sábado, 17 de agosto de 2013

A hora é mesmo extrema!

Por Sergio Aleixo

Mais equívocos em traduções dos textos de Kardec, e agora, salvo exceções indicadas, todos em edições L.A.K.E. ou F.E.E.S.P., por J. Herculano Pires...[1]

1 - N. 189 de O Livro dos Espíritos. Onde se lê: “Em sua origem, os Espíritos não têm mais do que uma existência instintiva, possuindo apenas a consciência de si mesmos e de seus atos”, leia-se, na verdade: “Em sua origem, os Espíritos não têm mais do que uma existência instintiva, mal possuindo consciência de si mesmos e de seus atos”. No francês: “A leur origine, les Esprits n'ont qu'une existence instinctive et ont à peine conscience d'eux-mêmes et de leurs actes”. Uma coisa é “mal possuir consciência de si”, outra, “possuir apenas a consciência de si”.

2 - N. 673 de O Livro dos Espíritos. Onde se lê: “Já vos disse, por isso mesmo, que Deus desaprova as cerimônias que fazeis para as vossas preces, pois há muito dinheiro que poderia ser empregado mais utilmente”, leia-se, na verdade: “Não quero dizer com isto que Deus desaprove as cerimônias que praticais para a ele orardes, mas muito dinheiro se gasta aí que poderia ser mais utilmente empregado”. No francês: “Je ne dis pas pour cela que Dieu désapprouve les cérémonies que vous faites pour le prier, mais il y a beaucoup d'argent qui pourrait être employé plus utilement qu'il ne l'est”. Uma coisa é Deus condenar as cerimônias, outra, que não as condene.

3 - N. 11 do cap. XXVIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Onde se lê: “Além do nosso anjo guardião, que é sempre um Espírito superior a nós, temos os Espíritos protetores”, leia-se, na verdade: “Além do nosso anjo guardião, que é sempre um Espírito superior, temos os Espíritos protetores”. No original: “Outre notre ange gardien, qui est toujours un Esprit supérieur, nous avons des Esprits protecteurs”. Esta inserção: “a nós”, só se verifica a partir da 59.ª edição da L.A.K.E., de 2003, ausente nas anteriores e, por exemplo, na 14.ª da F.E.E.S.P., de 1998, o que isenta, evidentemente, Herculano Pires. Uma coisa é “um Espírito superior”, outra, “um Espírito superior a nós”, sobretudo num contexto especialíssimo, em que Kardec define os tipos e elevações dos espíritos que se nos ligam, adiante esclarecendo de modo a não restar dúvida: “Deus nos deu um guia principal e superior em nosso anjo guardião, e guias secundários nos nossos Espíritos protetores e familiares”. No original: “Dieu nous a donné un guide principal et supérieur dans notre ange gardien, et des guides secondaires dans nos Esprits protecteurs et familiers”. Portanto, todo anjo guardião é espírito protetor, todavia nem todo espírito protetor é anjo guardião, precisamente porque este, como assegura o mestre, é sempre um Espírito superior.

4 - N. 23 do cap. IV de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Onde se lê: “4.º) a conservação da individualidade, com o progresso infinito, segundo a doutrina espírita”, leia-se, na verdade: “4.º a individualidade com progressão indefinida (ou indefinita), segundo a doutrina espírita”. No original: “4.º l'individualité avec progression indéfinie, selon la doctrine spirite”; portanto, progression indéfinie, não infinie. Uma coisa é que o progresso da alma seja indefinito, outra, que o seja infinito. Kardec, aliás, postula que a ascensão da alma ao bem absoluto deve ter um limite, porque jamais chegaria à felicidade perfeita se estivesse a subir incessantemente. (Cf. Revista Espírita. Set/1862. Poesias Espíritas. Peregrinações da Alma. Observação.) Nada obstante, Evandro N. Bezerra, para a F.E.B., preferiu traduzir os dizeres do mestre: “progrès successif et indéfini de l'âme”, por “progresso contínuo e infinito da alma”. Melhor, a opção de Julio A. Filho, para a EDICEL: “progresso sucessivo e indefinido da alma”; a corroborá-la está a escolha de Salvador Gentile, para o I.D.E. (Cf. Revista Espírita. Nov/1863. Pluralidade das Existências e dos Mundos Habitados. Pelo Dr. Gelpke.)

5 - N. 7 do cap. XXI de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Onde se lê: “Antes que as relações mediúnicas fossem conhecidas, eles exerciam a sua ação de maneira mais ostensiva pela inspiração, pela mediunidade inconsciente, auditiva ou de incorporação”, leia-se, na verdade: “Antes que as relações mediúnicas fossem conhecidas, eles exerciam a sua ação de maneira menos ostensiva, pela inspiração, pela mediunidade inconsciente, auditiva ou falante”. No francês: “Avant que les rapports médianimiques fussent connus, ils exerçaient leur action d'une manière moins ostensible, par l'inspiration, la médiumnité inconsciente, auditive ou parlante”. Na 58.ª edição, de 2002, “mais ostensiva” dá lugar ao correto: “menos ostensiva”; sem qualquer aviso, porém, da editora L.A.K.E., o que retira credibilidade da publicação, pois, com a morte de Herculano Pires em 1979, sua obra forçosamente se petrifica, e não se pode, sem aviso, nela mexer a bel-prazer, para bem ou para mal. Permanece, contudo, a opção equívoca do mestre paulista por mediunidade “de incorporação”. Kardec escreveu mediunidade “falante”. Pode um espírito agir sobre as cordas vocais do médium sem necessariamente haver “incorporação” desse espírito no corpo do médium. Esta palavra, aliás, não é do Espiritismo. Kardec acabou admitindo a pertinência do termo “possessão” em A Gênese, XIV, 47-48 e, antes disso, na Revista Espírita de dezembro de 1863: “Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar do termo, mas subjugados. Queremos reconsiderar esta asserção, posta de maneira um tanto absoluta, já que agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, embora parcial, de um espírito encarnado por um espírito errante”. (Um Caso de Possessão. Senhorita Júlia. F.E.B., p. 499.)

[A lista permanecerá em aberto.]
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[1] Afora os nove casos elencados no cap. 9 do meu livro O Primado de Kardec. Oito deles de âmbito febiano, um, relativo ao I.D.E. http://oprimadodekardec.blogspot.com.br/2011/02/capitulo-9-tradutor-traidor.html.

Fonte:
Ensaios da Hora Extrema - http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com.br/2013_07_20_archive.html

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Fénelon - Tratado da existência e dos atributos de Deus

Pela Equipe IPEAK

François Fénelon, pseudônimo de François de Salignac de La Mothe-Fénelon, foi um teólogo, poeta e escritor francês bastante influente na França e cujas ideias liberais muito contribuíram para a emancipação da humanidade.

Nasceu no castelo da família, em Périgord, em 6 de agosto de 1651 e morreu em Cambrai a 7 de janeiro de 1715, aos sessenta e três anos de idade.

Extraímos um pequeno trecho de um de seus livros e o traduzimos do francês, como singela homenagem a esse nobre Espírito, pela data do seu nascimento. Ei-lo aqui reproduzido: 

TRATADO DA EXISTÊNCIA E DOS ATRIBUTOS DE DEUS[1] 

Por François Fénelon, escrito em 1712 

Provas da existência de Deus, tiradas da consideração das principais maravilhas da natureza.  

