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terça-feira, 17 de junho de 2014

quinta-feira, 24 de abril de 2014

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

As mediunidades de Kardec


Por Sergio Fernandes Aleixo

O codificador do espiritismo[1] leciona que os médiuns inspirados têm mais dificuldade de discernir o pensamento que lhes é sugerido daquele que lhes é próprio, ao oposto dos médiuns intuitivos, nos quais essa distinção se apresenta mais sensível, sendo os primeiros uma variedade dos segundos. Considera ainda o mestre espírita que, bem sugestionados por nossos anjos guardiães, espíritos protetores e familiares, sob esse aspecto, todos somos médiuns. Motivo, pois, não haveria para que Kardec não o fosse. E o era, por sinal, do Espírito da Verdade, seu guia, publicamente declarado.[2]

Reconheceu, além disso, ser assistido com ideias que lhe eram sugeridas pelos espíritos, ao mesmo tempo em que afirmou não ter “nenhuma das qualidades exteriores da mediunidade efetiva”.[3] Que quis dizer o mestre com isto? Eis a questão. Que não via, nem ouvia espíritos? Ou, por outra, que não lhe causavam frêmitos agindo sobre seu braço para fazê-lo escrever, nem lhe provocavam transes? Esta segunda alternativa é mais razoável para “qualidades exteriores” da mediunidade efetiva, visto que pode ser efetiva, ou seja, real, sem ser ostensiva, isto é, notada, manifesta à percepção de terceiros.

Certa feita, observado em meio a seu trabalho por um espírito que manteve diálogo mediúnico com um leitor da sua Revista, Kardec foi surpreendido a escrever, e estava rodeado por cerca de vinte espíritos, que “murmuravam acima de sua cabeça”. Segundo esse espírito, Kardec os “ouvia” tão bem que olhava para todos os lados para ver de onde vinha o “ruído”, chegando a erguer-se, abrir a janela e checar se não seria, por acaso, o vento ou a chuva. Comunicado sobre isso por correspondência posteriormente publicada na sua Revista, o mestre externou que o fato era absolutamente exato. Contudo, fica esclarecido que só dois ou três desses cerca de vinte espíritos sopravam diretamente ao codificador o que deveria escrever, e que o mestre julgava serem dele mesmo as ideias. Médium, pois, inspirado; quase audiente neste caso;[4] o que também se deduz da mensagem de 14 de setembro de 1863, em que a ação espiritual é relatada tão constante ao derredor do mestre, sobretudo a do Espírito da Verdade, que mesmo ele não a podia negar.[5]

Até aqui, não pode haver dúvidas nem discordâncias sobre a mediunidade de Kardec. Intuição, inspiração, semiaudiência. Mas pode-se ir além? E quanto a ver os espíritos? Bem... Kardec ensina que quase sempre os médiuns videntes exercem essa faculdade em estado sonambúlico, ou dele aproximado; que não raro ela é efeito de crise passageira e, nessa medida, apresenta, portanto, a qualidade exterior do transe. Segundo o mestre, porém, alguns médiuns videntes exercem sua faculdade em estado normal, perfeitamente acordados.[6] A priori, não há deste último tipo de exercício qualquer qualidade exterior; é efetivo, mas não ostensivo, a menos que se possa aferir a precisão das visões mediúnicas, por exemplo, nos casos de reconhecimento de falecidos por terceiros.

Ora, em O Livro dos Espíritos, 257, Kardec surpreende ao dizer que viu desencarnados atravessando o fogo sem que isso lhes causasse dor alguma. No original: “nous en avons vu passer à travers les flammes”: “já os vimos atravessar chamas”;[7] “vimo-los passar através das chamas”.[8] Para não conferir a seus textos conotação muito impositiva e pessoal, escritores podem tratar a si mesmos por nós em vez de eu. Chama-se plural de modéstia.[9] Uma constante, aliás, em Kardec; quase sempre se refere a si na 1.ª pessoa do plural; raramente na 1.ª pessoa do singular. Mesmo que se queira imaginar aí a expressão de experiência compartilhada por outros, ainda assim, o próprio Kardec estará incluído na ação verbal; doutro modo, escreveria algo como “foram vistos”, ou “têm sido vistos passar através das chamas”, e nunca: “nós os vimos, os temos visto”. Entenda-se: “Eu os vi, os tenho visto passar pelas chamas”.

