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sábado, 31 de maio de 2014

Fenômeno de transfiguração

Por Allan Kardec

Revista Espírita, Março de 1859

O fato que se segue foi extraído de uma carta que em setembro de 1857 recebemos de um dos nossos correspondentes em Saint-Etienne. Depois de falar de várias comunicações de que foi testemunha, ele acrescenta:

“Fato dos mais admiráveis se passa numa das famílias de nossas relações. Das mesas girantes passaram à poltrona que fala; depois um lápis foi fixado ao pé da poltrona e ela indicou a psicografia; praticaram-na durante muito tempo, mais como distração do que como coisa séria. Por fim a escrita designou uma das moças da casa e ordenou que lhe passassem as mãos sobre a cabeça, depois de fazê-la deitar-se. Ela adormeceu quase imediatamente e depois de um certo número de experiências, transfigurou-se. A moça tomava os traços, a voz e os gestos de parentes mortos; dos avós que jamais havia visto e de um irmão falecido há alguns meses. As transfigurações ocorriam sucessivamente na mesma sessão. Ela falava um dialeto que não é o de nossa época, segundo me disseram, pois não conheço o atual nem o outro. O que posso afirmar é que numa sessão onde havia tomado a aparência de seu irmão, vigoroso, folgazão, me deu essa jovem de treze anos um rude aperto de mão.

Há aproximadamente 18 meses a dois anos o fenômeno se repete constantemente e da mesma maneira, com a única diferença que agora se produz natural e espontaneamente, sem imposição de mãos”.

Embora bastante raro, este fenômeno não é excepcional. Já nos falaram de diversos casos semelhantes e nós mesmo testemunhamos algo parecido em sonâmbulos no estado de êxtase, bem como nalguns estáticos que não se encontravam em estado sonambúlico. Por outro lado, é certo que as emoções violentas operam uma mudança na fisionomia, dando-lhe uma expressão completamente diferente daquela do estado normal. Não vemos, também, criaturas cujos traços móveis se prestam, de acordo com a vontade, a modificações que lhes dão a aparência de outras pessoas? Vemos por aí que a rigidez da face não é tal que não possa prestar-se a modificações passageiras mais ou menos profundas. Nada há, pois, de admirar que um fato semelhante possa ocorrer neste caso, quiçá por uma causa independente da vontade.

Eis as respostas que a respeito disto obtivemos de São Luís na sessão da Sociedade no dia 25 de fevereiro último.

1. ─ O caso de transfiguração de que acabamos de falar é verdadeiro?

─ Sim.

2. ─ Nesse fenômeno existe um efeito material?

─ O fenômeno de transfiguração pode dar-se de modo material, a tal ponto que as suas diversas fases poderiam ser reproduzidas em daguerreotipia.

3. ─ Como se produz esse efeito?

─ A transfiguração, como o entendeis, não passa de uma modificação da aparência, uma mudança ou uma alteração dos contornos, que pode ser produzida pela ação do próprio Espírito sobre o seu envoltório ou por uma influência exterior. O corpo nunca muda, mas, por força de uma contração nervosa, reveste aparências diversas.

4. ─ Podem os espectadores ser enganados por uma falsa aparência?

─ Pode também acontecer que o perispírito represente o papel que bem conheceis. No caso citado houve contração nervosa, muito ampliada pela imaginação. Aliás, esse fenômeno é muito raro.

5. ─ O papel do perispírito seria análogo ao que ocorre nos fenômenos de bicorporeidade?

─ Sim.

6. ─ Então nos casos de transfiguração é necessário que haja um desaparecimento do corpo real, de modo que os espectadores não vejam senão o perispírito sob forma diferente?

─ Não propriamente desaparecimento físico, mas oclusão. Entendei-vos sobre os vocábulos.

7. ─ Do que acabais de dizer parece podermos concluir que no fenômeno de transfiguração pode haver dois efeitos: I ─ alteração dos traços do corpo real, por força de uma contração nervosa; II ─ aparência variável do perispírito, tornado visível. É isso mesmo?

─ Certamente.

8. ─ Qual a causa primeira desse fenômeno?

─ A vontade do Espírito.

9. ─ Todos os Espíritos podem produzi-lo?

─ Não. Os Espíritos nem sempre podem fazer o que querem.

10. ─ Como explicar a força anormal dessa moça, transfigurada na pessoa de seu irmão?

─ Não possui o Espírito uma grande força? Aliás, é a do corpo em seu estado normal.

OBSERVAÇÃO: Este fato nada tem de surpreendente. Muitas vezes vemos pessoas muito fracas, dotadas momentaneamente de uma força prodigiosa, devida a uma superexcitação. 

11. ─ Desde que, no fenômeno de transfiguração, o olho do observador pode ter uma imagem diferente da realidade, dar-se-á o mesmo em certas manifestações físicas? Por exemplo: quando uma mesa se ergue sem contato das mãos e a vemos acima do solo, é realmente a mesa que se desloca?

─ Ainda perguntais?

12. ─ O que a levanta?

─ A força do Espírito. 

OBSERVAÇÃO: Este fenômeno já foi explicado por São Luís e dele tratamos de modo completo nos números de maio e junho de 1858, a propósito da teoria das manifestações físicas. Disseram-nos que neste caso a mesa ou qualquer outro objeto que se move está animado de uma vida factícia momentânea que lhe permite obedecer à vontade do Espírito.

Algumas pessoas quiseram ver no fato uma simples ilusão de óptica que, por uma espécie de miragem, as faria ver uma mesa no espaço, quando realmente ela estava no solo. Se assim fosse, a coisa não seria menos digna de atenção. É curioso como aqueles que querem contestar ou criticar os fenômenos espíritas expliquem-nos por causas que também seriam verdadeiros prodígios e igualmente difíceis de compreender. Mas por que tratar o assunto com tanto desdém? Se a causa que apontam é real, por que não aprofundá-la? O físico procura conhecer a causa do menor movimento da agulha magnética; o químico, da mais ligeira mudança na atração molecular[1]. Por que, então, ver com indiferença fenômenos tão estranhos como esses de que falamos, quer sejam eles consequência de simples desvio do raio visual, quer uma nova aplicação das leis conhecidas? Isto não é lógico.

Certamente não seria impossível que por um efeito de óptica análogo ao que nos faz ver um objeto na água mais alto do que realmente está, por causa da refração dos raios luminosos, uma mesa nos parecesse no espaço quando estivesse no solo. Há, porém, um fato que resolve definitivamente o problema. É quando a mesa cai ruidosamente no chão e se quebra. Isto não parece uma ilusão de óptica.

Voltemos à transfiguração.

Se uma contração muscular pode modificar os traços fisionômicos, não o será senão dentro de certos limites; mas certamente se uma mocinha toma a aparência de um velho, nenhum efeito fisiológico lhe faria criar barba. Então devemos procurar uma causa alhures. Recordando quanto dissemos anteriormente a respeito do papel do perispírito em todos os fenômenos de aparição, mesmo de pessoas vivas, compreender-se-á que aí está a chave do fenômeno de transfiguração. Com efeito, desde que o perispírito pode isolar-se do corpo; que pode tornar-se visível; que, por sua extrema sutileza, pode tomar diversas aparências, conforme a vontade do Espírito, concebe-se sem dificuldade que assim se passe com uma pessoa transfigurada: o corpo continua o mesmo; só o perispírito mudou de aspecto. Mas então, perguntareis, em que se torna o corpo? Por que motivo o observador não vê uma imagem dupla, isto é, de um lado o corpo real e do outro o perispírito transfigurado? Fatos estranhos, dos quais falaremos dentro em pouco, provam que por força da fascinação que, em tais circunstâncias, se opera no observador, o corpo real pode, de alguma sorte, ser oculto pelo perispírito.