(...) Após essas comparações, sobre as quais peço ao leitor para simplesmente consultar-se a si próprio, mesmo sem raciocinar, creio que é momento de entrar no detalhe da natureza. Não pretendo penetrá-la toda inteira; quem o poderia? Também não pretendo entrar em nenhuma discussão de Física; essas discussões suporiam certos conhecimentos aprofundados que muitas pessoas de espírito jamais adquiriram; quero lhes propor apenas um simples golpe de vista sobre a face da natureza; não quero lhes falar senão do que todo mundo sabe, e que precisa apenas de um pouco de atenção tranquila e séria.

Detenhamo-nos primeiramente no grande objeto que atrai nossos primeiros olhares, isto é, a estrutura geral do Universo. Lancemos um olhar sobre esta terra que nos suporta; observemos no céu essa abóbada imensa que nos cobre; esses abismos de ar e de água que nos rodeiam, e os astros que nos iluminam. Um homem que vive sem reflexão pensa apenas nos espaços que estão junto de si ou que têm alguma relação com suas necessidades; ele considera a terra inteira apenas como o chão do seu quarto, e vê o sol que o ilumina durante o dia da mesma maneira que vê a vela que o ilumina durante a noite; seus pensamentos se limitam ao lugar estreito que ele habita. Ao contrário, o homem habituado a refletir estende seu olhar para mais longe, e considera com curiosidade os abismos quase infinitos que o rodeiam por todos os lados. Um vasto reino lhe parece então um pequeno canto da Terra; a própria Terra não é, a seus olhos, senão um ponto da massa do Universo; admira-se de estar aí localizado sem saber como nela veio parar.

Quem é que suspendeu esse globo da terra que é imóvel? Quem é que nela pôs os fundamentos? Nada, ao que lhe parece, é mais vil que ela; os mais infelizes lhe calcam sob os pés. No entanto, é para possui-la que se investem todos os grandes tesouros. Se a terra fosse mais dura, o homem não poderia abrir-lhe o seio para cultivá-la; se ela fosse menos dura, não poderia suportá-lo; ele afundaria em toda parte, como afunda na areia ou no lamaçal. É do seio inesgotável da terra que sai tudo o que há de mais precioso. Essa massa informe, vil e grosseira, toma as formas mais diversas e se transforma, passo a passo, em todos os bens que lhe solicitamos; essa lama tão feia transforma-se em mil objetos belos que encantam os olhos; em apenas um ano ela se torna galhos, botões, folhas, flores, frutos e sementes, para renovar suas liberalidades em favor dos homens. Nada a esgota. Quanto mais dilaceramos suas entranhas, mas liberal ela é. Após tantos séculos, durante os quais tudo tem dela saído, ainda não está gasta; não se torna velha; suas entranhas ainda estão plenas dos mesmos tesouros.

Mil gerações passaram por seu seio: tudo envelhece, exceto ela, que rejuvenesce a cada ano, na primavera. Ela jamais falta aos homens; mas, insensatos, os homens faltam a si mesmos negligenciando o seu cultivo (...).

Admirai as plantas que nascem da terra; elas fornecem alimentos aos sãos e remédios aos doentes. Suas espécies e suas virtudes são inumeráveis: elas enfeitam a terra; dão verdor, flores odoríferas e frutos deliciosos. Vedes essas vastas florestas que parecem tão antigas quanto o mundo? As árvores se afundam na terra por meio de suas raízes, como se elevam para o céu por meio de seus galhos; suas raízes as sustentam contra os ventos, e vão buscar, como por pequenos tubos subterrâneos, todos os sucos destinados à nutrição de seu caule; o próprio caule se reveste de uma casca dura, que coloca a madeira tenra ao abrigo das injúrias do ar; seus galhos distribuem, por diversos canais a seiva que as raízes reuniram no tronco. No verão esses ramos nos protegem contra os raios do sol, com sua sombra; no inverno eles nutrem a chama que conserva em nós o calor natural. Sua madeira não é útil somente para o fogo; é uma matéria dócil, ainda que sólida e durável, à qual, sem dificuldade, a mão do homem dá todas as formas que desejar, para as grandes obras de arquitetura e de navegação. Além disso, pendendo seus ramos para a terra, as árvores frutíferas parecem oferecer seus frutos ao homem.

As árvores e as plantas, deixando cair seus frutos ou seus grãos, preparam em torno delas mesmas uma numerosa prosperidade. A mais frágil planta, o menor legume, contêm em pequeno volume, num grão, o germe de tudo o que se desdobra nas mais altas plantas e nas maiores árvores. A terra, que jamais muda, faz todas essas mudanças em seu seio.

Observemos agora o que chamamos de água: é um corpo líquido, claro e transparente. Por um lado, ela corre, escapa, foge; por outro, toma todas as formas do corpo que a contêm, não tendo nenhuma para si mesma. Se a água fosse um pouco mais rarefeita, se tornaria uma espécie de ar; toda a face da terra seria seca e estéril; haveria apenas animais voadores; nenhuma espécie de animal poderia nadar, nenhum peixe poderia viver; não haveria nenhum comércio pela navegação. Que mão habilidosa soube condensar a água, sutilizar o ar, e distinguir tão bem essas duas espécies de corpos fluidos?

Se a água fosse um pouco mais rarefeita, não poderia sustentar esses prodigiosos edifícios que denominamos navio; os corpos menos pesados afundariam primeiro na água. Quem é que tomou o cuidado de escolher uma tão justa configuração de partes, e um grau tão preciso de movimento, para tornar a água tão fluida, tão insinuante, tão própria a escapar, tão incapaz de toda consistência, e no entanto tão forte para levar, e tão impetuosa para arrastar as mais pesadas massas? Ela é dócil; o homem a conduz, como um cavaleiro conduz um cavalo pelas pontas das rédeas; ele a distribui como lhe convém; eleva-a sobre as montanhas escarpadas, e se serve de seu próprio peso para fazê-la cair, e subir tanto quanto desceu. Mas o homem, que conduz as águas com tanto império é, a seu turno, conduzido por elas. A água é uma das maiores forças motrizes que o homem sabe empregar para suprir ao que lhe falta nas artes mais necessárias, por causa da sua pequenez e pela fragilidade de seu corpo.

Todavia, essas águas que, não obstante sua fluidez, são massas tão pesadas, não deixam de se elevar acima de nossas cabeças e ficar lá por longo tempo suspensas.  Vede essas nuvens que voam como sobre as asas dos ventos? Se caíssem de repente em grossas colunas d’água, rápidas como torrentes, submergiriam e destruiriam tudo o que estivesse em seu caminho, e o restante das terras ficariam áridas. Que mão as têm nesses reservatórios suspensos, e não lhes permite cair senão gota a gota, como se fossem destiladas por um regador? Donde vem que em certos países quentes, onde quase nunca chove, o orvalho é tão abundante que supre a falta de chuva, e em outros países, tais como nas margens do Nilo e do Ganges, a inundação regular dos rios em certas estações diminui a necessidade dos povos de irrigar a terra? Pode-se imaginar medidas melhor tomadas para tornar todas as regiões férteis?

Assim, a água dessedenta não somente os homens, mas também os campos áridos; e aquele que nos deu esse corpo fluido o distribuiu com cuidado sobre a terra como os canais de um jardim. (...)