Em O Livro dos Médiuns, 169, o mestre espírita reporta uma experiência, desta vez junto a muito bom médium vidente, que o acompanhou a uma ópera.[10] Ali mesmo, após um baixar da cortina, evocou e conversou com Weber, autor de Obéron. Este, após estabelecer breve diálogo com Kardec e o médium, deixou-os, prometendo insuflar nos cantores mais ímpeto. Dito e efeito. Nesse ínterim, Kardec surpreende novamente ao escrever: “Alors on le vit sur la scène, planant au-dessus des acteurs; un effluve semblait partir de lui et se répandre sur eux; à ce moment, il y eut chez eux une recrudescence visible d'énergie”: “Vimo-lo então sobre o palco, pairando acima dos atores. Um eflúvio parecia derramar dele para os intérpretes, espalhando-se sobre eles. Nesse momento verificou-se entre eles uma visível recrudescência da energia”.[11] Kardec mesmo viu o espírito e, pois, trata-se de novo plural de modéstia; ou, por outro lado, como neste caso é possível considerar, foi o mestre partícipe da visão do médium, o que, ali, até funcionou como controle, garantindo a um e outro que não eram vítimas da imaginação; ambos viram. Como quer que seja, Kardec viu o espírito de Weber sobre os atores em cena.

Contra isso, aparentemente, vai uma observação do codificador sobre a descrição de dois espíritos que viveram em passado mais distante e que foram avistados por aquele que, provavelmente, era o mesmo médium que esteve com ele na ópera. Escreve o mestre que, nesse caso, nada podia provar que não se tratasse apenas da imaginação do sensitivo, porque não havia “controle”, i. é, uma confirmação da descrição da aparência dos espíritos, como houve noutros exemplos relativos a mortos recentes e cujos detalhes atinentes a seu aspecto puderam ser subscritos por amigos e parentes dos falecidos. Nada, porém, existe aí que negue a Kardec a eventual condição de médium vidente, discretamente externada nos passos comentados de O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns. Outra forma de comprovação seria Kardec, ou um terceiro, também avistá-los. Parece, contudo, que isso não ocorreu, o que não é desabonador a priori, como bem explica o mestre na referida observação.[12]

