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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Manifestações de fundo umbandista no meio espírita

Por Jorge Hessen

Para um bom entendimento, é FUNDAMENTAL a leitura atenta e a reflexão profunda sobre cada linha aqui escrita, antes de manifestação precipitada e formação de juízo de valor, a respeito do título deste artigo... lembrando que existe uma inteligência primária causadora de todas as coisas e que nada acontece por acaso... , pois como espíritas precisamos em primeiro lugar de sermos fiéis à Doutrina dos Espíritos, codificada por Allan Kardec, pois nos baseamos na fé raciocinada e por isso mesmo respeitamos profundamente todas as religiões.

O Espiritismo e a Umbanda não se confundem como doutrinas, apesar de ambas encontrarem conseqüências e direção filosófica e religiosa oriundas de mensagens mediúnicas, porém, ambas, são doutrinas absolutamente distintas e individualizadas, segundo seus fundamentos e práticas. Muitos teimam em nominar a Doutrina Espírita de "mesa branca", contudo, qualquer adjetivação é inadequada quando se quer fazer referência à Terceira Revelação. Não existe Espiritismo de mesa branca, azul, amarela ou verde. O Espiritismo dispensa qualquer expressão que se aproxime mais dos sentidos materiais que dos apelos do espírito, como: identificá-lo por gradações de cor, destacar títulos de progresso terrestre nas manisfestações me diúnicas, expressões dogmáticas e, acima de tudo, entender que a Doutrina Espírita não se divide, posto que são os homens que se dividem em numerosas religiões.

Não é nossa intenção difundir conceitos radicalizados, desconsiderando outras práticas mediúnicas. Porém, sim, esclarecer o aspecto inexpugnável da Revelação Espírita. Não vamos nos precipitar em definições apriorísticas e, muito menos, expressarmos a malícia para disseminar as cogitações aqui consignadas. Contudo, colimamos a busca da luz sublimada da fé raciocinada, como um impositivo da boa prática espírita. Portanto, muito longe de posições policialescas, não transigiremos com os legítimos princípios doutrinários e evangélicos e, se muitos confrades incautos perseverarem na incompreensão, que cada médium cuide da sua decisão, até porque, Jesus afirmou que o trigo cresceria ao lado do joio em sua seara. Considerando que são raros, ainda, os Centros Espíritas que se podem entregar à prática mediúnica com plena consciência da tarefa que têm em mãos, destarte, é aconselhável e prudente, segundo Emmanuel, "a intensificação das reuniões de estudos, a fim de que os centros não venham a cair no desânimo ou na incompreensão, por causa de um prematuro comércio com as energias do plano invisível." (1)

As teses emmanuelinas explicam que nas Casas Espíritas os médiuns são úteis, mas não indispensáveis. Por falta de base moral, são muitos os que se afastam das reuniões, quando elas não apresentam fenômenos. É óbvio que assim procedem por plena inabilitação para o legítimo trabalho do Espiritismo, razão pela qual, é melhor que se afastem, temporariamente, dos trabalhos mediúnicos, antes de assumirem qualquer compromisso.

O tema que apresentamos tem como alvo os médiuns contumazes que se deixam influenciar por entidades que se manifestam com trejeitos e linguagens extemporâneos (de pretos-velhos, de caboclos, de índios, de germânicos, etc.). É óbvio que esse hábito não é conveniente, e é de se estranhar que estudiosos sinceros, continuem com esse comportamento.

Em face dessa teimosia, cabe-nos defender a fidelidade a Kardec, sem transigir um milímetro com os princípios espíritas. A prática mediúnica não se constitui tão-somente da movimentação das energias psíquicas em suas expressões fenomênicas e mecânicas, porque exige o trabalho da vigilância e o sacrifício do coração, onde a luz da comprovação e da referência é a que nasce da consciência, do entendimento e da aplicação do Evangelho. Segundo Emmanuel que acrescenta: "O primeiro inimigo do médium reside dentro dele mesmo, é o personalismo, é a ambição, a ignorância ou a rebeldia no voluntário desconhecimento dos seus deveres à luz do Evangelho. O segundo inimigo encontra-se no próprio seio das organizações espiritistas, constituindo-se daquele que se convenceu quanto aos fenômenos, sem se converter ao Evangelho pelo coração, trazendo para as fileiras do Consolador os seus caprichos pessoais, opiniões cristalizadas no endurecimento do coração, sem reconhecer a realidade de suas deficiências e a exigüidade dos seus cabedais íntimos." (2)

