quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Implicações Psicológicas e Sociais da Reencarnação

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Por Jaci Regis

Em uma reunião de estudos do Instituto Cultural Kardecista de Santos (ICKS), realizada habitualmente às sextas-feiras, às 20 horas, durante a discussão sobre reencarnação, foram feitas muitas perguntas sobre as dificuldades para que essa lei seja plenamente aceita pela cultura.

Neste trabalho pretendemos levantar algumas questões relativas à reencarnação e sua posição na Doutrina Espírita, comparativamente à aceitação dessa lei nos países asiáticos. Tentaremos também enumerar as dificuldades da cultura ocidental judaico-cristã em aceitar a tese das vidas sucessivas.

Allan Kardec só aceitou a reencarnação após uma análise profunda. Eis o que ele diz na Revista Espírita de abril de 1860, no bojo de um longo artigo sobre a formação da Terra, analisando o valor das comunicações dos espíritos:

“Como se vê, temos muitos motivos para não aceitar levianamente todas as teorias dadas pelos espíritos. Quando surge uma, fechamo-nos no papel de observador. Fazemos abstração de sua origem espírita, sem nos deixar ofuscar pelo brilho de nomes pomposos. Examinamo-la como se emanasse de um simples mortal e vemos se é racional, se dá conta de tudo, se resolve todas as dificuldades. Foi assim que procedemos com a doutrina da reencarnação, que não adotamos, embora vinda dos espíritos, senão depois de havermos reconhecido que ela só, e só ela, podia resolver aquilo que nenhuma filosofia jamais havia resolvido". (Tradução de Júlio Abreu Filho, pág. 115 - Edicel).

A REENCARNAÇÃO NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE

A ideia da reencarnação é conhecida desde a mais remota antiguidade. Mas perdeu-se no emaranhado das superstições e do misticismo, refletindo as dificuldades da cultura em desvencilhar-se das pressões atávicas a respeito da relação da criatura com o Criador. A vivência dos problemas cotidianos e a fragilidade do ser humano diante da natureza fomentaram uma relação casual entre os humores dos deuses e os sofrimentos baseada no medo, na condição de culpa, castigos, desobediência e punição.

Dentro desse quadro confuso, criaram-se seitas fundamentadas em crendices e superstições acerca da reencarnação. Por isso, a metempsicose foi aceita largamente por simbolizar o castigo mais cruel imposto ao pecador, fazendo com que, por ser uma pessoa humana, reencarnasse num animal. Até um filósofo como Pitágoras a aceitou e difundiu.

A reencarnação é muito aceita na cultura asiática, mas não teve uma ação social redentora, revolucionária. Ao contrário, propiciou uma atitude contemplativa, conformista e acomodatícia. Em culturas como a indiana, a reencarnação não evitou, ao contrário, deu certa consistência à separação em castas sociais, mantendo um estado de flagelo para os mais pobres e desafortunados.

A cultura ocidental sofreu sucessivas transformações até cristalizar-se, de uma maneira geral, sob a égide da Igreja, com a visão judaico-cristã. A predominância da religião, como centro de conhecimento e comportamento, criou uma forma não-racional de ver e compreender o ser e o mundo.

Embora espiritualista, a Igreja não aceitou a reencarnação e fixou-se na unicidade da existência. Com isso, estabeleceu o princípio da finitude e concretude para o ser humano. Ele é produto biológico ao qual se adiciona uma alma. Vive um certo tempo e morre. E aí finda seu período produtivo. A imortalidade da alma é reflexo da existência terrena e não apresenta qualquer oportunidade de reciclagem, uma vez que após o período da encarnação, ela está definitivamente catalogada como boa ou má.

Logo, a pessoa humana é um ser com trajetória fixada entre o berço e o túmulo. Na cultura, isso significa que ele é concreto, definido e mortal.

Toda a estrutura doutrinária da Igreja se funda no pecado original. A moralidade e a culpa se inserem na cultura como instrumentos, como uma fase preparatória para a vida eterna.

Certamente, a ideia de punição pela desobediência e até pelos humores dos deuses ou de Deus, não é exclusiva do judaico-cristianismo. Mas a adoção do Deus Jeová dos judeus manteve a relação criatura-Criador dentro dos limites do medo, terror e insegurança.

A REENCARNAÇÃO NO ESPIRITISMO

A reencarnação, todavia, não é um princípio solitário e autônomo no pensamento kardecista. Faz parte de um corolário de leis que se encadeiam e dão um novo sentido, uma nova visão de vida e da pessoa.

O projeto espírita é abrangente e inovador. Ele aproveita velhos conceitos sobre a natureza do ser humano, o progresso, sobre Deus e os redefine, atualiza, dando-lhes novas dimensões, refugando superstições e crendices.

A doutrina kardecista procura escoimar seus princípios das concepções místicas procurando dar-lhes uma base científica, caminho que Kardec definiu para dar validade à proposta doutrinária.

A doutrina kardecista reformula o entendimento sobre a Justiça Divina, que tem sido vista como uma forma policial, punitiva, exigindo pagamento. Para isso, apresenta uma nova compreensão da lei de causa e efeito, geralmente tomada no seu aspecto negativo, de expiação. Para a doutrina kardecista, a Justiça Divina, ao contrário, só tem por objetivos dar oportunidade de crescimento e ampliação das qualidades do ser espiritual.

A reencarnação, como foi dito, é um elo no processo evolutivo da Lei de Evolução, uma concepção revolucionária do Espiritismo, que ajuda a entender o ser humano e o mundo.
Detalharemos a seguir alguns conceitos básicos do Espiritismo e as dificuldades da cultura cristã em aceita-los.

O ESPÍRITO E A EVOLUÇÃO

A existência, evolução e imortalidade do espírito, conforme postula o Espiritismo, é diferente de qualquer análise ou proposta anterior ou presente a respeito da natureza espiritual do ser humano.

Se na visão univivencial, a essência espiritual, a alma, tem vida produtiva limitada e sua criação coincide como o nascimento do corpo, para o Espiritismo o ser espiritual é criado por Deus sem qualquer ligação específica com determinado corpo ou determinada situação. Pela doutrina kardecista, a criação de espíritos é um processo divino, inacessível ao nosso conhecimento, conduzindo a essência espiritual pelo caminho do autocrescimento, explorando suas potencialidades inatas.

È básico na Doutrina afirmar-se que o ser espiritual é criado simples e ignorante, como um princípio espiritual. É geralmente aceito que esse princípio espiritual, inicialmente sem estrutura, caminha em lento progresso e que vai se consolidando e agregando fatores instintivos no reino animal até despertar a razão, isto é, aprender o conhecimento, discernir fatores e determinar o próprio futuro, atingindo o nível hominal.

Quando se atinge o nível hominal, o principio espiritual torna-se espírito, definido como o ser inteligente do universo. Após o despertar da razão, começa a desenvolver a afetividade, o que corresponde, em termos genéricos, à moralidade, a civilização e a cultura.

Esse princípio espiritual, germe do espírito, desenvolve suas aptidões inatas, potências, no conflito da formação e vivência em organismos, até eclodir na espécie humana.

Posto isso, verifica-se que o ser humano atual é um produto da evolução singular dos espíritos.

A SINGULARIDADE E O TEMPO

O conceito de singularidade valoriza a individualidade, a construção e o desenvolvimento da sabedoria do ser enquanto ser, dentro de uma visão solidária. Este conceito pode ser explicado na assertiva: "toda decisão é solitária, mas sua realização é solidária", que é a base do processo evolutivo.

O crescimento do ser espiritual é atemporal. A noção do tempo é colocada na dinâmica do processo, sem parâmetros cronológicos ou comparativos.

Cada indivíduo, na sua singularidade, descreve a curva de seu tempo, tomado-a compatível com sua disponibilidade de crescimento, reflexão, estratificação e dinamismo, dando sentido à diversidade de caracteres e opções vivenciais visíveis na existência humana.

Nesse entendimento, existe um eixo coordenador do processo de progresso das individualidades, que é a Lei natural ou divina, proposta por Allan Kardec.

Esse eixo estabelece a reciprocidade do ato e da reação como forma de conflito positivo ou negativo, gerando reações adequadas e aprendizado gradativo, pela infinita repetição de processos, nos quais a encarnação, a vida, a morte e a reencarnação são instrumentos básicos para desencadear o crescimento.

O ESPÍRITO E A IMORTALIDADE

A imortalidade é uma característica natural do principio espiritual e, por conseqüência, do espírito. É de sua natureza ser imortal. Essa afirmação estrutural é que dá suporte à Lei de Evolução.

Sendo imortal e potencial, o ser espiritual necessita de instrumentos de apreensão dos fatores externos, de modo a criar condições de permanência de si mesmo. A noção de uma alma imortal, criada junto com o corpo e mantendo a chama da vida após a morte, sem possibilidade de reciclagem e crescimento, é comparada à morte total, nada tem a ver com a imortalidade dinâmica que o Espiritismo ensina.

A encarnação e a reencarnação do espírito fazem parte dos mecanismos da evolução.
Ela é necessária para levar o ser espiritual à perfeição (LE, questão 132). A reencarnação é um corolário desse processo: "...as encarnações sucessivas são sempre muito numerosas, porque o progresso é infinito." (idem, questão 169).

O ser espiritual, para seu desenvolvimento integral na relação com os organismos, na encarnação e reencarnação, submete-se a uma ação existencial repetitiva: nascer, viver, morrer, renascer. Neste círculo completo se insere o "estado errante", o tempo vivido entre duas encarnações, no plano extrafísico.

Eis aí delineado, em linhas simples, o projeto da evolução dos espíritos.

RESISTÊNCIAS ÀS NOVAS IDEIAS

A cultura é fruto da atuação do ser singular e que, simultaneamente, o influencia e de certa forma o submete, numa relação dialética e contínua.

Embora dinâmica, existem alguns fundamentos da cultura que foram cristalizados por séculos de sucessivas afirmações. Além disso, com relação a muitas coisas, a visualidade determina o conceito, mesmo que errado.

Essa é a primeira dificuldade a ser superada.

Por analogia, lembremos que a cultura ancestral dizia que a Terra era parada e que o Sol se movia. Durante séculos essa era a verdade, porque correspondia à realidade visual, existencial. Depois, pela ciência e também pela constatação visual, verificou-se que a Terra é apenas um pequeno planeta azul, participante do sistema solar, dentro de uma galáxia dentre muitas galáxias, num universo sem limites.

Hoje a cultura sabe que a Terra gira em tomo de si mesma, num período de 24 horas e alguns minutos e que se realiza um movimento de translação em torno do Sol, correspondendo ao ano de 365 dias.

Entretanto, para a vida comum, no dia-a-dia, a Terra parece e é vivida como parada. Só intelectualmente se percebe o seu movimento.

Da mesma forma, na vivência comum, a pessoa nasce, vive e morre. Ao nascer, é uma criança que passa invariavelmente pelas etapas do desenvolvimento físico e psicológico comuns à espécie e que nada parece ressaltar, a não ser em ocasiões especiais, que não seja realmente um ser totalmente novo. Não tem lembranças vivas de um passado. Submete-se ao processo de amadurecimento corporal e psicológico como alguém que nunca tivesse vivido essa experiência anteriormente.

Somente intelectualmente é que se pode entender o ser humano como um espírito reencarnado. Daí as dificuldades de se entender como um espírito adulto pode encarnar numa criança.

No evangelho, temos o diálogo de Nicodemos com Jesus. Quando este diz que é preciso nascer de novo, o fariseu argumenta: "como pode o espírito de um homem velho entrar no corpo de uma criança?" E a mesma pergunta continua perturbando as pessoas porque é difícil entender a engrenagem da reencarnação, uma vez que para a maioria o ser humano é o seu corpo.

EFEITOS PSICOLÓGICOS DA DOUTRINA DA REENCARNAÇÃO

A insistência em afirmar determinados princípios, com a autoridade divina, como as igrejas geralmente se tornam, conduz à inevitável aceitação deles como verdade, criando uma cultura específica. A superação desses princípios, pois, é difícil. A incorporação de novos conceitos, que se oponham a eles, é tarefa educativa de persuasão e consistência que demanda tempo, às vezes muito longo, pois implica na reestruturação mental e psicológica.

A aceitação da reencarnação como um fenômeno natural, implica em mudanças profundas na psicologia pessoal e social.

A natureza do ser, sua estrutura mental, o conjunto de desejos, o posicionamento moral e intelectual, passam a ter novos fundamentos e a Psicologia terá que redirecionar seu trabalho, colocando esses componentes na análise dos fatores que concorrem para a formação, atração e rejeição entre as pessoas.

Instituições como a família têm novos parâmetros, uma vez que cada componente é entendido como um ser vivido, embora submetido aos padrões culturais e às exigências genéticas, psicossociais.

Todo o objeto da existência terrena é revisto. Especificamente, devido à função que cada um desempenha e se relaciona consigo mesmo, reflete as experiências dos ciclos existenciais sucessivos sem, contudo, perturbar o ritmo existencial aqui e agora.

Ou seja, a reencarnação não pode alienar o presente, nem mutilar o desejo e a espontaneidade vivencial, pessoal. Bem entendida, ela é uma retaguarda de entendimento para melhorar o desempenho da vida atual.

EFEITOS SOCIAIS DA DOUTRINA DA REENCARNAÇÃO

Da mesma forma, a doutrina da reencarnação produz profundas mudanças nos conceitos de sociedade e das relações interpessoais. Preconceitos e discriminações sofrem um ataque fulminante, porque a prevalência do mérito espiritual desestrutura toda uma rede de pruridos e condições sociais.

Tal coisa não resolverá, em curto prazo, esses problemas, mas dará um suporte realmente amplo, espiritual para as mudanças nas relações humanas.

TEORIA E PRÁTICA

A aceitação da reencarnação tem que ser feita, pois, fora dos parâmetros místico-religiosos que cerceiam a inteligência dos fatos e procuram, de uma ou de outra forma, a salvação das pessoas, centradas na concepção da vida terrena como uma passagem inglória, sofrida e expiatória, preparatória para a vida eterna e submetida à vontade arbitrária da divindade. Ao contrário dessa limitação, a lei das vidas sucessivas é caminho de reestruturação, vivência e reciclagem contínua do espírito em evolução.

O exemplo das civilizações que aceitam levianamente a reencarnação, mas que mantém não apenas uma mentalidade absurda em termos de crendice e não utilizam a lei das vidas sucessivas de forma positiva, para modificar o panorama, deve ser sempre lembrado, quando postulamos a separação da lei das vidas sucessivas dos parâmetros religiosos e místicos. Nessas civilizações a crença na reencarnação é uma retórica para justificar o caos social ou a formação de castas.

Por isso, o Espiritismo deverá ensinar a reencarnação como uma lei natural, instrumento da Lei de Evolução e desvinculá-la das punições, do castigo e da expiação, enquanto entendida como uma forma de flagelação da alma para purgar pecados.

Fonte: “Novas Ideias, Textos Reescritos” – Jaci Regis. ICKS Edições, 1ª edição, outubro de 2007 – Santos-SP.

Jaci Regis é psicólogo, jornalista, economista e escritor. Fundador e presidente do Instituto Cultural Kardecista de Santos (ICKS), idealizador do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), editor do jornal de cultura espírita “Abertura” e autor dos livros “Amor, Casamento e Família”, “Comportamento Espírita”, “Uma Nova Visão do Homem e do Mundo”, “A Delicada Questão do Sexo e do Amor”, “Novo Pensar - Deus, Homem e Mundo”, dentre outros.

Retirado do site PENSE - http://www.viasantos.com/pense/arquivo/1270.html

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