O fenômeno que é objeto deste artigo já nos foi comunicado há muito tempo. Se dele ainda não havíamos falado é que não nos propomos transformar a nossa Revista em simples catálogo de fatos destinados a alimentar a curiosidade; uma árida compilação sem apreciação e sem comentários. Nossa tarefa seria então muito fácil, mas nós a levamos mais a sério. Antes de mais nada, dirigimo-nos aos homens de raciocínio; àqueles que como nós querem compreender as coisas, tanto mais que isto é possível. Ora, ensinou-nos a experiência que os fatos, por mais estranhos e multiplicados que sejam, não são elementos de convicção. Quanto mais estranhos forem, menos convincentes serão. Quanto mais extraordinário é um fato, tanto mais anormal se nos afigura e menos dispostos estaremos a acreditar. Queremos ver, e tendo visto, ainda duvidamos; desconfiamos de ilusão e de conivência. Já isto não acontece quando para os fatos encontramos uma causa plausível. Vemos diariamente criaturas que atribuíam os fenômenos espíritas à imaginação e à credulidade cega e que hoje são adeptos fervorosos, precisamente porque agora tais fenômenos não lhes repugnam à razão: explicam-nos, compreendem a sua possibilidade e creem, mesmo sem ter visto.

Tendo que falar de certos fatos, deveríamos esperar que os princípios fundamentais estivessem suficientemente desenvolvidos, a fim de compreendermos as suas causas. Entre esses fatos está a transfiguração. Para nós, o Espiritismo é mais do que uma crença: é uma ciência, e nos sentimos felizes por ver que os nossos leitores nos compreenderam.
________________________

[1] No original lemos attraction musculaire, manifesto erro tipográfico, explicável pela reiteração, no texto, do vocábulo muscular, em relação à alteração da fisionomia. Deveria ser a expressão original attraction moléculaire. Trata-se, por outro lado, de um fenômeno de química geral e não de química orgânica, por isso traduzimos atração molecular. (Nota do tradutor)

Nota: Significado de Daguerreotipia - s.f. Processo fotográfico imaginado por Daguerre, e que consistia em fixar numa película de prata pura, aplicada ao cobre, a imagem obtida na câmara escura.

Fonte: IPEAK - http://www.ipeak.com.br/site/busca_janela_conteudo.php?sec=roteiro&id=2666&idioma=1

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Fenômeno de transfiguração

Por Allan Kardec

O fato que se segue foi extraído de uma carta que em setembro de 1857 recebemos de um dos nossos correspondentes em Saint-Etienne. Depois de falar de várias comunicações de que foi testemunha, ele acrescenta:

“Fato dos mais admiráveis se passa numa das famílias de nossas relações. Das mesas girantes passaram à poltrona que fala; depois um lápis foi fixado ao pé da poltrona e ela indicou a psicografia; praticaram-na durante muito tempo, mais como distração do que como coisa séria. Por fim a escrita designou uma das moças da casa e ordenou que lhe passassem as mãos sobre a cabeça, depois de fazê-la deitar-se. Ela adormeceu quase imediatamente e depois de um certo número de experiências, transfigurou-se. A moça tomava os traços, a voz e os gestos de parentes mortos; dos avós que jamais havia visto e de um irmão falecido há alguns meses. As transfigurações ocorriam sucessivamente na mesma sessão. Ela falava um dialeto que não é o de nossa época, segundo me disseram, pois não conheço o atual nem o outro. O que posso afirmar é que numa sessão onde havia tomado a aparência de seu irmão, vigoroso, folgazão, me deu essa jovem de treze anos um rude aperto de mão.

Há aproximadamente 18 meses a dois anos o fenômeno se repete constantemente e da mesma maneira, com a única diferença que agora se produz natural e espontaneamente, sem imposição de mãos”.

Embora bastante raro, este fenômeno não é excepcional. Já nos falaram de diversos casos semelhantes e nós mesmo testemunhamos algo parecido em sonâmbulos no estado de êxtase, bem como nalguns estáticos que não se encontravam em estado sonambúlico. Por outro lado, é certo que as emoções violentas operam uma mudança na fisionomia, dando-lhe uma expressão completamente diferente daquela do estado normal. Não vemos, também, criaturas cujos traços móveis se prestam, de acordo com a vontade, a modificações que lhes dão a aparência de outras pessoas? Vemos por aí que a rigidez da face não é tal que não possa prestar-se a modificações passageiras mais ou menos profundas. Nada há, pois, de admirar que um fato semelhante possa ocorrer neste caso, quiçá por uma causa independente da vontade.

Eis as respostas que a respeito disto obtivemos de São Luís na sessão da Sociedade no dia 25 de fevereiro último.

1. ─ O caso de transfiguração de que acabamos de falar é verdadeiro?

─ Sim.

2. ─ Nesse fenômeno existe um efeito material?

─ O fenômeno de transfiguração pode dar-se de modo material, a tal ponto que as suas diversas fases poderiam ser reproduzidas em daguerreotipia.

3. ─ Como se produz esse efeito?

─ A transfiguração, como o entendeis, não passa de uma modificação da aparência, uma mudança ou uma alteração dos contornos, que pode ser produzida pela ação do próprio Espírito sobre o seu envoltório ou por uma influência exterior. O corpo nunca muda, mas, por força de uma contração nervosa, reveste aparências diversas.

4. ─ Podem os espectadores ser enganados por uma falsa aparência?

─ Pode também acontecer que o perispírito represente o papel que bem conheceis. No caso citado houve contração nervosa, muito ampliada pela imaginação. Aliás, esse fenômeno é muito raro.

5. ─ O papel do perispírito seria análogo ao que ocorre nos fenômenos de bicorporeidade?

─ Sim.

6. ─ Então nos casos de transfiguração é necessário que haja um desaparecimento do corpo real, de modo que os espectadores não vejam senão o perispírito sob forma diferente?

─ Não propriamente desaparecimento físico, mas oclusão. Entendei-vos sobre os vocábulos.

7. ─ Do que acabais de dizer parece podermos concluir que no fenômeno de transfiguração pode haver dois efeitos: I ─ alteração dos traços do corpo real, por força de uma contração nervosa; II ─ aparência variável do perispírito, tornado visível. É isso mesmo?

─ Certamente.

8. ─ Qual a causa primeira desse fenômeno?

─ A vontade do Espírito.

9. ─ Todos os Espíritos podem produzi-lo?

─ Não. Os Espíritos nem sempre podem fazer o que querem.

10. ─ Como explicar a força anormal dessa moça, transfigurada na pessoa de seu irmão?

─ Não possui o Espírito uma grande força? Aliás, é a do corpo em seu estado normal. 

OBSERVAÇÃO: Este fato nada tem de surpreendente. Muitas vezes vemos pessoas muito fracas, dotadas momentaneamente de uma força prodigiosa, devida a uma superexcitação. 

11. ─ Desde que, no fenômeno de transfiguração, o olho do observador pode ter uma imagem diferente da realidade, dar-se-á o mesmo em certas manifestações físicas? Por exemplo: quando uma mesa se ergue sem contato das mãos e a vemos acima do solo, é realmente a mesa que se desloca?

─ Ainda perguntais?

12. ─ O que a levanta?

─ A força do Espírito. 

OBSERVAÇÃO: Este fenômeno já foi explicado por São Luís e dele tratamos de modo completo nos números de maio e junho de 1858, a propósito da teoria das manifestações físicas. Disseram-nos que neste caso a mesa ou qualquer outro objeto que se move está animado de uma vida factícia momentânea que lhe permite obedecer à vontade do Espírito.

Algumas pessoas quiseram ver no fato uma simples ilusão de óptica que, por uma espécie de miragem, as faria ver uma mesa no espaço, quando realmente ela estava no solo. Se assim fosse, a coisa não seria menos digna de atenção. É curioso como aqueles que querem contestar ou criticar os fenômenos espíritas expliquem-nos por causas que também seriam verdadeiros prodígios e igualmente difíceis de compreender. Mas por que tratar o assunto com tanto desdém? Se a causa que apontam é real, por que não aprofundá-la? O físico procura conhecer a causa do menor movimento da agulha magnética; o químico, da mais ligeira mudança na atração molecular[1]. Por que, então, ver com indiferença fenômenos tão estranhos como esses de que falamos, quer sejam eles consequência de simples desvio do raio visual, quer uma nova aplicação das leis conhecidas? Isto não é lógico.