[1] Kardec disse: “Em tudo isto não fiz senão recolher e coordenar metodicamente o ensino dado pelos Espíritos; sem levar em conta opiniões isoladas, adotei as do maior número, afastando todas as ideias sistemáticas, individuais, excêntricas ou em contradição com os dados positivos da Ciência”. (Revista Espírita. Set/1863. Segunda Carta ao Padre Marouzeau.) Modesto, minimizou sua participação; entretanto, o advérbio revela a importância pessoal dele: “recolher e coordenar metodicamente”. Não menos relevante é o fato de Kardec haver bem fixado a matéria-prima do seu trabalho: “o ensino dado pelos espíritos”. Kardec não inventou nenhum princípio. Todos resultaram do ensino; todavia, submetido, sim, à conjuntura dessa coleta e coordenação metódica, mérito de Kardec, sem o que não haveria espiritismo. Uma codificação implica o ato de codificar, que não é só reunir, compilar; há que fazê-lo sistematicamente (A.B.L., 2008). No caso do espiritismo, ou doutrina dos espíritos, ou espírita, houve reunião, compilação de materiais e, daí, a inferência paradigmática de princípios, cujo estabelecimento se deveu ao método de Kardec. Não tem relevância o fato de ser ausente das obras dele a designação codificador. Essa percepção demandaria distanciamento histórico. Chamá-lo assim só o diminuiria se excluísse seus esforços de coleta e coordenação metódica do ensino espírita; mas no ato de codificar estão implicados o mérito e as escolhas pessoais do codificador, evidentemente determinantes. O caso é, pois, mais lexicográfico que doutrinário.
[2] Cf. O Livro dos Médiuns, 182. Revista Espírita. Nov/1861. Discurso aos espíritas bordeleses.
[3] Cf. Revista Espírita. Set/1867. Caráter da Revelação Espírita. Nota ao n. 45.
[4] Cf. Revista Espírita. Maio/1859. Cenas da Vida Privada Espírita. N.ºs 47 a 53.
[5] Cf. Obras Póstumas. Imitação do Evangelho, Paris, 14 de setembro de 1863.
[6] Cf. O Livro dos Médiuns, 167.
[7] E. N. Bezerra, 1.ª ed. Comemorativa do Sesquicentenário, F.E.B., 2006, p. 202.
[8] J. Herculano Pires, 54.ª ed., L.A.K.E., 1994, p. 144.
[9] Cunha, C. & Cintra, L. F. L. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Cap. 11. 3.ª ed., 7.ª impressão, Nova Fronteira, 2001, p. 283.
[10] Provavelmente, o Sr. Adrien, membro da S.P.E.E. Cf. Revista Espírita. Dez/1858: “Estivemos juntos nos teatros, bailes, passeios, hospitais, cemitérios e igrejas; assistimos a enterros, casamentos, batismos e sermões; em toda parte observamos a natureza dos espíritos que ali vinham reunir-se, estabelecendo conversação com alguns deles, interrogando-os e aprendendo muitas coisas que tornaremos proveitosas aos nossos leitores”.
[11] J. Herculano Pires, 18.ª ed., L.A.K.E., 1994, p. 176. Negrito meu. Obs.: A forma vit é 3.ª pessoa do singular do passé simple, il vit: ele viu. Kardec, porém, usou o pronome impessoal on, que equivale ao nosso a gente, embora também possa indicar indeterminação do sujeito: viu-se, razão pela qual divergem os tradutores entre “a gente o viu / nós o vimos / vimo-lo” e “foi visto”. Concordo com Herculano Pires: “vimo-lo”. Se havia dois candidatos a praticante da ação verbal (Kardec e/ou o médium), por que o mestre indeterminaria o sujeito? O mesmo se verifica no número seguinte, o n. 170. Escreve Kardec, acompanhado de outro médium e sobre diferente espírito: “Cela dit, on le vit aller se placer...”; “Dito isto, vimo-lo ir colocar-se...”. Herculano, desta vez, salteia a expressão: “Dito isso, foi se colocar...”. G. Ribeiro acresce palavra inexistente: “Dizendo isso, o médium o viu ir colocar-se...”.
[12] Cf. Revista Espírita. Dez/1858. Conversas Familiares de Além-Túmulo. “Uma Viúva de Malabar” e “A Bela Cordoeira”.

Fonte: Ensaios da Hora Extrema - http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com.br/2013/12/as-mediunidades-de-kardec.html