Um confrade nos indagou sobre qual opinião nutríamos a respeito da "incorporação" de pretos-velhos e caboclos nas casas de orientações espíritas. Dissemos que Espíritos que se apresentam como caboclos e pretos-velhos nos terreiros possuem muito pouco ou quase nada de si mesmos para ensinar, em termos de moral espírita. A rigor, duas são as formas pelas quais Espíritos de caboclos ou pretos-velhos podem entrar numa Casa Espírita: ou para receber ajuda, se ainda estiverem necessitados; ou para aprender coisas novas. Obviamente, devemos ter respeito, atenção, carinho, amor, sincero desejo de ajudar, porém essa não é uma recomendação isolada para Espíritos de caboclos e pretos-velhos. Isso vale para toda comunicação mediúnica.

Afirma-se que a indumentária de "preto-velho" é, unicamente, o morfismo com que o espírito por trás daquele, utiliza-se naquele instante para que possa alcançar a seu objetivo. Será mesmo?... Que objetivo?... Dizem que por trás desses estereótipos (preto-velho, caboclo) podem estar "médicos", "filósofos", "poetas", etc., que apenas se utilizam de tais "vestes" para ensinarem melhor (!...). Nada mais estranho do que se dar crédito a essas crenças. Até porque, o pensamento é a linguagem, por excelência, no mundo espiritual e a forma e trejeitos no falar e agir são acessórios desnecessários. E o pior da história é que muitos confrades, que não estudam Kardec, crêem que é sintoma de boa mediunidade ser instrumento de "preto-velho". Ora, não há pretos-velhos, nem brancos-velhos, uma vez que todos são Espíritos. Por isso, devemos ter toda cautela com esses atavismos.

Ressaltamos que as tradições das práticas mediúnicas africanas e ameríndias não sofrem discriminação entre os espíritas estudiosos, nem consideramos os Espíritos de índios e negros como involuídos, porém, ignorantes. Não há preconceito nas sessões espíritas. Procura-se manter o respeito às entidades, à mediunidade e à Doutrina Espírita, buscando a coerência com a verdade que já identificamos nos preceitos kardecianos. Em verdade, Espíritos que se mostram no Além, como antigos escravos africanos, ou como indígenas, podem falar normalmente, sem trejeitos. Por que não verbalizar em português, uma vez que o médium capta o pensamento da entidade e reveste-o com palavras?

Antropólogos se referem a certo "abrasileiramento" do Espiritismo, pelo fato de que, aqui, a população desfruta de uma "intimidade" em lidar com entidades de terreiros. Não podemos aceitar a idéia de um Espiritismo à brasileira. Isso seria um pensamento extremamente sincrético, encharcado de várias práticas do catolicismo popular e das religiões afro-brasileiras. Apesar de o Espiritismo ter sido difundido no Brasil, confrontando-se com uma cultura religiosa já consolidada, hegemônica e, portanto, conformadora do ethos nacional, não sofreu e nem poderia ter sofrido as interferências do catolicismo popular e das religiões de possessão de matriz afro-brasileiras.

Segundo pesquisadores, alguns adeptos do Espiritismo se posicionaram contra a pureza doutrinária e se aproximaram do mediunismo popular, fundando uma nova religião ao longo do século XX, ou seja: a Umbanda. É demonstrar ignorância suprema afirmar que crenças como o Candomblé, a Quimbanda, a Umbanda sejam "ramificações" da Doutrina Espírita.

O Espiritismo não possui ramificações ou subdivisões. Seu corpo doutrinário está contido nas Obras Básicas codificadas por Allan Kardec. Essas crenças, às quais nos referimos, possuem origens bastante distintas do Espiritismo, embora compartilhem alguns conceitos que são comuns não só ao Espiritismo, mas às várias correntes espiritualistas.

Não podemos nos acomodar com um Espiritismo "à moda da casa" que vários centros adotam, fugindo das lições de Allan Kardec. A base teórica com que analisamos uma prática eminentemente Espírita tem, como pilotis, o material da Codificação, com o qual podemos separar as práticas espiritualistas estranhas das práticas eminentemente espíritas. Nestas reflexões, não é nossa intenção nos posicionarmos quais "policiais ou fiscais" do Espiritismo, por não aceitarmos uma ou outra prática mediúnica nas Casas Espíritas, fora do projeto kardeciano. Destacamos, apenas, que qualquer análise crítica construtiva é uma necessidade para a sã divulgação espírita e para um legítimo comportamento na manutenção dos fundamentos da Terceira Revelação.

FONTES:

(1) Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo Espírito Emmanuel, RJ: Ed FEB, 1997.
(2) Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo Espírito Emmanuel, RJ: Ed FEB, 1997.

Espiritismo à brasileira

Por Fábio Luiz da Silva

Onde mais senão no Brasil é possível ser católico, judeu ou protestante e mesmo assim acreditar em reencarnação? Pode parecer estranho, mas é isto que indica uma pesquisa realizada pelo Vox Populi (VARELLA, 2000: 78-82) , segundo a qual 59% da população brasileira acredita que já teve outras vidas, apesar de somente 3% se declararem espíritas. Um contra-senso em qualquer outra parte do mundo, mas significa que pelo menos um dos princípios espíritas encontrou um ambiente propício para seu desenvolvimento em nosso país.

Nascido na França do século XIX, através do trabalho de Allan Kardec, o Espiritismo chegou ao Brasil ainda neste mesmo século. Porém, o Espiritismo brasileiro ganhou um colorido que o fez diferente daquele existente na Europa. Assim, o surgimento do Espiritismo no Brasil provoca duas questões teóricas interessantes. Primeiro, seria o Espiritismo brasileiro uma deformação do Espiritismo europeu ou uma construção original? Segundo, quais as relações entre o Espiritismo e os cultos afro-brasileiros?

Vejamos a primeira questão. É comum entender que o Espiritismo possuía na Europa um caráter mais científico e filosófico e que no Brasil ele ganhou características mais religiosas (STOLL, 1999: 41). Argumenta-se que tal fato deve-se ao misticismo da tradição cultural brasileira. É a opinião de Ubiratan Machado em seu livro “Os Intelectuais e o Espiritismo”: a maioria de nossos espíritas preferia realçar o aspecto religioso, dando relevo à parte mágico-mística da doutrina (...)(1983:114). Para este autor o abrasileiramento do Espiritismo levou-o a uma perda do caráter experimentalista e científico de sua origem, e isto corresponderia a um abastardamento do Espiritismo no Brasil. Igualmente pensam assim François Laplantine e Marion Aubrée: il n’a jamais eu le caractère “expérimental” tant revendiqué par les spirittes français (1990:185).

Discordamos desta interpretação que considera o Espiritismo brasileiro uma simples deturpação do europeu. Acreditamos que o Espiritismo, no Brasil, foi uma construção original. Sandra Jacqueline Stoll, utilizando o trabalho de Clifford Geertz Observando el Islam (no qual é realizada uma análise comparativa sobre o desenvolvimento do Islamismo em duas culturas diferentes: Marrocos e Indonésia), conclui que as diferenças apresentadas por uma mesma religião em lugares diferentes são geradas por tensões inerentes ao processo de universalização das religiões, pois variam as estratégias sociais para resolver o dilema: adaptação versus preservação de princípios. E aplica o mesmo raciocínio ao Espiritismo:

Como o Islamismo na Indonésia, o Espiritismo é uma religião importada, que se difunde no país confrontando-se com uma cultura religiosa já consolidada, hegemônica e, portanto, conformadora do ethos nacional. Sua difusão, como postulam certos autores, foi em parte favorecida pelo fato das práticas mediúnicas já estarem socialmente disseminadas, de longa data, no âmbito das religiões de tradição afro. No entanto, em contraposição a estas o Espiritismo define sua identidade, elegendo sinais diacríticos elementos do universo católico(...) O Espiritismo brasileiro assume um “matiz perceptivelmente católico” na medida em que incorpora à sua prática um dos valores centrais da cultura religiosa ocidental: a noção cristã de santidade. (STOLL, 1999: 48)

O Espiritismo no Brasil não é um simples desvio de uma doutrina racional de origem européia e que sofreu uma contaminação do mágico e do místico, graças a uma predisposição do povo brasileiro para o maravilhoso. É uma construção original, influenciada pela formação cultural brasileira que já possuía elementos que foram reinterpretados pelo Espiritismo, assim como ele foi reinterpretado por estes elementos: crenças indígenas, africanas e populares de origem européia. Desta forma, acreditamos não ser possível ao Espiritismo manter uma “pureza” para onde quer que fosse difundido.

A segunda questão por nós levantada no início deste texto pode ser simplificada da seguinte forma: o termo Espiritismo inclui as crenças afro-brasileiras? A palavra Espiritismo pode ser encontrada referindo-se a toda crença na possibilidade de comunicação com o além através de médiuns (incluindo, neste caso, o Candomblé, Umbanda e o Espiritismo de Allan Kardec); somente à Umbanda e ao Espiritismo de Kardec (como muitos umbandistas entendem) ou somente ao Espiritismo de Kardec (como querem os espíritas). Estas diversas definições marcam diferentes posições dos sistemas religiosos e dentro das ciências sociais (HESS, 1989: 183).

Desde sua chegada ao Brasil, seus adversários tentaram igualá-lo às crenças afro-brasileiras. Assim se expressava a Igreja, ainda no século XIX, em seu primeiro documento condenando o Espiritismo: a Pastoral de 1867 do Arcebispo da Bahia D. Manoel Joaquim da Silveira. E também o bispo Boaventura Kloppenburg em seu livro A Umbanda no Brasil, no qual identifica Espiritismo e Umbanda (HESS, 1989:186-187)

Por outro lado, os intelectuais espíritas esforçam-se por marcar as diferenças. No livro Africanismo e Espiritismo, Deolindo Amorim defende a idéia que a Umbanda é muito mais parecida com o catolicismo do que com o Espiritismo, devido aos rituais, que segundo ele, não existem no Espiritismo. No preâmbulo da obra acima citada, assinado por Lippmann Tesch de Oliveira, fica claro o desejo espírita de afastar qualquer mal entendido que possa confundir Espiritismo e Umbanda:

Quando falamos em Espiritismo, saibam os leitores que nos referimos à codificação CIENTÍFICA, FILOSÓFICA e MORAL, de Allan Kardec, - a única com o privilégio de ostentar semelhante título! – que o mestre expôs numa série de obras notáveis, editoradas na França, no período de 1857 a 1869, e não a êsse conglomerado de pagelança e de rituais espalhafatosos, onde preponderam o mediunismo abastardado; em suma – ao carnaval de UMBANDA, difundido e praticado por aí em fora, sob o rótulo daquela luminosa esquematização espiritualista.(AMORIM, 1949: 5-7)

Ora, os católicos identificam Espiritismo/Umbanda e os espíritas Catolicismo/Umbanda, (...) são muito acentuados os traços de afinidade entre o Catolicismo e o Africanismo (...)(AMORIM, 1949: 70) , cada grupo tentando marcar diferenças e semelhanças através de um raciocínio parecido e que tem algo de preconceituoso.

Em meio às Ciências Sociais, segundo Hess (1989:183) também encontramos ambas as posições. Cândido Procópio Ferreira de Camargo, em seu livro Kardecismo e Umbanda defende a existência de um continuum mediúnico, que tem em um polo o Espiritismo e no outro a Umbanda. Também pensam assim os antropólogos franceses François Laplantine e Marion Aubrée (1990: 179). Idéia semelhante percebemos em expressões como adeptos de qualquer religião de possessão ou adeptos de uma prática mediúnica (SAEZ, 1991) , que referem-se tanto ao Espiritismo como aos cultos afro-brasileiros. Já Maria Laura Cavalcanti, autora do livro O Mundo invisível: Cosmologia, Sistema Ritual, e Noção de Pessoa no Espiritismo, enfatiza muito mais as diferenças (HESS, 1989: 188).

Entendemos que, apesar de tentadora, a opção por considerar o Espiritismo dentro de um continuum mediúnico tende a deixar de lado as características que o aproximam do Catolicismo, para enfatizar apenas suas as semelhanças com as crenças afro-brasileiras. Stoll (1999), por exemplo, percebeu a existência de um processo de santificação da figura de Francisco Cândido Xavier, muito próximo do que ocorre na Igreja Católica. Podemos concluir, portanto, que nossa opção de estudo abre a possibilidade de novas visões do processo histórico de legitimação social do Espiritismo, o que pode colaborar para uma compreensão mais satisfatória deste fenômeno religioso, cujas idéias estão disseminadas até mesmo entre aquelas pessoas que oficialmente professam outras crenças.

Fábio Luiz da Silva é Mestre em História, professor da Universidade Estadual de Londrina e da Faculdade Metropolitana/IESB.

Texto produzido a partir de um capítulo da dissertação de mestrado: A Perspectiva do além: a história na visão do Espiritismo (1938-1949)

Referência bibliográfica

AMORIM, Deolindo. Africanismo e Espiritismo. Rio de Janeiro: Mundo Espírita, 1949.

AUBRÉE, Marion; LAPLANTINE, François. La Table, le livre e les esprits. Paris: JC Lattés, 1990

HESS, David J. Disobsessing disobsession: religion. Ritual, and the social sciences in Brazil. Cultural Anthropology, Washington, v. 4, n. 2, p. 182-193, may. 1989.

MACHADO, Ubiratam. Os Intelectuais e o espiritismo. Rio de Janeiro: Antares/INL, 1983.

SAEZ, Oscar Calavia. Fantasmas falados: mito, escatologia e história no Brasil. Campinas, 1991. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – UNICAMP

STOLL, Jacqueline Stoll. Entre dois mundos: o Espiritismo da França e no Brasil. São Paulo, 1999. Tese (Doutorado em Antropologia) – USP.

VARELLA, Flávia. À Nossa moda. Veja, São Paulo, a 33, n. 1659, p. 78-82, jul. 2000.

domingo, 12 de julho de 2009

Necessidade de estudo de Kardec para discernimento doutrinário

Autor: J. Herculano Pires

Há muitas confusões, feitas intencionalmente ou não, entre o Espiritismo e numerosas formas de crendice popular, inclusive as formas de sincretismo religioso afro-brasileiro, hoje largamente difundidas. Adversários da doutrina espírita costumam fazer intencionalmente essas confusões, com o fim de afastar do Espiritismo as pessoas cultas. Por outro lado, alguns espíritas mal-orientados, que não conhecem a própria doutrina, colaboram nesse trabalho de confusão, admitindo como doutrinárias as mais estranhas manifestações mediúnicas e as mais evidentes mistificações.

Alguns leitores se mostram justamente alarmados com a larga aceitação que vem tendo, em certos meios doutrinários, práticas de Umbanda e comunicações de Ramatis. E nos escrevem a respeito, pedindo uma palavra nossa sobre esses assuntos. Na verdade, já escreve­mos numerosas crônicas tratando da necessidade de vigilância nos meios espíritas, de maior e mais seguro conhecimento dos nossos princípios, e apontando os perigos decorrentes do entusiasmo fácil, da aceitação apressada de certas inovações. Mas, para atender às solicitações, voltaremos hoje ao assunto.

Kardec dizia, com muita razão, que os adeptos demasiado entusiastas são mais perigosos para a doutrina do que os próprios adversários. Porque estes, com­batendo o que não conhecem, evidenciam a própria fraqueza e contribuem para o esclarecimento do povo, enquanto os adeptos de entusiasmo fácil comprometem a causa. O que estamos vendo hoje, no meio espírita brasileiro, não é mais do que a confirmação dessa assertiva do codificador. Espíritas demasiado entusiastas estão sempre prontos a receber qualquer “nova revelação” que lhes seja oferecida, e a divulgá-la sofregadamente, como verdades incontestáveis. Que diferença entre o equilíbrio e a ponderação de Kardec e essa afoiteza inútil e prejudicial!

No tocante à Umbanda, já dissemos aqui, numerosas vezes, que se trata de uma forma de sincretismo religioso, ou seja, de mistura de religiões e cultos, com a qual o Espiritismo nada tem a ver. As formas de sincretismo religioso são, praticamente, as nebulosas sociais de que nascem as novas religiões. A Umbanda já superou a fase inicial de nebulosa, estando agora em plena fase de condensação. E por isso que ela se difunde com mais intensidade. Já se pode dizer que é uma nova religião, formada com elementos das crenças africanas e indígenas, misturados a crenças e formas de culto do catolicismo e do islamismo em franco desenvolvimento entre nós. O Espiritismo não participou da sua formação, embora os nossos sociólogos, em geral, exatamente por desconhecerem o Espiritismo, digam o contrário, pois confundem o mediunismo primitivo, de origem africana e indígena, com os princípios de uma doutrina moderna. Nós, espíritas, devemos respeitar na Umbanda uma religião nascente, mas não pode­mos admitir confusões entre as suas práticas sincréticas e as práticas espíritas.

Quanto às mensagens de Ramatis, também já tive­mos ocasião de declarar que se trata de mensagens mediúnicas a serem examinadas. De nossa parte, consideramo-las como mensagens confusas, dogmáticas, vaza­das na linguagem típica dos espíritos pseudo-sábios, a que Kardec se refere na escala espírita de O Livro dos Espíritos. Cheias de afirmações absurdas, e até mesmo contraditórias, essas mensagens revelam uma fonte que devia ser encarada com menos entusiasmo e com mais cautela pelos espíritas. Em geral, nossos confrades se entusiasmam com “as novas revelações” aparentemente contidas nas mesmas, esquecendo-se de passá-las, como aconselhava Kardec, pelo crivo da razão.

O que temos de aconselhar a todos, pelo menos a todos os que nos consultam a respeito, é mais leitura e mais estudo de Kardec, e menos atenção a espíritos que tudo sabem e a tudo respondem com tanta facilidade, usando sempre uma linguagem envolvente, em que nem todos sabem dividir a verdade do erro. “O Espiritismo”, dizia Cairbar Schutel, “é uma questão de bom-senso”. Procuremos andar de maneira sensata, na aceitação de mensagens mediúnicas.

Extraído do livro: O Mistério do Bem e do Mal

Umbanda não é Espiritismo

13:19 Posted by Fabiano Vidal , , , ,
Por Benedito da Gama Monteiro

Origem, conteúdo doutrinário e prática ritual, estabelecem as diferenças fundamentais entre o Espiritismo e Umbanda. Apesar da clareza dessas distinções, isso não deve ser razão impossibilitante para que entre Espíritas e Umbandistas haja respeito mútuo, espírito de compreensão e sensatez, embora essa tolerância não deva resultar em conivência ou omissão.

Deolindo Amorim, em seu livro "O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas" (1), conclui, afirmando: "O Espiritismo é uma doutrina que se basta a si mesma, sem empréstimos nem acréscimos artificiais.".

A luz dessa precisa orientação, observamos que nem mesmo nos arraiais espíritas essa diferença é feita, especialmente pôr aqueles que não se dão ao trabalho de estudar a Doutrina, sem falar em parte da imprensa leiga que, de propósito ou não, anuncia tudo o que ocorre nas tendas e terreiros, como sendo Espiritismo, disso se beneficiando os opositores sistemáticos da Doutrina Espírita que esperam levar vantagem com a confusão estabelecida.

Fala-se em "baixo Espiritismo" e "alto Espiritismo"; em "Espiritismo de mesa" e "Espiritismo de terceiro", etc., como se houvesse mais de um Espiritismo!

Quanto a origem, sabemos que Espiritismo, doutrina codificada pôr Allan Kardec, recebida de vários Espíritos Superiores no século passado, caracteriza-se pôr um conjunto de princípios de ordem científica, filosófica e religiosa, que objetiva o progresso espiritual do homem, com a implantação da fraternidade entre todas as criaturas na Terra.(2)

A Umbanda se deriva, fundamentalmente, do culto religioso da raça negra da velha África. Os seus princípios doutrinários são realmente frutos do "folclore", dos provérbios, aforismos, das lendas, crenças populares, canções e tradições do negro africano.

Com referência ao conteúdo doutrinário, sabemos que o Espiritismo se assenta em postulados científicos, filosóficos e éticos, o que não se dá na Umbanda, que não tem doutrina codificada, embora seus adeptos aceitem a imortalidade da alma, a reencarnação e a lei de ação e reação (carma), como fazem os espíritas (2).

Quanto a prática ritual, a umbanda difere, essencialmente, do Espiritismo, porque aquela atua no plano da natureza e este no do pensamento, pois que só o Espírito conta, realmente. Aliás o Espiritismo não tem ritual de nenhuma espécie, pois não admite corpo sacerdotal hierarquizado ou não, cerimônias (batizados, casamentos e quaisquer outras); não se utiliza de fórmulas, invocações, ou promessas de qualquer natureza; repele a adoração de imagens, símbolos, amuletos; rejeita crendices e superstições e não admite pagamento pela prestação de assistência espiritual ou de qualquer auxílio, que conceda aos necessitados. (2)

As tentativas para fundamentar a introdução de rituais, incensos, imagens e outros objetos de culto material no meio espírita invocam, sempre, um pressuposto espiritualista, como generalidade, ou fazem apelo à tolerância. Não há, entretanto, razão alguma para tais pretextos, uma vez que o Espiritismo, pelas suas disposições doutrinárias, dispensa completamente qualquer forma de ritual ou peças litúrgicas. (1)

Assim sendo, onde houver qualquer manifestação de culto exterior, não existirá a verdadeira prática espírita.

Apesar do louvável entusiasmo de alguns espíritas para a comunhão de seitas religiosas no seio da doutrina, a mistura heterogênea sempre sacrifica a pureza íntima da essência! A qualidade de substância espírita reduzir-se-ia pela quantidade da mistura de outros ingredientes religiosos, mas adversos!

O Espiritismo, não é doutrina separativista, nem ecletismo religioso à superfície do Espirito imortal! É, principalmente, um movimento de solidariedade fraterna entre todos os homens! Pode ser ecletismo espiritual unindo em espírito todos os credos e religiões, porque, também firma suas doutrinas e postulados na realidade imortal. Mas seria insensato a mistura heterogênea de práticas, dogmas, princípios e composturas devocionais diferentes, entre si, para construir outro movimento espiritualista excêntrico.

A missão da Doutrina Espírita, enfim, é libertar o homem e não prendê-lo ainda mais às fórmulas e superstições do mundo carnal transitório.

Finalizamos, fazendo nossas, as observações sensatas do Espírito Emmanuel, através do médium Francisco Cândido Xavier, na mensagem "Doutrina Espírita", extraída do livro "Religião dos Espíritos", concitando os Espíritas a zelarem pela doutrina que professam:

"... Porque a Doutrina Espírita é em si a liberdade e o entendimento, há quem julgue seja ela obrigada a misturar-se com todas as aventuras marginais e com todos os exotismos, sob pena de fugir aos impositivos da fraternidade que veicula.

Dignifica, assim, a Doutrina que te consola e liberta, vigiando-lhe a pureza e a simplicidade, para que não colabores, sem perceber, nos vícios da ignorância e nos crimes do pensamento.

"Espírita" deve ser o teu caráter, ainda mesmo te sintas em reajuste, depois da queda.

"Espírita" deve ser a tua conduta, ainda mesmo que estejas em duras experiências.

"Espírita" deve ser o nome de teu nome, ainda mesmo respires em aflitivos combates contigo mesmo.

"Espírita" deve ser o claro adjetivo de tua instituição, ainda mesmo que, pôr isso, te faltem as passageiras subvenções e honrarias terrestres.

Doutrina Espírita quer dizer Doutrina do Cristo.

E a Doutrina do Cristo é a doutrina do aperfeiçoamento moral em todos os mundos.

Guarda-a, pois, na existência, como sendo a tua responsabilidade mais alta, porque dia virá que serás naturalmente convidado a prestar-lhe contas. (3)

Bibliografia:

Amorim, Deolindo - "O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas";

1. Barbosa, Pedro Franco - "Espiritismo Básico";
2. Xavier, Francisco Cândido - "Religião dos Espíritos", mens. "Doutrina Espírita", pág. 229, 4a edição FEB - Rio de Janeiro - RJ.

Artigo publicado em Manaus, no jornal A Crítica de 09.10.1989, no jornal A Crítica de 26.08.1995, no Rio de Janeiro em OReformador (FEB) de Abril de 1996, no Acre, no Jornal Acre Espírita de Junho de 1996.

Fonte: Portal Espírito.org.br