Certamente não seria impossível que por um efeito de óptica análogo ao que nos faz ver um objeto na água mais alto do que realmente está, por causa da refração dos raios luminosos, uma mesa nos parecesse no espaço quando estivesse no solo. Há, porém, um fato que resolve definitivamente o problema. É quando a mesa cai ruidosamente no chão e se quebra. Isto não parece uma ilusão de óptica.

Voltemos à transfiguração.

Se uma contração muscular pode modificar os traços fisionômicos, não o será senão dentro de certos limites; mas certamente se uma mocinha toma a aparência de um velho, nenhum efeito fisiológico lhe faria criar barba. Então devemos procurar uma causa alhures. Recordando quanto dissemos anteriormente a respeito do papel do perispírito em todos os fenômenos de aparição, mesmo de pessoas vivas, compreender-se-á que aí está a chave do fenômeno de transfiguração. Com efeito, desde que o perispírito pode isolar-se do corpo; que pode tornar-se visível; que, por sua extrema sutileza, pode tomar diversas aparências, conforme a vontade do Espírito, concebe-se sem dificuldade que assim se passe com uma pessoa transfigurada: o corpo continua o mesmo; só o perispírito mudou de aspecto. Mas então, perguntareis, em que se torna o corpo? Por que motivo o observador não vê uma imagem dupla, isto é, de um lado o corpo real e do outro o perispírito transfigurado? Fatos estranhos, dos quais falaremos dentro em pouco, provam que por força da fascinação que, em tais circunstâncias, se opera no observador, o corpo real pode, de alguma sorte, ser oculto pelo perispírito.

O fenômeno que é objeto deste artigo já nos foi comunicado há muito tempo. Se dele ainda não havíamos falado é que não nos propomos transformar a nossa Revista em simples catálogo de fatos destinados a alimentar a curiosidade; uma árida compilação sem apreciação e sem comentários. Nossa tarefa seria então muito fácil, mas nós a levamos mais a sério. Antes de mais nada, dirigimo-nos aos homens de raciocínio; àqueles que como nós querem compreender as coisas, tanto mais que isto é possível. Ora, ensinou-nos a experiência que os fatos, por mais estranhos e multiplicados que sejam, não são elementos de convicção. Quanto mais estranhos forem, menos convincentes serão. Quanto mais extraordinário é um fato, tanto mais anormal se nos afigura e menos dispostos estaremos a acreditar. Queremos ver, e tendo visto, ainda duvidamos; desconfiamos de ilusão e de conivência. Já isto não acontece quando para os fatos encontramos uma causa plausível. Vemos diariamente criaturas que atribuíam os fenômenos espíritas à imaginação e à credulidade cega e que hoje são adeptos fervorosos, precisamente porque agora tais fenômenos não lhes repugnam à razão: explicam-nos, compreendem a sua possibilidade e creem, mesmo sem ter visto.

Tendo que falar de certos fatos, deveríamos esperar que os princípios fundamentais estivessem suficientemente desenvolvidos, a fim de compreendermos as suas causas. Entre esses fatos está a transfiguração. Para nós, o Espiritismo é mais do que uma crença: é uma ciência, e nos sentimos felizes por ver que os nossos leitores nos compreenderam.
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[1] No original lemos attraction musculaire, manifesto erro tipográfico, explicável pela reiteração, no texto, do vocábulo muscular, em relação à alteração da fisionomia. Deveria ser a expressão original attraction moléculaire. Trata-se, por outro lado, de um fenômeno de química geral e não de química orgânica, por isso traduzimos atração molecular. (Nota do tradutor)

Revista Espírita - Março 1859 

sábado, 19 de setembro de 2009

Transfiguração, Multiplicação dos pães e "Ressurreições" operadas por Jesus

Por Therezinha Oliveira

A Transfiguração (Mt.17 1/8, Mc. 9 2/8 e Lc. 9 28/36)
Resumamos as narrativas evangélicas:

Jesus levou Pedro, Tiago e João em particular a um alto monte, com o propósito de orar.

Enquanto ele orava:
  • seu rosto se modificou, resplandecia como o sol;
  • suas vestes tomaram-se brancas como a luz.
  • E apareceram Moisés e Elias (ambos já desencontrados) e conversavam os três sobre sua partida, que ele estava para cumprir em Jerusalém.

Explicação espírita do fenômeno

A transfiguração é "uma transformação fluídica, uma espécie de aparição perispirítica, que se produz sobre o próprio corpo do vivo" ; "geralmente é perceptível a todos os assistentes e com os olhos do corpo, precisamente por se basearem na matéria carnal visível". Pode-se dar pela vontade da própria pessoa ou sob influência externa. (Vide Allan Kardec, "A Gênese", cap. XIV, item 39; e a "Revista Espírita" de março de 1859.) Quando orou, Jesus se expandiu perispiritualmente, superpondo ao corpo novo aspecto e apresentando grande irradiação. A luminosidade propagou-se às suas vestes e através delas.

Quanto à presença de Moisés e Elias, foi um fenômeno de materialização (Pedro, Tiago e João eram médiuns de efeitos físicos), que será estudado em aula posterior.

A multiplicação de pães e peixes

Relatam os evangelistas que Jesus por 2 vezes multiplicou pães e peixes para atender à multidão que o seguira até uma região "deserta" (longe de cidades) e ali ficara ouvindo-o e recebendo curas mas, por não se terem munido de alimentos, estavam a ponto de passar fome.

A primeira multiplicação é relatada por Mt, 14 vs. 13/23, Mc. 6 vs. 30/44, Lc. 9 vs, 10/17 e Jo. 6 vs, l/15. A segunda somente por Mt. 15 32/39 e Mc. 8 1/10.

As diferenças entre as duas são pequenas, pois em ambas Jesus:
  • aproveitou o de que dispunham (alguns pães e peixes) ;
  • mandou que o povo se assentasse em grupos (ordenou a multidão);
  • orou (tomando os pães e peixes, ergueu os olhos aos céus e os abençoou);
  • depois fez a repartição entre os discípulos e estes para o povo;
  • todos comeram à vontade (milhares de homens, além das mulheres e crianças); e ainda sobraram muitos cestos com pedaços de pão e de peixe, que Jesus mandou recolher para nada se perder. Como explicar esse fenômeno?
Kardec entende que não houve o fenômeno materialmente ("A Gênese", cap. XV, item 48). A passagem seria simbólica, representando que Jesus "alimentou" espiritualmente a multidão que, magnetizada por sua presença e atenta à sua palavra, nem sentiu a falta de alimento físico. Assim queria Jesus que os discípulos também "alimentassem" o povo, quando lhes disse:

"Não é preciso que se retirem; dai-lhes vós de comer".

Também se pode pensar que, além dos poucos pães e peixes trazidos pelos discípulos, outras pessoas tivessem mais alimentos consigo e, ante o exemplo de doação generosa, acabaram por entregá-los também para a repartição entre todos. Aí, deu e sobrou.

Entretanto, não seria impossível um fenômeno de efeitos físicos, materializando substâncias. Em "O Livro dos Médiuns" (cap. VIII, Do Laboratório do Mundo Invisível), vemos que os espíritos podem não só reproduzir aparência de alimentos mas fazer que essas substâncias materializadas dêem até "a impressão de saciedade", quando ingeridas.

Mas para que teria Jesus realizado um fenômeno de efeitos físicos assim, multiplicando pães e peixes? Talvez com o objetivo de ensinar que precisamos pensar no próximo, no que ele necessita, e ajudar a atender essa necessidade; fazer isso orientando e ordenando o povo, doando o que nos for possível, buscando também o auxílio espiritual (orou antes de multiplicar) e não desperdiçando recursos (mandou recolher o que sobrasse).

Qual foi a repercussão?
Foi grande. A multidão, depois, queria proclamar rei a Jesus.

Mas ele não aceitou. E advertiu a todos: "Trabalhai não pela comida que perece mas pela que permanece para a vida eterna", ou seja, que procurassem assimilar sua mensagem, seus ensinos e exemplos.

Ressurreições

No Velho e no Novo Testamentos, há relatos de ressurreições, isto é, de pessoas que estavam mortas e voltaram a viver.