domingo, 8 de dezembro de 2013

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

domingo, 18 de agosto de 2013

Kardec e o catálogo racional de obras

Por Sergio Aleixo

Um argumento dos que advogam que quase tudo pode ser Espiritismo à revelia de Kardec, merecendo até lugar na doutrina espírita, é a lista de obras preparada pelo mestre para formação de bibliotecas espíritas, cuja primeira edição apareceu em fins de março de 1869, visando à inauguração de uma livraria no início do mês seguinte, evento adiado, infelizmente, por conta de seu repentino passamento aos 31 dias de março daquele ano fatídico. A segunda edição do Catálogo Racional de Obras que Podem Servir para Fundar uma Biblioteca Espírita apareceu em agosto do corrente, já depois da morte de Kardec e acrescido, imaginem, de mais um par de títulos, sob a responsabilidade de A. Desliens. Quatro anos mais tarde, em dezembro de 1873, veio a lume uma terceira edição, atualizada por P. G. Leymarie.[1] Desconheço as duas primeiras. Portanto, não sei que obras foram acrescidas após o decesso de Kardec. Como quer que tenha sido, basta uma leitura atenta da peça para constatar a falta de base para argumentos mais libertários.
O Catálogo é composto de três partes e um Apêndice: I – Obras fundamentais da doutrina espírita; II – Obras diversas sobre o Espiritismo ou complementares da doutrina; III – Obras feitas fora do Espiritismo; e Apêndice: Obras contra o Espiritismo.
A primeira coisa a considerar é que as obras de Kardec não são por ele chamadas básicas, e sim fundamentais; O Que é o Espiritismo, Viagem Espírita em 1862 e toda a coleção da Revista Espírita, inclusive. A segunda, é que, no hall de obras diversas sobre o Espiritismo ou complementares da doutrina, encontram-se livros cujos dizeres mereceram de Kardec simples comentários, uns; e mesmo censuras, outros, ali diretamente expressas, bem como em remissões bibliográficas indicadas pelo mestre.
É o caso, por exemplo, de Os Quatro Evangelhos, de Roustaing. Kardec diz que se trata de obra que ensina a mesma doutrina dos docetistas e apolinaristas, a postular que o corpo de Jesus era fluídico, razão pela qual não teria ele sofrido senão em aparência. Recomenda, então, a leitura de seu livro A Gênese, cap. XV, n.ºs 64 a 68, onde, como se sabe, repele veementemente essa teoria, contra-argumentando que ela rebaixa moralmente a Jesus. Trata-se, portanto, de atitude preventiva, de clara censura por parte de Kardec.
Na mesma esteira está o livro A Chave da Vida, por V. de F. Michel, que o mestre informa coincidir com alguns pontos da doutrina espírita, estando, contudo, na sua maior parte, em contradição com a ciência e o ensino geral dos espíritos. Kardec remete o leitor novamente a seu livro A Gênese, cap. VIII, n.ºs 4 a 7.
Outro tanto sucede a Revelações do Mundo dos Espíritos, recebido pelo médium Sr. Roze, e cujo conteúdo Kardec afirma compor-se de teorias em franca contradição com a ciência e com o ensino geral dos espíritos, sublinhando, vejam, que a doutrina espírita não as pode admitir. E aqui, uma grave lição. Este médium foi membro titular da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Recebeu, dentre outras, mensagens de São Luís, Lamennais, São Vicente de Paulo, e do próprio Espírito da Verdade.[2] E a que ponto chegou? De publicar contradições com a ciência e até com a doutrina espírita, que não é senão o ensino geral dos espíritos a que se refere Kardec em sua crítica. De fato, há nos boletins da S.P.E.E. menção a um certo “sistema” ditado a esse médium pelo que chamou “escrita inconsciente”, e também à penosa impressão que causou a um dos membros da S.P.E.E. a simples exposição do tal “sistema”.[3]
Resta saber agora se obras em contradição com a doutrina espírita e abertamente censuradas pelo próprio Kardec poderiam ser suas complementares. Claro que há por aí um equívoco de compreensão da proposta do mestre no Catálogo. O título da segunda parte, aliado ao procedimento crítico de Kardec em alguns de seus dizeres, demonstra que, ali, todas são, sim, diversas obras sobre o Espiritismo, mas nem todas são complementares da doutrina. Há umas e outras. A partícula ou indica exclusão e não sinonímia. Existem duas categorias distintas. Faz sentido que, numa biblioteca espírita, obras equívocas sejam, ainda assim, sobre o Espiritismo, porque sobre História ou Geografia é que não seriam. Mas, absolutamente, não podem ser complementares da doutrina espírita, que sequer pode admitir-lhes os conteúdos em certos casos, como se viu.
Usar o Catálogo para justificar o erro de que seriam complementos da doutrina espírita mesmo livros em contradição com suas obras fundamentais é puro oportunismo de algumas raposas bem escoladas, estribado na inconstância de certos adeptos e na ignorância geral a respeito dos fundamentos históricos e conceituais do Espiritismo.
Por outro lado, nenhum espírita deve tramar, em seu centro ou associação, proibir a leitura de quaisquer obras que sejam. Index librorum prohibitorum é coisa execrável, contra a qual, repito: contra a qual se deve posicionar o kardecista, sempre amigo do livre-exame. Mas daí a incentivar inconsideradamente a leitura de obras que contradigam a doutrina espírita, em detrimento, por exemplo, das obras fundamentais de Kardec, sobretudo no que respeita a neófitos, vai longa e mal iluminada distância.
O estrago que determinadas publicações podem ensejar a adeptos inexperientes, ainda faltos de elementos necessários a um discernimento mais prevenido, deve ser escrupulosamente evitado. É preciso dar uma chance à verdade espírita. Estimulemos a todo custo o estudo perseverante e continuado das obras fundamentais: O Que é o Espiritismo, O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, etc., etc. Depois, sim, que venham todos os benditos catálogos com livros “de dentro”, “de fora”, “pró” e “contra” o Espiritismo, porque já não seremos presas tão fáceis.
Outro não foi o motivo pelo qual encabeçaram o Catálogo as próprias obras kardecianas. Fizeram-se presentes os elogios do mestre, mas também suas abstinências e censuras aos livros listados. E por quê? Justamente porque é pela Obra de Kardec que a crítica espírita se viabiliza.




