reconduzindo o homem ao terreno da realidade, fixa um ponto de parada aos transviamentos da imaginação e destrói as superstições. Longe de ampliar o domínio do sobrenatural, o Espiritismo o restringe até aos seus limites extremos e lhe arrebata o último refúgio. Se é certo que ele faz crer na possibilidade de alguns fatos, não menos certo é que, por outro lado, impede a crença em diversos outros, porque demonstra, no campo da espiritualidade, a exemplo da Ciência no da materialidade, o que é possível e o que não o é. Todavia, como não alimenta a pretensão de haver dito a última palavra seja sobre o que for, nem mesmo sobre o que é da sua competência, ele não se apresenta como absoluto regulador do possível e deixa de parte os conhecimentos reservados ao futuro.

9. - Os fenômenos espíritas consistem nos diferentes modos de manifestação da alma ou Espírito, quer durante a encarnação, quer no estado de erraticidade. É pelas manifestações que produz que a alma revela sua existência, sua sobrevivência e sua individualidade; julga-se dela pelos seus efeitos; sendo natural a causa, o efeito também o é. São esses efeitos que constituem objeto especial das pesquisas e do estudo do Espiritismo, a fim de chegar-se a um conhecimento tão completo quanto possível, assim da natureza e dos atributos da alma, como das leis que regem o princípio espiritual.

10. - Para os que negam a existência do princípio espiritual independente, que negam, por conseguinte, a da alma individual e sobrevivente, a Natureza toda está na matéria tangível; todos os fenômenos que concernem à espiritualidade são, para esses negadores, sobrenaturais e, portanto, quiméricos. Não admitindo a causa não podem eles admitir os efeitos e, quando estes são patentes, os atribuem à imaginação, à ilusão, à alucinação e se negam a aprofundá-los. Daí, a opinião preconcebida em que se acastelam e que os torna inaptos a apreciar judiciosamente o Espiritismo, porque parte do princípio de negação de tudo o que não seja material.

11. - Do fato, porém, de o Espiritismo admitir os efeitos, que são corolário da existência da alma, não se segue que admita todos os efeitos qualificados de maravilhosos e que se proponha a justificá-los e dar-lhes crédito; que se faça campeão de todos os devaneios, de todas as utopias, de todas as excentricidades sistemáticas, de todas as lendas miraculosas. Fora preciso conhecê-lo muito pouco, para pensar assim. Seus adversários julgam opor-lhe um argumento irreplicável, quando, depois de haverem feito eruditas pesquisas sobre os convulsionários de Saint-Médard, sobre os camisardos das Cevenas, ou sobre os religiosos de Loudun, chegaram a descobrir fatos patentes de embuste, que ninguém contesta. Mas, essas histórias serão, porventura, o Evangelho do Espiritismo? Já terão seus adeptos negado que o charlatanismo haja explorado em proveito próprio alguns fatos; que a imaginação os tenha criado; que o fanatismo os haja exagerado muitíssimo? Ele é tão solidário com as extravagâncias que se cometam em seu nome, como a Ciência o é com os abusos da ignorância e a verdadeira religião com os abusos do fanatismo. Muitos críticos julgam do Espiritismo pelos contos de fadas e pelas lendas populares, ficções daqueles contos. O mesmo seria julgar da História pelos romances históricos ou pelas tragédias.

12. - Os fenômenos espíritas são as mais das vezes espontâneos e se produzem sem nenhuma idéia preconcebida da parte das pessoas com quem eles se dão e que, em regra, são as que neles menos pensam. Alguns há que, em certas circunstâncias, podem ser provocados pelos agentes denominados médiuns. No primeiro caso, o médium é inconsciente do que se produz por seu intermédio no segundo, age com conhecimento de causa, donde a classificação de médiuns conscientes e médiuns inconscientes. Estes últimos são os mais numerosos e se encontram com freqüência entre os mais obstinados incrédulos que, assim, praticam o Espiritismo sem o saberem, nem quererem. Por isso mesmo, os fenômenos espontâneos revestem capital importância, visto não se poder suspeitar da boa-fé dos que os obtêm. Dá-se aqui o que se dá com o sonambulismo que, em certos indivíduos, é natural e involuntário, enquanto que noutros é provocado pela ação magnética. (1)

(1) O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. V. - Revue Spirite; exemplos: dezembro de 1865, pág. 370, agosto de 1865, pág. 231.