Como aceitar tais relatos se, à luz da Ciência, fatos assim são impossíveis e também não mais os vemos ocorrer nos dias de hoje?

O que a Ciência constata são casos em que as pessoas sofreram:


  • morte clínica: com parada cardíaca, perda da respiração, da consciência e dos movimentos;
  • letargia (do latim, letargia): perda momentânea da sensibilidade e do movimento, dando ao corpo aparência de morte real;
  • catalepsia (do grego, katálepsis): perda momentânea, algumas vezes espontânea, da sensibilidade e do movimento em determinada parte do corpo.
São, os três, estados patológicos ou anômalos. Geralmente a pessoa pode se recuperar deles, em minutos ou dias, havendo as condições e ajuda adequadas.

Explicação espírita de tais estados

Havendo desligamento parcial do perispírito, o espírito deixa de tomar contato, temporariamente, com determinada região do corpo ou no seu todo, porque lhe falta o elemento de ligação com ele.

O desligamento perispiritual pode se dar por causas orgânicas ou espirituais (inclusive por influência de outrem). Mas enquanto os laços fluídicos não se desataram totalmente e o corpo ainda tem vitalidade, sem lesão irreversível nos órgãos, será possível fazer a pessoa retomar ao normal:
  • restaurando as condições do funcionamento orgânico;
  • auxiliando fluidicamente (magnetismo humano ou espiritual) ;
  • estimulando o espírito à ação sobre o corpo;
  • afastando o espírito perturbador (se houver).
Mas, ao tempo de Jesus, se uma pessoa caísse em estado letárgico não haveria no local um médico que a examinasse e soubesse reconhecer que ela estava viva. (Quase não havia "doutores" na Palestina, naquela época, e muitos dos que assim se consideravam eram rabinos e, às vezes, curandeiros ; conheciam-se poucos remédios genuínos, se bem que se usassem várias ervas medicinais).

Por isso, as pessoas em estado letárgico acabavam sendo consideradas mortas. E como o sepultamento de cadáveres era feito no próprio dia da morte (às vezes de modo imediato: Atos 5, 1/11), podia não dar tempo de a pessoa se recuperar da letargia.

Após estes esclarecimentos, leiamos e analisemos os 3 casos em que Jesus "ressuscitou" pessoas, que foram:
  • o filho da viúva de Naim (Lc. 7 vs. l1/17);
  • a filha de Jairo, chefe da sinagoga de Cafarnaum (Lc. 8 40/42 e 49/56) ;
  • Lázaro (Jo. l 1, 1/45).
Observações:

No caso da filha de Jairo e de Lázaro, Jesus afirma textualmente que a pessoa não está morta mas dorme. Também ocorreria o mesmo quanto ao filho da viúva de Naim.

Jesus orou antes de "ressuscitar" Lázaro; certamente o fez também nas outras vezes mas, ou não foi em voz alta, ou não ficou relatado.

Os discípulos estavam sempre por perto; mas provavelmente se utilizava Jesus dos fluidos de Pedro, Tiago e João (médiuns de efeitos físicos), pois estes apóstolos foram os únicos que admitiu entrassem com ele para fazer a "ressurreição" da filha de Jairo.

Jesus se encaminhou para o túmulo de Lázaro, que "era uma gruta, a cuja entrada tinham posto uma pedra". Esclarece bem o evangelista João, pois o sepultamento, entre os judeus, não era feito sob a terra (como o fazemos atualmente) mas nas rochas, em cavernas naturais ou artificiais, fechando-se a entrada por meio de pedras, para proteger de eventual ataque de animais. Preferiam sepultar em lugares distanciados das habitações, fora dos muros da cidade.

Portanto, apesar de sepultado logo após a sua "morte", Lázaro não estava sob a terra mas numa gruta, com oxigenação suficiente para sobreviver ao estado letárgico em que caíra.

"Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias", disse Marta, irmã de Lázaro, quando Jesus mandou removessem a pedra da entrada do sepulcro. Era o que Marta pensava mas não a realidade, pois Lázaro não morrera, e seu corpo, em estado letárgico, não estava em decomposição.

Nos três casos, Jesus falou diretamente à pessoa para que se levantasse. Em espírito, podiam ouvi-lo e agir sobre o corpo, após haverem recebido a ajuda fluídica de Jesus. No caso da menina, Lucas diz expressamente: "voltou-lhe o espírito" (quer dizer que estava afastado) e então "ela imediatamente se levantou".

(Vide "O Livro dos Espíritos", 2a parte, cap. VIII, pergs. 422/424 e "A Gênese", cap. XV, itens 37 a 40.) Por mais admirável que a "ressurreição" física nos pareça, ela é de efeito temporário, pois um dia o "ressuscitado" terá de desencarnar mesmo.

Que haverá "ressurreição" espiritual para todos nós, além da morte do corpo, é verdade, pois continuaremos a viver em espírito. Porém, em que estado despertaremos nesse além? Felizes ou infelizes, conforme nossos pensamentos, sentimentos e ações.

Que mais nos importa, então? É a "ressurreição" moral, o despertamento nosso em espírito, para sairmos da "morte espiritual" (erro, inércia, vício, usura, etc.) na direção da vivência correta e plena de nossas potencialidades espirituais.

Fonte: O Espiritismo

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

OLM – Bicorporeidade e Transfiguração


Aparições de Espíritos de Vivos / Homens Duplos / Santo Afonso de Liguori e Santo Antonio de Pádua / Vespasiano / Transfiguração / Invisibilidade

Fonte: KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de José Herculano Pires.

114 – Esses dois fenômenos são variedades de manifestações visuais. Por mais maravilhosos que possam parecer à primeira vista, facilmente se reconhecerá, pelas explicações que deles se podem dar, que não saem da ordem dos fenômenos naturais. Ambos se fundam no princípio de que tudo o que foi dito sobre as propriedades do perispírito após a morte se aplica ao perispírito dos vivos.

Sabemos que o Espírito, durante o sono, recobra em parte a sua liberdade, ou seja, que ele se afasta do corpo. E é nesse estado que muitas vezes temos a ocasião de observá-lo. Mas o Espírito, tanto do vivo quanto do morto, tem sempre o seu envoltório seminatural, que pelas mesmas causas já referidas pode adquirir a visibilidade e a tangibilidade. Há casos bastante positivos que não podem deixar nenhuma dúvida a esse respeito. Citaremos somente alguns exemplos de nosso conhecimento pessoal, cuja exatidão podemos garantir, pois todos estão em condições de acrescentar outros, recorrendo às suas lembranças.

115. A mulher de um nosso amigo viu repetidas vezes, durante a noite, entrar no seu quarto, com luz acessa ou no escuro, uma vendedora de frutas da vizinhança que ela conhecia de vista, mas com a qual nunca havia falado. Essa aparição a deixou muito apavorada, tanto mais que a senhora, na época, nada conhecia de Espiritismo e o fenômeno se repetia com freqüência. A vendedora estava perfeitamente viva e de certo dormia naquela hora. Enquanto o seu corpo material estava em casa, seu Espírito e seu corpo fluídico estavam na casa da senhora. Qual o motivo? Não se sabe. Nesse caso, um espírita já experimentado lhe teria feito a pergunta, mas a senhora nem sequer teve essa idéia. A aparição sempre se desfazia sem que ela soubesse como, e sempre, após o seu desaparecimento, ela ia ver se todas as portas estavam bem fechadas, assegurando-se de que ninguém poderia ter entrado no seu quarto.

Essa precaução mostra que ela estava bem acordada e não era iludida por um sonho. De outra vez ela viu, da mesma maneira, um homem desconhecido, mas um dia viu seu irmão, que então se encontrava na Califórnia. A aparência era tão real que, no primeiro momento, pensou que ele havia regressado e quis falar-lhe, mas ele desapareceu sem lhe dar tempo. Uma carta recebida depois lhe provou que ele não havia morrido. Esta senhora era o que se pode chamar um médium vidente natural. Mas nessa época, como já dissemos, ela nunca ouvira falar de médiuns.