[1] BARRERA, F. Resumo Analítico das Obras de Allan Kardec. USE/Madras, 2003, p. 144.
[2] Cf. Revista Espírita. Mar/1860. Perguntas sobre o Gênio das Flores (São Luís). Abr/1860. Ditados Espontâneos: “Conselhos” (O Espírito de Verdade); “Amor e Liberdade” (Abelardo); “Parábola” (São Vicente de Paulo). Nov/1860. Dissertações Espíritas: “Os Inimigos do Progresso” (Lamennais). Esta última comunicação é atribuída à recepção do “Sr. R...”. Trata-se, por certo, do Sr. Roze, mencionado no Boletim da S.P.E.E. de 10 de fevereiro de 1860 (cf. Revista de Mar/1860), no qual há expressa menção ao ditado espontâneo recebido pelo “Sr. Roze”, justamente de “Lamennais”. Há muitas referências a esse médium nas Revistas de 1859, nessa condição abreviada, talvez por ser antigo ministro-residente dos Estados Unidos junto ao rei de Nápoles, como informa Kardec na Revista de Maio/1859, no artigo “Ligação entre o Espírito e o Corpo”.
[3] Revista Espírita. Nov/1860. Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. 5 de outubro de 1860, sessão particular; 12 de outubro de 1860, sessão geral.

sábado, 17 de agosto de 2013

A hora é mesmo extrema!

Por Sergio Aleixo

Mais equívocos em traduções dos textos de Kardec, e agora, salvo exceções indicadas, todos em edições L.A.K.E. ou F.E.E.S.P., por J. Herculano Pires...[1]

1 - N. 189 de O Livro dos Espíritos. Onde se lê: “Em sua origem, os Espíritos não têm mais do que uma existência instintiva, possuindo apenas a consciência de si mesmos e de seus atos”, leia-se, na verdade: “Em sua origem, os Espíritos não têm mais do que uma existência instintiva, mal possuindo consciência de si mesmos e de seus atos”. No francês: “A leur origine, les Esprits n'ont qu'une existence instinctive et ont à peine conscience d'eux-mêmes et de leurs actes”. Uma coisa é “mal possuir consciência de si”, outra, “possuir apenas a consciência de si”.

2 - N. 673 de O Livro dos Espíritos. Onde se lê: “Já vos disse, por isso mesmo, que Deus desaprova as cerimônias que fazeis para as vossas preces, pois há muito dinheiro que poderia ser empregado mais utilmente”, leia-se, na verdade: “Não quero dizer com isto que Deus desaprove as cerimônias que praticais para a ele orardes, mas muito dinheiro se gasta aí que poderia ser mais utilmente empregado”. No francês: “Je ne dis pas pour cela que Dieu désapprouve les cérémonies que vous faites pour le prier, mais il y a beaucoup d'argent qui pourrait être employé plus utilement qu'il ne l'est”. Uma coisa é Deus condenar as cerimônias, outra, que não as condene.

3 - N. 11 do cap. XXVIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Onde se lê: “Além do nosso anjo guardião, que é sempre um Espírito superior a nós, temos os Espíritos protetores”, leia-se, na verdade: “Além do nosso anjo guardião, que é sempre um Espírito superior, temos os Espíritos protetores”. No original: “Outre notre ange gardien, qui est toujours un Esprit supérieur, nous avons des Esprits protecteurs”. Esta inserção: “a nós”, só se verifica a partir da 59.ª edição da L.A.K.E., de 2003, ausente nas anteriores e, por exemplo, na 14.ª da F.E.E.S.P., de 1998, o que isenta, evidentemente, Herculano Pires. Uma coisa é “um Espírito superior”, outra, “um Espírito superior a nós”, sobretudo num contexto especialíssimo, em que Kardec define os tipos e elevações dos espíritos que se nos ligam, adiante esclarecendo de modo a não restar dúvida: “Deus nos deu um guia principal e superior em nosso anjo guardião, e guias secundários nos nossos Espíritos protetores e familiares”. No original: “Dieu nous a donné un guide principal et supérieur dans notre ange gardien, et des guides secondaires dans nos Esprits protecteurs et familiers”. Portanto, todo anjo guardião é espírito protetor, todavia nem todo espírito protetor é anjo guardião, precisamente porque este, como assegura o mestre, é sempre um Espírito superior.

4 - N. 23 do cap. IV de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Onde se lê: “4.º) a conservação da individualidade, com o progresso infinito, segundo a doutrina espírita”, leia-se, na verdade: “4.º a individualidade com progressão indefinida (ou indefinita), segundo a doutrina espírita”. No original: “4.º l'individualité avec progression indéfinie, selon la doctrine spirite”; portanto, progression indéfinie, não infinie. Uma coisa é que o progresso da alma seja indefinito, outra, que o seja infinito. Kardec, aliás, postula que a ascensão da alma ao bem absoluto deve ter um limite, porque jamais chegaria à felicidade perfeita se estivesse a subir incessantemente. (Cf. Revista Espírita. Set/1862. Poesias Espíritas. Peregrinações da Alma. Observação.) Nada obstante, Evandro N. Bezerra, para a F.E.B., preferiu traduzir os dizeres do mestre: “progrès successif et indéfini de l'âme”, por “progresso contínuo e infinito da alma”. Melhor, a opção de Julio A. Filho, para a EDICEL: “progresso sucessivo e indefinido da alma”; a corroborá-la está a escolha de Salvador Gentile, para o I.D.E. (Cf. Revista Espírita. Nov/1863. Pluralidade das Existências e dos Mundos Habitados. Pelo Dr. Gelpke.)

5 - N. 7 do cap. XXI de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Onde se lê: “Antes que as relações mediúnicas fossem conhecidas, eles exerciam a sua ação de maneira mais ostensiva pela inspiração, pela mediunidade inconsciente, auditiva ou de incorporação”, leia-se, na verdade: “Antes que as relações mediúnicas fossem conhecidas, eles exerciam a sua ação de maneira menos ostensiva, pela inspiração, pela mediunidade inconsciente, auditiva ou falante”. No francês: “Avant que les rapports médianimiques fussent connus, ils exerçaient leur action d'une manière moins ostensible, par l'inspiration, la médiumnité inconsciente, auditive ou parlante”. Na 58.ª edição, de 2002, “mais ostensiva” dá lugar ao correto: “menos ostensiva”; sem qualquer aviso, porém, da editora L.A.K.E., o que retira credibilidade da publicação, pois, com a morte de Herculano Pires em 1979, sua obra forçosamente se petrifica, e não se pode, sem aviso, nela mexer a bel-prazer, para bem ou para mal. Permanece, contudo, a opção equívoca do mestre paulista por mediunidade “de incorporação”. Kardec escreveu mediunidade “falante”. Pode um espírito agir sobre as cordas vocais do médium sem necessariamente haver “incorporação” desse espírito no corpo do médium. Esta palavra, aliás, não é do Espiritismo. Kardec acabou admitindo a pertinência do termo “possessão” em A Gênese, XIV, 47-48 e, antes disso, na Revista Espírita de dezembro de 1863: “Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar do termo, mas subjugados. Queremos reconsiderar esta asserção, posta de maneira um tanto absoluta, já que agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, embora parcial, de um espírito encarnado por um espírito errante”. (Um Caso de Possessão. Senhorita Júlia. F.E.B., p. 499.)

[A lista permanecerá em aberto.]
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[1] Afora os nove casos elencados no cap. 9 do meu livro O Primado de Kardec. Oito deles de âmbito febiano, um, relativo ao I.D.E. http://oprimadodekardec.blogspot.com.br/2011/02/capitulo-9-tradutor-traidor.html.

Fonte:
Ensaios da Hora Extrema - http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com.br/2013_07_20_archive.html

terça-feira, 30 de julho de 2013

[VÍDEO] - Palestra de Sergio Aleixo sobre os Anjos Guardiões

Por Allan Kardec

Todos nós temos um Bom Espírito, ligado a nós desde o nascimento, que nos tomou sob a sua proteção. Cumpre junto a nós a missão de um pai junto ao filho: a de nos conduzir no caminho do bem e do progresso, através das provas da vida. Ele se sente feliz quando correspondemos à sua solicitude, e sofre quando nos vês sucumbir. Seu nome pouco importa, pois que ele pode não ter nenhum nome conhecido na Terra. Invocamo-lo, então, como o nosso Anjo Guardião, o nosso Bom Gênio. Podemos mesmo invocá-lo com o nome de um Espírito Superior, pelo qual sintamos uma simpatia especial.

Além do nosso Anjo guardião, que é sempre um Espírito Superior, temos os Espíritos Protetores, que, por serem menos elevados, não são menos bons e generosos. São Espíritos de parentes ou amigos, e algumas vezes de pessoas que nem sequer conhecemos na atual existência. Eles nos ajudam com os seus conselhos, e freqüentemente com a sua intervenção nos acontecimentos de nossa vida. Os Espíritos simpáticos são os que se ligam a nós por alguma semelhança de gostos e tendências. Podem ser bons ou maus, segundo a natureza das inclinações que os atraem para nós. Os Espíritos sedutores esforçam-se para nos desviar do caminho do bem, sugerindo-nos maus pensamentos. Aproveitam-se de todas as nossas fraquezas, como de outras tantas portas abertas, que lhes dão acesso à nossa alma. Há os que se agarram a nós como a uma presa, mas afastam-se quando reconhecem a sua impotência para lutar contra a nossa vontade.

Deus nos deu um guia principal e superior em nosso Anjo Guardião, e como guias secundários os nossos Espíritos Protetores e Familiares. É um erro, entretanto, supor que tenhamos forçosamente um mau gênio junto a nós, para contrabalançar as boas influências daqueles. Os maus Espíritos nos procuram voluntariamente, desde que achem possível dominar-nos, em razão da nossa fraqueza ou da nossa negligência em seguir as aspirações dos Bons Espíritos,e somos nós, portanto, que os atraímos. Disso resulta que não somos nunca privados da assistência dos Bons Espíritos, e que depende de nós o afastamento dos maus. Pelas suas imperfeições, sendo ele mesmo a causa dos sofrimentos que o atingem, o homem é quase sempre o seu próprio mau gênio. (Cap. V, nº 4). A prece aos Anjos Guardiães e aos Espíritos Protetores deve ter por fim solicitar a sua intervenção junto a Deus, pedir-lhes a força de que necessitamos para resistir às más sugestões, e a sua assistência para enfrentarmos as necessidades da vida.

(O Evangelho segundo o Espiritismo)

Sergio Aleixo