[1] Texto extraído das Œuvres Choisies de Fénelon. Traité de l’Existence et des Attributs de Dieu, Première partie, ch. I. Traduzido do francês pela Equipe do IPEAK.

terça-feira, 30 de julho de 2013

[VÍDEO] - Palestra de Sergio Aleixo sobre os Anjos Guardiões

Por Allan Kardec

Todos nós temos um Bom Espírito, ligado a nós desde o nascimento, que nos tomou sob a sua proteção. Cumpre junto a nós a missão de um pai junto ao filho: a de nos conduzir no caminho do bem e do progresso, através das provas da vida. Ele se sente feliz quando correspondemos à sua solicitude, e sofre quando nos vês sucumbir. Seu nome pouco importa, pois que ele pode não ter nenhum nome conhecido na Terra. Invocamo-lo, então, como o nosso Anjo Guardião, o nosso Bom Gênio. Podemos mesmo invocá-lo com o nome de um Espírito Superior, pelo qual sintamos uma simpatia especial.

Além do nosso Anjo guardião, que é sempre um Espírito Superior, temos os Espíritos Protetores, que, por serem menos elevados, não são menos bons e generosos. São Espíritos de parentes ou amigos, e algumas vezes de pessoas que nem sequer conhecemos na atual existência. Eles nos ajudam com os seus conselhos, e freqüentemente com a sua intervenção nos acontecimentos de nossa vida. Os Espíritos simpáticos são os que se ligam a nós por alguma semelhança de gostos e tendências. Podem ser bons ou maus, segundo a natureza das inclinações que os atraem para nós. Os Espíritos sedutores esforçam-se para nos desviar do caminho do bem, sugerindo-nos maus pensamentos. Aproveitam-se de todas as nossas fraquezas, como de outras tantas portas abertas, que lhes dão acesso à nossa alma. Há os que se agarram a nós como a uma presa, mas afastam-se quando reconhecem a sua impotência para lutar contra a nossa vontade.

Deus nos deu um guia principal e superior em nosso Anjo Guardião, e como guias secundários os nossos Espíritos Protetores e Familiares. É um erro, entretanto, supor que tenhamos forçosamente um mau gênio junto a nós, para contrabalançar as boas influências daqueles. Os maus Espíritos nos procuram voluntariamente, desde que achem possível dominar-nos, em razão da nossa fraqueza ou da nossa negligência em seguir as aspirações dos Bons Espíritos,e somos nós, portanto, que os atraímos. Disso resulta que não somos nunca privados da assistência dos Bons Espíritos, e que depende de nós o afastamento dos maus. Pelas suas imperfeições, sendo ele mesmo a causa dos sofrimentos que o atingem, o homem é quase sempre o seu próprio mau gênio. (Cap. V, nº 4). A prece aos Anjos Guardiães e aos Espíritos Protetores deve ter por fim solicitar a sua intervenção junto a Deus, pedir-lhes a força de que necessitamos para resistir às más sugestões, e a sua assistência para enfrentarmos as necessidades da vida.

(O Evangelho segundo o Espiritismo)

Sergio Aleixo

Nem Espiritismo Laico, Nem Nova Religião

Por Dora Incontri

A posição de Kardec ainda não foi compreendida pela maioria e uma das provas disto está no debate ainda atual se o espiritismo é ou não é religião. Por um lado, estão os que se autodenominam espíritas laicos e que defendem a idéia de que Kardec jamais pensou o espiritismo como religião, mas apenas como ciência, filosofia e moral; do outro, estão os que defendem o chamado tríplice aspecto do espiritismo, ciência, filosofia e religião, mas agem e pensam como se o espiritismo fosse apenas mais uma religião. Estes constituem a maioria do movimento espírita brasileiro.

Analisemos a polêmica com cuidado, porque os dois lados têm suas razões e os dois lados cometem enganos. De fato, Kardec não quis estabelecer mais uma religião, no sentido comum do termo, (por isso, diz muitas vezes que o espiritismo não é religião), visto que o espiritismo não tem sacerdócio, templos, hierarquia institucional, dogmas de fé e nem rituais que o adepto deva seguir para dizer-se espírita. Qualquer pessoa que aceite os postulados espíritas e procure viver segundo a moral de Jesus pode se dizer espírita, mesmo que jamais tenha pisado num centro espírita ou assistido a uma reunião. Trata-se de uma convicção pessoal, de uma adesão livre, de que  ninguém está instituído para pedir satisfações ou exigir o cumprimento disto ou daquilo.

Nesse sentido, portanto, quando os espíritas laicos dizem que o espiritismo não é religião, estão certos. Mas seria melhor dizer: não é mais uma religião, nos moldes das religiões tradicionais.

Se Kardec promoveu esse desencantamento, essa crítica e esse esvaziamento hierárquico do universo religioso, guardou aquilo que lhe é essencial. O Livro dos Espíritos declara como a primeira das leis morais a lei de adoração a Deus. Essa adoração pode se manifestar no homem em forma de estudo das leis da natureza – portanto a ciência, como Kepler, Giordano Bruno, Newton e outros afirmaram, pode ser uma espécie de culto a Deus; e em forma de prática de amor ao próximo, na vida social, e, também e sobretudo, em forma de oração, de ligação afetiva do ser humano com a divindade. Ora, o amor ao próximo é a essência ética da maioria das religiões e a oração é um ato indubitavelmente religioso. Não há outra classificação para esse ato universal, por mais que o tornemos simples, espiritualizado, sem ritos, imagens, intermediações, templos, genuflexões ou gestos...

Além disso, é das religiões que nos vêm as experiências milenares de contato com a divindade, de manifestações mediúnicas e de revelações morais – grandes espíritos reencarnaram no seio das mais variadas religiões do planeta e exemplificaram uma ética elevada a partir da vivência religiosa. Assim, a religião é uma forma de ser e estar no mundo que não podemos simplesmente deixar de lado, porque constitui parte integrante da nossa consciência. Descendemos da divindade e foram as religiões que revelaram isso.

Portanto, falar em espiritismo laico – o que significa dizer um espiritismo destituído de qualquer ligação com o assunto religião – é um contrassenso e uma negação da obra de Kardec.

O laicismo nasceu no Ocidente como forma de protesto contra o domínio milenar da Igreja católica. Fala-se em escola laica, em Estado laico, como lugares institucionais que se consideram neutros do ponto de vista religioso e fora da tutela da Igreja. O espiritismo não é neutro em termos religiosos. Kardec critica, reavalia e recria a religiosidade humana, inaugurando uma nova forma de ser religioso, sem jamais negar essa dimensão do homem. 

Fonte:

INCONTRI, Dora. PARA ENTENDER ALLAN KARDEC, ed. Lachátre, Bragança Paulista/SP, 1ª edição, 2004.

In: Um Olhar Espírita - http://umolharespirita1.blogspot.com.br/2013/07/nem-espiritismo-laico-nem-nova-religiao.html?spref=fb

Imagem: Source gallica.bnf.fr / Bibliothèque nationale de France (Agradecimentos à LIHPE - Liga de Pesquisadores do Espiritismo)

sábado, 27 de julho de 2013

[VÍDEO] - Vida depois da Vida - Dr. Raymond Moody Jr.

Por O Blog dos Espíritas

Este vídeo traz seis relatos de experiências de quase morte (EQM's) selecionadas pelo cientista Raymond Moody Jr., um dos maiores especialistas no assunto e é baseado no livro homônimo que vendeu milhões de exemplares em todo o mundo desde sua publicação em 1975.


Observação: Este vídeo está disponível no Youtube há aproximadamente 04 (quatro) meses e sua veiculação é de inteira responsabilidade do seu usuário, que não possui vínculo de qualquer tipo com este blog.