116. Outra senhora que reside na província, estando gravemente enferma, viu certa noite, cerca das dez horas, um senhor idoso da sua mesma cidade, que encontrava às vezes na sociedade mas com o qual não tinha intimidade. Estava sentado numa poltrona ao pé da sua cama e de vez em quando tomava uma pitada de rapé. Parecia velar por ela. Surpresa com essa visita àquela hora, quis perguntar-lhe o motivo, mas o senhor lhe fez sinal para não falar e dormir. Várias vezes tentou falar-lhe, e de cada vez ele repetia a recomendação. Acabou por adormecer.

Alguns dias depois, já restabelecida, recebeu a visita do mesmo senhor, mas em hora conveniente e de fato em pessoa. Estava vestido da mesma maneira, com a mesma tabaqueira e precisamente com os mesmos gestos. Certa de que ele a visitara durante a doença, agradeceu-lhe o trabalho que tivera. O senhor, muito espantado, disse que há tempos não tinha o prazer de vê-la. A senhora que conhecia os fenômenos espíritas, compreendeu o que se passara, mas não querendo entrar em explicações a respeito, contentou-se em dizer que provavelmente sonhara.

O provável é isso, dirão os incrédulos, os espíritos fortes, os que por essa expressão entendem pessoas esclarecidas. Mas o que consta é que essa senhora não dormia tanto como a outra. – Então sonhava acordada, ou seja, teve uma alucinação. – Eis a palavra final,a explicação de tudo o que não se compreende. Como já refutamos suficientemente essa objeção, prosseguiremos para aqueles que podem compreender-nos.

117. Eis, porém, um caso mais característico, e gostaríamos de ver como se poderia explicá-lo por um simples jogo de imaginação.

Um senhor, residente na província, jamais quis se casar, malgrado as instâncias da família. Haviam principalmente insistido a favor de uma jovem de cidade vizinha, que ele nunca vira. Certo dia, em seu quarto, foi surpreendido com a presença de uma jovem vestida de branco, a fonte ornada por uma coroa de flores. Ela lhe disse que era a sua noiva, estendeu-lhe a mão, que ele tomou nas suas e notou que tinha um anel. Em poucos instantes tudo desapareceu. Surpreso com essa aparição, e seguro de que estava bem acordado, procurou informar-se se alguém havia chegado durante o dia . Responderam-lhe que ninguém fora visto na casa.

Um ano depois, cedendo a novas solicitações de um parente, decidiu-se a ir ver aquela que lhe propunham. Chegou no Dia de Corpus-Christi. Todos voltavam da procissão e uma das primeiras pessoas que viu, ao entrar na casa, foi uma jovem que reconheceu como a que lhe aparecera. Estava vestida da mesma maneira, pois o dia da aparição havia sido também o de Corpus-Christi. Ficou atônito, e a moça, por sua vez, gritou de surpresa e sentiu-se mal. Voltando a si, ela explicou que já vira aquele senhor, nesse mesmo dia, no ano anterior. O casamento se realizou. Estava-se em 1835. Nesse tempo não se tratava dos Espíritos, e além disso ambos são pessoas extremamente positivas, dotadas da imaginação menos exaltada que pode haver no mundo.

Poderão dizer que ambos estavam tocados pela idéia da união proposta e que essa preocupação provocou uma alucinação. Mas não se deve esquecer que o futuro marido permanecera tão indiferente ao caso, que passou um ano sem ir ver a noiva que lhe ofereciam. Mesmo admitindo-se essa hipótese, restaria a explicar a semelhança da aparição, a coincidência das vestes com o Dia de Corpus-Christi, e finalmente o reconhecimento físico entre pessoas que jamais se haviam visto, circunstâncias que não podem ser produzidas pela imaginação.(1)

118. Antes de prosseguir, devemos responder a uma pergunta que inevitavelmente será feita: como o corpo pode viver enquanto o Espírito se ausenta? Poderíamos dizer que o corpo se mantém pela vida orgânica, que independe da presença do Espírito, como se prova pelas plantas, que vivem e não têm Espírito.Mas devemos acrescentar que, durante a vida, o Espírito jamais se retira completamente do corpo.

Os Espíritos, como alguns médiuns videntes, reconhecem o Espírito de uma pessoa viva por um traço luminoso que termina no seu corpo, fenômeno que jamais se verifica se o corpo estiver morto, pois então a separação é completa. É por meio dessa ligação que o Espírito é avisado, a qualquer distância que estiver, da necessidade de voltar ao corpo, o que faz com a rapidez do relâmpago. Disso resulta que o corpo nunca pode morrer durante a ausência do Espírito e que nunca pode acontecer que o Espírito, ao voltar, encontre a porta fechada, como tem dito alguns romancistas em estórias para recrear. (O Livro dos Espíritos, nº 400 e seguintes).

119. Voltemos ao nosso assunto. O espírito de uma pessoa viva, afastado do corpo, pode aparecer como o de um morto, com todas as aparências da realidade. Além disso, pelos motivos que já explicamos, pode adquirir tangibilidade momentânea. Foi esse fenômeno, designado por bicorporeidade, que deu lugar às estórias de homens duplos, indivíduos cuja presença simultânea se constatou em dois lugares diversos. Eis dois exemplos tirados, não das lendas populares, mas da História Eclesiástica.

Santo Afonso de Liguori foi canonizado antes do tempo exigido por se haver mostrado simultaneamente em dois lugares diferentes, o que passou por milagre.

Santo Antonio de Pádua estava na Espanha e no tempo em que ali pregava, seu pai, que se encontrava em Pádua, ia sendo levado ao suplício, acusado de assassinato. Nesse momento Santo Antonio aparece, demonstra inocência do pai e dá a conhecer o verdadeiro criminoso que, mais tarde sofreu o castigo. Constatou-se que naquele momento Santo Antonio não havia deixado a Espanha. Santo Afonso, evocado e interrogado por nós sobre o fato referido, deu as seguintes respostas.(2)

1. Poderias dar-nos a explicação desse fenômeno?

— Sim. Quando o homem se desmaterializou completamente por sua virtude, tendo elevado sua alma a Deus, pode aparecer em dois lugares ao mesmo tempo. Eis como: o Espírito encarnado, sentindo chegar o sono, pode pedir a Deus para se transportar a algum lugar. Seu Espírito ou sua alma, como quiseres, abandona então o corpo, seguido de uma porção do seu perispírito, e deixa a matéria imunda num estado vizinho da morte. Digo vizinho da morte porque o corpo permanece ligado ao perispírito e a alma à matéria, por um liame que não pode ser definido.O corpo aparece então no lugar pedido. Creio que é tudo o que desejas saber.

2. Isso não nos dá a explicação da visibilidade e da tangibilidade do perispírito?

— Estando desligado da matéria, segundo o seu grau de elevação o Espírito pode se tornar tangível à matéria.

3. É indispensável o sono do corpo para o aparecimento do Espírito em outros lugares?

— A alma pode se dividir quando se deixa levar para longe o corpo. Pode ser que o corpo não durma,embora seja isso muito raro, mas então estará em perfeita normalidade. Estará sempre mais ou menos em êxtase. (3)

Nota de Kardec: A alma não se divide, no sentido literal da palavra. Ela irradia em várias direções e pode assim manifestar-se em muitos lugares, sem se fragmentar. É o mesmo que se dá com a luz ao refletir-se em muitos espelhos.

4. Estando um homem mergulhado no sono, enquanto seu Espírito aparece ao longe, que aconteceria se fosse subitamente despertado?

— Isso não aconteceria, porque se alguém tivesse a intenção de acordá-lo o Espírito voltaria ao corpo, antecipando a intenção, pois o Espírito lê o pensamento.

Explicação inteiramente idêntica nos foi dada muitas vezes por Espíritos de pessoas mortas ou vivas. Santo Afonso explica o fato da presença dupla, mas não oferece a teoria da visibilidade e da tangibilidade.

120. Tácito refere um caso semelhante:

Durante os meses que Vespasiano passou em Alexandria, esperando a volta periódica dos ventos estivais e da estação em que o mar oferece segurança, muitos prodígios aconteceram, pelos quais se manifestou a proteção do céu e o interesse dos deuses por aquele príncipe.

