quinta-feira, 29 de março de 2012

O Espiritismo e os vários "fins do mundo"


Por Artur Felipe Azevedo

Vem dos idos de 1950 a tentativa de tornar o movimento espírita um disseminador de previsões catastrofistas de "fim dos tempos". Para muitos que ainda não haviam estudado e aprofundado conhecimentos da Codificação Espírita, as previsões atribuídas aos Espíritos, alguns deles tidos como superiores apenas pelo fato de serem espíritos ou terem sido apresentados como tal, representavam a confirmação das profecias de João, o Evangelista, contidas na Bíblia, ou ainda das previsões de Nostradamus, Edgar Cayce, entre outros. 

Embalados pelo livro "Mensagens do Astral" de Hercílio Maes/Ramatis (1956), passou-se a divulgar que o fim dos tempos estava próximo devido à suposta aproximação de um enorme astro que provocaria a elevação abrupta do eixo terrestre, causando destruição por toda parte e ceifando a vida de 2/3 dos habitantes do planeta até o ano de 1999. Muitos indivíduos e instituições, espíritas ou não, compraram a ideia. Um dos primeiros foi Alziro Zarur, fundador da LBV (Legião da Boa-Vontade), que através de seus programas radiofônicos diários anunciava que deveriam todos se acautelar, pois de 1000 havia passado, mas de 2000 não passaria. Outro que, desta feita em nome do Espiritismo, passou a divulgar as catástrofes vindouras foi Edgard Armond, que, conforme já estudamos no artigo "Universalismo e Movimentos Cismáticos", admirava e acreditava nos escritos atribuídos ao espírito Ramatis.

No entanto, os anos de 1999 e 2000 se passaram e nada de extraordinário aconteceu. Terremotos, erupções vulcãnicas, maremotos, enfim, toda uma série de eventos ocorreram comodesde sempre se deram na face do planeta, sem que 1% do que fora previsto por Ramatis tivesse ocorrido.

Porém, como é típico dos que não querem, por orgulho ou vaidade, dar o braço a torcer, ou mesmo não querem abjurar de suas ideias fantasiosas para encarar a realidade, vieram as justificativas e a tentativas de encontrar novas datas para a ocorrência dos desastres, julgados capazes de tornar o mundo melhor pela "expulsão" dos "maus" para que o "bons", finalmente, predominem na Terra. 

Nada disso, contudo, é novidade e muito menos tem algo a ver com o Espiritismo.

Às vésperas do ano 1000, por exemplo, teóricos do apocalipse já previam a hecatombe, mas, como nada aconteceu, a data "certa" passou a ser 1033, isto é, 1000 anos após a morte de Cristo. Em 1524, astrólogos previram o início do fim do mundo para 1º de fevereiro com uma inundação em Londres. Como nenhuma gota caiu na cidade naquele dia, a justificativa dada foi que houve um erro de cálculo. O "certo" era 1624. Em 1533, Melchior Hoffmann previu que o mundo seria consumido pelas chamas. Ao final, nada aconteceu, e ele foi preso e morreu na prisão. Poucos anos depois, em 1537, o astrólogo Pierre Turrel afirmou dispor de quatro datas para o fim do mundo: 1537, 1544, 1801 e 1814. Acabou ficando para a história como o que mais datas usou para safar-se do vexame. Cento e onze anos depois, em 1648, o judeu Sabbatai Zevise auto-intitulou o próprio Messias, que desta feita viria para expulsar os maus da Terra. Como naquele ano nada aconteceu, previu o apocalipse para 1666 e acabou preso. Decepcionado, converteu-se ao Islamismo. Em 1736, o teólogo William Whiston, repetindo o mesmo erro de 1524, anunciou que em 13 de outubro haveria uma gigantesca inundação, fazendo com que o rio Tâmisa lotasse de embarcações em rota de fuga. Como ocorrera em 1524, no dia anunciado da catástrofe sequer choveu. Em 1843, o líder adventista William Miller previu o apocalipse para 3 de abril, depois 7 de julho, depois 21 de março de 1884 e, finalmente, 22 de outubro. Desacreditado, morreu cinco anos depois da última previsão. Em 1881, alguns egiptólogos previram o fim do mundo baseados em alguns escritos encontrados. Refizeram as contas, mudando o ano do fim para 1936. Obrigados pelas circunstâncias, reformularam as previsões, empurrando-as para 1953. No início do século XX, foi a vez dos Testemunhas de Jeová. Foram três os anos previstos para o fim, todos obviamente errados: 1874, 1814 e 1975. Já ao final do século XX, no ano de 1980, um presságio astrológico árabe dizia que o mundo deveria se preparar para uma catástrofe devido a uma conjunção de Júpiter e Saturno em Libra. Chegando em 1999, os crentes nas previsões de Nostradamus davam como certo um cataclismo em 10 de março. Atribuíram o erro ao próprio Nostradamus. Em 2000, teóricos do apocalipse disseram que o juízo final ocorreria 2000 anos depois de Cristo. Como aconteceu no ano 1000, a previsão "pulou" para 2033. E, mais recentemente, como todos sabem, são as profecias maias as utilizadas para novamente espalhar o temor. Caminham com certeza para o fracasso, pois nem mesmo os maias afirmaram que o fim de um de seus três calendários representava o fim do mundo.

Já a visão apocalíptica disseminada no meio espírita (e não amparadas pela Doutrina) tenta ser mais "light" nas previsões, uma vez que não seria o fim do mundo, mas apenas uma sucessão de catástrofes que provocaria uma seleção entre espíritos mais adiantados e mais atrasados. No entanto, apesar da sutil diferença, as previsões não têm se mostrado menos equivocadas. Diversos membros do movimento ramatisista, uma espécie de seita que diz divulgar o Espiritismo, mas que vive batendo na tecla de estar a Codificação ultrapassada, e que se auto-intitulam "universalistas crísticos" ou simplesmente "espíritas universalistas", ainda hoje insistem em disseminar as previsões contidas nos livros de Ramatis. O tema é tratado abertamente em revistas, sites,programas de TV e Congressos do movimento ramatisista, como se as ditas previsões já não estivessem se esboroado. Exatamente como no passado, a tática é encontrar explicações pretensamente racionais ao não cumprimento das profecias e, logicamente, informar novas datas. O primeiro a se arriscar foi o "médium" universalista Roger Bottini, que em seu sítio na internet afirma que está tudo certo para 2036. Vai ter bastante tempo para pensar numa explicação "plausível" para o não cumprimento da previsão...

Na verdade, o que ocorre com os indivíduos que acreditam nessas previsões, sejam elas vindas numa embalagem religiosa ou não, é que esses não desistem de sua crença, mas, ao contrário, mais se aferram a ela. Há um caso clássico relatado no livro "Quando a profecia falha", de Leon Festinger, em que ele e seus colegas se infiltram em uma seita do fim do mundo composta de 15 pessoas. Eles acreditavam que uma mulher recebia mensagens de extraterrestes e que o mundo acabaria, segundo eles, em 21 de dezembro de 1954. Antes da catástrofe, eles seriam resgatados pela nave-mãe e levados para um lugar seguro. Como nada aconteceu, a mulher que se comunicava com os "ETs" disse ter recebido uma nova comunicação, em que o grupo era elogiado por ter espalhado tanta "luz" com suas orações que Deus havia decidido cancelar a destruição do mundo. Haviam, pois, encontrado um meio de acreditar na profecia.

Pode-se perceber também que, direta ou indiretamente, os crentes no "fins dos tempos" colocam-se invariavelmente numa posição de "salvos" e "direitistas do Cristo", enquanto que quem não acredita geralmente é posicionado como herético, descrente e "esquerdista do Cristo". O fim desses últimos deveria ser mesmo morrer, sem dó nem piedade, na visão dos extremistas. Já os primeiros nem cogitam da hipótese de morrer, pois, como são muito "bonzinhos", herdarão a Terra renovada.

Mais recentemente, surgiu a notícia, comentada por mim no artigo "Chico Xavier e as confusões apocalípticas" que o médium Chico Xavier também teria feito uma previsão de grandes acontecimentos para 2019 e que o Brasil será praticamente poupado da hecatombe, já que aqui é o "coração do mundo, pátria do Evangelho"... Só faltou dizer que Deus é brasileiro.