Resultem, porém, ou não esses fenômenos de um ato da vontade, a causa primária é exatamente a mesma e não se afasta uma linha das leis naturais. Os médiuns, portanto, nada absolutamente produzem de sobrenatural; por conseguinte, nenhum milagre fazem. As próprias curas instantâneas não são mais milagrosas, do que os outros efeitos, dado que resultam da ação de um agente fluídico, que desempenha o papel de agente terapêutico, cujas propriedades não deixam de ser naturais por terem sido ignoradas até agora. É, pois, totalmente impróprio o epíteto de taumaturgos que a crítica ignorante dos princípios do Espiritismo há dado a certos médiuns. A qualificação de milagres emprestada, por comparação, a esta espécie de fenômenos, somente pode induzir em erro sobre o verdadeiro caráter deles.

13. - A intervenção de inteligências ocultas nos fenômenos espíritas não os torna mais milagrosos do que todos os outros fenômenos devidos a agentes invisíveis, porque esses seres ocultos que povoam os espaços São uma das forças da Natureza, força cuja ação é incessante sobre o mundo material, tanto quanto sobre o mundo moral.

Esclarecendo-nos acerca dessa força, o Espiritismo faculta a elucidação de uma imensidade de coisas inexplicadas e inexplicáveis por qualquer outro meio e que, por isso, passaram por prodígios nos tempos idos. Do mesmo modo que o magnetismo, ele revela uma lei, senão desconhecida, pelo menos mal compreendida; ou, melhor dizendo, conheciam-se os efeitos, porque eles em todos os tempos se produziram, porém não se conhecia a lei e foi o desconhecimento desta que gerou a superstição. Conhecida essa lei, desaparece o maravilhoso e os fenômenos entram na ordem das coisas naturais. Eis por que tanto operam um milagre os espíritas quando fazem que uma mesa se mova sozinha, ou que os mortos escrevam, como um milagre opera o médico, quando faz que um moribundo reviva, ou o físico, quando faz que o raio caia. Aquele que pretendesse, com o auxílio desta ciência, fazer milagres seria ou um ignorante do assunto, ou um enganador de tolos.

14. - Pois que o Espiritismo repudia toda pretensão às coisas miraculosas, haverá, fora dele, milagres, na acepção usual desta palavra?

Digamos, primeiramente, que, dos fatos reputados milagrosos, ocorridos antes do advento do Espiritismo e que ainda no presente ocorrem, a maior parte, senão todos, encontram explicação nas novas leis que ele veio revelar. Esses fatos, portanto, se compreendem, embora sob outro nome, na ordem dos fenômenos espíritas e, como tais, nada têm de sobrenatural. Fique, porém, bem entendido que nos referimos aos fatos autênticos e não aos que, com a denominação de milagres, são produto de uma indigna trampolinice, com o fito de explorar a credulidade. Tampouco nos referimos a certos fatos lendários que podem ter tido, originariamente, um fundo de verdade, mas que a superstição ampliou até ao absurdo. Sobre esses fatos é que o Espiritismo projeta luz, fornecendo meios de apartar do erro a verdade.

Faz Deus milagres?

15. - Quanto aos milagres propriamente ditos, Deus, visto que nada lhe é impossível, pode fazê-los. Mas, fá-los? Ou, por outras palavras; derroga as leis que dele próprio emanaram? Não cabe ao homem prejulgar os atos da Divindade, nem os subordinar à fraqueza do seu entendimento. Contudo, em face das coisas divinas, temos, para critério do nosso juízo, os atributos mesmos de Deus. Ao poder soberano reúne ele a soberana sabedoria, donde se deve concluir que não faz coisa alguma inútil.

Por que, então, faria milagres? Para atestar o seu poder, dizem. Mas, o poder de Deus não se manifesta de maneira muito mais imponente pelo grandioso conjunto das obras da criação, pela sábia previdência que essa criação revela, assim nas partes mais gigantescas, como nas mais mínimas, e pela harmonia das leis que regem o mecanismo do Universo, do que por algumas pequeninas e pueris derrogações que todos os prestímanos sabem imitar? Que se diria de uni sábio mecânico que, para provar a sua habilidade, desmantelasse um relógio construído pelas suas mãos, obra-prima de ciência, a fim de mostrar que pode desmanchar o que fizera? Seu saber, ao contrário, não ressalta muito mais da regularidade e da precisão do movimento da sua obra?

Não é, pois, da alçada do Espiritismo a questão dos milagres; mas, ponderando que Deus não faz coisas inúteis, ele emite a seguinte opinião: Não sendo necessários os milagres para a glorificação de Deus, nada no Universo se produz fora do âmbito das leis gerais. Deus não faz milagres, porque, sendo, como são, perfeitas as suas leis, não lhe é necessário derrogá-las. Se há fatos que não compreendemos, é que ainda nos faltam os conhecimentos necessários.

16. - Admitido que Deus houvesse alguma vez, por motivos que nos escapam, derrogado acidentalmente leis por ele estabelecidas, tais leis já não seriam imutáveis. Mesmo, porem, que semelhante derrogação seja possível, ter-se- á, pelo menos, de reconhecer que só ele, Deus, dispõe desse poder; sem se negar ao Espírito do mal a onipotência, não se pode admitir lhe seja dado desfazer a obra divina, operando, de seu lado, prodígios capazes de seduzir até os eleitos, pois que isso implicaria a idéia de um poder igual ao de Deus. E, no entanto, o que ensinam. Se Satanás tem o poder de sustar o curso das leis naturais, que são obra de Deus, sem a permissão deste, mais poderoso é ele do que a Divindade. Logo, Deus não possui a onipotência e se, como pretendem, delega poderes a Satanás, para mais facilmente induzir os homens ao mal, falta-lhe a soberana bondade. Em ambos os casos, há negação de um dos atributos sem os quais Deus não seria Deus.

Daí vem a Igreja distinguir os bons milagres, que procedem de Deus, dos maus milagres, que procedem de Satanás. Mas, como diferençá-los? Seja satânico ou divino um milagre, haverá sempre uma derrogação de leis emanadas unicamente de Deus. Se um indivíduo é curado por suposto milagre, quer seja Deus quem o opere, quer Satanás, não deixará por isso de ter havido a cura. Forçoso se torna fazer pobríssima idéia da inteligência humana para se pretender que semelhantes doutrinas possam ser aceitas nos dias de hoje.

Reconhecida a possibilidade de alguns fatos considerados miraculosos, há-se de concluir que, seja qual for a origem que se lhes atribua, eles são efeitos naturais de que se podem utilizar Espíritos desencarnados ou encarnados, como de tudo, como da própria inteligência e dos conhecimentos científicos de que disponham, para o bem ou para o mal, conforme neles preponderem a bondade ou a perversidade. Valendo-se do saber que haja adquirido, pode um ser perverso fazer coisas que passem por prodígios aos olhos dos ignorantes; mas, quando tais efeitos dão em resultado um bem qualquer, fora ilógico atribuir-se-lhes uma origem diabólica.

17. - Mas, a religião, dizem, se apóia em fatos que nem explicados, nem explicáveis são. Inexplicados, talvez; inexplicáveis, é questão muito outra. Que sabe o homem das descobertas e dos conhecimentos que o futuro lhe reserva? Sem falar do milagre da criação, o maior de todos sem contestação possível, já pertencente ao domínio da lei universal, não vemos reproduzirem-se hoje, sob o império do magnetismo, do sonambulismo, do Espiritismo, os êxtases, as visões, as aparições, as percepções a distância, as curas instantâneas, as suspensões, as comunicações orais e outras com os seres do mundo invisível, fenômenos esses conhecidos desde tempos imemoráveis, tidos outrora por maravilhosos e que presentemente se demonstra pertencerem à ordem das coisas naturais, de acordo com a lei constitutiva dos seres? Os livros sagrados estão cheios de fatos desse gênero, qualificados de sobrenaturais; como, porém, outros análogos e ainda mais maravilhosos se encontram em todas as religiões pagãs da antigüidade, se a veracidade de uma religião dependesse do numero e da. natureza de tais fatos, não se saberia dizer qual a que devesse prevalecer.

O sobrenatural e as religiões

18. - Pretender-se que o sobrenatural é o fundamento de toda religião, que ele é o fecho de abóbada do edifício cristão, é sustentar perigosa tese. Assentar exclusivamente as verdades do Cristianismo sobre a base do maravilhoso é dar-lhe fraco alicerce, cujas pedras facilmente se soltam. Essa tese, de que se constituíram defensores eminentes teólogos, leva direito à conclusão de que, em breve tempo, já não haverá religião possível, nem mesmo a cristã, desde que se chegue a demonstrar que é natural o que se considerava sobrenatural, visto que, por mais que se acumulem argumentos, não se logrará sustentar a crença de que um fato é miraculoso, depois de se haver provado que não o é. Ora, a prova existe de que um fato não constitui exceção às leis naturais, logo que pode ser explicado por essas mesmas leis e que, podendo reproduzir-se por intermédio de um indivíduo qualquer, deixa de ser privilégio dos santos. O de que necessitam as religiões não é do sobrenatural, mas do princípio espiritual, que erradamente costumam confundir com o maravilhoso e sem o qual não há religião possível.

O Espiritismo considera de um ponto mais elevado a religião cristã; dá-lhe base mais sólida do que a dos milagres: as imutáveis leis de Deus, a que obedecem assim o princípio espiritual, como o princípio material. Essa base desafia o tempo e a Ciência, pois que o tempo e a Ciência virão sancioná-la.

Deus não se torna menos digno da nossa admiração, do nosso reconhecimento, do nosso respeito, por não haver derrogado suas leis, grandiosas, sobretudo, pela imutabilidade que as caracteriza. Não se faz mister o sobrenatural, para que se preste a Deus o culto que lhe é devido. A Natureza não é de si mesma tão imponente, que dispense se lhe acrescente seja o que for para provar a suprema potestade? Tanto menos incrédulos topará a religião, quanto mais a razão a sancionar em todos os pontos. O Cristianismo nada tem que perder com semelhante sanção; ao contrário, só tem que ganhar. Se alguma coisa o há prejudicado na opinião de muitas pessoas, foi precisamente o abuso do sobrenatural e do maravilhoso.

19. - Se tomarmos a palavra milagre em sua acepção etimológica, no sentido de coisa admirável, teremos milagres incessantemente sob as vistas. Aspiramo-los no ar e calcamo-los aos pés, porque tudo então é milagre em a Natureza.

Querem dar ao povo, aos ignorantes, aos pobres de espírito uma idéia do poder de Deus? Mostrem-no na sabedoria infinita que preside a tudo, no admirável organismo de tudo o que vive, na frutificação das plantas, na apropriação de todas as partes de cada ser às suas necessidades, de acordo com o meio onde ele é posto a viver. Mostrem-lhes a ação de Deus na vergôntea de um arbusto, na flor que desabrocha, no Sol que tudo vivifica. Mostrem-lhes a sua bondade na solicitude que dispensa a todas as criaturas, por mais ínfimas que sejam, a sua previdência, na razão de ser de todas as coisas, entre as quais nenhuma inútil se conta, no bem que sempre decorre de um mal aparente e temporário. Façam-lhes compreender, principalmente, que o mal real é obra do homem e não de Deus; não procurem espavori-los com o quadro das penas eternas, em que acabam não mais crendo e que os levam a duvidar da bondade de Deus; antes, dêem-lhes coragem, mediante a certeza de poderem um dia redimir-se e reparar o mal que hajam praticado. Apontem-lhes as descobertas da Ciência como revelações das leis divinas e não como obras de Satanás. Ensinem-lhes, finalmente, a ler no livro da Natureza, constantemente aberto diante deles; nesse livro inesgotável, em cada uma de cujas páginas se acham inscritas a sabedoria e a bondade do Criador. Eles, então, compreenderão que um Ser tão grande, que com tudo se ocupa, que por tudo vela, que tudo prevê, forçosamente dispõe do poder supremo. Vê-lo-á o lavrador, ao sulcar o seu campo; e o desditoso, nas suas aflições, o bendirá dizendo: Se sou infeliz, é por culpa minha. Então, os homens serão verdadeiramente religiosos, racionalmente religiosos, sobretudo, muito mais do que acreditando em pedras que suam sangue, ou em estátuas que piscam os olhos e derramam lágrimas.