Esses prodígios aumentaram o desejo de Vespasiano de visitar a morada do Deus para consultá-lo a respeito do Império. Ordenou que o templo fosse fechado para todos. Entrou e estava inteiramente atento ao que o oráculo ia pronunciar, quando percebeu atrás dele um dos egípcios mais importantes, chamado Basilido, que ele sabia estar doente em lugar distante muitos dias de Alexandria. Perguntou aos sacerdotes se Basilido viera ao templo naquele dia, informou-se com os transeuntes se o tinham visto na cidade e por fim enviou homens a cavalo e assegurou-se de que, naquele momento, ele se encontrava a oitenta milhas de distância. Então não teve mais dúvidas de que a visão era sobrenatural e o nome de Basilido ficou sendo para ele um oráculo.(Tácito, Histórias, livro IV, caps. 81 e 82 traduço de Burnouf.)(4)

121. A pessoa que se mostra simultaneamente em dois lugares diversos tem portanto dois corpos. Mas desses corpos só um é real, o outro não passa de aparência. Pode-se dizer que o primeiro tem a vida orgânica e o segundo a anímica. Ao acordar os dois corpos se reúnem e a vida anímica penetra o corpo material. Não parece possível, pelo menos não temos exemplos, e a razão parece demonstrar que, quando separados, os dois corpos possam gozar simultaneamente e no mesmo grau da vida ativa e inteligente. Ressalta, ainda, do que acabamos de dizer, que o corpo real não poderia morrer enquanto o corpo aparente permanece visível: a aproximação da morte chama sempre o Espírito para o corpo, mesmo que só por um instante. Disso resulta também que o corpo aparente não poderia ser assassinado, pois não é orgânico e nem formado de carne e osso: desaparece no momento em que se quiser matá-lo.(5)

122. Passemos a tratar do segundo fenômeno, o da transfiguração, que consiste na modificação do aspecto de um corpo de vivo. Eis, a respeito,um caso cuja perfeita autenticidade podemos garantir, ocorrido entre os anos de 1858 e 1859, nas cercanias de Saint-Étienne:

Uma jovem de uns quinze anos gozava da estranha faculdade de se transfigurar, ou seja, de tomar em dados momentos todas as aparências de algumas pessoas mortas. A ilusão era tão completa que se acreditava estar na presença da pessoa, tamanha a semelhança dos traços do rosto, do olhar, da tonalidade da voz e até mesmo das expressões usuais na linguagem. Esse fenômeno repetiu-se centenas de vezes, sem qualquer interferência da vontade da jovem. Muitas vezes tomou a aparência de seu irmão, falecido alguns anos antes, reproduzindo-lhe não somente o semelhante, mas também o porte e a corpulência.

Um médico local, que muitas vezes presenciara esses estranhos fenômenos, querendo assegurar-se de que não era vítima de ilusão, fez interessante experiência. Colhemos a informações dele mesmo, do pai da moça e de muitas outras testemunhas oculares, bastante honradas e dignas de fé. Teve ele a idéia de pesar a jovem no seu estado normal e durante a transfiguração, quando ela tomava aparência do irmão que morrera aos vinte anos e era muito maior e mais forte do que ela. Pois bem: verificou que na transfiguração o peso da moça era quase o dobro.

A experiência foi conclusiva, sendo impossível atribuir a aparência a uma simples ilusão de óptica. Tentemos explicar esse fato, que sempre foi chamado de milagre mas que chamamos simplesmente de fenômeno.

123. A transfiguração pode ocorrer, em certos casos, por uma simples contração muscular que dá à fisionomia expressão muito diferente, a ponto de tornar a pessoa irreconhecível. Observamo-la freqüentemente com alguns sonâmbulos. Mas, nesses casos, a transformação não é radical. Uma mulher poderá parecer jovem ou velha, bela ou feia, mas será sempre mulher e seu peso não aumentará nem diminuirá. No caso de que tratamos é evidente que há algo mais. A teoria do perispírito nos vai pôr no caminho.

Admite-se em princípio que o Espírito pode dar ao seu perispírito todas as aparências. Que por uma modificação das disposições moleculares, pode lhe dar a visibilidade, a tangibilidade e em conseqüência a opacidade. Que o perispírito de uma pessoa viva, fora do corpo pode passar pelas mesmas transformações e que essa mudança de estado se realiza por meio da combinação dos fluidos.

Imaginemos então o perispírito de uma pessoa viva, não fora do corpo, mas irradiando ao redor do corpo de maneira a envolvê-lo como uma espécie de vapor. Nesse estado ele pode sofrer as mesmas modificações de quando separado. Se perder transparência, o corpo pode desaparecer, tornar-se invisível, velar-se como se estivesse mergulhado num nevoeiro. Poderá mesmo mudar de aspecto, ficar brilhante, de acordo com a vontade ou o poder do Espírito. Outro Espírito, combinando o seu fluido com esse, pode substituir a aparência dessa pessoa, de maneira que o corpo real desapareça, coberto por um envoltório físico exterior cuja aparência poderá variar como o Espírito quiser.

Essa parece ser a verdadeira causa do fenômeno estranho — e raro, convém dizer, — da transfiguração. Quanto à diferença de peso, explica-se da mesma maneira que a dos corpos inertes. O peso do próprio corpo não varia, porque a sua quantidade de matéria não aumenta, mas o corpo sofre a influência de um agente exterior que pode aumentar-lhe ou diminuir-lhe o peso relativo, segundo explicamos nos números 78 e seguintes. É provável, portanto, que a transfiguração na forma de uma criança diminua o peso de maneira proporcional.

124. Concebe-se que o corpo possa tomar uma aparência maior que a sua ou das mesmas dimensões, mas como poderia tornar-se menor, do tamanho de uma criança, como acabamos de dizer? Nesse caso, o corpo real não deveria ultrapassar os limites do corpo aparente? Por isso não dizemos que o fato se tenha verificado, mas quisemos apenas mostrar, referindo-nos à teoria do peso específico, que o peso aparente poderia também diminuir.

Quanto ao fenômeno em si, não afirmamos nem negamos a sua possibilidade. No caso de ocorrer, o fato de não se poder explicá-lo satisfatoriamente não o infirmaria. É preciso não esquecer que estamos no começo desta ciência e que ela ainda está longe de haver dito sua última palavra sobre este ponto, como sobre muitos outros. Aliás, as partes excedentes do corpo poderiam perfeitamente ser tornadas invisíveis.

A teoria do fenômeno da invisibilidade ressalta naturalmente das explicações precedentes e das que se referem ao fenômeno de aportes, nº 96 e seguintes.(6)

125. Teríamos de falar do estranho fenômeno dos agêneres, que por mais extraordinário que possa parecer á primeira vista, não é mais sobrenatural do que os outros. Mas como já o explicamos na Revista Espírita (fevereiro de 1859) achamos inúteis repetir aqui os seus detalhes(7). Diremos apenas que é uma variedade de aparições tangíveis.

É uma condição em que certos Espíritos podem revestir momentaneamente as formas de uma pessoa viva, a ponto de produzir perfeita ilusão. (Do grego: a, privativo, e géine, géinomai, gerado: não-gerado)(8)

(1) Tenta-se hoje explicar os casos dessa natureza pela telepatia, como se vê no livro de Tyrrell. “Aparições”. Mas essas teorias parapsicológicas são apenas tentativas de escapar à explicação espírita e se tornam ridículas pelos expedientes absurdos de que têm de servir-se. Como notou o prof. Harry Price, da Universidade de Oxtord, Inglaterra, o próprio Tyrrell reconhece que sua teoria “deixa grande quantidade de casos sem explicar”. Isso no prefácio do livro. Na verdade, só a teoria explica até hoje, todos os casos, sem as incongruências dessas hipóteses engenhosas, como Price chamou a de Tyrrell. (Ver: Apparitions, G. N. M Tyrrell, Pantheon Books, New York, 1952, ou tradução castelhana: Apariciones, Editorial Paidós, Buenos Aires, 1965, versão de Juan Rojo. (N. do T.)