Em meio a tantos absurdos, só nos resta afirmar categoricamente: não há absolutamente nada na Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, que possa servir de embasamento para tais ideias e previsões. O Espiritismo trata da Lei do Progresso, em que os mundos são como escolas e os espíritos pouco a pouco vão se aperfeiçoando em moral e inteligência a fim de ascenderem a outros mundos mais evoluídos. Diz também que, muitas das vezes, conflitos de ideias acabam sendo o móvel necessário para o progresso geral das sociedades humanas, infelizmente descambando, por vezes, em guerras fratricidas.

Allan Kardec, na Revista Espírita de agosto de 1865, ensina: "O Espiritismo tem como objetivo a regeneração da Humanidade: isto é um fato constatado. Ora, não podendo essa regeneração operar-se senão pelo progresso moral, daí resulta que seu obje­tivo essencial, providencial, é o melhoramento de cada um."

Não será justo que agora, em que mal as ideias espíritas tornam-se conhecidas e a humanidade em geral sinaliza uma mudança para melhor, mesmo que lenta, haverá Deus de destruir o planeta, como um pai que espanca o filho na tentativa de educá-lo de um dia para o outro. A humanidade tem muito a caminhar, sendo que a Natureza não dá saltos. Tudo tem seu tempo: o plantio e a colheita. As previsões do apocalipse geralmente são cridas por quem acha que a colheita possa vir antes da germinação. Definitivamente, não é isso que nos ensinam os Espíritos (verdadeiramente) superiores.


Fonte: Blog Ramatis, Sábio ou Pseudossábio? - http://espiritismoxramatisismo.blogspot.com.br/2012/03/o-espiritismo-e-os-varios-fins-do-mundo.html

sábado, 24 de março de 2012

O Melancólico Plágio


Por Nazareno Tourinho

Na página 430 do Volume 1 de Os Quatro Evangelhos (6ª edição, feita pela FEB) os “guias” de J. B. Roustaing escreveram o seguinte, referindo-se a uma lição de Jesus:

“Essas palavras do Mestre são o seguimento do que explicamos no nº 78. Não basta ao homem abster-se do mal, cumpre-lhe praticar o bem.”

Temos aqui um escandaloso plágio.

Plágio, como certamente o leitor não ignora, é a apropriação indevida que um autor faz da ideia de outro, apresentando-a como se fosse sua.

Se tivessem honestidade, os “protetores” de Roustaing diriam:

Como foi revelado a Allan Kardec, não basta ao homem abster-se do mal, cumpre-lhe praticar o bem.”

Assim se expressariam porque já em 1857, quase dez anos antes do lançamento de seus Evangelhos apócrifos, em 1866, no primeiro tomo da Codificação, O Livro dos Espíritos, figura tal ensinamento.

Eis o inteiro teor da pergunta nº 642 do supracitado volume, e a respectiva resposta:

“Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?

“Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo o mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”

A custa desse expediente desprezível, apossando-se de algumas ideias originais da codificação kardequiana sem confessar isso, Roustaing conseguiu tornar sua obra mais aceitável por uns poucos espíritas ainda presos aos condicionamentos católicos, herdados de outras encarnações. Estes companheiros místicos costumam, quando defendem o roustainguismo, dizer que o mesmo nos oferta muitas coisas boas. O que não falam é que as coisas boas a nós oferecidas foram retiradas espertamente dos livros de Kardec. E omitem o fato de que entre tais coisas boas existem teses lesivas aos superiores interesses do Espiritismo, porque em nível filosófico conflitam com os fundamentos da doutrina (como, por exemplo, a teoria de que a encarnação é um castigo e não uma necessidade).

Em razão disso a obra de Roustaing deve ser esquecida pela FEB, única Entidade em todo o mundo que a prestigia, estudando-a por força de um dispositivo estatutário, reeditando-a sempre e fazendo dela constante propaganda, de modo ostensivo ou subliminar, se é que a FEB deseja, nos tempos modernos, permanecer na liderança do nosso movimento ideológico, cuja unificação só é possível com absoluto respeito à insuperada mensagem espiritual claramente exposta por Allan Kardec. 

Fonte:
TOURINHO, Nazareno.  As Tolices e Pieguices da Obra de Roustaing – Nazareno Tourinho; ensaio crítico-doutrinário; 1ª edição, Edições Correio Fraterno, São Bernardo do Campo, SP, 1999.

Chico Xavier e as confusões apocalípticas

Por Artur Felipe Azevedo

Na edição 439 do jornal "Folha Espírita", foi lançado um artigo escrito pela senhora Marlene Nobre em que constam supostas "revelações" do médium Francisco C. Xavier sobre o futuro do planeta e, mais especificamente, sobre o Brasil. E, mais uma vez, assanharam-se os apocalíticos de plantão em saírem por aí afirmando que, desta feita, não têm eles mais dúvida: de 2019 não passa!

Já tratamos deste tema em outras oportunidades através dos artigos abaixo linkados e relacionados, em que discorremos sobre as previsões de Ramatis que se revelaram totalmente falsas e fantasiosas:

Catastrofismo aparvalhante: as Previsões Apocalípticas que não se Cumpriram
Ramatis e o presidente do Brasil
À feição de seita apocalíptica
Onde está o Planeta Chupão de Ramatis?
Ramatis dita ficção e não realidade, assim como Hollywood
Terremotos recentes e histerias apocalípticas

Desta feita, transcreveremos inicialmente a excelente análise sobre o tema realizada pelo escritor e estudioso espírita Sérgio F. Aleixo, atual vice-presidente da Associação de Divulgadores do Espiritismo do Rio de janeiro (ADE-RJ):

CHICO XAVIER: DEFINITIVAMENTE, OUTRA RELIGIÃO!


Faz algum tempo, afiancei que caducaram por completo os prognósticos ao final do capítulo XXV do livro A Caminho da Luz (F.E.B., 1939), de Emmanuel.[1] O jesuíta assegurava ali, evidentemente em falso, que eram chegados os tempos em que as forças do mal seriam compelidas a abandonar as suas derradeiras posições de domínio nos ambientes terrestres; que se vivia na Terra, à época, um crepúsculo, ao qual sucederia ainda profunda noite, e que, ao século XX é que competiria a missão do desfecho desses acontecimentos espantosos.

Justo agora, num jornal “espírita” de grande circulação, entrevistado pela festejada Dr.ª Marlene Nobre, o Ilmo. Sr. Geraldo Lemos Neto participa as revelações que, em 1986, Chico Xavier lhe fez sobre o futuro reservado ao nosso planeta e seus habitantes nos próximos anos, finalizando com esta pérola emmanuelina: “As profecias são reveladas aos homens para não serem cumpridas”. De fato, as do suposto ex-senador de Roma, sem dúvida advogando aí em causa própria, nunca se cumpriram.

Kardec já advertira em A Gênese, XVI, 16, que “os espíritos realmente sábios nunca predizem nada com épocas determinadas”, bem como “se pode ter por certo que, quanto mais circunstanciadas as predições, mais elas são suspeitas”. Portanto, definitivamente, nada tem que ver com o Espiritismo, doutrina codificada por Allan Kardec, essa nova religião, essa nova Igreja chamada Federação Espírita Brasileira, que sempre teve por ícones mui dóceis de sua propaganda antidoutrinária o médium Chico Xavier e todos os seus guias e congêneres, agora erigidos em profetas apocalípticos.

De acordo com as tais revelações,[2] surpreendentemente não por decisão própria, mas ouvindo o apelo de outros seres angelicais de nosso sistema solar, Jesus convocou, em julho de 1969, reunião destinada a deliberar, na atmosfera terrestre, sobre o futuro de nosso planeta. Fico a imaginar se a convocação foi mediante algum satélite por ali disponível... A razão do apelo, pasmem: a chegada do homem à Lua naquele mês.

Jesus, pelo visto, não se abalou. Foi atendendo aos seus pares do sistema solar que marcou o conclave celeste. Depois de muitos diálogos, debates e sugestões, mesmo ante o receio e a indisposição de algumas potências angélicas presentes, o Mestre concedeu-nos uma “última chance” e “todas as injunções cármicas previstas para acontecerem no final do século XX” (eufemismo empolado para o fim do mundo) “foram suspensas”. Mais não parecem desse modo, pelo evidente conflito, deuses mitológicos que espíritos puros?