Link original: http://www.youtube.com/watch?v=NhUjDYQySH8

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Identidade e Fronteiras do Espiritismo na obra de Allan Kardec

Allan Kardec
Por Augusto Araújo

Este artigo é uma reflexão sobre o processo de formação identitária do espiritismo a partir da análise de seu discurso fundador presente na obra de Allan Kardec (1804-1869). Para cumprir este objetivo, trabalhar-se-á com a hipótese de que tal processo acontece a partir de uma peculiar interação do espiritismo com três instâncias de conhecimento: a ciência, a filosofia e a religião. Através da análise do exemplo específico de como o espiritismo interpreta elementos da tradição cristã-católica, dando-lhes um significado renovado, pretende-se demonstrar que neste jogo, o conceito de espiritismo se configura como um conceito híbrido, de caráter polissêmico, o qual aponta para o fato de que a nova doutrina e o movimento articulado em seu entorno nascem sob o signo da mediação. Tais reflexões indicariam que, ao fazerem referência à obra de Kardec como núcleo imaginário de identificação doutrinária, grupos das diversas tendências dentro do espiritismo contemporâneo podem encontrar relativas zonas de conforto para seu progressivo desenvolvimento.

Palavras-chave: Espiritismo; Ciência; Filosofia; Religião; Fronteiras.

Leia o artigo completo na página da Revista Horizonte. Clique aqui.

Artigo publicado com a devida autorização do autor.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Desigualdade das riquezas

Por Octávio Caúmo Serrano

Nas questões 808 a 816 de O Livro dos Espíritos há um estudo sobre o assunto que, apesar de sintético, somente nove questões, é bastante abrangente, esclarecedor, e serve de alerta para todos nós.

Fica claro que a igualdade da riqueza é uma utopia e algo impossível de se realizar, porque a riqueza é consequência das ações do homem. Não se pode pretender que o preguiçoso e o trabalhador tenham o mesmo sucesso. A não ser por meios escusos. Não se admite que o líder, inteligente, possa ser contemplado igualmente ao que ainda não tem condições de discernimento e, por enquanto, precisa ser comandado.

O homem equivocado crê que a distribuição equitativa de todos os bens do mundo seria a solução. No entanto vemos o fracasso do comunismo. E mesmo os kibutz de Israel não passam de um paliativo para abrigar os de menos capacidade. Uma interessante forma de caridade com os menos competentes. Socializam seus poucos bens para que nada lhes falte. Parece bom, mas não se pode esperar o mesmo estímulo de quem ganha pelo esforço e pela produção.

O que o texto deixa bem claro é que a riqueza nada tem de mal, de per si, mas o seu uso é que causa danos ou conforto moral ao seu possuidor. As riquezas chegam às mãos dos homens, pelo trabalho, por heranças corretamente construídas ou deixadas por herdeiros que a  acumularam de maneira desonesta. As questões acima tratam das várias opções e deixam claro que não importa como a riqueza chegou às mãos de uma pessoa, mas o que ela faz dessa riqueza.

Cita um exemplo importante quando pergunta se alguém sabendo que o dinheiro que chegou às suas mãos tem origem na desonestidade se ele é culpado por usá-lo. E ele não é, se o usar bem. Poderá servir, inclusive, de alívio para o desonesto que morreu e agora se dá conta dos equívocos cometidos. Desencarnado e percebendo que toda a sua ganância resultou em nada, porque na espiritualidade já não precisa da fortuna, sente-se oprimido pelas dores da consciência que o cobram pelos desmandos realizados e pela infelicidade que tenha causado a muita gente. Caso perceba que seu herdeiro está dando bom aproveitamento ao dinheiro deixado, sente-se redimido e agradecido pelo gesto do seu beneficiado.

Muito interessante essa análise para mostrar que ninguém é culpado por erros alheios, mas apenas pelas suas próprias falhas. Mesmo sabendo que a riqueza que lhe chegou às mãos tem origem suja, poderá reparar e dar a ela um valor divino. Enquanto o outro comprava luxúria, o herdeiro, com o mesmo dinheiro, distribui caridade. Enquanto o primeiro entesourava, o que recebeu a dádiva sabe distribuir, dividir, minorando as dores do próximo.

Funciona com dito na parábola dos talentos. Não é a riqueza em si que está em julgamento, mas a aplicação boa ou má que o homem faz dessa riqueza.

Como sempre, a beleza do Espiritismo está ai para solucionar assuntos de aparente conflito, mas que são envolvidos por toda lógica e, acima de tudo, por puro bom senso. “A cada um segundo suas obras”, já aprendemos com Jesus: em Cesareia de Filipe, após interrogar seus discípulos acerca do que diziam os homens a seu respeito, Jesus declara: “Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e, então, dará a cada um segundo as suas obras” (Mateus 16:27).

Não há injustiças sobre a Terra, porque ninguém está pagando dívidas alheias ou que não tenha contraído. Essa é a verdadeira justiça e, portanto, exige de nós resignação diante dos problemas que enfrentamos; porque são os nossos problemas. Ninguém os causou-nos. Nós os criamos. Somos herdeiro e herança da nossa própria vida.

Fonte: Jornal O Clarim - Julho de 2013

Roustainguistas, Chiquista, Andreluizismo, Secular, Religioso, Kardecista, Ramatis, Libre Pensador etc...

Por Maria das Graças Cabral

Al iniciar el estudio De  El Libro de los Espíritus, nos deparamos en su introducción,  con el gran cuidado de Allan Kardec, para con las palabras  a ser empleadas en el cuerpo doctrinario espirita. En un primer momento, podríamos entender que tal diligencia, se debiese al hecho de ser el Codificador por formación académica, un pedagogo. Lingüista insigne, que hablaba alemán, inglés, italiano, español  y holandés. Escribió gramáticas, aritméticas, estudios pedagógicos superiores; tradujo obras inglesas y alemanas.  O sea, en la condición de poliglota y profundo conocedor de la alengua francesa, su idioma patriarcal, sabia de las palabras para que un discurso fuese claro, y alcanzase su objetivo.

No obstante, podríamos  también considerar, que en la condición de organizador de toda una gama de conocimientos, advenidos de Espíritus de alta evolución para la estructuración de una obra, que según J. Herculano pires, sería “el código de una nueva fase de la evolución humana”, buscase “cuidar”  de las palabras que debía emplear en esa sistematización, para evitar que el uso inadecuado de las mismas, fuese a “desvirtuar” los preceptos doctrinarios.

Y así, el Codificador inicia la Introducción de El Libro de los Espíritus diciendo que: - Para las cosas nuevas necesitamos de palabras nuevas, pues así, lo exige la claridad de lenguaje, para evitar la confusión inherente a los múltiples sentidos de los propios vocablos. “Se observa claramente, que el maestro  trata la doctrina como algo innovador, consciente de la grandeza de sus revelaciones. Sabía que los asuntos abordados, envolvían  grandes cuestionamientos de la humanidad, que hasta entonces nunca habían sido tratados tan objetivamente. No quería por tanto, que palabras con sentidos ya definidos, distorsionan los preceptos fundamentales de la nueva doctrina.

Enseguida, el Maestro Lionés se reporta a las palabras espiritual, espiritualista, espiritualismo, demostrando que las mismas ya tenían un significado bien definido – entendiéndose por espiritualismo-  toda filosofía religiosa  que predica la existencia de un ser o realidad distinto de la materia.   Entendía Kardec , que no aplicando a la Doctrina Espirita tales palabras, se evitaría la multiplicación de las ya numerosas causas de ambigüedad y de doble sentido, (anfibología), que acabarían por generar graves conflictos de entendimiento.

De ahí, el codificador  establece que “en lugar de las palabras espiritual y espiritualismo” – para designar la Doctrina de los Espíritus – la palabra adecuada sería espirita o espiritismo. Y concluye afirmando que “Los adeptos del Espiritismo, serán los espiritas, o si lo quisieren espiritistas. “Según Kardec, el Libro de los Espíritus tiene como especialidad la Doctrina Espirita, y como generalidad el Espiritualismo, de ahí, la referida obra trae abajo del título,  las palabras Filosofía Espiritualista.

Sucede, que el cuidado de Kardec, fue totalmente negligenciado por los espiritas. Es un hecho que se identificase en la abundancia de obras publicadas, en los discursos y en el habla de la gran mayoría de los espiritistas, no solo palabras, más también teorías y filosofías, totalmente  extrañas al cuerpo doctrinario espirita, y que alteran frontalmente sus preceptos.

Más allá, desde la muerte de Kardec, el Espiritismo viene sufriendo crueles distorsiones. Vale recordar que la propia Revista Espirita, con su muerte, cayó en las manos de Pierre Gaetan Leymarie, que por su excesivo espíritu de tolerancia, desvirtuó la finalidad de la misma, abriendo sus páginas a la propaganda de filosofías espiritualistas, inclusive a la de Roustaing, que diverge frontalmente del Espiritismo.

No obstante, oportuno resaltar, los desdoblamientos sufridos  por la palabra “espirita” designada por Kardec a los adeptos de la Doctrina de los Espíritus. el referido vocablo, vendría a ser acompañado de ciertos adjetivos, visando hacer una distinción ideológica en el propio medio espirita.   En los idos de 1880, cuando Brasil despertaba para el estudio de la nueva doctrina, recién llega al país, ya comenzaban a surgir las divergencias de pensamientos con relación a los aspectos filosófico, científico y religioso de la misma. Ante la discordancia, pasaron los espiritas de la época a ser identificados, dependiendo de la línea del pensamiento, por espiritas científicos, espiritas místicos, o espiritas kardecistas.

Con el pasar del tiempo, algunos adjetivos se consustanciaron, como es el caso del “espirita cristiano”, que es la denominación dada al adepto del espiritismo Cristiano, lanzado por el abogado de Bordeaux y opositor de Kardec, Jean Baptiste Roustaing, en la obra Los Cuatro Evangelios, editado por la FEB.

Hodiernamente, la variedad de adjetivos aumento grandemente dentro del movimiento espirita, puesto que, se tiene espirita, roustanguista, chiquista, andreluicista, laico religioso, kardecista, ramatista, librepensador, etc. se puede aseverar que hoy, el movimiento espirita está formado  por numerosas corrientes espiritualistas, conocidas como Espiritismo.

No obstante, en la búsqueda de una identidad filosófica y/o religiosa, y en razón de la “anfibología” creada para la palabra “espirita”, aquel que se considera adepto a la Doctrina de los espíritus, positivada en la Obras Fundamentales que forman el pentateuco, y codificadas por el maestro Allan Kardec, se identifica como “espirita Kardecista”, o simplemente “kardecista”, distinguiéndose de las demás corrientes de pensamiento espiritualista, y de los seguidores de cultos afro-brasileños, los cuales también se auto-denominan espiritas.

Algunos compañeros, juzgan que “espiritista kardecista” sería una redundancia, pues todo espiritismo debería ser Kardecista. Es un hecho que sería una redundancia, si no estuviésemos ante tantas corrientes espiritualistas que adoptaron la denominación de espirita.

Vale resaltar que hay innumerables espiritas, que no son kardecista. Algunos nunca leyeron ninguna obra codificada por Allan Kardec. Serian considerados creyentes.   No obstante, la Doctrina Espirita es una doctrina anti dogmatica, racional  y evolucionista, que predica la fe raciocinada, y exige de sus adeptos el estudio constante y profundo de sus principios libertadores, positivados en las obras fundamentales, que son: El Libro de los Espíritus, El Libro de los Mediums, El Evangelio Según el Espiritismo, El Cielo y el Infierno, La Génesis, el pequeño  libro introductorio al estudio de la doctrina Qué es el Espiritismo y Obras Póstumas, que según J. Herculano Pires, representa el testamento doctrinario de Allan Kardec.

Ante lo Expuesto, es un hecho que los cuidados del Codificador para que la Doctrina de los Espíritus no se perdiese en las palabras, no impidió que tal cosa ocurriese.

Hodiernamente, aquellos que estudian la codificación con dedicación y de una forma atenta, constatan con profundo pesar, la adulteración de los preceptos doctrinarios, presentes en las traducciones y en las nuevas ediciones de las obras fundamentales de la Doctrina espirita: en la “importación” de filosofías extrañas a los preceptos  espiritas en la vasta producción literaria publicada y divulgada; en los discursos, falas y textos. En fin, la anfibología se hace presente en el discurso espirita a pesar de todo el cuidado de Kardec en evitar que el Espiritismo viniese a enredarse en sus redes, generando los actuales conflictos de entendimiento.

Además de eso, es un hecho que el des virtuamiento de la Doctrina  de los espíritus, ya va mucho  más allá de las palabras y de las fronteras, puesto que Brasil, es el mayor exportador de obras de divulgadores espiritas.

En verdad, cada día, me admiro más y más con lo que leo, oigo y presencio, por parte de los espiritas, independientemente de la clase social o del grado de escolaridad. Como también, me espanto con los rumbos tortuosos tomados por el movimiento espirita brasileño.

No obstante, no podemos abandonar la lucha. Algunos compañeros ya me preguntaron:- ¿Qué hacer ante la dimensión del problema? Respuesta que no quiero callar: - que cada uno haga su parte. No seamos omisos, cobardes, o acomodados, pues la responsabilidad es individual. Vamos con mucho amor  y disposición, a vivir, estudiar y divulgar con fidelidad la Doctrina Espirita, positivada  con brillantez en las obras fundamentales, por el genio del insigne codificador Allan Kardec. Las consecuencias vendrán naturalmente con el tiempo. ¡Al final somos Espíritus eternos!

Tradução de Mercedes Cruz 

Fonte: http://espiritoverdade.com.br/?p=220

Ser espírita, ser social

Por Erika Renata Dias de Araújo

A ausência de debates e ações sobre questões sociais e políticas é  um fato no movimento espírita brasileiro. Tanto, que é de causar estranheza e até mesmo críticas, um espírita engajado politicamente ou participando atividade de movimentos sociais. Mas por que isto acontece?

A visão equivocada do Espiritismo como religião está na raiz do problema. Desde a Antiguidade a religião é utilizada como forma de dominação das massas, manobra que atingiu seu apogeu na Idade Média e perdura até hoje variando de intensidade nos diferentes países. Tantas vezes utilizada pelos detentores do poder para tal fim, já faz parte da mentalidade coletiva de muitas culturas a idéia de que devemos nos resignar com a realidade em que nos encontramos, mesmo sendo a mais desumana possível, pois é da vontade de Deus que seja assim.

No meio espírita, especificamente, a resignação e benevolência são confundidas com comodismo e estagnação. “O importante é trabalhar no bem” é sentença repetida e imperam as ações de caráter assistencialista, que embora tenham seu mérito no tocante à situações urgentes, não promovem o bem estar social, pois não mudam a realidade. Além disso, essas práticas denotam a falta de compreensão do que seja caridade. E qual afinal o conceito de caridade segundo a Doutrina Espírita? Caridade é um sentimento profundo de amor a si mesmo e ao próximo, é por isso, atitude individual, a humildade e o desinteresse pessoal são suas marcas mais patentes. Depreende-se que caridade é muito mais do que distribuir sopa aos idosos ou doar roupas.

O Espiritismo é consolador e transformador, pois dá conhecimento ao homem sobre a vida futura. Dá ao mesmo, então, outro ponto de vista que começa pelo conhecimento de si mesmo sob novo ângulo e um olhar mais profundo da realidade que o rodeia. Sem dúvida, o conhecimento da vida futura estreita a importância dos problemas relativos à matéria, mas, ainda assim,  a vida corporal possui importância capital para a evolução do Espírito e é mesmo uma necessidade deste.

É claro que devemos buscar o nosso aperfeiçoamento e um importante passo neste sentido se dá através do exercício da resistência às influências perniciosas da matéria. Em O Livro dos Espíritos encontramos alguns pontos interessantes sobre a finalidade da encarnação dos Espíritos (questão 132): 
“Deus a impõe com o fim de levá-los à perfeição: para uns, é uma expiação; para outros, uma missão. Mas, para chegar a essa perfeição, eles devem sofrer todas as vicissitudes da existência corpórea; nisto é que está a expiação. A encarnação tem ainda outra finalidade, que é a de pôr o Espírito em condições de enfrentar a sua parte na obra da Criação. É para executá-la que ele toma um aparelho em cada mundo, em harmonia com a matéria essencial do mesmo, afim de nele cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. E dessa maneira, concorrendo para a obra geral, também progredir.” (Grifos nossos). 
Nesta passagem e em muitas outras como a Lei de Trabalho e Lei de sociedade, fica evidente que ao Espírito encarnado será cobrado não só as escolhas e atitudes que repercutem em seu progresso individual como de suas escolhas, atitudes e omissões no que concerne ao progresso coletivo, do qual é parte obrigatória. A sociedade existe pela necessidade humana de ajuda mútua, de se relacionar e para que os seres aprendam uns com os outros. Por isso os Espíritos respondem a Kardec (questão 766 e ss) que a vida em sociedade é útil ao progresso individual e geral, condenando ainda, o isolamento voluntário.

Desta percepção decorre que é obrigação de qualquer ser humano buscar o melhor para si e para os outros, de trabalhar por si e pelos outros, de contribuir para a harmonia do planeta em que vive. Entretanto, essa responsabilidade é ainda maior para o Espírita, porque compreendendo os laços de fraternidade e solidariedade que devem unir os seres, compreendendo que o trabalho é uma lei de Deus, compreendendo que deve trabalhar para extirpar de si o egoísmo... se omitir em questões sociais e políticas que influenciam na vida de todos é um equívoco ainda mais grave.

Ainda em O Livro dos Espíritos, destacamos a questão 799: 
“De que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso?   — Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz os homens compreenderem onde está o seu verdadeiro interesse. A ‘vida futura não estando mais velada pela dúvida, o homem compreenderá melhor que pode assegurar o seu futuro através do presente. Destruindo os preconceitos de seita, de casta e de cor, ele ensina aos homens a grande solidariedade que os deve unir como irmãos.” (Grifos nossos). 
A começar pela pergunta feita por Kardec, essa questão revela-se de suma importância. Poderíamos refazê-la perguntando: “De que maneira os Espíritas podem contribuir para o progresso?” e a resposta seria a mesma. A frase que diz que compreendendo a vida futura “o homem compreenderá melhor que pode assegurar o seu futuro através do presente” possui grande significado filosófico. O Espiritismo bem compreendido nos leva a pensar as diversas dimensões da existência, de outra forma, mais responsável, mais consciente.  Desde os mínimos gestos cotidianos: nas suas relações no trabalho, no seio da família, e até a participação direta num movimento social, numa entidade comunitária, num sindicato etc.

Os Espíritos respondem ainda a Kardec: “Destruindo os preconceitos de seita, de casta e de cor, ele ensina aos homens a grande solidariedade que os deve unir como irmãos.”. Os Espíritas são convocados a destruir preconceitos de toda espécie e fazer implantar a solidariedade e a fraternidade. Isso equivale ou não a uma profunda transformação social?

Apenas engana a si mesmo aquele que vai ao Centro Espírita ouvir palestras tomar passes e não muda seu ângulo de visão, tampouco suas atitudes. Engana-se ainda mais, quem se diz Espírita e não toma para si sua parcela de contribuição para o aperfeiçoamento da vida na Terra. De que outra forma podemos “assegurar o futuro pelo presente”, senão participando ativamente agora da construção do futuro? Como fazer isso alheio aos embates políticos e às ações sociais? Como amar ao próximo e não lutar para o correto aproveitamento dos recursos naturais? Como ser consciente sem se engajar nos problemas que tangem à categoria de trabalho da qual se faz parte? Como pensar no progresso coletivo sem se preocupar com quem ocupa o poder?

Como se vê, é a própria Doutrina Espírita quem convoca seus adeptos para a participação ativa na vida social, intervindo de acordo com suas afinidades e aptidões, portanto, ser Espírita é também  exercer plenamente seu papel como ser social, como agente transformador de uma realidade que começa em cada um e se expande para além de nós  mesmos. E na dinâmica social, que também é divina, quanto mais vivenciamos o Espiritismo, melhores seres humanos nos tornamos, consequentemente, mais consciência tomamos das circunstâncias que nos rodeiam, não intervir em sua melhoria é faltar com um dever.


“Um homem não pode fazer o certo numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível.”

-Mahatma Gandhi-

Fonte: NEFCA - Núcleo Espírita de Filosofia e Ciências Aplicadas - http://www.nefca.org.br/artigo/ser-espirita-ser-social

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Um aviso da Espiritualidade

Por Nazareno Tourinho

Prossigamos o nosso passeio revelador pelas páginas da Coleção da Revista Espírita editada no tempo de Allan Kardec, tendo em mira o rastreamento dos passos de Jean-Baptiste Roustaing e sua única médium, Emilie Collignon.

Diante dos olhos temos agora o exemplar de dezembro de 1862. O codificador do Espiritismo o encerra com a seguinte nota:

“RESPOSTA A UM SENHOR DE BORDEAUX

“Um senhor de Bordeaux nos escreveu uma carta, aliás muito polida, contendo uma crítica do ponto de vista religioso ao artigo do número de novembro sobre a Origem da linguagem, o qual, diga-se de passagem, encontrou numerosos admiradores. Como a carta não traz assinatura nem endereço, fizemos o que se faz com toda carta sem nome: foi para a cesta.”

Não desejamos nós, e nem poderíamos em sã consciência, acusar Roustaing de ser o autor da carta muito polida que foi para a cesta por ser anônima. Entretanto, também não devemos nos furtar a uma judiciosa e oportuna observação: o artigo Origem da linguagem, que a missiva em tela procura desqualificar, é do Espírito Erasto, presente com os seus ensinos sábios nos diversos livros da Codificação; este Espírito, por seu médium habitual de Paris, transmitiu a Kardec, antes dele ir a Bordeaux em fins de 1861, uma Epístola para ser lida por ocasião da visita. O Codificador, no discurso proferido em Bordeaux, cidade onde viviam Roustaing e E. Collignon, fez a leitura de tal Epístola. Nela há trechos assim:

"Eis por que vos digo, com toda a efusão de minha ternura por vós, que ficaria desolado, ficaríamos desolados todos nós que, sob a direção do Espírito de Verdade, somos os iniciadores do Espiritismo na França, se viesse a desaparecer do vosso meio a concórdia de que até hoje destes provas brilhantes. Se não tivésseis dado o exemplo de uma sólida fraternidade; se, enfim, não fôsseis um centro sério e importante da grande comunhão espírita francesa, eu teria deixado esta questão na sombra do esquecimento. Mas se a levantei é que tenho razões plausíveis para convidar-vos à manutenção da união, da paz e da unidade de doutrina entre os vossos diversos grupos”.

“Tereis que lutar não só contra os orgulhosos, os egoístas, os materialistas e todos esses infelizes que estão imbuídos do espírito do século, mas ainda, e sobretudo, contra a turba de Espíritos enganadores que, encontrando em vosso meio uma rara reunião de médiuns, pois a tal respeito sois os mais aquinhoados, em breve virão assaltar-vos, uns com dissertações sabiamente combinadas, nas quais, graças a tiradas piedosas, insinuarão a heresia ou algum princípio dissolvente..."

"Ah! Crede-me, não temais desmascarar os embusteiros que, novos Tartufos, se introduziriam entre vós sob a máscara da religião..."

"Para isso necessitais de bons médiuns e aqui os vejo excelentes, em cujo meio só tendes que escolher. Certamente, bem o sei, a Sra. e a Srta. Cazemajoux e alguns outros possuem qualidades mediúnicas no mais alto grau, e nenhuma região, eu vo-lo repito, a este respeito é melhor dotada do que Bordeaux."

"Tive que vos falar assim, porque era necessário premunir-vos contra um perigo...". (Salvo a expressão Espírito de Verdade, todos os demais destaques em negrito são nossos. Revista Espírita de novembro de 1861).

Note o leitor que a essa altura a obra Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, já estava sendo preparada por via da mediunidade de Emilie Collignon. O Espírito Erasto adverte contra o perigo de uma mistificação prejudicial à unidade da doutrina. Cita como médiuns confiáveis em Bordeaux, nominalmente, apenas a Sra. E Srta. Cazemajoux.

Algum tempo depois do fato um cidadão de Bordeaux escreve anonimamente para a Revista Espírita criticando determinada mensagem. De quem era a mensagem? Do Espírito Erasto!

Muito estranho...

Fonte:
TOURINHO, Nazareno.  As Tolices e Pieguices da Obra de Roustaing – Nazareno Tourinho; ensaio crítico-doutrinário; 1ª edição, Edições Correio Fraterno, São Bernardo do Campo, SP, 1999.

Observação: A tradução da Revista Espírita aqui utilizada é do site IPEAK (Instituto de Pesquisas Espíritas Allan Kardec) e, por isso, possui pequenas diferenças da versão utilizada originalmente por Nazareno Tourinho.

Mediunidade suspeita e medíocre

Por Nazareno Tourinho

No mesmo número da Revista Espírita em que Allan Kardec discorda da opinião de Emilie Collignon (junho de 1862) ele publica, pela primeira vez, mensagem psicografada por essa médium, onde se lê estas palavras:

“Somos uma essência criada pura, mas decaída; pertencemos a uma pátria onde tudo é pureza; culpados, fomos exilados por algum tempo, mas só por algum tempo...” (todo o resto da mensagem é muito bem formulado filosoficamente, para esconder o embrião do cisma doutrinário que já estava sendo concebido).

O codificador do Espiritismo, que a essa altura ainda não havia recolhido do mundo espiritual o completo lineamento teórico da III Revelação, e por isso, a fim de apurar a universalidade dos ensinos, conservava-se aberto às novidades do Além provindas de várias fontes mediúnicas, após transcrever tal psicografia da Sra. Collignon faz uma observação dizendo que certas mensagens “para serem compreendidas e não darem lugar a falsas interpretações, necessitam de comentários e de desenvolvimentos”.

O próximo texto psicografado da Sra. E. Collignon, de Bordeaux, sai na Revista Espírita em novembro de 1862, preenchendo o espaço da seção intitulada POESIAS ESPÍRITAS. É tão ruim, tão medíocre, que não precisamos reproduzi-lo na íntegra, abusando da paciência do leitor, para demonstrar, em definitivo, a pobreza intelectual da madame Collignon e seus protetores invisíveis. Basta copiarmos os versos iniciais e os derradeiros. Ei-los:

“MEU TESTAMENTO
“Posto que rimado, creio que não será inferior,
“Compreendamo-nos. Nele o que exalto
“Não é a rima: que não é boa;
“É o espírito que...Ao diabo essa gíria!
“O espírito não é também o que me preocupa.
“Compreendam bem, por favor: só o espírito vivifica
“Assim, entendo este vocábulo.
“Eu, que não sou um deles, mas em breve serei – 
“Ao menos espero – queria comparecer,
“Não como um simples tolo,
“Mas como um pobre Espírito, humilde e arrependido,
“Pondo no meu Senhor toda a minha esperança
“E, contando, para chegar ao plano dos eleitos,
“Muito com sua bondade, pouco com minha virtude!
(.................)
“Antes de terminar, um salutar conselho
“Talvez aqui encontre o seu lugar:
“Que vos ilumine a voz da Caridade;
“Ligai pouco à opinião dos tolos.
“Do luxo enganador, que exibe o orgulhoso,
“Desconfiai sempre. Ao coração nada iguala
“A felicidade do dever cumprido.
“Ajudai a fraqueza do oprimido.
“Que vossa alma responda ao grito de aflição.
“Que haja um eco pronto a repeti-lo.
“Que a vossa mão, filhos, esteja pronta a aliviar.
“Com a ajuda do pouco ouro que entre vós eu partilho
“Acumulai tesouros para fazer a viagem,
“Da qual não regressa o Espírito virtuoso!
“Semeai benefícios e colhereis as virtudes
“Pedi ao Senhor suas luzes mais claras.
“Ide buscar irmãos por entre os infelizes
“E que Deus vos conceda, em sua grande bondade,
“Segui apenas a lei do Amor, da Caridade!...”

Eis aí o começo e o fim do poema mediúnico(?) da Sra. E.Collignon, de Bordeaux. Ele recorda esta deliciosa sentença de Allan Kardec, inserida em O LIVRO DOS MÉDIUNS, capítulo XVI, item 193:

“Médiuns versejadores: obtêm, mais facilmente do que outros, comunicações em versos. Muito comuns, para maus versos; muito raros, para versos bons.”

Fonte:
TOURINHO, Nazareno.  As Tolices e Pieguices da Obra de Roustaing – Nazareno Tourinho; ensaio crítico-doutrinário; 1ª edição, Edições Correio Fraterno, São Bernardo do Campo, SP, 1999.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Roustenguista, chiquista, andreluizista, laico, religioso, kardecista, ramatista, livre-pensador etc…

Por Maria das Graças Cabral

Ao iniciarmos o estudo de O Livro dos Espíritos, nos deparamos em sua introdução, com o grande cuidado de Allan Kardec, para com as palavras a serem empregadas no corpo doutrinário espírita. Num primeiro momento, poderíamos entender que tal diligência, se devesse ao fato de ser o Codificador por formação acadêmica, um pedagogo, lingüista insigne, que falava alemão, inglês, italiano, espanhol e holandês. Escreveu gramáticas, aritméticas, estudos pedagógicos superiores; traduziu obras inglesas e alemãs. Ou seja, na condição de poliglota e profundo conhecedor da língua francesa, seu idioma pátrio, sabia da importância das palavras para que um discurso fosse claro, e alcançasse seu objetivo.

Não obstante, poderíamos também considerar, que na condição de organizador de toda uma gama de conhecimentos, advindos de Espíritos de alta evolução para a estruturação de uma obra, que segundo J. Herculano Pires, seria “o código de uma nova fase da evolução humana”, buscasse ‘cuidar’ das palavras a serem empregadas nessa sistematização, de forma a evitar que o uso inadequado das mesmas, viesse a “desvirtuar” os preceitos doutrinários.

E assim, o Codificador inicia a Introdução de O Livro dos Espíritos dizendo que: – “Para as coisas novas necessitamos de palavras novas, pois assim, o exige a clareza de linguagem, para evitarmos a confusão inerente aos múltiplos sentidos dos próprios vocábulos.” Observa-se claramente, que o mestre trata a doutrina como algo inovador, ciente da grandeza de suas revelações. Sabia que os assuntos abordados, envolviam grandes questionamentos da humanidade, que até então nunca haviam sido tratados tão objetivamente. Não queria portanto, que palavras com sentidos já definidos, distorcessem os preceitos fundamentais da nova doutrina.

Em seguida, o Mestre Lionês reporta-se às palavras espiritual, espiritualista, espiritualismo, demonstrando que as mesmas já tinham uma significação bem definida – entendendo-se por espiritualismo – toda filosofia religiosa que prega a existência de um ser ou realidade distinto da matéria. Entendia Kardec, que não aplicando à Doutrina Espírita tais palavras, evitar-se-ia a multiplicação das já numerosas causas de ambigüidade e de duplo sentido, (anfibologia), que acabariam por gerar graves conflitos de entendimento.

Daí, o codificador estabelece que “em lugar das palavras espiritual e espiritualismo” – para designar a Doutrina dos Espíritos – a palavra adequada seria espírita ou espiritismo. E conclui afirmando, que “Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou se o quiserem, espiritistas.” Segundo Kardec, O Livro dos Espíritos tem como especialidade a Doutrina Espírita, e como generalidade o Espiritualismo, daí, a referida obra traz abaixo do título, as palavras Filosofia Espiritualista.

Ocorre, que o cuidado de Kardec, foi totalmente negligenciado pelos espíritas. É fato que identifica-se na abundância de obras publicadas, nos discursos e na fala da grande maioria dos espiritistas, não só palavras, mas teorias e filosofias, totalmente estranhas ao corpo doutrinário espírita, e que alteram frontalmente os seus preceitos.

Aliás, desde a morte de Kardec, o Espiritismo vem sofrendo cruéis distorções. Vale lembrar que a própria Revista Espírita, com a sua morte, caiu nas mãos de Pierre Gaëtan Leymarie, que por seu excessivo espírito de tolerância, desvirtuou a finalidade da mesma, abrindo suas páginas à propaganda de filosofias espiritualistas, inclusive à de Roustaing, que diverge frontalmente do Espiritismo.

Não obstante, faz-se por oportuno ressaltar, os desdobramentos sofridos pela palavra “espírita“, designada por Kardec aos adeptos da Doutrina dos Espíritos. O referido vocábulo, viria a ser acompanhado de certos adjetivos, visando fazer uma distinção ideológica no próprio meio espírita. Nos idos de 1860, quando o Brasil despertava para o estudo da nova doutrina, recém chegada ao país, já começavam a surgir divergências de pensamento com relação aos aspectos filosófico, científico e religioso da mesma. Diante da discordância, passaram os espíritas da época a serem identificados, dependendo da linha de pensamento, por espíritas científicos, espíritas místicos, ou espíritas kardecistas.

Com o passar do tempo, algumas adjetivações se consubstanciaram, como é o caso do “espírita cristão”, que é a denominação dada ao adepto do Espiritismo Cristão, lançado pelo advogado de Bodeaux e opositor de Kardec, Jean Baptiste Roustaing, na obra Os Quatro Evangelhos, editado pela FEB.

Hodiernamente, a variedade de adjetivos aumentou grandemente dentro do movimento espírita, posto que, se tem espírita, roustenguista, chiquista, andreluizista, laico, religioso, kardecista, ramatista, livre-pensador, etc. Pode-se asseverar que hoje, o movimento espírita é formado por numerosas correntes espiritualistas, conhecidas como Espiritismo.

Não obstante, na busca por uma identidade filosófica e/ou religiosa, e em razão da ‘anfibologia’ criada para a palavra ‘espírita’, aquele que se considera adepto da Doutrina dos Espíritos, positivada nas Obras Fundamentais que formam o Pentateuco, e codificadas pelo mestre Allan Kardec, identifica-se como “espírita kardecista“, ou simplesmente “kardecista“, distinguindo-se das demais correntes de pensamento espiritualista, e dos seguidores de cultos afro-brasileiros, os quais também se auto-denominam espíritas.

Alguns companheiros, julgam que “espírita kardecista” seria uma redundância, pois todo Espiritismo deveria ser kardecista. É fato que seria uma redundância, se não estivéssemos diante de tantas correntes espiritualistas que adotaram a denominação de espírita.

Vale ressaltar, que há inúmeros espíritas que não são kardecistas. Alguns nunca leram nenhuma obra codificada por Allan Kardec. Seriam considerados crentes. Não obstante, a Doutrina Espírita é uma doutrina anti-dogmática, racional e evolucionista, que prega a fé raciocinada, e exige de seus adeptos o estudo constante e aprofundado de seus princípios libertadores, positivados nas obras fundamentais, quais sejam: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno, A Gênese, o pequeno livro introdutório ao estudo da doutrina O que é o Espiritismo e Obras Póstumas, que segundo J. Herculano Pires, representa o testamento doutrinário de Allan Kardec.

Diante do exposto, é fato que os cuidados do Codificador para que a Doutrina dos Espíritos não se ‘perdesse nas palavras’, não impediu que tal fato ocorresse.

Hodiernamente, aqueles que estudam a codificação com dedicação e de forma atenta, constatam com profundo pesar, a adulteração dos preceitos doutrinários, presentes nas traduções e nas novas edições das obras fundamentais da Doutrina Espírita; na ‘importação’ de filosofias estranhas aos preceitos espíritas presentes na vasta produção literária publicada e divulgada; nos discursos, falas e textos. Enfim, a anfibologia se faz presente no discurso espírita, apesar de todo o cuidado de Kardec em evitar que o Espiritismo viesse a se enredar em suas malhas, gerando os atuais conflitos de entendimento.

Aliás, é fato que o desvirtuamento da Doutrina dos Espíritos, já vai muito além das palavras e das fronteiras, posto que o Brasil, é o maior exportador de obras e de divulgadores espíritas.

Na verdade, a cada dia, me admiro mais e mais com o que leio, ouço e presencio, por parte de espíritas, independentemente de classe social ou do grau de escolaridade. Como também, me espanto com os rumos tortuosos tomados pelo movimento espírita brasileiro.

Não obstante, não podemos abandonar a luta. Alguns companheiros já me perguntaram: – Fazer o que, diante da dimensão do problema? Resposta que não quer calar: – Cada um faça a sua parte. Não sejamos omissos, covardes, ou acomodados, pois a responsabilidade é individual. Vamos com muito amor e disposição, viver, estudar e divulgar com fidelidade a Doutrina Espírita, positivada com brilhantismo nas obras fundamentais, pelo gênio do insigne codificador Allan Kardec. As conseqüências virão naturalmente com o tempo. Afinal, somos Espíritos eternos!

Fonte: http://espiritoverdade.com.br/?p=220