(2) Os Espíritos elevados não se recusam a ensinar os que sinceramente desejam aprender. A evocação é um apelo humilde e não uma fórmula exigente, Kardec só fazia as evocações que fossem aprovadas pelo guia da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que era São Luis. Veja-se, na Revista Espírita, a secção Palestras Familiares de Além túmulo e a secção de boletins dos trabalhos da Sociedade. (N. do T.)

(3) Ernesto Bozzano relata casos de comunicações por psicografia ou aparição de pessoas em estado de vigília,mas sempre em momentos de distração ou cochilo. As pesquisas parapsicológicas atuais consideram esses casos como de telepatia, mas sempre admitindo um estado de inconsciência ou semiconsciência como condição necessária. Muitos parapsicólogos já admitem o fenômeno de “projeção do eu” que corresponde à irradiação da alma, de que trata Kardec na nota seguinte à explicação de Santo Afonso. (N. do T.)

(4) Este episódio histórico adquire maior importância quando sabemos que os egípcios se dedicavam a práticas de desdobramento ou “projeção do eu”, servindo-se até mesmo de drogas alucinógenas em seus templos. Experiências atuais confirmam esses fatos. (N. do T.)

(5) Ver na Revista Espírita de janeiro de 1859 o artigo O Duende de Bayonne; de maio de 1859, O Liane entre o Espírito e o corpo; de novembro de 1859, A alma errante; de janeiro de 1860. Espírito de um lado e corpo de outro; março de 1860, Estudos sobre o Espírito de pessoas vivas, o doutor V e a senhorita I; de abril de 1860, o fabricante de São Petersburgo, aparições tangíveis; de novembro de 1860, História de Maria d´Agreda; de julho de 1861, Uma aparição providencial. (Nota de Allan Kardec)

(6) Há numerosos casos de observação de uma máscara transparente sobre o rosto do médium, reproduzindo o rosto do Espírito comunicante. Observamos um desses casos em 1946, em São Paulo, com o médium Urbano de Assis Xavier. Nesses casos, como se vê, acima, a máscara se torna pela combinação fluídica do perispírito do médium com o do Espírito comunicante. É fenômeno de sintonia e não de penetração do Espírito no corpo do médium. (N. do T.)

(7) Como se vê, a teoria dos agêneres se encontra apenas na Revista Espírita, o que ressalta a importância dessa coleção de Kardec, somente agora publicada em nossa língua. (N. do T.)

(8) Estas explicações de Kardec foram posteriormente confirmadas por numerosas experiências científicas e ocorrências espontâneas, em toda as partes do mundo. Nada a não ser hipóteses gratuitas, que caíram sucessivamente por si mesmas, até hoje pôde contradizer as teorias, apresentadas neste capítulo. As experiências metapsíquicas, desde as realizadas pelo prof. Karl Friedrik Zolner, da Universidade de Leipzig, na Alemanha, com notável, equipe de pesquisadores, até as experiências famosas de Richet, Gustave Geley, Eugene Osty, Paul Gibier, na França, explica-se por estas teorias. Recentemente, no campo das pesquisas parapsicológicas, mais restritas e cautelosas, a confirmação vem se fazendo da mesma maneira. As experiências de Soal e Wathely Carington, na Universidade de Cambridge, Inglaterra, com levitação e voz-direta; as de Harry Price, da Universidade de Oxford, com telecinesia (movimento, ocultação e reaparecimento de objetos); os relatos de Louise Rhine, de Duke University, EUA, sobre “alucinações visuais referentes a mortos” e os de Karl Gustav Jung no mesmo sentido provam isso. (N. do T.)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

ESE - Ressurreição e Reencarnação

1 – E veio Jesus para os lados de Cesaréia de Felipe, e interrogou seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? E eles responderam: Uns dizem que é João Batista, mas outros que é Elias, e outros que Jeremias ou algum dos Profetas. Disse-lhes Jesus: E vós, quem dizeis que sou eu? Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, filho do Deus vivo. E respondendo Jesus, lhe disse: Bem aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne e o sangue que te revelaram isso, mas sim meu Pai, que está nos Céus”. (Mateus, XVI: 13-17)

2 – E chegou a Herodes, o Tetrarca notícia de tudo o que Jesus obrava, e ficou como suspenso, porque diziam uns: É João que ressurgiu dos mortos; e outros: É Elias que apareceu; e outros: É um dos antigos profetas que ressuscitou. Então disse Herodes: Eu mandei degolar a João; quem é, pois, este, de quem ouço semelhantes coisas? E buscava ocasião de o ver. (Marcos, VI: 14-15; Lucas, IX: 7-9)

3 – (Após a transfiguração). E os discípulos lhe perguntaram, dizendo: Pois por que dizem os escribas que importa vir Elias primeiro? Mas ele, respondendo, lhes disse: Elias certamente há de vir, e restabelecerá todas as coisas: digo-vos, porém, que Elias já veio, e eles não o conheceram, antes fizeram dele quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer às suas mãos. Então compreenderam os discípulos que de João Batista é que ele lhes falara. (Mateus, XVII: 10-13; Marcos, XVIII: 10-12)

RESSURREIÇÃO E REENCARNAÇÃO

4 – A reencarnação fazia parte dos dogmas judeus, sob o nome de ressurreição. Somente os saduceus, que pensavam que tudo acabava com a morte, não acreditavam nela. As idéias dos judeus sobre essa questão, como sobre muitas outras, não estavam claramente definidas. Porque só tinham noções vagas e incompletas sobre a alma e sua ligação com o corpo. Eles acreditavam que um homem podia reviver, sem terem uma idéia precisa da maneira por que isso se daria, e designavam pela palavra ressurreição o que o Espiritismo chama, mais justamente, de reencarnação. Com efeito, a ressurreição supõe o retorno à vida do próprio cadáver, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, sobretudo quando os elementos desse corpo já estão há muito dispersos e consumidos. A reencarnação é à volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas num outro corpo, novamente constituído, e que nada tem a ver com o antigo. A palavra ressurreição podia, assim, aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos demais profetas. Se, portanto, segundo sua crença, João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias, pois que João tinha sido visto criança e seus pais eram conhecidos. João podia ser, pois, Elias reencarnado, mas não ressuscitado.

5 – E havia um homem dentre os fariseus, por nome Nicodemos, senador dos judeus. Este, uma noite, veio buscar a Jesus, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és mestre, vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer estes milagres, que tu fazes, se Deus não estiver com ele. Jesus respondeu e lhe disse: Na verdade, na verdade te digo que não pode ver o Reino de Deus senão aquele que renascer de novo. Nicodemos lhe disse: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode entrar no ventre de sua mãe e nascer outra vez? Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus, o que é nascido de carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito. Não te maravilhes de eu te dizer que vos importa nascer de novo. O Espírito sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde ele vem, nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito. Perguntou Nicodemos: Como se pode fazer isto? Respondeu Jesus: Tu és mestre em Israel, e não sabes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo: que nós dizemos o que sabemos, e damos testemunho do que vimos, e vós, com tudo isso, não recebeis o nosso testemunho. Se quando eu vos tenho falado das coisas terrenas, ainda assim me credes, como creríeis, se eu vos falasse das celestiais? (João, III: 1-12)

6 – A idéia de que João Batista era Elias, e de que os profetas podiam reviver na Terra, encontra-se em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nas acima reproduzidas (nº 1 a 3). Se essa crença fosse um erro, Jesus não deixaria de combatê-la, como fez com tantas outras. Longe disso, porém, ele a sancionou com toda a sua autoridade, e a transformou num princípio, fazendo-a condição necessária, quando disse: Ninguém pode ver o Reino dos Céus, se não nascer de novo. E insistiu, acrescentando: Não te maravilhes de eu ter dito que é necessário nascer de novo.