Pois bem. Revogadas assim, de improviso, as disposições anteriores, Emmanuel estaria livre da acusação de falso profetismo. Contudo, neste caso, menos interessa que suas profecias não se hajam cumprido do que o simples fato de haver predito acontecimentos espantosos para época determinada, o que espíritos verdadeiramente sábios nunca, nunca fazem. Além do mais, em A Gênese, XVIII, 26, aprende-se:

'A Terra, no dizer dos espíritos, não deve ser transformada por um cataclismo que aniquilaria subitamente uma geração. A geração atual desaparecerá gradualmente, e a nova a sucederá da mesma maneira, sem que nada seja mudado na ordem natural das coisas. Tudo, pois, se passará, exteriormente, como de hábito [...] Assim, aqueles que esperam ver a transformação ocorrer através de efeitos sobrenaturais e maravilhosos ficarão decepcionados.'

Mas voltemos ao monte Olimpo. Para tranquilizar as potências angélicas receosas e indispostas com a dilação que obteve do prazo para o fim do nosso mundo em mais 50 anos além do antes previsto, Jesus impôs às nações mais desenvolvidas e responsáveis da Terra (impôs como?) que não lançassem a III Guerra. Basta evitarem isso até 2019 e nosso mundo será admitido no sistema solar na condição de planeta de regeneração. Oras! Se um espírito apenas sábio nada prediz com época marcada, que se dirá de um espírito puro como Jesus, a fazê-lo em meio à indisposição receosa de alguns de seus pares.

Daí por diante, apesar de Chico Xavier dizer a G. L. Neto que “nenhum de nós pode prever os avanços que se darão a partir dessa data de julho de 2019”, o próprio Chico, pasmem, instado pelo interlocutor, passa a enumerá-los, desde a erradicação da pobreza, passando pelo fabrico de aparelhos para conversas com desencarnados, até a permissão expressa de Jesus aos extraterrestres, a fim de que nos ofertem tecnologias inimagináveis.

O mais assombroso, porém, são as previsões para a hipótese de o homem iniciar a III Guerra até 2019, que será, nesse caso, terminada por uma reação colossal das forças telúricas do planeta, inviabilizando a vida no hemisfério norte e abrindo um período de reconstrução de mais de mil anos. Isso levaria, pasmem de novo, a uma invasão autorizada pela O.N.U. ao hemisfério sul. Parece o filme O Dia Depois de Amanhã.

E restará aos brasileiros, além de só um quarto do seu território, a obrigação de “exemplificar a verdadeira fraternidade cristã”, ensinando aos invasores os mais altos valores de espiritualidade. Aprenderão com os norte-americanos o respeito às leis, o amor ao direito, à ciência e ao trabalho; com os europeus, o amor à filosofia, à música erudita; com os asiáticos o respeito ao dever, etc. Um povo que precisa aprender o respeito às leis e o amor ao direito com invasores norte-americanos irá ensinar-lhes, em contrapartida, os mais altos valores de espiritualidade... Surreal!

Outra providência dos deuses gregos, agora na atmosfera do nosso planeta travestidos de seres angélicos, foi que, desde 2000 (suposto ano da volta de Emmanuel), só permitem reencarnar aqui mansos, brandos, amorosos e pacíficos, sendo os recalcitrantes no mal encaminhados a mundos atrasados, o maior deles, Quírom, ou Kírom. Todos os que hoje têm no máximo 11 anos integrariam, pois, esse exército de brandos. Matemática canhestra. Decerto, se trata de outra profecia a não se cumprir. E tudo bem. Afinal, é para isso que as profecias, segundo Emmanuel, são reveladas, sobretudo as dele.

Toda essa mixórdia ridícula integra outra religião, um divinismo oracular abrasileiradamente sincrético; não é Espiritismo, mesmo porque nada conseguiu sê-lo após o passamento, em 31/03/1869, do Gênio Lionês ao mundo espírita, de onde ainda contempla o cumprimento desta profecia do Espírito de Verdade: “[...] as tuas melhores instruções serão desprezadas e falseadas”.[3]

Assim, profecias são verdadeiras predições e se cumprem com rigor, exceção feita às mistificações de espíritos pseudossábios, como Emmanuel, Ramatis e assemelhados, que julgam saber mais do que realmente sabem, ou simplesmente insistem sobre aquilo que deve permanecer oculto, a fim de darem a impressão de que conhecem os segredos de Deus.[4]

[1] Revista “Espiritismo e Ciência” n. 53. Kardec e os Exilados. Cf. texto atualizado: http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com/2010_03_29_archive.html; Kardec Versus Emmanuel em 12 Passos, http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com/2011_06_12_archive.html, bem como esta palestra: http://www.youtube.com/user/sergiofaleixo#p/c/F40B80DEDC8DE9CF/0/4h4r6CxP8Rs
[2] Cf. http://www.vinhadeluz.com.br//site/noticia.php?id=760
[3] KARDEC. Obras Póstumas. 12 de junho de 1856. Em casa do Sr. C.; médium: Srta. Aline C. Minha Missão.
[4] Cf. O Livro dos Espíritos, 104. O Livro dos Médiuns, 300.


Pois bem! E como dissemos no início, os catastrofistas de plantão logo vieram a público respaldar a suposta revelação profética. Um deles, o médium ramatisista e auto-proclamado "espírita universalista" Roger Bottini, já citado neste nosso espaço por afirmar receber mensagens de um deus da mitologia grega, saiu, mais uma vez, em defesa das mensagens de Hercílio/ Ramatis em seu sítio na internet, procurando confirmar as previsões do citado espírito com uma matemática elementar e bastante equivocada. O mais interessante é que o "médium" gaúcho cita e enaltece a reportagem em que Chico Xavier teria previsto as calamidades para 2019, mas ao mesmo tempo as prevê para 2036(!). Confiramos passo-a-passo essa declaração:

1 - O "médium" ramatisista começa criticando duramente aqueles que não creem nas previsões de Ramatis, chamando-os de "pessoas de visão estreita" :

"Um exemplo disso, é o sistemático ataque que sempre sofreram as obras de Ramatís por parte dessas pessoas de visão estreita; principalmente devido às revelações de seu profético livro “Mensagens do Astral”, recebido mediunicamente pelo médium Hercílio Maes e publicado em 1956."

2 - Logo após, o "médium" tenta atrelar a tal reunião citada por Emmanuel, supostamente ocorrida em 1969, às previsões feitas por Ramatis:

"Ou seja, esse livro foi escrito bem antes do ano de 1969, momento em que houve a reunião do astral, citada no texto da pergunta, dando uma moratória de 50 anos a nossa humanidade para procurar corrigir-se antes dos cataclismos de fim dos tempos. No livro de Ramatís, o sábio mentor afirma que esses acontecimentos ocorreriam no final do século vinte."

3- Como as tais previsões de Ramatis para o ano 2000 não se cumpriram, a estratégia é responsabilizar o plano espiritual e afirmar que eles mudaram de planos:

"E, pelo que vemos nas referências de Chico, era isso que realmente aconteceria. (...) Voltando ao texto, vemos que as datas mencionadas por Chico Xavier fecham muito bem. Realmente, os eventos de fim dos tempos foram adiados e, a partir da próxima década, começarão a se intensificar os sinais de efetivação da transição planetária, sendo que por volta de 2036 teremos os mais impressionantes eventos."


Talvez temendo a proximidade do ano de 2019 e o consequente vexame advindo do fato desses eventos não se cumprirem, o sr. Bottini estica a previsão e, numa matemática bisonha, 1969 + 50 acaba resultando em 2036 (!).

Outro fato digno de nota é que consta do livro "Encontros no Tempo" (IDE), de Hércio Marques C. Arantes, publicado na época em que Chico Xavier ainda estava vivo, uma declaração do citado médium afirmando o seguinte:

"Muitas realizações para o Terceiro Milênio,segundo Emmanuel, poderão talvez ocorrer depois de 2990. Imaginemos, pois, certos fenômenos de triagem para séculos não muito próximos. Os amigos desencarnados afirmam que na próxima galáxia, de cuja vida e grandeza compartilhamos, existem numerosos mundos de feição primitiva, aptos a nos receberem para estágios mais simples de progresso espiritual, caso não queiramos seguir o surto de elevação de elevação em que a nossa Terra está penetrando."

Daí perguntamos ao estimado leitor: qual declaração mereceria e merece maior credibilidade? A primeira, relatada após o desencarne do médium, ou a segunda, tornada pública através de um livro enquanto Chico Xavier ainda estava entre nós?

Percebe-se aí a tendência, nos dias de hoje, de tudo colocarem na boca do médium Chico Xavier com o intuito de angariar notoriedade e, principalmente, credibilidade. A pouco tempo, inclusive, até mesmo uma dieta em forma de simpatia foi amplamente divulgada como sendo de autoria do mesmo. Confira clicando aqui.

Já a Doutrina Espírita em si, contida toda ela nas obras da Codificação, é cada vez mais posta de lado, e são poucos que a consultam antes de sair divulgando algo em nome do Espiritismo. Predomina a leviandade e a completa falta de compromisso ético-moral, tanto perante a própria Doutrina como com as próprias pessoas em geral, que certamente estão procurando o Espiritismo para se instruírem, e acabam tendo contato com mentiras, fantasias e mistificações de todo gênero, principalmente divulgadas por indivíduos de tendência mística e que, na mais das vezes, querem obter vantagens pessoais com tudo isso.

A Doutrina Espírita é demasiadamente clara e cristalina e não há como misturá-la a outras "coisas" de conteúdo duvidoso, que caem por terra ao menor arremedo de racionalidade e discernimento.

Como já pude recentemente dizer a um conhecido divulgador ramatisista por e-mail, nada temos contra alguém desejar aventurar-se no espiritualismo genérico. Que tenha boa sorte! Mas daí subverter uma doutrina tão clara e cristalina como é o Espiritismo é outra coisa, bem diferente.

Não podemos agregar tudo ao Espiritismo e ao seu Movimento a pretexto de caridade e boa convivência com pessoas que pertençam a outras doutrinas e/ou religiões. O Espiritismo não ensina intolerância religiosa, portanto fundar um movimento nessas bases é querer posar de "mais realista do que o rei", conforme a expressão popular. Podemos muito bem discordar e sermos fraternos, uma vez que ser fraterno não quer dizer que se deva aceitar tudo. Seria um contrassenso e uma violência à liberdade de pensamento.

O Espiritismo, por sua vez, nada tem a ver e não respalda qualquer previsão de "final dos tempos". A marcha evolutiva da humanidade se dará lenta e gradativamente, conforme as sábias leis de Deus e da Natureza. Isso se encontra bem claro nas obras da Codificação elaborada por Allan Kardec:

P. — Disseram os Espíritos que os tempos são chegados em que tais coisas têm de acontecer: em que sentido se devem tomar essas palavras?

R. — Em se tratando de coisas de tanta gravidade, que são alguns anos a mais ou a menos? Elas nunca ocorrem bruscamente, como o chispar de um raio; são longamente preparadas por acontecimentos parciais que lhes servem como que de precursores, quais os rumores surdos que precedem a erupção de um vulcão. Pode-se, pois, dizer que os tempos são chegados, sem que isso signifique que as coisas sucederão amanhã. Significa unicamente que vos achais no período em que se verificarão.

P. — Confirmas o que foi dito, isto é, que não haverá cataclismos?

R. — Sem dúvida, não tendes que temer nem um dilúvio, nem o abrasamento do vosso planeta, nem outros fatos desse gênero, porquanto não se pode denominar cataclismos a perturbações locais que se têm produzido em todas as épocas. Apenas haverá um cataclismo de natureza moral, de que os homens serão os instrumentos. (12 de maio de 1856 - Obras Póstumas)

O que pervaga pelo Movimento Espírita são indivíduos que desejam os holofotes e correm atrás de fama e de dinheiro advindos da exposição desses relatos confusos e fantasiosos, mui habilmente engendrados, em meio a discursos repletos de palavras bonitas e lugares comuns. Atentemos a isso e assim colaboraremos para uma divulgação séria desse colosso que é o Espiritismo. Essa é a parte que cabe a todos nós.

Fonte: Blog Ramatis, Sábio ou Pseudossábio? - http://espiritismoxramatisismo.blogspot.com.br/2012/03/chico-xavier-e-as-confusoes.html

quinta-feira, 22 de março de 2012

Magazine "Bom Ânimo" analisa a obra "Breve História do Espiritismo"

O livro Breve História do Espiritismo, de autoria do jornalista e turismólogo Fabiano Vidal, é divulgado e analisado no magazine eletrônico "Bom Ânimo", produzido, editado e distribuído  pelo Grupo de Estudos Espíritas e Evangelho no Lar - Irmãos Hansenianos, cuja coordenação editorial é da jornalista Carmem Paiva de Barros.

Leia a análise feita pelo jornalista Carlos Barros:



Para baixar o magazine "Bom Ânimo", clique aqui.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Doctrina Espirita Y Racismo


Por Sergio Aleixo 

Una causa con ciertos tipos de amigos no precisaría enemigos. Reducir el nivel de  oportunidades del Espiritismo  a su aspecto moral es mal conocerlo. A eso bien respondió  Kardec en su artículo Lo que Enseña el Espiritismo, en el cual prueba que,  fuera de la enseñanza puramente moral, los resultados  del Espiritismo  no son tan estériles como pretenden algunos. [1]  El maestro les es, por eso, incomodo permanente, razón por la cual siempre buscan levantarle flaquezas, con el fin de hacer minar el poder que su obra, y solo ella, tiene de conferir al Espiritismo  unidad consistente, apartándolo de las propuestas en que vale casi todo si en nombre del “amor”, el pretendido error livianamente explorado es supuesto racismo de Kardec, más como podría ser propiamente un racista alguien que escribió, por ejemplo esto:

[…] El Espiritismo, restituyendo al espíritu su verdadero papel en la creación, constatando la superioridad de la inteligencia sobre la materia, hace que desaparezcan, naturalmente,   todas las distinciones establecidas entre los hombres, conforme las ventajas corporales y mundanas, sobre las cuales solo el orgulloso fundo las castas y los estúpidos preconceptos del color.  
[2] […] del estudio de los seres espirituales resalta la prueba de que esos seres sonde naturaleza y de origen  idénticos, que su destino es el mismo, que todos parten desde el mismo punto de origen  y tienden al mismo objetivo; que la vida corporal no pasa de un incidente , de una de las fases del espíritu, necesaria para su adelantamiento intelectual y moral; que en vista de ese avance el espíritu puede sucesivamente revestir diversos envoltorios, nacer en posiciones diferentes, se llega a la consecuencia capital de la igualdad de la naturaleza y, a partir de ahí, a la igualdad de los derechos sociales de todas las criaturas humanas  a la abolición de los privilegios de razas. Es lo que enseña el Espiritismo. [3] 
Sin embargo, se debe considerar que, en el siglo 19, el concepto de raza tenía status de ciencia, siendo llamada blanca, o caucásea, tenida y habida por superior. Naturalistas y hasta abolicionistas pensaban así. El más polémico de todos los escritos apuntados por los detractores de Kardec que incluso de público, el o que decía a cierta altura:
El negro puede ser bello para el negro, como un gato es bello para un gato; más no es bello en el sentido absoluto, porque sus trazos groseros, sus  labios espesos acusan la materialidad de los instintos; pueden exprimir  las pasiones violentas, más no pueden prestarse a evidenciar los delicados matices del sentimiento, ni las modulaciones de un espíritu fino. [4] 
No en tanto, se omite el parágrafo siguiente, en el que la pretendida condición superior de aquella generación fue duramente relativizada por el maestro espirita, dando prueba de que se trataba, en el,  no de preconcepto o discriminación, más si de una inferencia impregnada de la opinión científica de aquel momento, típicamente euro céntrico:
De ahí podremos, sin fatuidad, quiso, decirnos más bellos de lo que los negros  y los hotentotes. Más, también puede ser que, para las generaciones futuras, mejoradas, seamos lo que son los hotentotes con relación a nosotros. y quien sabe si, cuando encuentren nuestros fósiles , ellos no lo  tomaran por los de alguna especie de animales. [5] 
Argumenta un hermano en el Espiritismo que el error fue  el de Kardec haber usado un ejemplo contemporáneo. Si escribiese “hombre neandertal” en vez de “negros y hotentotes” nada se diría. Concuerdo. ¿O será que el trabajo de los espíritus no mejora los instrumentos de que se sirven a lo largo de los milenios?  Eso, claro, no tiene valor puntual. Una persona “fea” no es dueña, a priori, de un espíritu involucionado, ni una persona “bonita” es la encarnación de un espíritu necesariamente avanzado. Kardec defendía, ante de todo, que la evolución de los espíritus opera la evolución de los cuerpos; ¿o será aun mismo casual las mutaciones adaptivas? ¿Tienen alguna parte los espíritus en eso?
10. […]el cuerpo es simultáneamente el envoltorio y el instrumento del espíritu y, a la medida que este adquiere nuevas aptitudes, reviste un envoltorio adecuado al nuevo género de trabajo que debe realizar, así como se da a un operario herramientas menos groseras, a la medida que el es capaz de hacer una obra más delicada.   
11. Para ser más exacto, es preciso decir que es el propio espíritu el que modela su envoltorio, adecuándolo a sus nuevas necesidades. El perfecciona, desenvuelve y completa su organismo a la medida que experimenta la necesidad  de manifestar nuevas facultades; en una palabra, el lo talla de acuerdo con su inteligencia. Dios le ofrece los materiales, cabiendo a él emplearlos. Es así que las razas más adelantadas tienen un organismos, u si prefieren, una herramienta más perfeccionada que las razas más primitivas. Así también se explica el cuño especial que el carácter del espíritu imprime a los trazos fisionómicos y a las líneas de cuerpo […]  
15. […]  Los cuerpos de los macacos pueden muy bien  haber servido de vestimenta a los primeros espíritus humanos, necesariamente poco adelantados, que han venido a encarnar en la Tierra, esas vestimentas fueron las más apropiadas  para sus necesidades y más adecuadas al ejercicio de sus facultades que el cuerpo de cualquier otro animal. Al revés de ser hecha una  vestimenta especial para el espíritu, el habría hallado una pronta. Se vistió entonces con la piel de macaco, sin dejar de ser espíritu humano, así como el hombre,  no raro, se viste con la piel de ciertos animales sin por eso dejar de ser hombre.  
16. […]se puede decir que, bajo la influencia  y por efecto de la actividad intelectual de su nuevo habitante, el envoltorio se modifico, se embelleció en los detalles, conservando siempre la forma general del conjunto.los cuerpos perfeccionados, al procrearse, se reproducirán en las mismas condiciones […][6]
Otra  censura es la que acostumbra  llegar  el presidente espiritual de la Sociedad Parisiense de Estudios Espiritas: San Luis. Antes de todo, se sabe que, en la S.P.E.E, era frecuente los guías comunicarse  por médiums distintos y en épocas diferentes. La respuesta de San Luis puede haber sido  basada en la forma enfatizada por la imperfección del trabajo de un solo de esos médiums. Seria precipitado malsinar el espíritu con base en esa única situación, sin evidencia  de eso corresponder, en el, a un padrón inferior cualquiera.

En la evocación del “negro Padre Cesar”, [7] por otra parte, el médium actúa como intermediario de  dos espíritus: San Luis, que auxilia en las respuestas, y el Padre Cesar, sometido a esa ayuda. Existe la posibilidad de él l médium no haber filtrado bien los recados, o haberlos entrecruzados. La opinión a lo demás, de que la blancura se refería  a la superioridad es, allí,  no de San Luis, más si del Padre cesar, y aun así, no por cuenta del color blanco en sí, más si de las relaciones de poder en aquella sociedad.

El Espíritu llega a decir que estaba más feliz que en la Tierra porque su espíritu no era más negro; esto es, por no estar sujeto a las humillaciones aquí sufridas, no siendo el espíritu rico o pobre, hombre o mujer, viejo o joven, negro o blanco. Todavía, en una inesperada interferencia, dada su condición, afirmo el Padre Cesar  que los blancos eran orgullosos de una  “blancura” de la que no eran causa. Parece más  San Luis, ahí, que el Padre Cesar.

De cualquier forma, causa extrañeza la respuesta  al n. 9:
“[a San Luis].- ¿La raza negra es de hecho una raza inferior? Respuesta. _ La raza negra desaparecerá de la Tierra. Fue hecha para una latitud diferente de la vuestra”. [8] Ahora ya pareció más el Padre Cesar algo frustrado con su encarnación anterior  a la de San Luis, el cual responde así a la última pregunta de Kardec:  
12. [A San Luis]. - ¿Algunas veces los blancos reencarnan en cuerpos negros? Respuesta. – Si. Cuando, por ejemplo un señor maltrato a un esclavo, puede acontecer que pida, como expiación, para vivir en el cuerpo de un negro, con el fin de sufrir, por si mismo, lo que hizo padecer a los otros, progresando por ese medio  y obteniendo el perdón de Dios. [9]
No hace mucho , apareció “Nota Explicativa” de la Federación Espirita Brasileña repeliendo cualquier posibilidad de  interferencia discriminatoria o pre conceptuosa en la doctrina espirita  bien entendida; fue motivada, con todo, por actuación del Ministerio Público Federal. A.F.E.B.   la data venia, siempre fue más dedicada a consignar notas que contesten a Kardec, como la que corresponde a la Génesis, XV, 66, en la cual defiende el rustenismo en el momento en el que Kardec  lo sepultaba. Es, pues, la nota de la F: E. B. al título de la “Nota Explicativa”, esclareciendo la situación  de la obra:
Nota de la editora:  esta “Nota Explicativa”, publicada en  cara al acuerdo con el Ministerio Público Federal, tiene por objetivo demostrar la ausencia de cualquier discriminación o preconcepto en algunos trechos de las obras de Allan Kardec, caracterizadas, todas, por la sustentación de los principios de fraternidad y solidaridad  cristiana, contenido en la Doctrina Espirita. [10] 
Dada la relevancia del asunto, todavía, es de lamentarse que las referencias de las citaciones de la Revista Espirita en esa Nota Explicativa febiano  hayan sido registradas  algo descuidadamente. De las cinco citaciones directas de la Revista, ninguna es vinculada al tópico a que corresponde y solo dos indican el mes, lo que dificulta  sobremanera encontrarlas, y las demás, en los libros de otras editoras. Por señal, uno de los textos  fue reproducido sin mención al número de su página en las ediciones de la propia  F.E.B, y, aun, reportándose al mes errado. Donde se lee: “enero de 1863”, léase: p. 87, febrero de 1863”:
Nosotros trabajamos para dar fe a los que en nada creen; para esparcir una creencia que los torna mejores  unos para los otros, que les enseña a perdonar a los enemigos, a mirarse como hermanos, sin distinción de raza, casta, secta, color, opinión política o religiosa; en una palabra, una creencia que hace nacer el verdadero sentimiento de caridad, de fraternidad y deberes sociales. [11] 
Otro escrito significativo de Kardec a respecto es lo que paso a transcribir en su integridad,  sin negligencia el parágrafo final, inexistente en las ediciones fabianas y congéneres y, por consiguiente, en su citación constante de la Nota Explicativa de F. E. B.
Con la reencarnación desaparecen los preconceptos de razas de clases, pues el mismo espíritu puede renacer rico o pobre, gran señor o proletario, jefe o subordinado, libre o esclavo, hombre o mujer. De todos los argumentos invocados contra la injusticia de la servidumbre y de la esclavitud, contra la sujeción de la mujer a la ley del más fuerte, ninguno hay que supere en lógica el hecho material de la reencarnación. Si, pues, la reencarnación fundamenta sobre una ley  de la naturaleza, el principio de la fraternidad universal, ella fundamenta sobre la misma ley el principio de igualdad de los derechos sociales y, por consecuencia, el de la libertad.
Los hombres solo nacen inferiores y subordinados por el cuerpo; por el espíritu ellos  son iguales y libres. De ahí el deber de tratar  a los inferiores con bondad, benevolencia y humildad, porque aquel que hoy  es nuestro subordinado puede haber sido nuestro igual o nuestro superior, puede ser un pariente o un amigo, y nosotros, por nuestra vez, podemos  venir a ser subordinados de aquel que hoy comandamos. [12] 
Por tanto, la acusación de racismo a Kardec y al Espiritismo nunca podrá superar el vivió de anacronismo. Bajo ese punto de vista, Kardec no sería más racista de lo que cualquier europeo de su tiempo, sin embargo, con esta ventaja soberbia: si los errores de la ciencia de época  lo autorizaron  a creer en razas primitivas y que podemos nacer inferiores y subordinados por el cuerpo, a eso nunca dejo de contraponer la medida libertaria del pensamiento espirita, esto es, por el espíritu somos iguales y libres, no somos hombres o mujeres, niños o viejos, ricos o pobres, blancos o negros, lo que el acabo llevando a la defensa contundente, como se vio, de la igualdad de los derechos sociales de todas las criaturas humanas y de la abolición de los privilegios de razas.

Con los avances de la biogenética, está demostrado que no existen genes raciales en la especie humana. Somos, claro, más evolucionados biológicamente que nuestros ascentrales antropoides. Esta, es la única evolución, admitida además por la ciencia. Caso se hable de  una evolución  espiritual, moral, o aun mismo cultural, es ignorado o reprendido, porque el espíritu, o la reencarnación, aun son irrelevantes para la ciencia, así como Dios. Entretanto,  los espiritas por definición, no podemos hablar y pensar como agnósticos, ateos, materialistas, nihilistas. Si, por un lado, el Espiritismo nos impone acompañar a la ciencia en aquello que particularmente a esta dice respecto, nos está prohibido descuidar el propio Espiritismo en lo que a este compete exclusivamente.

Por eso, decimos hoy, los espiritas, que no hay razas humanas, menos aun inferiores o superiores, de común acuerdo en esto con la ciencia, más si igualmente afianzamos que, si, los espíritus, mediante la reencarnación, constituyen los artífices de la evolución biológica. Las mutaciones que dejan por seleccionar los más aptos no son casualmente adaptivas. Como decía el maestro espirita por excelencia: “Un acaso inteligente ya no sería acaso”. [13] 

Referências:

[1] Revista Espírita. Ago/1865.

[2] Revista Espírita. Out/1861. Discurso do Sr. Allan Kardec. F.E.B., 2007, 3.ª ed., p. 432.

[3] Revista Espírita. Jun/1867. Emancipação das Mulheres nos Estados Unidos. F.E.B., 2007, 2.ª ed, p. 231.

[4] Obras Póstumas. Teoria da Beleza. F.E.B., 2002, 32.ª ed., p. 168.

[5] Id., ibid. Grifo meu.

[6] KARDEC. A Gênese, XI. Léon Denis Gráfica e Editora, 2008, 2.ª ed., pp. 235/36 e 237.

[7] No francês: “le nègre Pa César”.

[8] Revista Espírita. Jun/1859. O negro Pai César. F.E.B., 2007, 3.ª ed., p. 245.

[9] Id., ibid.

[10] Revista Espírita. ANO I. 1858. F.E.B., 2009, 4.ª ed., p. 537.

[11] KARDEC. Revista Espírita. Fev/1863. A Loucura Espírita. F.E.B., 2007, 3.ª ed., p. 87.

[12] KARDEC. A Gênese, I, 36. Léon Denis Gráfica e Editora, 2.ª ed., 2008. Com base na 4.ª ed. francesa.

[13] O Livros dos Espíritos. Comentário ao n. 8.


Tradução: Mercedes Cruz

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Fonte: Ensaios da Hora Extrema - http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com.br/2012/03/doutrina-espirita-e-racismo.html

El Magnetismo en los tiempos modernos - El Pase


Por Maria Ribeiro

A la medida que el hombre se intelectualiza, su vanidad por el mucho saber  lo torna orgulloso de si mismo; entonces pasa a negar todo y, de la misma forma ciega que antes aceptaba las creencias más absurdas, lo hace repeler ahora ideas sin examen y sin criterios.

Pase es nombre dado al procedimiento de transición energética, que bajo el nombre de magnetismo, fue estudiado por el eminente científico Mesmer, cuyos efectos son conocidos desde tiempos remotos por varias creencias. Es conocido en otras corrientes espiritualistas, no necesariamente obedeciendo a las mismas dinámicas, se dice que el pase es un poderoso método terapéutico.

Esta transmisión energética se da a través de lo que Kardec llamó magnetismo común, donde tanto puede ocurrir un efecto rápido como lento exigiendo algunas aplicaciones durante sesiones continuadas. Esta es la manera comúnmente empleada en las salas de pases. En las entrelineas, Kardec dice  que todos tienen el poder, llamado magnetismo  humano cuya acción depende de la potencia y de la calidad imprimida a los fluidos del magnetizador, o en lenguaje generalmente  utilizado del médium pasista, o simplemente pasista.

La segunda descrita por Kardec es magnetismo espiritual, o sea, fluido de los Espíritus, cuya actuación es “directa y sin intermediarios sobre un encarnado, sea para  curar o calmar un sufrimiento, sea para provocar el sueño sonambúlica espontaneo, sea para ejercer sobre el individuo una influencia física o moral cualquiera”, y las cualidades de estos fluidos dependen de las del Espíritu actuante.

El magnetismo mixto, o semi espiritual se trata de la mezcla de los fluidos de los Espíritus con los de la persona que hace las veces de magnetizador.

Kardec aun esclarece que es posible desenvolver la facultad de curar por la influencia fluídica; y aun acentúa "que estas especies de curas reposan sobre un principio natural”(ítem 34 – cap.XIV) 

En el capitulo siguiente el insigne Maestro lionés trata de los milagros descritos en los Evangelios, y el subtitulo –Curas – se repite, esta vez para ilustrar con ejemplos prácticos que anteriormente describiera teóricamente.

 Sobre la cura de la mujer hemorroisa el concluye:

“La Irradiación fluídica normal fue suficiente para operar la cura “no habiendo ocurrido magnetización, ni imposición  de manos, ósea, la energía  no fue conscientemente  dirigida para aquella mujer, más ella misma la atrajo. “El fluido, siendo dado como materia terapéutica, debe atender al desorden orgánico para reparar, puede ser dirigido sobre el mal por la voluntad del curador o atraído por el deseo ardiente, la confianza, en una palabra, por la fe del enfermo.(…) la fe es una virtud mística, como ciertas personas entienden, más es una verdadera fuerza atractiva…

En otras palabras, el enfermo deseoso de recobrar la salud, crea para sí un campo receptivo para fluidos que lo puedan beneficiar. Los mecanismos por los que esto se opera huyen a la observación, una vez que nos e tiene  una conciencia espirita. Los equipamientos actuales de diagnostico por imagen tal vez pudiesen auxiliar si hubiese grupos interesados en captar procesos como el que se describió, ahí se podría comprobar científicamente lo que apenas por deducciones más o menos  lógicas se arriesga afirmar.

La visión del ciego de Betsaida fue restituida gradualmente, no porque Jesús no pudiese hacerla espontanea, más si tal vez por causa de las circunstancias o porque quisiese hacer observar que no todo ocurre en el tiempo que la criatura quiere, pues precisa aprender a esperar y esperar con paciencia y la misma fe ardiente, sin esmorecer.

Las curas existen, es un hecho comprobado por la Doctrina Espirita en las sabias palabras de su Codificador. Si la Medicina  no reúne objetos que puedan corroborar  con la teoría Espírita, es necesario aguardar que el tiempo  madure las simientes.

Bien, decir que es posible realizar curas a través de las acciones magnéticas es diferente de acreditar que ellas puedan ocurrir en todo momento y con todas las personas.  Si fuese así, la justicia Divina estaría impedida de actuar, ya que independientemente  de las circunstancias, siempre habría cura para cualquier mal físico, desde el resfriado hasta el sida. Solo la ingenuidad  y la superstición, sumadas al desconocimiento del Espiritismo, depositan fe en este frenesí.

Procedimientos como: pedir que la persona que va a recibir el pase extienda las manos (generalmente sobre los ojos); pedir que fije los ojos o que se concentre, o que piense en Jesús; ofrecer indiscriminadamente el agua fluidificada después del pase; realizar maniobras extravagantes como crepitar de dedos; excesivo sincronismo entre los pasistas, solo tornan una medida que es toda natural, en un espectáculo perfectamente dispensable.

Se analiza: las personas que se someten a entrar en la sala de pase deben ser previamente advertidas que el barullo interfiere en la concentración. Se presupone que los que quieran recibir algún beneficio ciertamente van a pensar en Jesús y pedir íntimamente con fervor. Beneficio que vendrá independientemente de la posición en que estén las manos; si no viniera será por otras razones. El hecho de los pasistas iniciar al mismo tiempo hace que algunos de ellos quede esperando que los otros terminen; el objetivo es que las personas sean al mismo tiempo disminuyendo el tumulto.(¿) sacudir los dedos como si expulsase los “malos Fluidos” o “fluidos pesados” es materializar demasiado las cosas. Ofrecer agua fluidificada a todo el mundo después del pase, más allá de banalizar algo muy serio, evidencia que no todos consiguen liberarse fácilmente de los ritualismos.

Se acrecienta a esto, la recomendación de la abstención de alimento animal, con énfasis para la carne, pues, dicen, ella interfiere negativamente en los fluidos del donador. Bien, por ser un entendido en la cuestión del Magnetismo, Kardec reveló más interés en ocuparse con detalles realmente importantes, prefirió optar por la lógica – el fluido es fluido, materia es materia, y dejo  para los Espíritus burlones la tarea de brincar con la fe deslumbrada de los incautos.

Ante lo expuesto, se percibe que el estudio serio  y continuado de la Doctrina de los Espíritus  ha estado ausente en el movimiento espirita. Es posible constatar que pretensiosos estudiosos incurren en errores primarios sobre muchos puntos, inclusive sobre este, y terminan en querer imponer la visión particular desprovista de respaldo  doctrinario, lo que acaba haciendo que adquieran discípulos, tan mal informados como ellos mismos.

Tradução: Mercedes Cruz
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terça-feira, 20 de março de 2012

Doutrina Espírita e Racismo

08:55 Posted by O Blog dos Espíritas , , , , No comments

Por Sérgio Aleixo

Uma causa com certos tipos de amigos não precisaria de inimigos. Reduzir o nível de oportunidade do Espiritismo ao seu aspecto moral é mal conhecê-lo. A isso já bem respondera Kardec em seu artigo O Que Ensina o Espiritismo, no qual prova que, fora do ensinamento puramente moral, os resultados do Espiritismo não são tão estéreis quanto pretendem alguns.[1] O mestre lhes é, por isso, um incômodo permanente, razão pela qual sempre buscam levantar-lhe fraquezas, a fim de tentarem minar o poder que sua obra, e só ela, tem de conferir ao Espiritismo unidade consistente, afastando-o das propostas em que vale quase tudo se em nome do “amor”. O pretenso erro mais levianamente explorado é o suposto racismo de Kardec. Mas como poderia ser propriamente um racista alguém que escreveu, por exemplo, isto:
[...] o Espiritismo, restituindo ao espírito o seu verdadeiro papel na criação, constatando a superioridade da inteligência sobre a matéria, faz que desapareçam, naturalmente, todas as distinções estabelecidas entre os homens, conforme as vantagens corporais e mundanas, sobre as quais só o orgulho fundou as castas e os estúpidos preconceitos de cor.[2] 
[...] do estudo dos seres espirituais ressalta a prova de que esses seres são de natureza e de origem idênticas, que seu destino é o mesmo, que todos partem do mesmo ponto e tendem para o mesmo objetivo; que a vida corporal não passa de um incidente, uma das fases da vida do espírito, necessária ao seu adiantamento intelectual e moral; que em vista desse avanço o espírito pode sucessivamente revestir envoltórios diversos, nascer em posições diferentes, chega-se à consequência capital da igualdade de natureza e, a partir daí, à igualdade dos direitos sociais de todas as criaturas humanas e à abolição dos privilégios de raças. Eis o que ensina o Espiritismo.[3]
Porém, deve-se considerar que, no século 19, o conceito de raça tinha status de ciência, sendo a chamada branca, ou caucásia, tida e havida por superior. Naturalistas e até abolicionistas pensavam assim. O mais polêmico de todos os escritos pinçados por detratores de Kardec sequer foi por ele publicado, em que dizia a certa altura:
O negro pode ser belo para o negro, como um gato é belo para um gato; mas, não é belo em sentido absoluto, porque seus traços grosseiros, seus lábios espessos acusam a materialidade dos instintos; podem exprimir as paixões violentas, mas não podem prestar-se a evidenciar os delicados matizes do sentimento, nem as modulações de um espírito fino.[4]
No entanto, omite-se o parágrafo seguinte, em que a pretensa condição superior daquela geração foi duramente relativizada pelo mestre espírita, dando prova de que se tratava, nele, não de preconceito ou discriminação, mas de uma inferência impregnada da opinião científica daquele momento, tipicamente eurocêntrico:
Daí o podermos, sem fatuidade, creio, dizer-nos mais belos do que os negros e os hotentotes. Mas, também pode ser que, para as gerações futuras, melhoradas, sejamos o que são os hotentotes com relação a nós. E quem sabe se, quando encontrarem os nossos fósseis, elas não os tomarão pelos de alguma espécie de animais.[5]
Argumenta um irmão em Espiritismo que o erro foi Kardec ter usado um exemplo contemporâneo. Se escrevesse “homens de neanderthal” em vez de “negros e hotentotes”, nada se diria. Concordo. Ou será que o trabalho dos espíritos não aprimora os instrumentos de que se servem ao longo de milênios? Isso, claro, não tem valor pontual. Uma pessoa “feia” não é dona, a priori, de um espírito involuído, nem uma pessoa “bonita” é a encarnação de um espírito necessariamente avançado. Kardec defendia, antes de tudo, que a evolução dos espíritos opera a evolução dos corpos; ou serão mesmo casuais as mutações adaptativas? Parte alguma têm os espíritos nisso?
10. [...] o corpo é simultaneamente o envoltório e o instrumento do espírito e, à medida que este adquire novas aptidões, reveste um envoltório adequado ao novo gênero de trabalho que deve realizar, assim como se dá a um operário ferramentas menos grosseiras, à medida que ele é capaz de fazer uma obra mais delicada. 
11. Para ser mais exato, é preciso dizer que é o próprio espírito que modela o seu envoltório, adequando-o às suas novas necessidades. Ele o aperfeiçoa, desenvolve e completa o seu organismo à medida que experimenta a necessidade de manifestar novas faculdades; em uma palavra, ele o talha de acordo com a sua inteligência. Deus lhe fornece os materiais, cabendo a ele empregá-los. É assim que as raças mais adiantadas têm um organismo, ou, se preferirem, uma ferramenta mais aperfeiçoada do que as raças mais primitivas. Assim também se explica o cunho especial que o caráter do espírito imprime aos traços fisionômicos e às linhas do corpo [...] 
15. [...] Corpos de macacos podem muito bem ter servido de vestimenta aos primeiros espíritos humanos, necessariamente pouco adiantados, que tenham vindo encarnar na Terra, essas vestimentas foram as mais apropriadas às suas necessidades e mais adequadas ao exercício das suas faculdades que o corpo de qualquer outro animal. Ao invés de ser feita uma vestimenta especial para o espírito, ele teria achado uma pronta. Vestiu-se então da pele do macaco, sem deixar de ser espírito humano, assim como o homem, não raro, se veste com a pele de certos animais sem por isso deixar de ser homem. 
16. [...] pode-se dizer que, sob a influência e por efeito da atividade intelectual do seu novo habitante, o envoltório se modificou, embelezou-se nos detalhes, conservando sempre a forma geral do conjunto. Os corpos aperfeiçoados, ao se procriarem, reproduziram-se nas mesmas condições [...][6]
Outra objurgatória é a que costuma atingir o presidente espiritual da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas: São Luís. Antes de tudo, saiba-se que, na S.P.E.E., era frequente os guias se comunicarem por médiuns distintos e em épocas diferentes. A resposta de São Luís pode ter sido vazada na forma infracitada por imperfeição do trabalho de um só desses médiuns. Seria precipitado malsinar o espírito com base nessa única situação, sem evidência de isso corresponder, nele, a um padrão inferior qualquer.

Na evocação do “negro Pai César”,[7] além do mais, o médium atua como intermediário de dois espíritos: São Luís, que auxilia nas respostas, e Pai César, submetido a essa ajuda. Existe a possibilidade de o médium não ter filtrado bem os recados, ou os ter entrecruzado. A opinião, ao demais, de que a brancura conferia superioridade é, ali, não de São Luís, mas do Pai César, e ainda assim, não por conta da cor branca em si, mas das relações de poder naquela sociedade.

O espírito chega a dizer que estava mais feliz que na Terra porque seu espírito não era mais negro; isto é, por não estar mais sujeito às humilhações aqui sofridas, não sendo o espírito rico ou pobre, homem ou mulher, velho ou criança, negro ou branco. Todavia, numa inesperada inferência, dada sua condição, afirmou o Pai César que os brancos eram orgulhosos de uma “alvura” de que não eram a causa. Parece mais São Luís, aí, do que Pai César.

De qualquer forma, causa estranhamento a resposta ao n. 9: 
“[A São Luís]. – A raça negra é de fato uma raça inferior? Resp. – A raça negra desaparecerá da Terra. Foi feita para uma latitude diversa da vossa”.[8] Agora já pareceu mais Pai César algo frustrado com sua encarnação anterior do que São Luís, o qual responde assim à última pergunta de Kardec: 
12. [A São Luís]. – Algumas vezes os brancos reencarnam em corpos negros? Resp. – Sim. Quando, por exemplo, um senhor maltratou um escravo, pode acontecer que peça, como expiação, para viver num corpo de negro, a fim de sofrer, por sua vez, o que fez padecer os outros, progredindo por esse meio e obtendo o perdão de Deus.[9]
Não há muito, apareceu “Nota Explicativa” da Federação Espírita Brasileira repelindo qualquer possibilidade de inferência discriminatória ou preconceituosa na doutrina espírita bem entendida; motivada foi, contudo, por atuação do Ministério Público Federal. A F.E.B., data venia, sempre foi mais dedicada a consignar notas que contestem Kardec, como a que corresponde à Gênese, XV, 66, na qual defende o rustenismo no momento mesmo em que Kardec o sepultava. Eis, pois, a nota da F.E.B. ao título da “Nota Explicativa”, esclarecendo a situação da feitura da peça:
Nota da Editora: Esta “Nota Explicativa”, publicada em face de acordo com o Ministério Público Federal, tem por objetivo demonstrar a ausência de qualquer discriminação ou preconceito em alguns trechos das obras de Allan Kardec, caracterizadas, todas, pela sustentação dos princípios de fraternidade e solidariedade cristãs, contidos na Doutrina Espírita.[10]
Dada a relevância do assunto, todavia, é de se lamentar que as referências das citações da Revista Espírita nessa Nota Explicativa febiana hajam sido registradas algo descuidadamente. Das cinco citações diretas da Revista, nenhuma é vinculada ao tópico a que corresponde e só duas indicam o mês, o que dificulta sobremodo encontrá-las, e às demais, nos volumes de outras editoras. Por sinal, um dos textos foi reproduzido sem menção ao número de sua página nas edições da própria F.E.B. e, ainda, reportando-se ao mês errado. Onde se lê: “janeiro de 1863”, leia-se: “p. 87, fevereiro de 1863”:
Nós trabalhamos para dar a fé aos que em nada crêem; para espalhar uma crença que os torna melhores uns para os outros, que lhes ensina a perdoar aos inimigos, a se olharem como irmãos, sem distinção de raça, casta, seita, cor, opinião política ou religiosa; numa palavra, uma crença que faz nascer o verdadeiro sentimento de caridade, de fraternidade e deveres sociais.[11]
Outro escrito significativo de Kardec a respeito é o que passo a transcrever na sua íntegra, sem negligenciar o parágrafo final, inexistente nas edições febianas e congêneres e, por conseguinte, na sua citação constante da Nota Explicativa da F.E.B.:
Com a reencarnação desaparecem os preconceitos de raças e de classes, pois que o mesmo espírito pode renascer rico ou pobre, grande senhor ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão e da escravidão, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, nenhum há que supere em lógica o fato material da reencarnação. Se, pois, a reencarnação fundamenta sobre uma lei da natureza, o princípio da fraternidade universal, ela fundamenta sobre a mesma lei o princípio da igualdade dos direitos sociais e, por consequência, o da liberdade. 
Os homens só nascem inferiores e subordinados pelo corpo; pelo espírito eles são iguais e livres. Daí o dever de tratar os inferiores com bondade, benevolência e humanidade, porque aquele que hoje é nosso subordinado pode ter sido nosso igual ou nosso superior, pode ser um parente ou um amigo, e nós, por nossa vez, podemos vir a ser o subordinado daquele que hoje comandamos.[12]
Portanto, a acusação de racismo a Kardec e ao Espiritismo nunca poderá superar o vício do anacronismo. Sob esse ponto de vista, Kardec não seria mais racista do que qualquer europeu de seu tempo, porém, com esta vantagem soberba: se os erros da ciência de época o autorizaram a crer em raças primitivas e que podemos nascer inferiores e subordinados pelo corpo, a isso nunca deixou de contrapor a medida libertária do pensamento espírita, isto é, pelo espírito somos iguais e livres, não somos homens ou mulheres, crianças ou velhos, ricos ou pobres, brancos ou negros, o que o acabou levando à defesa contundente, como se viu, da igualdade dos direitos sociais de todas as criaturas humanas e da abolição dos privilégios de raças.

Com os avanços da biogenética, demonstrado está não existirem genes raciais na espécie humana. Somos, claro, mais evoluídos biologicamente que nossos ancestrais antropoides. Esta, a única evolução, aliás, admitida pela ciência. Caso se fale numa evolução espiritual, moral, ou mesmo cultural, é-se ignorado ou repreendido, porque o espírito, ou a reencarnação, ainda são irrelevantes para a ciência, assim como Deus. Entretanto, espíritas por definição, não podemos falar e pensar como agnósticos, ateus, materialistas, niilistas. Se, por um lado, o Espiritismo nos impõe acompanhar a ciência naquilo que particularmente a esta diz respeito, é-nos interdito negligenciar o próprio Espiritismo no que a este compete exclusivamente.

Por isso, dizemos hoje, os espíritas, que não há raças humanas, menos ainda inferiores ou superiores, de comum acordo nisto com a ciência, mas igualmente afiançamos que, sim, os espíritos, mediante a reencarnação, constituem os artífices da evolução biológica. As mutações que findam por selecionar os mais aptos não são casualmente adaptativas. Como dizia o mestre espírita por excelência: “Um acaso inteligente já não seria acaso”.[13]

Referências:
[1] Revista Espírita. Ago/1865.
[2] Revista Espírita. Out/1861. Discurso do Sr. Allan Kardec. F.E.B., 2007, 3.ª ed., p. 432.
[3] Revista Espírita. Jun/1867. Emancipação das Mulheres nos Estados Unidos. F.E.B., 2007, 2.ª ed, p. 231.
[4] Obras Póstumas. Teoria da Beleza. F.E.B., 2002, 32.ª ed., p. 168.
[5] Id., ibid. Grifo meu.
[6] KARDEC. A Gênese, XI. Léon Denis Gráfica e Editora, 2008, 2.ª ed., pp. 235/36 e 237.
[7] No francês: “le nègre Pa César”.
[8] Revista Espírita. Jun/1859. O negro Pai César. F.E.B., 2007, 3.ª ed., p. 245.
[9] Id., ibid.
[10] Revista Espírita. ANO I. 1858. F.E.B., 2009, 4.ª ed., p. 537.
[11] KARDEC. Revista Espírita. Fev/1863. A Loucura Espírita. F.E.B., 2007, 3.ª ed., p. 87.
[12] KARDEC. A Gênese, I, 36. Léon Denis Gráfica e Editora, 2.ª ed., 2008. Com base na 4.ª ed. francesa.
[13] O Livros dos Espíritos. Comentário ao n. 8.

Fonte: Ensaios da Hora Extrema - http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com.br/2012/03/doutrina-espirita-e-racismo.html