7 – Estas palavras: “Se não renascer da água e do Espírito”, foram interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. Mas o texto primitivo diz simplesmente: Não renascer da água e do Espírito, enquanto que, em algumas traduções, a expressão do Espírito foi substituída por do Espírito Santo, o que não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários feitos sobre o Evangelho, assim como um dia será constatado sem equívoco possível.(1)

8 – Para compreender o verdadeiro sentido dessas palavras, é necessário reportar à significação da palavra, que não foi empregada no seu sentido específico. Os antigos tinham conhecimentos imperfeitos sobre as ciências físicas, e acreditavam que a Terra havia saído das águas. Por isso, consideravam a água como o elemento gerador absoluto. É assim que encontramos no Gênesis: “O Espírito de Deus era levado sobre as águas”, “flutuava sobre as águas”, “que o firmamento seja no meio das águas”, que as águas que estão sob o céu se reúnam num só lugar, e que o elemento árido apareça”, “que as águas produzam animais viventes, que nadem na água, e pássaros que voem sobre a terra e debaixo do firmamento”.

Conforme essa crença, a água se transformara no símbolo da natureza material, como o Espírito o era da natureza inteligente. Estas palavras: “Se o homem renascer da água e do Espírito”, ou “na água e no Espírito”, significam pois: “Se o homem não renascer com o corpo e a alma”. Neste sentido é que foram compreendidas no princípio.

Esta interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito”. Jesus faz aqui uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo. “O que é nascido da carne é carne”, indica claramente que o corpo procede apenas do corpo, e que o Espírito é independente dele.

9 – “O Espírito sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai”, é uma passagem que se pode entender pelo Espírito de Deus que dá a vida a quem quer, ou pela alma do homem. Nesta última acepção, a seqüência: “mas não sabes de onde vem nem para onde vai”, significa que não se sabe o que foi nem o que será o Espírito. Se, pelo contrário, o Espírito, ou alma, fosse criado com o corpo, saberíamos de onde ele vem, pois conheceríamos o seu começo. Em todo caso, esta passagem é a consagração do principio da preexistência da alma, e por conseguinte da pluralidade das existências.

10 – Desde os tempos de João Batista até agora, o Reino dos Céus é tomado pela força, e os que fazem violência são os que o arrebatam. Porque todos os profetas e a lei, até João, profetizaram. E se vós o quereis bem compreender, ele mesmo é o Elias que há de vir. O que tem ouvidos de ouvir, ouça”. (Mateus, XI: 12-15)

11 – Se o princípio da reencarnação, expresso em São João, podia, a rigor, ser interpretado num sentido puramente místico, já não aconteceria o mesmo nesta passagem de São Mateus, onde não há equívoco possível: “Ele mesmo é o Elias que há de vir”. Aqui não existe figura, em alegoria; trata-se de uma afirmação positiva. “Desde o tempo de João Batista até agora, o Reino dos Céus é tomado pela força”, que significam estas palavras, pois João ainda vivia no momento em que foram ditas? Jesus as explica, ao dizer: “E se vós o quereis bem compreender, ele mesmo é o Elias que há de vir”. Ora, João tendo sido Elias, Jesus alude ao tempo em que João vivia com o nome de Elias. “Até agora, o Reino dos Céus é tomado pela força”, é outra alusão à violência da lei mosaica, que ordenava o extermínio dos infiéis, para a conquista a Terra Prometida, Paraíso dos hebreus que, segundo a nova lei, o céu é ganho pela caridade e pela brandura. A seguir, acrescenta: “O que tem ouvidos de ouvir, ouça”. Essas palavras, tão freqüentemente repetidas por Jesus, exprimem claramente que nem todos estavam em condições de compreender certas verdades.

12 – Os teus mortos viverão. Os meus, a quem tiraram a vida, ressuscitarão. Despertai e cantai louvores, vós os que habitais no pó, porque o orvalho que cai sobre vós é orvalho de luz, e arruinareis a terra e o reino dos gigantes”. (Isaias, XXVI: 19)

13 – Esta passagem de Isaias é também bastante clara: “Os teus mortos viverão”. Se o profeta tivesse querido falar da vida espiritual, se tivesse querido dizer que os mortos não estavam mortos em Espírito, teria dito: “ainda vivem”, e não: “viverão”. Do ponto de vista espiritual, essas palavras seriam um contra senso, pois implicariam uma interrupção na vida da alma. No sentido de regeneração moral, seriam as negações das penas eternas, pois estabelecem o princípio de que todos os mortos reviverão.

14 – Quando o homem morre uma vez, e seu corpo, separado do espírito, é consumido, em que se torna ele? Tendo o homem morrido uma vez, poderia ele reviver de novo? Nesta guerra em que me encontro, todos os dias de minha vida, estou esperando que chegue a minha mutação (Job, XIV: 10-14, segundo a tradução de Sacy).

Quando o homem morre, perde toda a sua força e expira depois, onde está ele? Se o homem morre, tornará a viver? Esperarei todos os dias de meu combate, até que chegue a minha transformação? (Id. Tradução protestante de Osterwald).

Quando o homem está morto, vive sempre; findando-se os dias da minha existência terrestre, esperarei, porque a ela voltarei novamente. (Id. Versão da Igreja Grega).

15 – O princípio da pluralidade das existências está claramente expresso nessas três versões. Não se pode supor que Job quisesse falar da regeneração pela água do batismo, que ele certamente não conhecia. “Tendo o homem morrido uma vez, poderia ele reviver de novo?” A idéia de morrer uma vez e reviver implicam a de morrer e reviver muitas vezes. A versão da Igreja Grega é ainda mais explicita, se possível: “Findando-se os dias da minha existência terrestre, esperarei, porque a ela voltarei novamente”. Quer dizer: eu voltarei à existência terrena. Isto é tão claro como se alguém dissesse. “Saio de casa, mas a ela voltarei.”

“Nesta guerra em que me encontro, todos os dias de minha vida, estou esperando que chegue a minha mutação”. Job quer falar, evidentemente, da luta que sustenta as misérias da vida. Ele espera a sua mutação, ou seja, ele se resigna. Na versão grega, a expressão “esperarei”, parece antes se aplicar à nova existência: “Findando-se os dias da minha existência terrestre, esperarei, porque a ela voltarei novamente”, Job parece colocar-se, após a morte, num intervalo que separa uma existência de outra, e dizer que ali esperará o seu retorno.

16 – Não é, pois, duvidoso, que sob o nome de ressurreição, o princípio da reencarnação fosse uma das crenças fundamentais dos judeus, e que ela foi confirmada por Jesus e pelos profetas, de maneira formal. Donde se segue que negar a reencarnação é renegar as palavras do Cristo. Suas palavras, um dia, constituirão autoridade sobre este ponto, como sobre muitos outros, quando forem meditadas sem partidarismo.

17 – A essa autoridade, de natureza religiosa, virá juntar-se no plano filosófico, a das provas que resultam da observação dos fatos. Quando dos efeitos se quer remontar às causas, a reencarnação aparece como uma necessidade absoluta, uma condição inerente à humanidade, em uma palavra, como uma lei da natureza. Ela se revela, pelos seus resultados, de maneira por assim dizer material, como o motor oculto se revela pelo movimento que produz. Somente ela pode dizer ao homem de onde ele vem, para onde vai, por que se encontra na Terra, e justificar todas as anomalias e todas as injustiças aparentes da vida.

Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, a maior parte das máximas do Evangelho são ininteligíveis, e por isso tem dado motivo a interpretações tão contraditórias. Esse princípio é a chave que deve restituir-lhes o verdadeiro sentido.

(1) A tradução de Osterwald está conforme o texto primitivo, e traz: não renascer da água e do Espírito. A de Sacy diz do Espírito Santo. A de Lamennais também diz: Espírito Santo. (2) Para o desenvolvimento do dogma da reencarnação, ver O Livro dos Espíritos, caps IV e V; O que é o Espiritismo, cap. II; ambos de Allan Kardec; e a Pluralidade das Existências, de Pezzani. (Nota do Tradutor: A palavra “dogma”, figura aqui no sentido racional e não fideísta, como “princípio” e não como dogma de fé O Espiritismo não é dogmático, no sentido religioso da palavra, mas têm princípios fundamentais, que filosoficamente são chamados dogmas).

Fonte: KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires.